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- 17 de Setembro
O dia em resumo A Singer Reimagined abriu uma nova frente na sua linguagem de design com a 1970 DualTrack, apresentada a 16 de setembro: uma GMT de 40 mm, caixa angular e bracelete semi-integrada, animada pelo calibre manual ST5001 de quatro tambores e seis dias de autonomia. Em Nova Iorque, a Hublot revelou a colaboração com Jeff Koons em duas direções muito diferentes: a Classic Fusion Balloon Dog, que transpõe a volumetria das esculturas do artista para uma caixa de 42 mm, e a MP-14 Origin, o primeiro turbilhão central automático da manufatura. O fio comum é a transformação da arquitetura: Singer redesenha a sua GMT em torno de uma estética integrada dos anos 1970; Hublot leva a deformação volumétrica e a construção concêntrica para o centro do relógio. Singer 1970 DualTrack: seis dias de autonomia numa nova arquitetura de caixa A Singer Reimagined apresentou a 16 de setembro a 1970 DualTrack, uma nova interpretação da sua função de duplo fuso horário. A caixa em aço mede 40 mm de largura, 44,25 mm de comprimento e 12,6 mm de espessura, com superfícies escovadas, chanfros polidos e uma bracelete Track Curb semi-integrada. Singer Reimagined 1970 DualTrack em Cobalt Blue, uma das três variantes da nova coleção. © Singer Reimagined A indicação do segundo fuso não recorre a um ponteiro GMT central. A hora local permanece no centro e o segundo fuso é lido numa escala periférica de 24 horas, ajustável em saltos de uma hora através do corretor às 9 horas. É uma solução de leitura discreta, mas mecanicamente distinta da configuração habitual de um GMT de viagem. O elemento mais interessante está no verso. O ST5001, designado Calibre 4 DT Slim, é de corda manual, trabalha a 4 Hz e utiliza quatro tambores planos organizados em dois pares. A arquitetura procura fornecer uma curva de binário mais estável ao longo das 144 horas de reserva de marcha. O movimento tem 34,20 mm de diâmetro, 6,66 mm de espessura, 197 componentes e 39 rubis. Calibre ST5001 da Singer: quatro tambores e 144 horas de reserva de marcha. © Singer Reimagined A coleção estreia em Khaki, Cobalt Blue e Dark Espresso Brown, referências SR811-2, SR811-3 e SR811-5. A Singer anuncia disponibilidade a partir de outubro de 2026 e um preço de CHF 23.500 antes de impostos. Hublot e Jeff Koons: do Balloon Dog ao primeiro turbilhão central automático da marca A Hublot e Jeff Koons apresentaram a 16 de setembro, em Nova Iorque, uma colaboração composta por duas famílias. A Classic Fusion Balloon Dog transforma a superfície espelhada e a aparência inflável da escultura de Koons em três relógios de 42 mm: aço polido espelhado, alumínio anodizado vermelho e alumínio anodizado azul. A adaptação vai além do grafismo. O vidro, os parafusos, o mostrador e a caixa foram trabalhados com geometrias convexas; a coroa evoca uma válvula de balão e uma pequena “cauda” flexível aparece às 10h30. O rotor de tungsténio também foi redesenhado com volumes arredondados. Cada versão está limitada a 200 exemplares. Singer 1970 DualTrack: a nova caixa angular e a bracelete integrada reinterpretam códigos de design dos anos 1970. © Singer Reimagined A MP-14 Origin segue uma direção mecânica muito mais ambiciosa. Com 44 mm, combina safira, titânio e ouro branco cravejado e introduz o primeiro turbilhão central automático da Hublot. A construção organiza-se em torno do órgão regulador central e utiliza uma massa oscilante periférica, libertando o centro visual e mecânico do movimento. A produção é limitada a 30 exemplares. No mercado europeu, a Hublot indica €24.600 para a Classic Fusion Balloon Dog Blue e €479.000 para a MP-14 Origin Sapphire Titanium, valores que ajudam a perceber a distância entre as duas propostas dentro da mesma colaboração. O que merece atenção A Singer 1970 DualTrack merece acompanhamento pela forma como combina uma complicação de viagem relativamente simples com uma arquitetura energética pouco comum. Quatro tambores, seis dias de autonomia e uma caixa mais compacta do que a DualTrack anterior tornam o ST5001 mais interessante do que a estética retro, por si só, faria supor. Na Hublot, a MP-14 é o contraponto: uma peça de alta relojoaria em que a disposição central do turbilhão condiciona toda a construção e pode abrir caminho a futuras arquiteturas da família MP.
- LANÇAMENTO Les Tugas Serpe — Quando a relojoaria encontra a marchetaria de palha
Há cerca de um ano lançámos o Les Tugas, o primeiro relógio com um alto índice de construção portuguesa. Hoje apresentamos o Les Tugas - Serpe, uma versão Métiers d’Art do nosso relógio. O destaque vai necessariamente para o mostrador livre da perturbação induzida por índices ou números e desenvolvido pelo Artesão Bernardo D'Orey através de uma técnica de Marchetaria de Palha chamada Escamas de Dragão. Les Tugas Serpe Cinza | foto: © Bruno Candeias | 2026 O mostrador é executado integralmente à mão através de uma técnica criada pelo próprio artesão, a que deu o nome de Escamas de Dragão. A técnica parte da marchetaria de palha, uma prática artesanal pouco comum e particularmente exigente quando aplicada à escala de um mostrador de relógio. Cada elemento é preparado e colocado individualmente, formando uma superfície composta por pequenas escamas que alteram a sua aparência conforme a incidência da luz. A palha possui um brilho natural muito próprio. Dependendo da orientação das fibras, a mesma cor pode parecer mais clara ou mais profunda. Bernardo D’Orey utiliza essa característica como parte do desenho, construindo o mostrador através da posição e direcção de cada peça. O resultado nunca se repete exactamente. Escamas de Dragão Les Tugas Serpe Vino | foto: © Bruno Candeias | 2026 Bernardo D’Orey desenvolveu as Escamas de Dragão a partir do seu trabalho com marchetaria de palha. A técnica foi pensada para criar uma composição com relevo visual, sem recorrer à espessura de uma decoração tradicional. Num mostrador de relógio, o trabalho torna-se especialmente delicado. A superfície é pequena e qualquer variação na dimensão ou no posicionamento de uma escama altera imediatamente o equilíbrio do conjunto. A construção é lenta e feita inteiramente à mão. É também a primeira aplicação desta técnica em relojoaria, surgindo nos relógios portugueses Les Tugas Serpe e Bruno Moreira Watches. Um mostrador escolhido pelo proprietário Les Tugas Serpe Vino e Cinza | foto: © Bruno Candeias | 2026 Cada Serpe é produzido por encomenda. O futuro proprietário é recebido no atelier de Bernardo D’Orey, onde pode conhecer o processo e escolher as cores que irão dar origem ao seu mostrador. A palha existe numa grande variedade de tonalidades e a combinação escolhida determina o carácter final da peça. A partir daí, Bernardo D’Orey executa o mostrador individualmente. Quando o trabalho de marchetaria está concluído, o relógio segue para montagem. Esta forma de produção faz com que não existam dois Serpe verdadeiramente iguais. Mesmo quando se parte de cores semelhantes, o material e o trabalho manual introduzem sempre pequenas diferenças. O movimento Les Tugas Serpe - vista do fundo do movimento com gravação de escamas | foto: © Bruno Candeias | 2026 O Serpe utiliza um movimento mecânico automático suíço ETA 2824. O acabamento do movimento é realizado na Suíça por Vitor Calçada, proprietário da CVdecor uma empresa de acabamentos de alta relojoaria. A platina recebe perlage e as pontes são trabalhadas com anglage e acabamento por jacto de areia. Na massa oscilante surge uma gravação inspirada no desenho das Escamas de Dragão, estabelecendo uma relação directa com o mostrador. O fundo transparente permite observar o movimento e os acabamentos realizados para esta versão do Les Tugas. Bernardo D’Orey Bernardo D'Orey no seu atelier | foto: © Bruno Candeias | 2026 Bernardo D’Orey passou pela Patek Philippe antes de regressar a Lisboa, onde desenvolveu o seu trabalho em torno da marchetaria de palha. A técnica interessa-lhe sobretudo pelas características ópticas do próprio material. A palha reage à luz de uma forma difícil de reproduzir com superfícies pintadas ou impressas, criando variações de brilho que dependem da orientação das fibras. Foi a exploração desse comportamento que levou ao desenvolvimento das Escamas de Dragão e, posteriormente, à sua aplicação em relojoaria. O Serpe O nome Serpe designa um ser próximo do que actualmente se conhece por dragão, por exemplo está escrito que São Jorge derrotou um Serpe, e remete directamente para o desenho do mostrador e para a sucessão de escamas que cobre a sua superfície. É uma interpretação artesanal do Les Tugas, criada peça a peça e destinada a quem pretende participar na própria definição estética do relógio. A caixa recebe um mostrador feito especificamente para aquele exemplar. No verso, o movimento recebe igualmente um tratamento próprio, prolongando o desenho das escamas até à massa oscilante. Cada Serpe é feito por encomenda. Cada mostrador é trabalhado à mão. Os acabamentos do mecanismo são de altíssima qualidade. E nenhum fica exactamente igual ao anterior.
- Zenith Chronomaster Solo Sport: o El Primero sem cronógrafo
ZENITH Chronomaster Solo Sport — a primeira interpretação de três ponteiros da coleção Chronomaster. © ZENITH A Zenith fez algo que, durante décadas, pareceria quase contraditório: pegou na arquitetura descendente do El Primero e retirou-lhe precisamente o cronógrafo. O novo Chronomaster Solo Sport transforma assim a alta frequência — e não a medição de tempos — no centro da experiência. Desde 1969, o nome El Primero está ligado ao cronógrafo automático de alta frequência. O novo Chronomaster Solo Sport, apresentado nos Geneva Watch Days 2026, rompe com essa associação: é um relógio de três ponteiros equipado com o calibre El Primero 3620, derivado do 3600, mas sem a função cronográfica. El Primero: primeiro o cronógrafo, depois a frequência Quando a Zenith apresentou o El Primero em 1969, a combinação era extraordinária: corda automática, cronógrafo integrado e uma frequência de 36.000 alternâncias por hora, ou 5 Hz. Essa frequência elevada permitia ao mecanismo dividir o segundo em décimos e tornou-se uma das assinaturas técnicas mais reconhecíveis da manufatura. No calibre 3620 desaparece o cronógrafo, mas ficam os 5 Hz. O ponteiro central dos segundos progride em dez passos por segundo, criando uma sensação visual particularmente fluida. A Zenith está, na prática, a separar duas ideias que durante mais de meio século estiveram unidas: El Primero como cronógrafo e El Primero como movimento de alta frequência. ZENITH Chronomaster Solo Sport — versão de mostrador preto. © ZENITH Um El Primero sem cronógrafo ainda é um El Primero? É precisamente esta pergunta que torna o relógio interessante. Para os puristas, retirar o cronógrafo de um Chronomaster pode parecer retirar a razão de ser da coleção. Para a Zenith, a frequência de 5 Hz é suficientemente importante para sobreviver à complicação que originalmente a tornou famosa. Tecnicamente, o El Primero 3620 é automático, oferece 60 horas de reserva de marcha, escape em silício, paragem dos segundos e corda bidirecional. A massa oscilante esqueletizada mantém a estrela da Zenith. Importa também não confundir alta frequência com precisão absoluta: os 5 Hz podem ajudar o órgão regulador a lidar com pequenas perturbações, mas a precisão final depende igualmente da regulação, amplitude, posições e construção global do movimento. 40 mm, 200 metros e um bisel que ainda mede tempo A caixa em aço mede 40 mm, a coroa é roscada e a estanqueidade chega aos 200 metros. O bisel cerâmico rotativo unidirecional permite marcar intervalos de tempo de forma simples, enquanto o mostrador cerâmico apresenta um padrão repetido de letras Z a 45 graus, concebido para evocar o ritmo do movimento. A minuteria do tipo “shark tooth” recupera uma referência estética histórica da Zenith. Existem versões com mostrador preto, branco e castanho, além de uma variante preta sem data. O bracelete em aço utiliza o novo fecho ZENCLASP com microajuste sem ferramentas. ZENITH Chronomaster Solo Sport — versão de mostrador branco. © ZENITH Uma provocação com interesse relojoeiro O Chronomaster Solo Sport é interessante precisamente porque elimina uma complicação. Obriga-nos a perguntar onde reside verdadeiramente a identidade de um movimento histórico: na função para a qual foi criado, na arquitetura, na frequência, no nome ou na combinação de todas estas coisas? A resposta da Zenith é clara: o El Primero pode sobreviver sem cronógrafo. Pode não convencer quem considera o cronógrafo inseparável do nome Chronomaster, mas é essa tensão que torna o Solo Sport uma das novidades tecnicamente mais interessantes de 2026. Saiba mais acerca do ZENITH Chronomaster Solo Sport no site oficial da ZENITH.
- Entrevista Exclusiva | Gregory Kissling, CEO da Breguet
Gregory Kissling, CEO da Breguet, apresenta o Experimental No. 1 durante a entrevista exclusiva concedida ao Instituto Português de Relojoaria, na Boutique da marca, em Genebra. ©IPR Da herança de Abraham-Louis Breguet ao Experimental No. 1, uma conversa sobre inovação, precisão e o futuro de uma das mais importantes manufaturas da história. No ano em que celebra o seu 250.º aniversário, a manufatura apresentou um conjunto notável de novidades, entre as quais o Classique Souscription 2025, o Tradition Seconde Rétrograde 7035, o Type XX Chronographe 2075 e o Experimental No. 1. Mais do que novos relógios, estes lançamentos revelam uma estratégia assente na inovação e na procura constante da precisão cronométrica. Durante a nossa visita à Boutique da Breguet, em Genebra, conversámos com Gregory Kissling, CEO da manufatura. Nesta entrevista exclusiva abordámos o legado de Abraham-Louis Breguet, a origem do Experimental No. 1, o novo escape magnético de força constante, desenvolvido ao longo de mais de uma década, e a visão que irá orientar o desenvolvimento técnico da marca nos próximos anos. Poucas manufaturas podem afirmar que, 250 anos depois da sua fundação, continuam a desenvolver novas soluções técnicas inspiradas diretamente nas ideias do seu fundador. A Breguet é uma dessas raras exceções. Entre as revelações mais importantes está a confirmação de que o Experimental No. 1 é apenas o primeiro capítulo de uma nova plataforma de investigação. A Breguet pretende apresentar uma nova inovação todos os anos, utilizando estes relógios para desenvolver tecnologias que, depois de validadas, poderão ser integradas nas restantes coleções da manufatura. Se há uma conclusão que se retira desta conversa, é que a inovação continua a ocupar o mesmo lugar que ocupava no tempo de Abraham-Louis Breguet: no centro da identidade da manufatura. O Experimental No. 1: o início de uma nova plataforma de inovação O Experimental No. 1 no pulso. O primeiro modelo da nova plataforma de inovação da Breguet combina um turbilhão de 10 Hz com um inovador escape magnético de força constante, desenvolvido ao longo de mais de uma década. ©IPR O Experimental No. 1 foi um dos grandes protagonistas da conversa. Longe de ser apenas uma edição limitada de 75 exemplares, este relógio inaugura uma nova plataforma de investigação e desenvolvimento criada para explorar soluções técnicas que poderão vir a integrar futuras coleções da Breguet. Gregory Kissling revela que o nome Experimental No. 1 não foi escolhido por acaso. O objetivo da manufatura é apresentar uma nova inovação todos os anos, recorrendo à linha Experimental como um verdadeiro laboratório tecnológico. Cada projeto permitirá desenvolver novas soluções, testá-las em condições reais e, posteriormente, adaptá-las aos restantes movimentos da marca. O Experimental No. 1 apresenta um inovador escape magnético de força constante, desenvolvido pela Breguet ao longo de mais de uma década de investigação. ©IPR O primeiro capítulo desta nova abordagem apresenta um escape magnético de força constante, desenvolvido ao longo de mais de dez anos e protegido por patente. Em vez de recorrer aos sistemas tradicionais, a Breguet optou por explorar as propriedades do magnetismo para criar um mecanismo capaz de fornecer energia constante ao órgão regulador, reduzindo simultaneamente a complexidade da construção. Segundo Gregory Kissling, esta tecnologia não ficará confinada ao Experimental No. 1. A intenção é integrá-la progressivamente noutros movimentos da Breguet, transformando este projeto numa verdadeira plataforma de desenvolvimento para toda a manufatura. O verso do Experimental No. 1 revela a arquitetura do movimento, concebido para combinar um turbilhão de 10 Hz com o novo escape magnético de força constante e uma reserva de marcha de 72 horas. ©IPR Mais do que um relógio excecional, o Experimental No. 1 representa uma declaração de intenções: continuar a inovar seguindo exatamente a mesma filosofia de Abraham-Louis Breguet — compreender os fenómenos físicos, experimentar novas soluções e colocar a técnica ao serviço da precisão. O legado de Abraham-Louis Breguet Grande parte da entrevista foi dedicada à extraordinária capacidade inventiva de Abraham-Louis Breguet. Gregory Kissling recorda que, apesar de ter desenvolvido dezenas de soluções revolucionárias, o fundador da manufatura patenteou apenas duas invenções: o escape de força constante e o turbilhão. Segundo o CEO da Breguet, esta realidade explica-se pelo contexto da época. No final do século XVIII, o sistema de patentes era muito diferente do atual e muitas das inovações eram divulgadas sem qualquer proteção legal. Mais importante do que o número de patentes foi o impacto destas invenções. Ainda hoje, os princípios desenvolvidos por Abraham-Louis Breguet continuam a servir de base para muitos dos projetos de investigação da manufatura. A procura da precisão A procura da precisão é, talvez, o fio condutor de toda a entrevista. Gregory Kissling explica como Abraham-Louis Breguet procurou resolver os principais fatores que afetam a marcha de um relógio mecânico: as variações de binário ao longo da reserva de marcha, os efeitos da gravidade, o atrito e, atualmente, também os campos magnéticos e os microchoques. O Experimental No. 1 reúne precisamente várias dessas respostas num único relógio. O turbilhão compensa os efeitos da gravidade, o novo escape magnético de força constante estabiliza a energia fornecida ao órgão regulador, a frequência de 10 Hz reduz a influência dos microchoques e a construção garante elevada resistência aos campos magnéticos. O resultado é uma precisão certificada de ±1 segundo por dia, um desempenho que Gregory Kissling considera representar um novo marco para a relojoaria mecânica. O Perpétuelle: quando a relojoaria deixou de precisar de uma chave Entre os muitos episódios históricos abordados na entrevista, Gregory Kissling destaca o Perpétuelle, um dos primeiros relógios de corda automática da história. Desenvolvido apenas alguns anos após a chegada de Abraham-Louis Breguet a Paris, este relógio utilizava uma massa oscilante para aproveitar os movimentos naturais do utilizador e manter o movimento armado. Mais do que uma inovação técnica, o Perpétuelle alterou profundamente a experiência de utilização de um relógio. Pela primeira vez, deixava de ser necessário recorrer diariamente à chave para dar corda ao mecanismo. Foi esta invenção que projetou a reputação de Breguet junto da corte francesa e, posteriormente, das principais casas reais europeias. Muito antes do relógio de pulso Outro momento particularmente interessante da conversa prende-se com a origem do relógio de pulso. Gregory Kissling recorda que foi a Breguet quem desenvolveu, em 1810, aquele que é geralmente considerado o primeiro relógio de pulso da história, criado para Caroline Murat, Rainha de Nápoles. Mais de um século antes da popularização deste formato entre os homens, impulsionada pela Primeira Guerra Mundial, a manufatura já explorava o potencial desta nova forma de usar um relógio.
- Os relógios do videoárbitro: a tecnologia de arbitragem levada ao pulso
Árbitro do Campeonato do Mundo de 2026 equipado com o relógio oficial de arbitragem. Durante décadas, o relógio do árbitro serviu essencialmente para controlar os 45 minutos de cada parte, as interrupções e o prolongamento. Com a introdução da tecnologia de linha de golo e do videoárbitro, o pulso do árbitro transformou-se num dos pontos de contacto entre o jogo e uma extensa infraestrutura eletrónica instalada no estádio. Embora seja frequente falar-se no “relógio do VAR”, esta expressão pode criar uma ideia errada. O árbitro não vê repetições nem toma decisões de videoarbitragem através do relógio. O equipamento serve sobretudo para medir o tempo e receber alertas associados a outros sistemas de apoio à arbitragem. O que compõe realmente o sistema VAR? O sistema de videoárbitro é formado por câmaras, servidores de vídeo, operadores de repetição, sistemas de comunicação e uma equipa de árbitros instalada numa sala de operações de vídeo. No Campeonato do Mundo de 2022, a equipa de videoarbitragem teve acesso a 42 câmaras de transmissão, entre elas, oito de câmara lenta e quatro de câmara ultralenta. As imagens em velocidade reduzida eram utilizadas sobretudo para situações factuais, como determinar o ponto de contacto numa falta, enquanto as imagens à velocidade normal ajudavam na avaliação de situações mais subjetivas. A comunicação entre a sala de vídeo e o árbitro realiza-se através do sistema áudio usado pela equipa de arbitragem. Quando o VAR identifica um possível erro claro, comunica-o verbalmente ao árbitro principal, que pode aceitar uma informação factual ou dirigir-se ao monitor colocado junto ao campo para rever as imagens. O relógio acompanha este ecossistema, mas não substitui nem o auricular nem o monitor. O relógio do árbitro Nos grandes torneios internacionais, os árbitros usam relógios eletrónicos preparados especificamente para a gestão de uma partida de futebol. Estes equipamentos permitem controlar: o tempo regulamentar; o intervalo; o tempo de compensação; o prolongamento; as grandes penalidades. Nos torneios em que a Hublot foi cronometrista oficial da FIFA, os árbitros receberam versões próprias do Big Bang e, diferentes dos modelos comerciais vendidos ao público. A marca afirmou que o relógio especial fornecido aos árbitros no Campeonato Europeu de 2020 ajudava a gerir o tempo de jogo e o prolongamento e se encontrava ligado à tecnologia de linha de golo e ao sistema de controlo VAR. Importa interpretar corretamente esta ligação. O relógio funciona como um terminal dentro de um conjunto técnico integrado. Não é nele que o árbitro analisa as imagens ou conversa detalhadamente com o videoárbitro. A tecnologia de linha de golo no pulso Alerta de tecnologia de linha de golo – mostra o tipo de notificação ("GOAL") recebida no relógio quando a bola ultrapassa totalmente a linha. A função eletrónica mais claramente documentada nos relógios dos árbitros é a receção do sinal da tecnologia de linha de golo, conhecida pela sigla inglesa GLT — Goal-Line Technology. O sistema utilizado pela FIFA recorre a 14 câmaras de alta velocidade montadas na cobertura do estádio. As câmaras acompanham a bola e determinam se esta atravessou completamente a linha de golo. Quando isso acontece, a informação é transmitida em menos de um segundo exclusivamente para os relógios dos árbitros. O relógio emite normalmente: uma vibração; um aviso visual; a indicação de golo. Esta comunicação é direta e imediata. Não é necessária uma revisão no monitor porque a tecnologia de linha de golo procura responder apenas a uma questão factual: a bola entrou completamente ou não? Se o sistema deixar de funcionar, os árbitros e as equipas são informados. Nessa situação, os possíveis golos podem ser analisados pela equipa de videoarbitragem através das câmaras disponíveis. É, portanto, a tecnologia de linha de golo — e não o VAR propriamente dito — que apresenta a ligação mais direta e visível ao relógio do árbitro. Hublot Big Bang Referee 2018 Hublot Big Bang Referee 2018 – o primeiro smartwatch desenvolvido especificamente para os árbitros do Campeonato do Mundo. A ligação da Hublot aos relógios eletrónicos dos árbitros ganhou particular notoriedade no Campeonato do Mundo de 2018, na Rússia. A marca desenvolveu uma versão especial do seu relógio conectado para utilização pela equipa de arbitragem. O equipamento combinava as funções habituais de cronometragem com ferramentas adaptadas à estrutura de um jogo de futebol. Para o público, foi lançada uma versão comercial com informação sobre os encontros, equipas e acontecimentos das partidas. Contudo, essa versão destinada aos adeptos não deve ser confundida com o aparelho entregue aos árbitros. O modelo profissional estava integrado no equipamento técnico da competição e não era simplesmente um relógio inteligente convencional com uma aplicação de futebol. Hublot Big Bang e no Mundial de 2022 No Campeonato do Mundo do Qatar, os 129 membros da equipa de arbitragem utilizaram o Hublot Big Bang e FIFA World Cup Qatar 2022. A Hublot apresentou-o como uma ferramenta de apoio aos árbitros e destacou o ecrã de alta definição e a função de cronologia da partida. Hublot Big Bang e Qatar 2022 – o modelo utilizado pelos árbitros no Mundial de 2022. O modelo comercial usava o sistema operativo Wear OS e possuía processador Qualcomm Snapdragon Wear 4100, GPS, microfone, altifalante, acelerómetro e giroscópio. A aplicação registava o início das partes, os golos, os cartões, o prolongamento e as grandes penalidades. Apesar das semelhanças exteriores, é necessário distinguir novamente o relógio comercial do equipamento configurado para os árbitros. As notificações destinadas aos adeptos eram fornecidas por serviços de dados da competição; os alertas oficiais da arbitragem provinham dos sistemas certificados instalados no estádio. O fora de jogo semiautomático No Mundial de 2022, o sistema de fora de jogo semiautomático acrescentou uma nova camada tecnológica ao trabalho do VAR. Doze câmaras especiais instaladas sob a cobertura do estádio acompanhavam a bola e até 29 pontos do corpo de cada jogador, 50 vezes por segundo. A informação ajudava a determinar com precisão a posição dos jogadores no momento do passe. Ao contrário da tecnologia de linha de golo, esta informação não era enviada inicialmente como uma decisão definitiva para o relógio do árbitro. Os dados seguiam para a equipa de videoarbitragem, que validava a situação antes de comunicar a decisão ao campo. Assim, o relógio continuava a ser um dispositivo auxiliar. A análise permanecia nos computadores e monitores da sala de vídeo. O monitor junto ao campo Quando uma decisão depende da interpretação do árbitro — por exemplo, a intensidade de uma entrada, uma possível mão na bola ou uma falta antes de um golo — o VAR pode recomendar uma revisão no terreno. Referee Review Area (RRA) – o monitor onde o árbitro revê as imagens do VAR. O árbitro desloca-se então para a denominada Referee Review Area, onde encontra um monitor protegido e ligado ao sistema de vídeo. Um operador seleciona os ângulos e as velocidades de reprodução solicitados pela equipa de arbitragem. É neste monitor, e não no relógio, que ocorre a revisão visual da jogada. O relógio continua a controlar o tempo e a receber os sinais para os quais foi configurado, enquanto a comunicação com o VAR é realizada pelo sistema de rádio e pelos auriculares. Um conjunto de tecnologias distintas A arbitragem moderna reúne sistemas que muitas vezes são confundidos: Relógio do árbitro Controla o tempo e pode receber determinados alertas eletrónicos. Tecnologia de linha de golo Determina se a bola atravessou completamente a linha e envia uma indicação visual e vibratória para o relógio. Sistema de comunicação Liga o árbitro, os assistentes, o quarto árbitro e a equipa de videoarbitragem. VAR Permite rever imagens de situações relacionadas com golos, grandes penalidades, cartões vermelhos diretos e erros de identificação. Monitor de revisão Apresenta ao árbitro as imagens selecionadas durante uma revisão no terreno. Fora de jogo semiautomático Combina câmaras de seguimento, dados posicionais e sistemas informáticos para apoiar as decisões de fora de jogo. O relógio participa neste conjunto, mas não reúne sozinho todas estas funções. Do cronómetro ao terminal eletrónico A evolução dos relógios de árbitro acompanha a transformação do próprio futebol. O relógio mecânico e o cronómetro independente deram lugar a instrumentos digitais com modos específicos para cada fase da partida. O relógio mantém contudo a sua função original — medir o tempo — e assume uma nova função: entregar de forma imediata e discreta informação essencial diretamente no pulso. Da relojoaria mecânica ao relógio conectado: a evolução dos relógios dos árbitros 1930–1960: o cronómetro mecânico Cronógrafo (conhecido por cronómetro no mundo do desporto) de árbitro de futebol da Ingersol Nos primeiros Campeonatos do Mundo, o árbitro recorria normalmente a um relógio de pulso mecânico e, em muitos casos, a um cronómetro de bolso. Não existia qualquer padronização imposta pela FIFA relativamente ao equipamento utilizado. A precisão dependia exclusivamente da qualidade do movimento mecânico e da regularidade da corda. Um desvio de apenas alguns segundos por dia era perfeitamente aceitável para a utilização em campo. 1960–1980: aparecem os primeiros relógios especializados A popularização dos cronógrafos e o aparecimento dos primeiros relógios eletrónicos permitiram desenvolver instrumentos especificamente orientados para a arbitragem. Um dos exemplos mais interessantes é o Omega Seamaster Soccer Timer, embora nunca tenha sido um relógio oficial da FIFA. Omega Seamaster Soccer (ref. 145.020). Lançado em 1969, o Omega Seamaster Soccer Timer (ref. 145.020) é um dos poucos relógios concebidos especificamente para árbitros de futebol. O Soccer Timer acrescenta uma escala gráfica específica que ajuda a ler os 45 minutos regulamentares. No interior utiliza o célebre calibre Omega 861, o mesmo movimento de corda manual que equipava o Speedmaster Professional da época, tornando-o uma das peças mais singulares da relojoaria desportiva. Poucos anos depois, a Seiko apresentou vários modelos Soccer Timer, já equipados com tecnologia de quartzo, beneficiando da enorme vantagem de precisão introduzida após a revolução iniciada pelo Astron em 1969. Seiko Soccer Timer O Seiko Soccer Timer surgiu no final da década de 1970, acompanhando o período em que a Seiko foi cronometrista oficial dos Campeonatos do Mundo de 1978, 1982, 1986 e 1990. Entre os modelos mais emblemáticos destaca-se o Seiko Speed-Timer 7017-6000, cujo mostrador tem uma escala específica para Basket Ball e Soccer, concebida para facilitar a leitura dos tempos regulamentares destes desportos. Seiko 7017-6000 Speed-Timer "Soccer/Basketball" Ao contrário do Omega Seamaster Soccer Timer, que utilizava um cronógrafo mecânico dedicado, a abordagem da Seiko privilegiava a legibilidade e a precisão, refletindo a forte aposta da marca japonesa na cronometragem desportiva que a tornaria uma referência mundial nas décadas seguintes. A revolução/crise do quartzo A passagem para movimentos de quartzo alterou profundamente a função do relógio do árbitro. Enquanto um bom movimento mecânico podia apresentar desvios da ordem dos ±10 segundos por dia (ou mais, dependendo da afinação e das condições de utilização), um módulo de quartzo reduzia esse erro para apenas alguns segundos por mês. Mais importante ainda, tornou-se possível incorporar: contagens decrescentes programáveis; alarmes acústicos; múltiplos cronómetros; memória de tempos; temporizadores independentes para cada parte. Estas funções seriam praticamente impossíveis de implementar num movimento puramente mecânico mantendo dimensões compatíveis com um relógio de pulso. Os primeiros computadores de pulso Durante as décadas de 1980 e 1990, marcas como Casio, Seiko e Timex exploraram o potencial dos relógios digitais multifunções. Os árbitros passaram a utilizar equipamentos com: dois cronómetros independentes; temporizadores repetitivos; alarmes múltiplos; iluminação eletroluminescente; resistência acrescida aos choques e à água. Apesar destas melhorias, o relógio continuava completamente autónomo. Não comunicava com qualquer sistema exterior. Um novo capítulo da história da relojoaria Se os cronómetros de observatório representaram o auge da medição mecânica de precisão e os cronógrafos desportivos marcaram a expansão da relojoaria para a competição automóvel e aeronáutica, os relógios atuais dos árbitros inauguram uma nova categoria. Já não são apenas instrumentos capazes de medir o tempo. São interfaces homem-máquina integradas em sistemas distribuídos de aquisição de dados, comunicação em tempo real e validação eletrónica de decisões. Paradoxalmente, continuam a cumprir exatamente a mesma missão dos relógios utilizados pelos árbitros em 1930: garantir que uma partida de futebol dura o tempo regulamentar. A diferença está em tudo o que acontece invisivelmente à sua volta.
- Azurea Portugal: precisão suíça na Maia — Conversa com Vincent Skrzypczak
A convite da Azurea Portugal, o Instituto Português de Relojoaria visitou as instalações da empresa no Polo Industrial da Maia, onde teve oportunidade de conhecer de perto uma das mais importantes unidades de produção de componentes de alta precisão para a relojoaria instaladas em Portugal. Durante a visita, conversámos com Vincent Skrzypczak, CEO da Azurea Portugal. Um século de experiência em microtecnologia Fundado na Suíça em 1914, o Grupo Azurea especializou-se na produção de componentes mecânicos de elevada precisão. Ao longo de mais de um século desenvolveu competências nas áreas da relojoaria, instrumentos de medição (gauges) e microtecnologia, produzindo peças e subconjuntos destinados às mais exigentes indústrias de precisão. Na relojoaria, a empresa fabrica componentes para movimentos mecânicos e subconjuntos completos, recorrendo a processos de maquinagem, estampagem, acabamento e montagem realizados com tolerâncias de poucos micrómetros. A aposta em Portugal A presença da Azurea em Portugal iniciou-se em 2012, tendo sido reforçada em 2018 com a inauguração da moderna unidade industrial na Maia, resultado de um investimento de cerca de sete milhões de euros. A escolha da Maia não foi por acaso. A proximidade a mão de obra especializada, a tradição industrial da região e a qualidade do ensino técnico foram fatores determinantes para a instalação da fábrica, que produz componentes mecânicos de ultra precisão para a alta relojoaria e para equipamentos de metrologia. Hoje, a Azurea Portugal dispõe de dezenas de máquinas CNC de elevada precisão e assume um papel estratégico dentro do grupo suíço, produzindo componentes que seguem posteriormente para algumas das mais prestigiadas manufaturas relojoeiras. A unidade portuguesa tornou-se um verdadeiro centro de competência em microtecnologia, combinando tecnologia de ponta com equipas altamente qualificadas. Uma conversa sobre indústria, formação e futuro Na conversa com Vincent Skrzypczak fala sobre o percurso da Azurea em Portugal, os desafios da produção de componentes de alta precisão, a importância da formação técnica e as razões pelas quais o país reúne condições para desempenhar um papel cada vez mais relevante na indústria relojoeira internacional. Foi também uma oportunidade para mostrar um lado pouco conhecido da relojoaria: antes de existir um relógio completo, existem centenas de componentes cuja produção exige máquinas sofisticadas, processos rigorosos e profissionais altamente especializados. A visita do Instituto Português de Relojoaria permitiu conhecer de perto esta realidade e compreender melhor o contributo que Portugal já presta a uma das indústrias mais exigentes do mundo.
- O restauro clandestino do relógio do Panteão de Paris
Desenho a partir da fotografia de um membro dos Untergunther a reparar o antigo mecanismo do relógio Wagner. Fotografia original © UX. Há histórias que parecem retiradas de um romance. Esta é uma delas. Durante cerca de um ano, um pequeno grupo entrou regularmente no Panteão de Paris, com ferramentas, peças e materiais, até conseguir restaurar um relógio monumental imóvel há décadas. Fizeram-no sem autorização, sem financiamento e sem procurar reconhecimento público. Esta já é uma história com alguns anos, mas ainda merece ser contada. Em 2006, um relógio monumental instalado no Panteão, em Paris, voltou a funcionar após uma intervenção realizada sem autorização das entidades responsáveis pelo monumento. Durante cerca de um ano, membros do grupo Untergunther, pertencente ao coletivo UX (Urban eXperiment), entraram regularmente no edifício, montaram uma oficina num espaço pouco utilizado e procederam ao restauro mecânico do relógio, parado desde a década de 1960. Quando os trabalhos terminaram, o grupo informou a administração do Panteão de Paris de que o relógio estava novamente operacional. Em vez do reconhecimento pelo trabalho realizado, a intervenção deu origem a um processo judicial. Os membros envolvidos acabariam por ser absolvidos, mas o caso suscitou um debate sobre a conservação do património e sobre o papel da iniciativa privada quando um bem histórico permanece sem manutenção durante vários anos. Antes de abordar essa intervenção, importa conhecer o relógio e o edifício onde se encontra. Panteão de Paris O relógio esquecido O Panteão de Paris ocupa a colina de Sainte-Geneviève, no centro de Paris. O edifício foi projetado por Jacques-Germain Soufflot na segunda metade do século XVIII e, desde o século XIX, é o mausoléu nacional onde repousam algumas das figuras mais importantes da história de França, como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Victor Hugo, Marie Curie e Alexandre Dumas. Entre os diversos elementos técnicos do monumento encontra-se um relógio monumental construído no século XIX pelo relojoeiro Wagner. Durante muitos anos, este relógio regulou a indicação das horas no edifício, exigindo manutenção periódica e corda manual. Mecanismo do relógio do Panteão de Paris antes e depois Segundo vários testemunhos e documentação publicada posteriormente, o relógio deixou de funcionar em meados da década de 1960 e permaneceu inativo durante cerca de quarenta anos. A falta de utilização conduziu à degradação progressiva do mecanismo, sem que fosse promovida uma intervenção de restauro. Quem eram os restauradores A intervenção foi realizada pelo Untergunther, um dos grupos que integravam o coletivo UX (Urban eXperiment). Desde a década de 1980, este coletivo desenvolveu diversas atividades relacionadas com a exploração de espaços pouco acessíveis de Paris e com a preservação de elementos do património considerados negligenciados. Entre os seus membros encontravam-se arquitetos, historiadores, engenheiros, artesãos e outros profissionais que participavam em projetos de forma voluntária. O Untergunther era o núcleo dedicado à conservação e ao restauro. Segundo o próprio grupo, os seus projetos incidiam sobre elementos do património que, apesar do seu interesse histórico ou técnico, permaneciam fora da vista do público e, por esse motivo, raramente recebiam intervenções de conservação. Entre os participantes encontrava-se o relojoeiro Jean-Baptiste Viot, então especialista em restauro de relógios monumentais. Ao observar o mecanismo do relógio do Panteão de Paris, Viot concluiu que o estado de degradação justificava uma intervenção antes que algumas peças sofressem danos irreversíveis. O grupo decidiu então assumir o projeto por iniciativa própria e financiá-lo com recursos dos seus membros. Uma oficina no interior do Panteão de Paris Em setembro de 2005, o Untergunther iniciou os trabalhos. O grupo instalou uma pequena oficina num compartimento situado junto à base da cúpula do Panteão de Paris, um espaço que já não tinha utilização regular. Durante cerca de um ano, os seus membros entraram periodicamente no edifício para trabalhar no relógio, geralmente durante a noite, sem interferir com o funcionamento normal do monumento. A oficina foi equipada com bancada de trabalho, ferramentas, documentação técnica e o material necessário para desmontar, limpar, reparar e voltar a montar os diversos componentes do mecanismo. Algumas peças tiveram de ser fabricadas ou reconstruídas, respeitando a configuração original do relógio. A direção técnica da intervenção esteve a cargo de Jean-Baptiste Viot. Segundo os relatos publicados posteriormente pelo grupo e por vários meios de comunicação, o restauro prolongou-se por cerca de doze meses. Concluídos os trabalhos mecânicos, os membros do Untergunther informaram a administração do Panteão de Paris de que o relógio estava novamente operacional e disponível para voltar ao serviço. Os aspetos técnicos do restauro O relógio do Panthéon não foi colocado novamente em funcionamento através de uma solução provisória. A intervenção teve como objetivo recuperar o mecanismo existente, respeitando a sua construção original e os princípios do restauro de relojoaria monumental. Quando Jean-Baptiste Viot iniciou o trabalho, encontrou dois mecanismos distintos. O primeiro correspondia a um movimento eletromecânico instalado posteriormente. O segundo era o relógio histórico Wagner, datado de 1824, um mecanismo de pesos com soneria de quartos, que permanecia imobilizado há várias décadas. Segundo Viot, a opção foi recuperar o mecanismo Wagner, devolvendo-lhe a configuração funcional original. O movimento foi desmontado, limpo e inspecionado. As peças em bom estado foram conservadas e reutilizadas. Os componentes danificados ou desaparecidos foram reconstruídos individualmente, recorrendo às técnicas tradicionais de fabrico. Uma das intervenções mais importantes incidiu sobre a roda de escape, que teve de ser reconstruída. Foi igualmente necessário fabricar um novo veio do pêndulo, inexistente no mecanismo. Estas peças não foram adaptadas a partir de componentes modernos; foram produzidas especificamente para este relógio, respeitando as dimensões, os materiais e a geometria do projeto original. Viot refere que o maior desafio não foi fabricar as peças, mas reproduzir corretamente a sua geometria. Um pequeno erro nas dimensões da roda de escape ou do sistema de impulso do pêndulo comprometeria o funcionamento do relógio. Por esse motivo, todas as operações foram executadas segundo as práticas tradicionais da relojoaria monumental. Durante o fabrico do novo veio do pêndulo foi ainda utilizada uma solução temporária de oficina. Para evitar que a resina utilizada na colagem aderisse ao veio definitivo, foi produzido um elemento auxiliar em alumínio, posteriormente removido após a conclusão do trabalho. Concluída a recuperação mecânica, o movimento foi novamente montado, lubrificado, regulado e submetido a ensaios de funcionamento. Só depois de verificar a estabilidade da marcha é que o grupo considerou o restauro concluído. Do ponto de vista técnico, a intervenção procurou conservar o máximo possível dos componentes originais. O objetivo não foi modernizar o relógio, mas devolver-lhe as condições necessárias para voltar a cumprir a função para que tinha sido construído. O relógio volta a funcionar Após cerca de um ano de trabalho, o relógio foi colocado novamente em funcionamento. Só depois de verificarem que o mecanismo operava de forma regular é que os membros do Untergunther comunicaram a conclusão da intervenção à administração do Panteão de Paris. A reação das autoridades não foi a esperada pelo grupo. Em vez de aceitar o restauro, a administração do monumento recusou a intervenção realizada sem autorização e apresentou queixa. O mecanismo foi posteriormente imobilizado pelas próprias autoridades, iniciando-se um processo judicial contra os participantes na operação. Independentemente da avaliação jurídica do caso, ficou demonstrado que um relógio monumental parado durante várias décadas podia voltar a funcionar após um restauro realizado segundo práticas tradicionais de relojoaria. A legalidade da intervenção e o seu mérito técnico passaram, desde então, a ser discutidos separadamente. O processo judicial Depois de o grupo revelar a existência da oficina e do restauro concluído, o Centre des monuments nationaux (CMN), organismo responsável pelo Panteão de Paris, apresentou queixa contra os participantes na intervenção. O processo incidiu sobre a entrada no monumento e sobre os danos alegadamente causados num cadeado exterior durante os acessos ao edifício. O CMN pediu ainda uma indemnização pelos prejuízos que considerava terem resultado da atuação do grupo. O julgamento realizou-se em novembro de 2007. O tribunal absolveu os membros do Untergunther das acusações apresentadas, entendendo que os factos invocados não justificavam uma condenação nos termos em que tinham sido formulados. O pedido de indemnização apresentado pelo CMN foi igualmente rejeitado. A decisão judicial não constituiu uma aprovação da intervenção realizada sem autorização. Limitou-se a apreciar os factos constantes do processo. Ainda assim, o caso ganhou projeção internacional por envolver uma situação invulgar: um grupo de pessoas levado a tribunal após restaurar um relógio histórico que permanecia parado há várias décadas. Um desfecho inesperado Após o processo, o relógio deixou novamente de funcionar durante alguns anos. Entretanto, Jean-Baptiste Viot prosseguiu a sua atividade profissional na área da relojoaria monumental e do restauro de peças históricas. Em 2018, mais de uma década depois dos acontecimentos, o Panteão de Paris decidiu promover uma nova campanha de restauro do relógio. O concurso foi ganho precisamente por Jean-Baptiste Viot, que passou a ser o restaurador oficialmente responsável pelo mecanismo que tinha recuperado clandestinamente anos antes. A intervenção permitiu restaurar não apenas o movimento, mas também o mostrador e o sistema de badaladas, devolvendo o conjunto ao funcionamento regular. Este desfecho encerrou um episódio invulgar da história recente da relojoaria monumental. O mesmo profissional que tinha sido levado a tribunal pela sua participação numa intervenção não autorizada foi posteriormente escolhido pela administração para realizar o restauro oficial do relógio. Um pouco de realidade... A história do relógio do Panteão de Paris não deve ser entendida como uma defesa de intervenções realizadas sem autorização. A conservação do património exige enquadramento legal, documentação técnica e a participação das entidades responsáveis pelos bens culturais. No entanto, este episódio evidencia outro problema: a falta de manutenção de muitos relógios monumentais. Estes mecanismos foram concebidos para funcionar durante séculos, mas dependem de inspeções periódicas, limpeza, lubrificação e reparações realizadas por profissionais qualificados. Quando essa manutenção deixa de existir, a degradação acelera e o custo da recuperação aumenta. Em Portugal subsistem dezenas de relógios de torre, de igreja e de edifícios públicos que representam um importante património técnico. Muitos continuam em funcionamento graças ao trabalho regular de relojoeiros especializados; outros permanecem parados há anos, aguardando uma intervenção. Independentemente da forma como se avalia a atuação do Untergunther, o caso do Panteão de Paris recorda que um relógio histórico só cumpre plenamente a sua função quando continua a marcar o tempo. A preservação destes mecanismos exige conhecimento técnico, continuidade na manutenção e o reconhecimento do seu valor enquanto património cultural e relojoeiro.
- Marcas portuguesas activas
Os relógios das marcas portuguesas nos pulsos dos seus proprietários Hoje é tempo de presente. Depois de uma breve viagem pela história da relojoaria portuguesa, é altura de olhar para a realidade atual. Quem são os relojoeiros, as marcas, os projetos e as instituições que, nos dias de hoje, mantêm viva esta tradição e contribuem para o desenvolvimento da relojoaria em Portugal? Entre as marcas portuguesas actualmente activas encontram-se a Reguladora, Prometheus, Borealis, Bruno Moreira, Meia Lua, Eximio, Contar, One, Celsus, Eugénio Campos, Monserrate, Museu do Relógio, Twobrothers, Febres, Les Tugas do IPR – Instituto Português de Relojoaria, e outras estruturas contemporâneas ligadas à micro-relojoaria, ao design, à relojoaria independente ou à joalharia. Estas marcas partilham geralmente características comuns: produção limitada, forte presença digital, utilização de fornecedores internacionais e uma identidade construída sobretudo através do design, da comunicação, da direcção criativa e, em alguns casos, da própria ligação à cultura relojoeira portuguesa. Marcas propriedade de portugueses, sediadas no estrangeiro Existe ainda um grupo particularmente interessante de marcas que, embora juridicamente estrangeiras, mantêm fortes ligações portuguesas através dos seus fundadores, identidade cultural ou inspiração conceptual. ISOTOPE: Chronograph Moonshot Horizon O exemplo mais evidente é a Isotope, fundada pelo português José Mendes Miranda e sediada no Reino Unido. Apesar de ser uma marca britânica do ponto de vista legal e operacional, a Isotope incorpora frequentemente referências portuguesas nas suas edições e comunicação, tornando-se um caso emblemático da globalização da relojoaria contemporânea. Escudo Watches Num contexto semelhante surge também a Escudo, criada por Simon Correia e Richard Johnson. Embora apresente uma estrutura internacional, a marca utiliza uma forte inspiração ligada à história marítima portuguesa e à estética dos instrumentos náuticos associados aos Descobrimentos. Monserrate Watches Pode igualmente incluir-se neste grupo a Monserrate, marca associada ao português João Ramalhete e desenvolvida fora de Portugal, mas profundamente marcada por referências culturais portuguesas. O próprio nome remete imediatamente para o Palácio de Monserrate, em Sintra, o que reforça a ligação identitária ao património histórico e artístico português. Estas marcas demonstram como a relojoaria contemporânea tornou cada vez mais difusa a relação entre identidade nacional, local de fabrico e sede legal. Um relógio pode ser concebido por um fundador português, desenhado em Londres, utilizar um movimento suíço, ser fabricado na Ásia e ainda assim manter uma identidade cultural portuguesa. De certa forma, estes projectos representam uma continuação moderna da própria história da relojoaria portuguesa: uma realidade profundamente internacional, construída através de cruzamentos constantes entre comércio, técnica, design e identidade cultural. Bruno Moreira e os acabamentos manuais em Portugal Relógios Bruno Moreira Entre os projectos contemporâneos mais relevantes da relojoaria portuguesa encontra-se o trabalho de Bruno Moreira, cuja abordagem ocupa um lugar muito particular dentro do panorama nacional. Num contexto em que a maioria das micro-marcas portuguesas depende de componentes industriais praticamente finalizados no estrangeiro, Bruno Moreira destaca-se pela realização de acabamentos manuais e decoração mecânica executados em Portugal, por si próprio, o que o aproxima mais da tradição clássica da relojoaria independente europeia do que da lógica habitual das micro-marcas contemporâneas. O seu trabalho desenvolve-se em escala reduzida, com produção de poucas unidades, por forma a conseguir um nível de atenção individual praticamente impossível em produção industrial. Entre os aspectos mais relevantes encontra-se precisamente a decoração manual dos próprios movimentos — uma prática historicamente associada à alta relojoaria suíça e praticamente inexistente em Portugal enquanto actividade autoral contemporânea estruturada. Neste caso, o relógio deixa de ser apenas um objecto montado a partir de componentes externos e passa a incorporar trabalho manual especializado directamente aplicado sobre os elementos mecânicos. Acabamentos, decoração, tratamento de superfícies e atenção ao detalhe tornam-se parte integrante da identidade do relógio. Este tipo de intervenção representa o surgimento de competências tradicionalmente ausentes da relojoaria portuguesa contemporânea. Durante décadas, Portugal participou sobretudo na montagem, comercialização ou assistência técnica de relógios estrangeiros, mas raramente no domínio da decoração mecânica artesanal associada à relojoaria fina. O trabalho de Bruno Moreira demonstra, por isso, uma mudança importante: começam finalmente a surgir em Portugal projectos independentes capazes de executar localmente operações tradicionalmente reservadas às oficinas especializadas da alta relojoaria europeia. Nesse sentido, Bruno Moreira representa talvez um dos sinais mais claros do surgimento de uma verdadeira relojoaria independente portuguesa contemporânea. Bernardo d’Orey e a relojoaria como objecto artístico Bernardo D'Orey Entre os projectos mais particulares da relojoaria portuguesa contemporânea encontra-se o trabalho de Bernardo d’Orey, cuja abordagem se centra sobretudo na criação de mostradores de relógios conceptuais em pequena escala. O seu trabalho aproxima-se frequentemente mais do design industrial e da experimentação estética do que da relojoaria tradicional no sentido clássico. Procura criar peças com identidade própria em vez de simplesmente reproduzir códigos já existentes. Num contexto em que a relojoaria portuguesa sempre esteve muito ligada à reparação, montagem ou comercialização, este tipo de abordagem representa algo relativamente novo: a utilização do relógio como espaço de criação autoral e experimentação visual. Tal como outros projectos independentes portugueses, o trabalho desenvolve-se em escala reduzida, o que permtite maior liberdade criativa e maior proximidade entre o criador e o objecto final. Bernardo d’Orey representa uma das faces mais experimentais da nova relojoaria portuguesa contemporânea. Les Tugas — uma nova abordagem à construção nacional Les Tugas Les Tugas Les Tugas: www.lestugas.pt O projecto Les Tugas, desenvolvido pelo IPR, representa um caso particularmente interessante dentro da relojoaria portuguesa contemporânea. Ao contrário da maioria das micro-marcas actuais, cuja produção depende quase integralmente de fornecedores estrangeiros, o Les Tugas procurou incorporar uma componente significativa de construção e transformação nacional. Embora utilize uma base mecânica internacional, o projecto distingue-se pelo esforço deliberado de integrar produção portuguesa em diversas etapas fundamentais do relógio. A caixa em aço foi produzida em Lisboa; o mostrador igualmente fabricado em Lisboa; a lapidação do vidro realizada em Salvaterra de Magos; a correia produzida em Gião; o polimento efectuado na zona do Porto; e a caixa de transporte concebida e fabricada também em Lisboa. Esta abordagem procura recuperar uma ideia praticamente desaparecida da relojoaria portuguesa: a possibilidade de construir localmente componentes especializados através da colaboração entre pequenas oficinas, artesãos, técnicos e estruturas industriais nacionais. Nesse sentido, o Les Tugas diferencia-se claramente da maioria das micro-marcas contemporâneas portuguesas. Não pretende apenas criar uma marca portuguesa, mas também reconstruir parcialmente uma cadeia de produção nacional, ainda que em escala reduzida. Talvez esse seja precisamente um dos aspectos mais interessantes do projecto: não a tentativa de competir directamente com grandes manufacturas internacionais, mas a demonstração de que é cada vez mais possível mobilizar conhecimento técnico português para produzir componentes relojoeiros especializados dentro do próprio país. De certa forma, o Les Tugas aproxima-se mais do espírito das antigas oficinas e manufacturas portuguesas do século XX do que da lógica habitual das micro-marcas contemporâneas. Tempo Futuro — o surgimento de uma nova relojoaria portuguesa Tempo Futuro: www.tempofuturo.pt Durante grande parte do século XX, a relojoaria portuguesa sobreviveu sobretudo através da reparação, da montagem, da distribuição e da adaptação de relógios estrangeiros ao mercado nacional. Mesmo nos momentos de maior vitalidade industrial, Portugal nunca desenvolveu uma manufactura comparável às grandes estruturas suíças, francesas ou alemãs. Contudo, talvez seja precisamente essa ausência de tradição industrial pesada que torna particularmente interessante aquilo que começa hoje a surgir. Nos últimos anos, tem-se assistido ao aparecimento de uma nova geração de projectos portugueses ligados à relojoaria: micro-marcas independentes, oficinas especializadas, relojoeiros autorais, iniciativas pedagógicas e pequenos núcleos de produção técnica que procuram construir algo diferente da simples revenda ou personalização de relógios estrangeiros. É neste contexto que surge o conceito de Tempo Futuro. O Tempo Futuro representa uma mudança de paradigma na relojoaria portuguesa contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, começam a surgir em Portugal iniciativas que procuram não apenas comercializar relógios, mas também desenvolver competências técnicas locais, acabamentos manuais, construção parcial de componentes, restauro especializado e transmissão estruturada de conhecimento relojoeiro. Projectos como Bruno Moreira, Les Tugas do IPR, Monserrate, Meia Lua, Eximio, Prometheus, Borealis ou Contar demonstram abordagens muito diferentes entre si, mas partilham um elemento comum: a tentativa de construir identidade própria num país historicamente periférico à grande indústria relojoeira. Em alguns casos essa identidade surge através do design; noutros através da recuperação de referências culturais portuguesas; noutros ainda através da experimentação técnica, da decoração manual ou da tentativa de reconstruir pequenas cadeias nacionais de produção. Talvez o aspecto mais interessante deste Tempo Futuro seja precisamente o facto de não procurar copiar directamente a relojoaria suíça. A escala é diferente, os recursos são diferentes e a própria realidade histórica portuguesa é diferente. Em vez de competir através da industrialização massiva, muitos destes projectos aproximam-se mais da lógica artesanal, da pequena produção e da especialização técnica. Num mundo cada vez mais dominado pela produção globalizada, essa escala reduzida pode transformar-se precisamente na maior força da relojoaria portuguesa contemporânea: proximidade, individualidade, flexibilidade e identidade cultural. Portugal poderá nunca tornar-se uma potência industrial relojoeira. Mas talvez isso já não seja a questão mais importante. O verdadeiro sinal de maturidade surge quando um país deixa de perguntar se consegue competir com os outros e começa finalmente a construir uma linguagem própria. Mais do que preservar Neste contexto, o IPR tem contribuído activamente para a criação de novos profissionais, para o surgimento de novas marcas e para o desenvolvimento de uma comunidade portuguesa de amantes, coleccionadores e consumidores de relojoaria cada vez mais informados e activos. Iniciativas como a feira Tempo Futuro demonstram precisamente essa vontade de criar um espaço de encontro entre relojoeiros, marcas independentes, alunos, coleccionadores e público especializado, promovendo uma nova dinâmica em torno da relojoaria portuguesa contemporânea. O projecto Les Tugas representa talvez o exemplo mais claro dessa visão. Procura funcionar como uma verdadeira prova de conceito: a demonstração de que já existe em Portugal capacidade técnica, industrial e artesanal para produzir componentes relojoeiros especializados em território nacional. Ao mesmo tempo, começam já a surgir várias novas marcas desenvolvidas por ex-alunos do IPR, actualmente em fase de planificação. O objectivo do Instituto Português de Relojoaria passa precisamente por incentivar o aparecimento de novos projectos nacionais e apoiar activamente todos os que pretendam desenvolver relojoaria em Portugal, tal como oficinas, independentes, marcas emergentes e fábricas instaladas no país. Talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro futuro da relojoaria portuguesa.
- Inventário das marcas portuguesas de relógios
184 fotos de relógios de Marcas Portuguesas. O início de "O Inventário" Neste segundo artigo dedicado à relojoaria portuguesa decidimos reunir todas as marcas de relógios portuguesas conhecidas. É importante fazer a ressalva de que estamos a falar de marcas portuguesas e não de relógios portugueses. Durante várias décadas, muitos empreendedores criaram marcas de relojoaria em Portugal para vender relógios importados, principalmente da Suíça. O objectivo deste trabalho consiste em identificar, documentar e preservar a memória dessas marcas através dos exemplares que chegaram até aos nossos dias. Este artigo constitui apenas uma etapa de um projecto mais vasto que continuará a ser desenvolvido pelo Instituto Português de Relojoaria. As fotografias apresentadas neste artigo resultam de uma sessão fotográfica realizada por Bruno Candeias no âmbito do projecto do Instituto Português de Relojoaria dedicado ao levantamento das marcas portuguesas de relógios de pulso. A iniciativa contou com a colaboração de coleccionadores que disponibilizaram os seus exemplares para estudo e documentação. O conjunto aqui apresentado reúne 185 relógios em estado NOS (New Old Stock), preservando mostradores, caixas e elementos gráficos em condições excepcionais de conservação. Importa igualmente referir que uma parte significativa das informações actualmente disponíveis sobre estas marcas tem origem em testemunhos orais, memórias de antigos profissionais do sector, coleccionadores e documentação incompleta. Nem sempre foi possível confirmar de forma independente todas as referências encontradas. Por esse motivo, algumas atribuições deverão ser consideradas provisórias até ao aparecimento de novas fontes documentais. O Inventário Escolhemos o nome O Inventário porque este projecto pretende identificar, reunir e documentar as marcas de relógios portuguesas que fomos encontrando ao longo da investigação. Existe também uma curiosa ligação etimológica com a palavra inventar: muitas destas marcas nasceram de nomes cuidadosamente imaginados pelos seus fundadores, numa tentativa de criar identidade e diferenciação no mercado. O nome constitui frequentemente o primeiro passo de uma iniciativa empresarial e, em muitos casos, é também o elemento que mais tempo sobrevive após o desaparecimento da própria empresa. Ao longo dos últimos anos fomos reunindo informações dispersas sobre estas marcas através de anúncios publicitários, registos de marca, documentação comercial, testemunhos orais e exemplares sobreviventes. O objectivo deste trabalho consiste em preservar essa informação, torná-la acessível, e criar uma base documental que possa ser continuamente ampliada e corrigida à medida que surgem novas fontes. As fotografias apresentadas neste artigo resultam de uma sessão fotográfica realizada por Bruno Candeias no âmbito deste projecto do Instituto Português de Relojoaria dedicado ao levantamento e inventário das marcas portuguesas de relógios de pulso. A iniciativa contou com a colaboração dos coleccionadores Nuno Graça e João Martins que disponibilizaram os seus exemplares para estudo e documentação. O conjunto aqui apresentado reúne 185 relógios em estado NOS (New Old Stock), preservando mostradores, caixas e elementos gráficos em condições excepcionais de conservação. Este trabalho integra um projecto mais vasto do Instituto Português de Relojoaria que procura construir o inventário mais completo possível das marcas de relógios de pulso comercializadas em Portugal. Importa igualmente referir que uma parte significativa das informações actualmente disponíveis sobre estas marcas tem origem em testemunhos orais, memórias de antigos profissionais do sector, coleccionadores e documentação incompleta. Nem sempre foi possível confirmar de forma independente todas as referências encontradas. Por esse motivo, algumas atribuições e relações entre marcas deverão ser consideradas provisórias até ao aparecimento de novas fontes documentais. Este levantamento deve ser entendido como um trabalho em permanente construção, aberto a correcções, contributos e novas descobertas. Fotos: Bruno Candeias O que nos dizem estes mostradores? Os 185 relógios documentados neste levantamento representam apenas uma pequena parte do universo das marcas portuguesas de relógios de pulso. A base de dados do projecto O Inventário reúne actualmente mais de 300 marcas identificadas através de registos comerciais, publicidade antiga, documentação histórica, testemunhos orais e exemplares sobreviventes. Apesar das limitações inerentes a este tipo de investigação, o conjunto já permite identificar algumas tendências importantes da relojoaria portuguesa ao longo do século XX. A criatividade por detrás dos nomes Os nomes escolhidos para as marcas portuguesas de relógios revelam muito sobre a forma como os seus fundadores pretendiam apresentar os seus produtos ao mercado. Embora algumas designações correspondam simplesmente ao nome do proprietário ou da empresa, muitas outras resultam de exercícios de criatividade comercial que procuravam transmitir confiança, prestígio, modernidade ou uma identidade particularmente portuguesa. Entre os exemplos mais curiosos encontram-se algumas marcas construídas a partir dos apelidos dos seus proprietários escritos ao contrário. A marca Otar, associada a Fernando Rato, constitui provavelmente o caso mais conhecido. Existem ainda exemplos como Said, ligado ao apelido Dias, e Morais, relacionado com o apelido Morais. Estas soluções permitiam criar uma marca original sem perder a ligação à identidade do fundador. Outras designações procuravam transmitir uma imagem de prestígio, qualidade ou autoridade. Nomes como Imperial Watch, Regina, Vanguard, Primar ou Starlux evocam conceitos de liderança, distinção e importância, características frequentemente utilizadas na publicidade relojoeira internacional da época. O inventário revela também algumas situações curiosas relacionadas com a grafia das marcas. Um dos exemplos mais interessantes é a coexistência das designações Siaron (Morais) e Siarom (Norais) . Sem documentação adicional, não é possível determinar se estamos perante duas marcas distintas ou se uma das variantes resultou de um erro ocorrido durante a produção do mostrador, da gravação da matriz ou de uma alteração introduzida ao longo da vida comercial da marca. Casos como este ilustram bem as dificuldades encontradas na investigação da relojoaria portuguesa, onde muitas vezes sobrevivem apenas os relógios, tendo desaparecido a documentação que permitiria esclarecer definitivamente estas questões. Também encontramos marcas ligadas ao território, à cultura e ao imaginário português. Exemplos como Tagus, Vouga, Adamastor, Latino ou Girassol demonstram uma intenção clara de criar identidades comerciais associadas a referências nacionais facilmente reconhecíveis pelos consumidores portugueses. Paralelamente, muitas marcas adoptaram sonoridades inspiradas na relojoaria suíça, francesa ou alemã. Designações como Limoge, Eletta, Vanguard, Starlux ou Zuryl procuravam frequentemente transmitir uma aparência internacional, beneficiando da reputação técnica que a relojoaria estrangeira possuía junto do público. A diversidade destas escolhas demonstra que a criação de uma marca era muito mais do que um simples exercício administrativo. O nome constituía um dos principais instrumentos de diferenciação comercial e, em muitos casos, é hoje um dos poucos vestígios que restam de empresas desaparecidas há várias décadas. Entre a Marca Portuguesa e o Relógio Português A maioria das marcas portuguesas não fabricava integralmente os seus relógios. Em muitos casos, os movimentos eram importados da Suíça, enquanto a comercialização era assegurada por empresas portuguesas. Esta realidade explica a presença frequente de mecanismos ETA, FHF, FE, AS, Valjoux, Peseux, Lemania, Lorsa ou Unitas em relógios vendidos sob marcas portuguesas. O valor histórico destas marcas não reside necessariamente na produção industrial dos relógios, mas na criação de redes comerciais, oficinas, distribuidores e identidades próprias que marcaram várias gerações de consumidores portugueses. Os Principais Centros da Relojoaria Portuguesa A investigação realizada até ao momento permite identificar alguns núcleos particularmente importantes para a relojoaria portuguesa. Cantanhede surge associada a um elevado número de marcas, distribuidores e montadores. O Porto revela igualmente uma actividade muito significativa, em particular através da J. Borges de Freitas e de várias casas comerciais ligadas ao sector. Lisboa concentra algumas das marcas mais conhecidas do mercado nacional, enquanto cidades como Coimbra e Viseu também apresentam um património relojoeiro relevante. Um Universo de Marcas Quase Esquecidas Uma das conclusões mais evidentes deste trabalho é a enorme quantidade de marcas actualmente desaparecidas. Em muitos casos desconhecemos as circunstâncias exactas do seu desaparecimento. Ainda assim, a concentração destes desaparecimentos nas últimas décadas do século XX sugere uma ligação às profundas alterações que marcaram o mercado relojoeiro internacional, em particular à expansão dos relógios de quartzo e à crescente globalização da indústria. Muitas sobreviveram apenas através de um mostrador, um anúncio publicitário ou um registo de marca. Em diversos casos desconhecemos a data exacta de criação, a dimensão da actividade ou mesmo a identidade dos seus proprietários. Ainda assim, estas marcas constituem testemunhos valiosos da actividade económica portuguesa e da ligação do país às grandes redes internacionais de comércio relojoeiro. Um Trabalho em Construção Importa igualmente referir que uma parte significativa das informações actualmente disponíveis sobre estas marcas tem origem em testemunhos orais, memórias de antigos profissionais do sector, coleccionadores e documentação incompleta. Nem sempre foi possível confirmar de forma independente todas as referências encontradas. Por esse motivo, algumas atribuições e relações entre marcas deverão ser consideradas provisórias até ao aparecimento de novas fontes documentais. Este levantamento deve ser entendido como um trabalho em permanente construção, aberto a correcções e contributos de todos. Conclusão Este inventário constitui um mapa fragmentado da história da relojoaria portuguesa. Apesar de muitas destas marcas terem desaparecido há várias décadas, os mostradores, relógios e documentos que sobreviveram continuam a testemunhar a diversidade de um sector que teve uma presença muito mais significativa do que geralmente se reconhece. Cada novo exemplar identificado contribui para aprofundar o conhecimento sobre estas marcas, e permite reconstruir gradualmente um património que permanece insuficientemente estudado. Colabore com o Projecto Tem sugestões, correcções, fotografias, documentos ou informações sobre alguma destas marcas? Conhece histórias relacionadas com relojoeiros, oficinas ou empresas portuguesas de relojoaria? Quer ser um membro activo deste projecto? Entre em contacto connosco. A investigação continua em curso e toda a colaboração é bem-vinda. info@institutoportuguesderelojoaria.pt
- Marcas Portuguesas de Relógios: Entre a Técnica e a Identidade
O conceito de “marca portuguesa” está longe de ser linear. Quando observamos um relógio com um nome português no mostrador, o que estamos verdadeiramente a ver? Um produto concebido em Portugal? Um objecto fabricado cá? Uma marca registada em território nacional? Ou apenas uma ideia portuguesa produzida no estrangeiro? A questão torna-se particularmente interessante na relojoaria, uma indústria historicamente internacional, dependente de cadeias de fornecimento espalhadas por diversos países. Um relógio pode ter desenho português, caixa chinesa, movimento suíço, montagem alemã e ainda assim apresentar-se como português. Mas será realmente? Do ponto de vista legal, a nacionalidade de uma marca não corresponde necessariamente ao local de fabrico. Em Portugal, uma marca torna-se “portuguesa” porque foi registada por uma entidade portuguesa junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, independentemente da origem dos componentes ou da produção. O mesmo sucede noutros países. Muitas marcas consideradas tipicamente suíças, francesas ou americanas fabricam grande parte dos seus componentes fora das respectivas fronteiras. Existe igualmente uma diferença entre “marca portuguesa” e “produto português”. Um relógio pode pertencer a uma empresa portuguesa sem que exista qualquer fabrico nacional. Pelo contrário, existe produção de relógios em Portugal para marcas estrangeiras sem que isso seja remotamente perceptível ao público. A própria legislação europeia relativa à indicação de origem tende a privilegiar o conceito de “transformação substancial”, o que deixa espaço para múltiplas interpretações. Contudo, para a maioria das pessoas, a percepção é frequentemente emocional e cultural, mais do que jurídica. Uma marca é vista como pertencente a um país quando comunica uma identidade ligada a esse território — através da língua, da estética, da história, dos fundadores ou da narrativa que constrói em torno de si própria. É por isso que muitos coleccionadores consideram certas micro-marcas actuais como portuguesas, mesmo quando os relógios são integralmente produzidos fora do país. Na relojoaria portuguesa, esta ambiguidade sempre esteve presente. Existiram marcas estrangeiras que montaram fábricas em Portugal tanto para fabricar componentes como para fazer acabamentos em território português; outras limitaram-se à importação de movimentos suíços, franceses, japoneses ou chineses, comercializando-os sob designações registadas em Portugal. Houve ainda marcas que se dedicaram sobretudo à colocação do seu nome no mostrador, enquanto algumas procuraram verdadeiramente desenvolver soluções técnicas próprias, aproximando-se de uma produção autenticamente industrial, como foi o caso da Reguladora. Todas estas realidades pertencem à história da relojoaria portuguesa, embora correspondam a níveis de intervenção, ambição técnica e identidade profundamente distintos. Talvez a pergunta mais interessante não seja “o que é uma marca portuguesa?”, mas antes: até que ponto um país consegue reconhecer-se nos objectos que produz, idealiza ou comercializa? É nacional uma marca que reflecte a forma como um país olha para si próprio, para a sua capacidade técnica, para a sua criatividade e para aquilo que acredita poder construir. Tudo isto vai muito para além de questões legais. Uma proposta de classificação da relojoaria portuguesa Ao abordar a história das marcas portuguesas de relógios, surge rapidamente um problema: nem todas pertencem à mesma realidade técnica, industrial ou cultural. Colocar lado a lado uma fábrica como a Boa Reguladora, um fabricante de relógios de torre e uma pequena marca comercial que apenas importava movimentos estrangeiros acaba por criar alguma confusão histórica. Talvez faça sentido, por isso, propor uma distinção entre diferentes categorias de relojoaria portuguesa. Esta divisão não pretende estabelecer hierarquias de valor, mas antes ajudar a compreender melhor as diferentes ambições, escalas e capacidades técnicas existentes ao longo da história da relojoaria nacional. Relojoaria grossa A designação “grossa” não deve ser entendida de forma pejorativa. Historicamente, o termo servia para distinguir este tipo de produção da chamada relojoaria fina, dedicada a mecanismos mais pequenos, sofisticados e minuciosos. A relojoaria grossa exige igualmente elevados conhecimentos mecânicos, sobretudo na construção de sistemas robustos, duradouros e concebidos para funcionar continuamente durante décadas. Esta primeira categoria corresponde àquilo que tradicionalmente se designa por relojoaria grossa, isto é, a produção de relógios utilitários de parede ou mesa, maioritariamente de pêndulo, normalmente associados a contextos domésticos, comerciais ou institucionais. É neste domínio que se enquadra, de forma mais evidente, a Boa Reguladora. A Boa Reguladora - nascida em 1892 Esta empresa produzia relógios em quantidades relativamente significativas, recorrendo frequentemente a processos semi-industriais e, em alguns casos, fabricando internamente componentes mecânicos, caixas e estruturas. Apesar de muitas vezes utilizarem soluções inspiradas na indústria alemã ou americana, possuíam já uma identidade industrial própria e uma capacidade real de adaptação ao mercado português. Relojoaria monumental Uma segunda categoria corresponde à relojoaria monumental, ligada sobretudo aos relógios de torre instalados em igrejas, câmaras municipais, estações ferroviárias e edifícios públicos. Ao contrário da relojoaria doméstica, esta especialidade exigia competências muito específicas: construção de estruturas de grandes dimensões, sistemas de transmissão mecânica, sinos, automatismos e mecanismos concebidos para funcionar continuamente durante décadas, muitas vezes expostos às intempéries. Embora frequentemente ignorada nas histórias tradicionais da relojoaria, a relojoaria monumental representa provavelmente uma das expressões mais técnicas da mecânica portuguesa, envolvendo trabalhos de serralharia, fundição, carpintaria, metalurgia e engenharia mecânica de elevada complexidade. Portugal conheceu diversas oficinas e fabricantes ligados a este sector, alguns dos quais alcançaram grande notoriedade regional ou nacional. Entre os nomes mais relevantes encontram-se: Cardina, associada à Nazaré; Jerónimo, em Braga; Cousinha - A Boa Construtora — Fábrica de Relógios Monumentais, em Almada, responsável por diversos relógios públicos portugueses, incluindo o do Arco da Rua Augusta, em Lisboa;uma das mais importantes empresas portuguesas de fabrico, conservação e restauro de relógios monumentais e sinos; oficinas regionais ligadas à manutenção de relógios de torre municipais e religiosos, muitas vezes associadas a serralharias mecânicas especializadas. Ao contrário da relojoaria fina, centrada no objecto portátil e no acabamento minucioso, a relojoaria monumental privilegiava a robustez, a fiabilidade e a longevidade. Muitos destes mecanismos funcionaram continuamente durante mais de um século, tornando-se parte integrante da paisagem urbana portuguesa. Apesar da sua importância patrimonial, esta área permanece ainda pouco estudada, dispersa entre oficinas familiares, arquivos municipais e mecanismos esquecidos em torres de igrejas e edifícios públicos. Entre as figuras contemporâneas que mais contribuíram para a preservação deste património destaca-se Hermínio Nunes, ligado ao projecto TicTac Temporis. O seu trabalho de documentação e divulgação ajudou a devolver visibilidade à relojoaria monumental portuguesa, tratando estes mecanismos não apenas como objectos técnicos, mas também como património histórico e cultural. Contudo muitos outros relojoeiros e relojoaria como o Tempo Minuncioso no Porto, possivelmente a mais activa actualmente, dedicam-se ao restauro e manuetenção de alguns destes relógios. Relojoaria fina Por fim, existe aquilo que se poderia chamar relojoaria fina portuguesa — um domínio muito mais fragmentado. Aqui incluem-se as tentativas de criação de relógios de maior sofisticação técnica, acabamento mais cuidado ou concepção mecânica própria. Historicamente, Portugal nunca desenvolveu uma verdadeira indústria de relojoaria fina comparável à suíça, francesa ou inglesa. Ainda assim, existiram relojoeiros independentes, oficinas especializadas e marcas que procuraram elevar o nível técnico da produção nacional, seja através de modificações mecânicas, construção artesanal, decoração ou desenvolvimento parcial de componentes. Isotope; Les Tugas: Exímio; Borealis; Bruno Moreira; Meia Lua Nos tempos contemporâneos, algumas micro-marcas portuguesas voltaram a aproximar-se desta ideia de relojoaria fina, sobretudo através do design, da pequena produção independente e da valorização de uma identidade cultural própria, ainda que recorrendo quase sempre a fabrico internacional. Entre a técnica e a identidade Naturalmente, estas categorias não são absolutamente rígidas. Muitas marcas atravessam diferentes domínios, e a própria definição de “relojoaria portuguesa” permanece aberta à discussão. Contudo, esta divisão ajuda a compreender que a história relojoeira nacional não se resume a uma única tradição, mas antes a várias realidades paralelas: industrial, monumental, artesanal, comercial e contemporânea. Talvez seja precisamente essa diversidade, mais do que a existência de uma grande manufactura nacional, que define verdadeiramente a relojoaria portuguesa. Quer participar na discussão? 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- Morgan Maillard e o Concours d’Élégance Horlogère da Vacheron Constantin — Entrevista do IPR no Watches and Wonders 2026
Durante o Watches and Wonders Geneva 2026, o IPR – Instituto Português de Relojoaria entrevistou Morgan Maillard, Style & Heritage Expert da Vacheron Constantin, numa conversa centrada no seu percurso profissional dentro da manufactura e no novo “Concours d’Élégance Horlogère”, recentemente anunciado pela marca. Relojoeiro de formação, Morgan Maillard entrou para os ateliers da Vacheron Constantin em 2014. Trabalhou posteriormente como relojoeiro nas boutiques da marca em Singapura, Genebra e Nova Iorque, antes de integrar a sede da manufactura como Style & Heritage Expert. Ao longo da entrevista, falou sobre a transição entre o trabalho técnico de oficina e a investigação histórica ligada ao património da marca, bem como sobre a importância do contacto directo com coleccionadores e relógios históricos no desenvolvimento da sua visão sobre a alta-relojoaria. A conversa incidiu também sobre o novo “Concours d’Élégance Horlogère”, iniciativa organizada em colaboração com Phillips in Association with Bacs & Russo, dedicada exclusivamente a relógios históricos da manufactura. O concurso, apresentado como o primeiro Concours d’Élégance inteiramente dedicado à relojoaria, procura reunir coleccionadores e entusiastas da Vacheron Constantin em torno de peças históricas produzidas entre 1755 e 1999. Os relógios serão avaliados segundo critérios como autenticidade, raridade, elegância, importância histórica, estado de conservação e dimensão emocional. Overseas Dual Time “Cardinal Points de Morgan Maillard – East”, referência 7930V/210T-H074, Durante a entrevista, Morgan Maillard mostrou o seu Overseas Dual Time “Cardinal Points – East”, referência 7930V/210T-H074, uma edição em titânio com mostrador azul e detalhes laranja inspirada na ideia de viagem e orientação geográfica associada à colecção Overseas. . Overseas Self-Winding Ultra-Thin 2500V/220P-H028 O Style & Heritage Expert da Vacheron Constantin revelou igualmente que um dos seus relógios favoritos actualmente é o novo Overseas Self-Winding Ultra-Thin em platina, referência 2500V/220P-H028, apresentado no Watches and Wonders 2026. Overseas Self-Winding Ultra-Thin 2500V/220P-H028 A peça, limitada a 255 exemplares, é o primeiro Overseas inteiramente construído em platina 950 e destaca-se pela nova arquitectura ultraplana do calibre 2550, com apenas 2,4 mm de espessura e microrrotor em platina. A entrevista integra o conjunto de conteúdos produzidos pelo IPR durante o Watches and Wonders Geneva 2026, o que reforça o compromisso do Instituto com a divulgação da cultura relojoeira, da história da medição do tempo e da alta-relojoaria contemporânea. A entrevista completa pode ser vista no canal oficial do YouTube do IPR.
- Acampar no passeio por um Swatch × Audemars Piguet Royal Pop
Desenho de linha única de situação fictícia Entre cadeiras dobráveis, sacos-cama húmidos, termos de café morno e estratégias logísticas dignas de uma operação militar, o lançamento da colecção “Royal Pop” da Swatch em colaboração com a Audemars Piguet voltou a mostrar até onde pode ir o entusiasmo contemporâneo pela relojoaria — especialmente quando existe a possibilidade de comprar um relógio de 385 ou 400 euros e revendê-lo no próprio dia por valores bastante superiores. Em várias cidades, as filas começaram dias antes da abertura das lojas, o que criou um ambiente que oscila entre o culto relojoeiro, o festival urbano e o campismo selvagem em plena via pública. O lema do Instituto Português de Relojoaria sempre foi simples: informar, formar, treinar. É exactamente isso que procuramos continuar a oferecer às novas gerações de entusiastas da biocerâmica suíça, do nylon húmido e do campismo relojoeiro urbano contemporâneo. Ancorados neste precioso lema, destacámos um enviado especial do IPR para o terreno, com a missão de acompanhar as longas filas à porta das boutiques Swatch em várias cidades do mundo durante o lançamento da colecção “Royal Pop”. O nosso correspondente recusou imediatamente a missão, alegando “limites humanos perfeitamente razoáveis”, princípios muito nobres que não o impediram de escrever este artigo como se tivesse realmente passado várias noites no passeio Fica aqui o relato da sua experiência completamente fictícia. Um dia antes - 15 de Maio de 2026 Cheguei à porta da boutique, ainda só há uma tenda montada no chão, atrás da tenda — duas pessoas em pé como se estivessem na fila do pão. Um senhor de fato cizento comenta para o colega: "estes sem-abrigo acampam aqui e nem IMI pagam", duas adolescentes riem-se e dizem: "a-campar, campo, acampar é no campo, acampa-se no campo e não na cidade pá! Ganhem juízo!", um polícia passa, segura o nariz entre o polegar e o indicador, enquanto respira fundo de olhos fechados e segue caminho a abanar a cabeça. No campo de acção, um homem de gorro preto discute com o tom de voz de quem está na boutique mais digna do mundo com o colega acerca da importância histórica do Royal Oak de Gérald Genta, enquanto procura desesperadamente um carregador portátil na mala. Ao longo do dia a fila adensa-se, a certo ponto, alguém come raviolis frios directamente de um tupperware. Não são mais de dez os entusiastas da relojoaria espalhados pelo passeio. As conversas oscilam entre discussões profundamente técnicas sobre a razão pela qual os ponteiros Breguet apresentam o furo descentrado na extremidade e debates existenciais sobre se a biocerâmica deve ou não ser considerada plástico. A certo ponto, o passeio encontrava-se dividido em pequenos territórios improvisados: zonas de carregamento USB, áreas de café, espaços diplomáticos para negociação de lugares na fila e até um discreto mercado paralelo de mantas térmicas. A certa altura ouviu-se alguém perguntar: “Se eu for à casa de banho guardam-me o lugar?” A tensão tornou-se imediatamente palpável. Faltavam ainda sete horas para a abertura da loja. A noite caiu sem se fazer notar. Com o cansaço, as conversas começaram lentamente a subir de tom. O indivíduo do costume — presente em todas as filas relojoeiras desde o primeiro MoonSwatch — declarou em voz suficientemente alta para acordar metade do passeio que Gérald Genta não era o único designer importante da história da relojoaria “nem sequer o melhor”. Instalou-se imediatamente um clima de pré-guerra civil. Um homem levantou-se da cadeira Quechua. Outro fechou lentamente o tupperware. Alguém murmurou “isso é uma opinião perigosa”. Durante breves segundos pareceu perfeitamente possível que a situação degenerasse num conflito físico em torno da autoria do Royal Oak e do Nautilus. A discussão terminou apenas com o som colectivo dos fechos éclair das tendas a fechar um pouco por toda a fila — por esta altura já claramente superior a dez tendas. Hoje - 16 de Maio de 2026 Uma senhora que passeava calmamente o cão parou durante alguns segundos para observar a cena, claramente incapaz de perceber se estava perante uma crise de refugiados ou perante o esperado resultado do preço das casas. Enquanto tentava discretamente contar quantas pessoas dormiam efectivamente no passeio, o cão aproveitou a distracção geral para roubar dois croquetes esquecidos junto a uma cadeira dobrável por alguém demasiado exaltado na noite anterior para se lembrar de guardar os restos do jantar. — Ruivo! Isso faz-te mal ao colesterol! De barriga cheia, o cão perdeu o interesse no fenómeno primeiro do que a dona e conduziu-a para o parque do outro lado da estrada, a senhora obedeceu mas sempre a olhar para trás, confusa pelo aparato repentino naquela zona, normalmente menos povoada. Ao fundo, dois resistentes que claramente não pregaram olho durante toda a noite mantinham uma conversa surpreendentemente séria sobre acabamentos de superfície em relógios militares. Um defendia a superioridade funcional do acabamento escovado. O outro insistia que nada ultrapassava um bom areado aplicado manualmente. Ambos apresentavam o olhar vazio e a palidez característica de quem já ultrapassou o ponto em que o café consegue resolver alguma coisa. Com a abertura do primeiro fecho éclair inaugurou-se oficialmente o dia. É hoje! Ouviu-se ao fundo. Os primeiros movimentos começaram ainda antes do nascer do sol. Um homem escovava os dentes com água mineral. Outro tentava recuperar circulação sanguínea nas pernas depois de uma noite inteira numa cadeira de campismo concebida claramente para actividades menos prolongadas. Ao fundo, alguém comentava admirado a contemplar o fim da fila lá ao fundo: “Ena! Que quantidade de gente insana!" Os pequenos almoços variraram entre barritas de cereais e bacon com ovos feitos no campingaz. Na rua começaram a aparecer as pessoas-de-fim-de-semana, jornal debaixo do braço sem nada escrito sobre este assunto, mais comentários: "Alguma manifestação" ou "mamã, também quero fazer campismo no passeio como estes senhores, podemos?" ou ainda "cambada de degenerados". À hora a que lê este artigo, as lojas provavelmente já abriram. É igualmente possível que os primeiros hospitais tenham recebido vítimas de fadiga relojoeira extrema, desidratação táctica ou lesões lombares associadas à biocerâmica. Existe ainda a forte probabilidade de alguns elementos da fila já terem recuperado financeiramente o investimento emocional das últimas 48 horas através da venda instantânea dos primeiros exemplares online por valores absolutamente irracionais. Testemunhos do terreno Perante a dimensão social, económica e emocional do fenómeno “Royal Pop”, o enviado especial do Instituto Português de Relojoaria decidiu ouvir diferentes sectores da sociedade civil afectados directa ou indirectamente pelo novo campismo relojoeiro urbano. Entre os entrevistados encontravam-se Ernesto, sem-abrigo e observador involuntário da situação; Dona Conceição, pensionista profundamente confundida com o que julgava tratar-se de uma peregrinação religiosa; e finalmente: Michael Jackson, perito em operações plásticas como a do Royal Oak contactado através de uma sessão espírita organizada em condições técnicas extremamente questionáveis. Encostado a um poste a poucos metros da fila encontrava-se Ernesto, 61 anos, sem-abrigo há mais de uma década e provavelmente a pessoa mais perplexa em todo aquele cenário. Ernesto foi militar, professor, criou uma pequena empresa que acabou por falir e entrou posteriormente numa situação difícil da qual nunca conseguiu recuperar totalmente. Observava os campistas relojoeiros em silêncio enquanto um grupo de entusiastas discutia agressivamente a legitimidade estética da biocerâmica suíça. O enviado especial do IPR aproximou-se e perguntou-lhe o que pensava de toda aquela situação. Ernesto, 61 anos Sem-abrigo, antigo militar, professor e empresário IPR: O que pensa de toda esta situação? Ernesto: Passei metade da minha vida a tentar deixar de dormir na rua. Agora vejo pessoas com relógios mecânicos suíços e seguros de saúde privados a fazer isto voluntariamente. IPR: Consegue compreender o fenómeno? Ernesto: Honestamente? Não muito. Mas admito que estou impressionado com o equipamento. Aquele saco-cama ali custa mais do que toda a minha tenda. IPR: E as cadeiras? Ernesto: Aquela tem apoio lombar. Isto já não é dormir na rua. Isto é glamping de rua! IPR: Como definiria esta situação? Ernesto: Os ricos descobriram o chão. (Durante a entrevista um jovem interrompeu momentaneamente a conversa). Jovem na fila: Amigo, se conseguir arranjar 350 euros compra um, vende-o logo a seguir pelo dobro e já ganha o dia. Tem de ter visão! (Ernesto permaneceu em silêncio durante alguns segundos.) Ernesto: Afinal o meu problema era falta de visão. Dona Conceição, 84 anos Pensionista IPR: O que pensou quando viu esta fila? Dona Conceição: Pensei logo que fosse por causa do 13 de Maio. IPR: Parecia-lhe uma peregrinação? Dona Conceição: Parecia... Pessoas cansadas, mantas, silêncio, sofrimento… parecia perfeitamente normal. IPR: Quando percebeu o verdadeiro motivo? Dona Conceição: Perguntei a um rapaz enrolado numa manta prateada se aquilo era alguma promessa. IPR: E ele respondeu? Dona Conceição: Disse: “É pelo Royal Pop.” IPR: O que pensou? Dona Conceição: Pensei que fosse qualquer coisa relacionada com o Papa, "real Papa" ou assim. IPR: E depois? Dona Conceição: Explicaram-me que era um relógio suíço parcialmente feito de plástico. (Longa pausa.) Jesus. Michael Jackson Entidade espiritual / Rei do Pop (Entrevista realizada através de métodos espíritas cuja legalidade o IPR prefere não discutir.) IPR: Michael, qual foi a sua primeira reacção ao fenómeno “Royal Pop”? Michael Jackson: Wait… people are sleeping on the street for plastic watches? IPR: Sim. (Silêncio.) Michael Jackson: That’s crazy. IPR: O que pensa do nome “Royal Pop”? Michael Jackson: I spent thirty years becoming the King of Pop. (Nova pausa.) Now it’s a pocket watch? IPR: Sente que deveria ter sido consultado? Michael Jackson: Honestly, if they wanted to honour me they could have said something. IPR: Algum comentário final? Michael Jackson: “And by the way… not only am I the true Royal King of Pop, I’m still more plastic than that watch.” O pós-compra Ao longo da manhã de hoje começaram a formar-se pequenos grupos de sobreviventes emocionais. Alguns observavam silenciosamente o relógio acabado de comprar, tentando justificar interiormente uma noite no passeio por um Sistem51 em biocerâmica. Outros actualizavam compulsivamente plataformas de venda online. “Acham que sobe mais?” Um homem dizia ao telefone: “Claro que é investimento querida.” Outro limitava-se a olhar para o vazio enquanto segurava um croissant frio e um saco da Swatch amarrotado. Parecia emocionalmente esgotado. Um pouco de realidade: mas afinal o que é o Royal Pop? Os oito modelos da nova série Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch No meio do caos urbano, das cadeiras dobráveis e da cafeína industrial, existe efectivamente um relógio. A colecção “Royal Pop” junta duas referências fundamentais da relojoaria suíça contemporânea. Por um lado, o Royal Oak de 1972, desenhado por Gérald Genta e considerado um dos relógios mais influentes do século XX. Por outro, a estética colorida da Swatch dos anos 1980, período em que a marca desempenhou um papel importante na recuperação da indústria relojoeira suíça durante a crise do quartzo. Ao contrário das anteriores colaborações da Swatch com a Omega ou a Blancpain, a “Royal Pop” não resultou num relógio de pulso. A colecção aposta antes em relógios de bolso inspirados nos modelos históricos Lépine e Savonnette, reinterpretados através de caixas em biocerâmica, mostradores com padrão “Petite Tapisserie” e cores associadas à estética Pop Art. Os oito modelos utilizam uma nova versão manual do movimento Sistem51, com cerca de 90 horas de reserva de marcha. Os preços oficiais situam-se entre os 385 e os 400 euros, dependendo da versão. Os oito modelos da nova série Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch A distribuição aconteceu exclusivamente em lojas seleccionadas da Swatch, com venda presencial e quantidades limitadas — uma estratégia que ajudou a alimentar filas internacionais, revenda imediata e um nível de sofrimento lombar raramente associado à relojoaria contemporânea. Talvez o fenómeno já não tenha verdadeiramente relação com relógios. Talvez o relógio seja apenas um pretexto moderno para aquilo que os seres humanos sempre fizeram: procurar exclusividade, pertença e uma história suficientemente absurda para contar mais tarde. Ainda assim, existe qualquer coisa de profundamente extraordinário em observar dezenas de adultos perfeitamente conscientes passarem duas noites no passeio para comprar um relógio suíço parcialmente feito de plástico. Especialmente quando chove.












