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José Campos - entrevista

Atualizado: 25 de jul. de 2022


José Campos é um grande coleccionador de relógios de parede, pé alto e mesa, começou por juntar um grande número de relógios mais pelo prazer do restauro. Nos últimos anos tem-se dedicado à pesquisa e investigação sobre as suas peças preferidas. Foi uma grande honra, por parte do IPR, conhecer esta colecção impressionante que conta com relógios incríveis de 1700 à actualidade.

Qual foi o seu primeiro relógio?

Foi um relógio de ponto que estava numa casa que comprei. Estava pintado de amarelo canário. Agora está com a madeira original à vista, completamente restaurado e ainda pica o ponto. Só tem um problema, a fita que corre sempre que se pica o ponto, está a ficar sem tinta. A fita é metade preta, metade encarnada, se se entrava a horas picava no preto, se não, no encarnado. Até o mostrador foi restaurado.


Relógio de Ponto

Como começou esta ideia dos restauros?

Olhe comecei por comprá-los para arranjar. Arranjava a máquina, arranjava a caixa. Fui-me entusiasmando e fui fazendo o que está aqui nesta sala.


São todos relógios de parede, pé alto ou de mesa. Sabe quantos são?

Entre os que tenho nesta sala, os que estão na oficina e na minha casa, devem ser à volta de 300.


Estão todos a trabalhar, é um som muito marcante.

Sim. Dou corda a todos, mas não à música. Havia um senhor, estava reformado, era jornalista, que me pedia para vir para aqui ler.


Os restauros das caixas estão muito bem feitos.

Tenho uma loja de molduras, e até os clientes da loja me pedem para lhes restaurar os relógios. Sabe que eu faço tudo à moda antiga. Uso goma laca, não uso verniz. Não ponho químicos estranhos. A única coisa é que colo com cola de madeira, não estou para fazer a minha própria cola. E olhe que a cola que uso custa uma fortuna. Por exemplo tenho ali um que tem uma talha dourada que estava toda negra. Agora tenho de o limpar.



E usa máquinas?

Faço tudo à mão. Por exemplo, este tem uns dizeres que estão escritos a dourado, faço com uma técnica que partilho com toda a gente. Basta sujar tudo com o material, limpar com um pano, e os sulcos ficam pintados.


Dedica-se mais às caixas ou aos mecanismos?

Trato de alguns mecanismos mas quando são muito complicados, não arrisco. Quando trabalhava aqui perto um relojoeiro, eu desmanchava-os, depois quando os montava e não trabalhavam lá ia eu. Ele dizia-me “já te ensinei isto, tens de aprender a lição”, “é ali”, “é aqui”. Ele é que me deu umas lições.


Como se chama o relojoeiro?

Cunha, da relojoaria Cunha. Uma vez tentou-me explicar os cálculos para saber o comprimento e a medida do pêndulo. Ficou de me enviar os apontamentos mas nunca enviou. O problema é que sabe tudo de cabeça. Sabe que aquele tem 30 e tal dentes, o outro 20 e tal. Também tenho aprendido muito na net. Assim dou a volta a muitos problemas.


Sempre se dedicou a actvidades manuais?

Tenho este problema na perna e quando era mais novo diziam-me que tinha de ir para um escritório, era a única saída. Nunca lá meti os pés, fujo de papéis como o diabo da cruz. Acabei por ser encaminhado para o curso de comércio. Mas nunca lá cheguei, há 68 anos fui operado três vezes seguidas, como experiência. Acabei por perder 3 anos seguidos e na altura sempre que se perdia um ano tinha de se pedir autorização ao Ministro Veiga Simão para nos inscrevermos outra vez. Conclusão, quando voltei perdi o ABC do inglês e do francês. E fui sempre um coxo a línguas. O que me traz dificuldades em algumas traduções sobre relojoaria. Enfim, quando voltei já tinha 14 ou 15 e estava com miúdos de 12. Acabei por me inscrever à noite. Às tantas comecei a trabalhar com o meu pai e a namorar. Como a escola da minha mulher era mesmo por trás da lapidação de diamantes, arranjei emprego por lá. Como já tinha conhecimento de lapidação de vidro fui logo admitido. Entrei como aprendiz, durante 3 meses, depois um ano de avaliação. Ao fim de um ano se se cumprissem os requisitos entrava-se na carreira. Ainda lá estive 12 anos.

E qual foi o diamante mais importante que lhe passou pelas mãos?

Foi um que tinha o tamanho de um botão de camisa e valia quase 30 000 contos. Era muito puro! Trabalhei com pedras grandes e pequenas e encontrei mais camaradagem nas pequenas. Depois tive de tomar conta do negócio de família que era uma vidraria. Até acabei por me dedicar à vela, mas como passatempo.


Então como é que isso aconteceu?

Olhe disseram-me que tinha de fazer um desporto, eu disse que gostava de nadar e acabei até por nadar no Algés. Às tantas meti-me nos barcos à vela, fui trocando por outros cada vez maiores e acabei por comprar um muito grande, em sociedade, com um amigo meu e fomos ao Brazil. E até tenho um tissot da comemoração dos 500 anos.


E os relógios que tem aqui como é que os organiza?

Estou agora a começar a classificar pelas datas, pelo país de origem e pelo relojoeiro. Ainda agora encontrei ali aquele Etienne - Le Noir. No início da minha pesquisa, só encontrava referência ao pai. Diziam que era cego. Mas entretanto descobri que ele se juntou com o filho e faziam relógios para a alta sociedade. E eu tenho um. Este é para mim um dos mais bonitos. Deve ser do ano 1700. Também tenho aquele de pé alto de 1760. Ontem partiu-se a única corda original que ele tinha que era de pele de porco. Também tenho este com um autómato que representa a lenda do rei Salomão.


Qual é o seu preferido?

Gosto de todos. Tenho uns com mais história que outros.

Este tem o número de série limado, é um relógio nazi. Tenho aqui outro com um pêndulo de mercúrio, ainda tem mercúrio, dura 8 dias.



E quais acha que são mais complicados?

Para mim são os austríacos. Têm gongos diferentes, são uma complicação. Quanto mais campainhas e gongos tiver mais complicados me parecem. Aqui ao lado tem a sua oficina onde faz alguns arranjos. Faço umas suspensões, cravo, descravo, martelo os dedos.




Muito obrigado pela visita e pela boa conversa!

Ainda bem que gostou, faço tudo com muito gosto.



 

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