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Acampar no passeio por um Swatch × Audemars Piguet Royal Pop

Desenho de linha única de situação fictícia
Desenho de linha única de situação fictícia

Entre cadeiras dobráveis, sacos-cama húmidos, termos de café morno e estratégias logísticas dignas de uma operação militar, o lançamento da colecção “Royal Pop” da Swatch em colaboração com a Audemars Piguet voltou a mostrar até onde pode ir o entusiasmo contemporâneo pela relojoaria — especialmente quando existe a possibilidade de comprar um relógio de 385 ou 400 euros e revendê-lo no próprio dia por valores bastante superiores. Em várias cidades, as filas começaram dias antes da abertura das lojas, o que criou um ambiente que oscila entre o culto relojoeiro, o festival urbano e o campismo selvagem em plena via pública.


O lema do Instituto Português de Relojoaria sempre foi simples: informar, formar, treinar. É exactamente isso que procuramos continuar a oferecer às novas gerações de entusiastas da biocerâmica suíça, do nylon húmido e do campismo relojoeiro urbano contemporâneo. Ancorados neste precioso lema, destacámos um enviado especial do IPR para o terreno, com a missão de acompanhar as longas filas à porta das boutiques Swatch em várias cidades do mundo durante o lançamento da colecção “Royal Pop”.

O nosso correspondente recusou imediatamente a missão, alegando “limites humanos perfeitamente razoáveis”, princípios muito nobres que não o impediram de escrever este artigo como se tivesse realmente passado várias noites no passeio

Fica aqui o relato da sua experiência completamente fictícia.


Um dia antes - 15 de Maio de 2026


Cheguei à porta da boutique, ainda só há uma tenda montada no chão, atrás da tenda — duas pessoas em pé como se estivessem na fila do pão. Um senhor de fato cizento comenta para o colega: "estes sem-abrigo acampam aqui e nem IMI pagam", duas adolescentes riem-se e dizem: "a-campar, campo, acampar é no campo, acampa-se no campo e não na cidade pá! Ganhem juízo!", um polícia passa, segura o nariz entre o polegar e o indicador, enquanto respira fundo de olhos fechados e segue caminho a abanar a cabeça.


No campo de acção, um homem de gorro preto discute com o tom de voz de quem está na boutique mais digna do mundo com o colega acerca da importância histórica do Royal Oak de Gérald Genta, enquanto procura desesperadamente um carregador portátil na mala. Ao longo do dia a fila adensa-se, a certo ponto, alguém come raviolis frios directamente de um tupperware.


Não são mais de dez os entusiastas da relojoaria espalhados pelo passeio. As conversas oscilam entre discussões profundamente técnicas sobre a razão pela qual os ponteiros Breguet apresentam o furo descentrado na extremidade e debates existenciais sobre se a biocerâmica deve ou não ser considerada plástico.


A certo ponto, o passeio encontrava-se dividido em pequenos territórios improvisados: zonas de carregamento USB, áreas de café, espaços diplomáticos para negociação de lugares na fila e até um discreto mercado paralelo de mantas térmicas. A certa altura ouviu-se alguém perguntar:

“Se eu for à casa de banho guardam-me o lugar?”

A tensão tornou-se imediatamente palpável.


Faltavam ainda sete horas para a abertura da loja.


A noite caiu sem se fazer notar. Com o cansaço, as conversas começaram lentamente a subir de tom. O indivíduo do costume — presente em todas as filas relojoeiras desde o primeiro MoonSwatch — declarou em voz suficientemente alta para acordar metade do passeio que Gérald Genta não era o único designer importante da história da relojoaria “nem sequer o melhor”.


Instalou-se imediatamente um clima de pré-guerra civil.


Um homem levantou-se da cadeira Quechua. Outro fechou lentamente o tupperware. Alguém murmurou “isso é uma opinião perigosa”. Durante breves segundos pareceu perfeitamente possível que a situação degenerasse num conflito físico em torno da autoria do Royal Oak e do Nautilus.


A discussão terminou apenas com o som colectivo dos fechos éclair das tendas a fechar um pouco por toda a fila — por esta altura já claramente superior a dez tendas.


Hoje - 16 de Maio de 2026


Uma senhora que passeava calmamente o cão parou durante alguns segundos para observar a cena, claramente incapaz de perceber se estava perante uma crise de refugiados ou perante o esperado resultado do preço das casas. Enquanto tentava discretamente contar quantas pessoas dormiam efectivamente no passeio, o cão aproveitou a distracção geral para roubar dois croquetes esquecidos junto a uma cadeira dobrável por alguém demasiado exaltado na noite anterior para se lembrar de guardar os restos do jantar.


— Ruivo! Isso faz-te mal ao colesterol!


De barriga cheia, o cão perdeu o interesse no fenómeno primeiro do que a dona e conduziu-a para o parque do outro lado da estrada, a senhora obedeceu mas sempre a olhar para trás, confusa pelo aparato repentino naquela zona, normalmente menos povoada.


Ao fundo, dois resistentes que claramente não pregaram olho durante toda a noite mantinham uma conversa surpreendentemente séria sobre acabamentos de superfície em relógios militares. Um defendia a superioridade funcional do acabamento escovado. O outro insistia que nada ultrapassava um bom areado aplicado manualmente. Ambos apresentavam o olhar vazio e a palidez característica de quem já ultrapassou o ponto em que o café consegue resolver alguma coisa.

Com a abertura do primeiro fecho éclair inaugurou-se oficialmente o dia. É hoje! Ouviu-se ao fundo.

Os primeiros movimentos começaram ainda antes do nascer do sol. Um homem escovava os dentes com água mineral. Outro tentava recuperar circulação sanguínea nas pernas depois de uma noite inteira numa cadeira de campismo concebida claramente para actividades menos prolongadas. Ao fundo, alguém comentava admirado a contemplar o fim da fila lá ao fundo:

“Ena! Que quantidade de gente insana!"

Os pequenos almoços variraram entre barritas de cereais e bacon com ovos feitos no campingaz. Na rua começaram a aparecer as pessoas-de-fim-de-semana, jornal debaixo do braço sem nada escrito sobre este assunto, mais comentários:


"Alguma manifestação" ou "mamã, também quero fazer campismo no passeio como estes senhores, podemos?" ou ainda "cambada de degenerados".


À hora a que lê este artigo, as lojas provavelmente já abriram. É igualmente possível que os primeiros hospitais tenham recebido vítimas de fadiga relojoeira extrema, desidratação táctica ou lesões lombares associadas à biocerâmica. Existe ainda a forte probabilidade de alguns elementos da fila já terem recuperado financeiramente o investimento emocional das últimas 48 horas através da venda instantânea dos primeiros exemplares online por valores absolutamente irracionais.


Testemunhos do terreno


Perante a dimensão social, económica e emocional do fenómeno “Royal Pop”, o enviado especial do Instituto Português de Relojoaria decidiu ouvir diferentes sectores da sociedade civil afectados directa ou indirectamente pelo novo campismo relojoeiro urbano. Entre os entrevistados encontravam-se Ernesto, sem-abrigo e observador involuntário da situação; Dona Conceição, pensionista profundamente confundida com o que julgava tratar-se de uma peregrinação religiosa; e finalmente:

Michael Jackson, perito em operações plásticas como a do Royal Oak contactado através de uma sessão espírita organizada em condições técnicas extremamente questionáveis.

Encostado a um poste a poucos metros da fila encontrava-se Ernesto, 61 anos, sem-abrigo há mais de uma década e provavelmente a pessoa mais perplexa em todo aquele cenário. Ernesto foi militar, professor, criou uma pequena empresa que acabou por falir e entrou posteriormente numa situação difícil da qual nunca conseguiu recuperar totalmente. Observava os campistas relojoeiros em silêncio enquanto um grupo de entusiastas discutia agressivamente a legitimidade estética da biocerâmica suíça.


O enviado especial do IPR aproximou-se e perguntou-lhe o que pensava de toda aquela situação.


Ernesto, 61 anos

Sem-abrigo, antigo militar, professor e empresário


IPR: O que pensa de toda esta situação?

Ernesto: Passei metade da minha vida a tentar deixar de dormir na rua. Agora vejo pessoas com relógios mecânicos suíços e seguros de saúde privados a fazer isto voluntariamente.


IPR: Consegue compreender o fenómeno?

Ernesto: Honestamente? Não muito. Mas admito que estou impressionado com o equipamento. Aquele saco-cama ali custa mais do que toda a minha tenda.


IPR: E as cadeiras?

Ernesto: Aquela tem apoio lombar. Isto já não é dormir na rua. Isto é glamping de rua!


IPR: Como definiria esta situação?

Ernesto: Os ricos descobriram o chão.

(Durante a entrevista um jovem interrompeu momentaneamente a conversa).


Jovem na fila: Amigo, se conseguir arranjar 350 euros compra um, vende-o logo a seguir pelo dobro e já ganha o dia. Tem de ter visão!


(Ernesto permaneceu em silêncio durante alguns segundos.)


Ernesto: Afinal o meu problema era falta de visão.


Dona Conceição, 84 anos

Pensionista


IPR: O que pensou quando viu esta fila?

Dona Conceição: Pensei logo que fosse por causa do 13 de Maio.


IPR: Parecia-lhe uma peregrinação?

Dona Conceição: Parecia... Pessoas cansadas, mantas, silêncio, sofrimento… parecia perfeitamente normal.


IPR: Quando percebeu o verdadeiro motivo?

Dona Conceição: Perguntei a um rapaz enrolado numa manta prateada se aquilo era alguma promessa.


IPR: E ele respondeu?

Dona Conceição: Disse: “É pelo Royal Pop.”


IPR: O que pensou?

Dona Conceição: Pensei que fosse qualquer coisa relacionada com o Papa, "real Papa" ou assim.


IPR: E depois?

Dona Conceição: Explicaram-me que era um relógio suíço parcialmente feito de plástico.


(Longa pausa.)


Jesus.


Michael Jackson

Entidade espiritual / Rei do Pop

(Entrevista realizada através de métodos espíritas cuja legalidade o IPR prefere não discutir.)


IPR: Michael, qual foi a sua primeira reacção ao fenómeno “Royal Pop”?

Michael Jackson: Wait… people are sleeping on the street for plastic watches?


IPR: Sim.


(Silêncio.)


Michael Jackson: That’s crazy.

IPR: O que pensa do nome “Royal Pop”?


Michael Jackson: I spent thirty years becoming the King of Pop.


(Nova pausa.)


Now it’s a pocket watch?


IPR: Sente que deveria ter sido consultado?

Michael Jackson: Honestly, if they wanted to honour me they could have said something.


IPR: Algum comentário final?

Michael Jackson: “And by the way… not only am I the true Royal King of Pop, I’m still more plastic than that watch.”


O pós-compra


Ao longo da manhã de hoje começaram a formar-se pequenos grupos de sobreviventes emocionais.


Alguns observavam silenciosamente o relógio acabado de comprar, tentando justificar interiormente uma noite no passeio por um Sistem51 em biocerâmica.


Outros actualizavam compulsivamente plataformas de venda online.

“Acham que sobe mais?”

Um homem dizia ao telefone:

“Claro que é investimento querida.”

Outro limitava-se a olhar para o vazio enquanto segurava um croissant frio e um saco da Swatch amarrotado.


Parecia emocionalmente esgotado.



Um pouco de realidade: mas afinal o que é o Royal Pop?



Os oito modelos da nova série Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch
Os oito modelos da nova série Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch

No meio do caos urbano, das cadeiras dobráveis e da cafeína industrial, existe efectivamente um relógio.


A colecção “Royal Pop” junta duas referências fundamentais da relojoaria suíça contemporânea. Por um lado, o Royal Oak de 1972, desenhado por Gérald Genta e considerado um dos relógios mais influentes do século XX. Por outro, a estética colorida da Swatch dos anos 1980, período em que a marca desempenhou um papel importante na recuperação da indústria relojoeira suíça durante a crise do quartzo.


Ao contrário das anteriores colaborações da Swatch com a Omega ou a Blancpain, a “Royal Pop” não resultou num relógio de pulso. A colecção aposta antes em relógios de bolso inspirados nos modelos históricos Lépine e Savonnette, reinterpretados através de caixas em biocerâmica, mostradores com padrão “Petite Tapisserie” e cores associadas à estética Pop Art.


Os oito modelos utilizam uma nova versão manual do movimento Sistem51, com cerca de 90 horas de reserva de marcha. Os preços oficiais situam-se entre os 385 e os 400 euros, dependendo da versão.


Os oito modelos da nova série Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch


A distribuição aconteceu exclusivamente em lojas seleccionadas da Swatch, com venda presencial e quantidades limitadas — uma estratégia que ajudou a alimentar filas internacionais, revenda imediata e um nível de sofrimento lombar raramente associado à relojoaria contemporânea.


Talvez o fenómeno já não tenha verdadeiramente relação com relógios.


Talvez o relógio seja apenas um pretexto moderno para aquilo que os seres humanos sempre fizeram: procurar exclusividade, pertença e uma história suficientemente absurda para contar mais tarde.


Ainda assim, existe qualquer coisa de profundamente extraordinário em observar dezenas de adultos perfeitamente conscientes passarem duas noites no passeio para comprar um relógio suíço parcialmente feito de plástico.


Especialmente quando chove.



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