As Inesperadas Ligações Entre Pontes e Relógios

A minha tentativa de “fazer a ponte” entre a relojoaria e a engenharia civil

© Nicolas Lysandrou

Pontes emblemáticas como a Golden Gate, Tower Bridge e Vasco da Gama representam a combinação perfeita entre engenharia, função e design, chegando mesmo a ser conhecidas como Obras de Arte na área da construção.


Esta combinação de requisitos pode também ser aplicada aos relógios que, apesar de serem considerados por muitos como um objeto supérfluo nos dias que correm, continuam a ser autênticos símbolos de engenho e criatividade.


A dualidade entre relógios e engenharia estende-se para o meu dia-a-dia: Apesar de me ter formado em engenharia civil e ser a profissão que exerço, o meu tempo livre é passado a aprender mais sobre a história da contagem do tempo e o funcionamento destes pequenos objetos de pulso.


Este artigo é o resultado de algumas das coincidências entre os mundos da Engenharia Civil e da Relojoaria com que me fui cruzando ao longo do meu percurso.



Sem pontes, não haveria relógios de pulso

O Século XVIII foi um período de elevada criatividade e desenvolvimento técnico na área dos relógios de bolso.


Na época, estes objetos assumidamente de luxo eram produzidos à mão utilizando metais preciosos a pedido da realeza e da burguesia. A sua precisão era questionável, resultado da concepção dos movimentos e do tipo de escape o órgão regulador do relógio) utilizado. Os componentes eram dispostos em planos separados, unidos entre si através de colunas e utilizavam complexos fusos e minúsculas correntes ara regular o nível de tensão no relógio, o que resultava em relógios volumosos e espessos.


Um dos relojoeiros do Século XVIII responsável pela mudança no paradigma da contagem do tempo foi Jean-Antoine Lépine que, por volta de 1770, apresentou um novo método construtivo para os calibres de relógio de bolso.

O balanço “suspenso” na sua ponte, presa por parafusos azuis (Foto: Nomos)

As inovações de Lépine mereceram-lhe os títulos de maître horloger (mestre relojoeiro) e de Horloger du Roi (relojoeiro do Rei) e influenciaram os seus contemporâneos (dos quais se destaca um dos seus discípulos, Abraham Louis Breguet), bem como as gerações que o sucederam.

O Breguet Tradition 7097 e as suas pontes expostas no mostrador (Foto: Breguet)

O uso de pontes nos movimentos foi fundamental para o desenvolvimento de relógios suficientemente pequenos e robustos para serem utilizados no pulso.


Com o passar dos séculos, os materiais e técnicas construtivas evoluíram significativamente, mas os princípios de construção de movimentos com recurso a pontes permanecem prática corrente nos dias de hoje.


Apesar do uso de pontes nos movimentos ser generalizado nos dias que correm, tal não impede certas marcas de inovar o conceito — desde o Corum Golden Bridge com todos os seus componentes inseridos numa só ponte, aos maravilhosos balanços flutuantes dos MB&F, o que não falta é espaço para a criatividade!


Alguns relógios têm pontes no mostrador

Enquanto algumas marcas utilizam as pontes do movimento como decoração, outras abordam o tema no sentido mais literal, ao incluirem pontes em miniatura no próprio mostrador!


Um dos meus exemplos favoritos é o Pont des Amoureux da Van Cleef & Arpels, integrado na sua linha de “complicações poéticas”.


Foto: Van Cleef & Arpels

Neste relógio, os ponteiros retrógrados assumem a forma de um casal que se vai aproximando ao longo do dia, beijando-se à luz do luar a cada doze horas (no site da marca é possível ver uma animação do seu funcionamento).


Para os mais impacientes, o modelo mais recente inclui um botão adicional às 8 horas, que quando acionado permite a aproximação instantânea do casal à vontade do utilizador — tecnicamente impressionante, se bem que um pouco voyeurístico!


Segundo a marca, a inspiração para o mostrador teve origem em Paris, considerada por muitos uma das cidades mais românticas do mundo. Com alguma imaginação, a ponte esculpida no mostrador remete-me para a Pont des Arts, com a sua elegante estrutura metálica.


Por outro lado, o seu preço base de 122 000 euros é a prova que o amor por vezes pode sair caro.


A Rolex fez (literalmente) uma ponte

Como é praticamente impossível escrever um artigo de relógios sem mencionar a Rolex, a terceira curiosidade é dedicada à marca da coroa.


Apesar da Rolex produzir milhões de pequenas pontes por ano para equipar os seus movimentos de manufactura, há uma das suas criações que se destaca na paisagem de Genebra.


A história começa em 1945, quando Hans Wilsdorf, célebre criador da Rolex e da Tudor, estabelece uma Fundação homónima sem fins lucrativos dedicada a causas sociais como o Ambiente, Ciência e Artes.


Atualmente, a Rolex mantém-se sob a alçada da fundação e apesar de produzir centenas de milhar (talvez milhões) de relógios por ano, esta conservadora empresa não divulga publicamente os seu resultados e não tem acionistas a quem prestar contas ou distribuir lucros.

Foto: Patrick Nouhailler via Flickr

A Ponte Hans Wilsdorf foi inaugurada em 2012 e constituiu uma oferta da Fundação a Genebra, cidade sede da Rolex. Esta ponte de vão único, com 85 metros de comprimento, facilita o acesso à fábrica da marca genebrina, através das suas duas vias rodoviárias, duas ciclovias e passagens pedonais nas extremidades.


Inspirada nos relógios da marca, a sua estrutura espacial é uma variante das habituais treliças utilizadas em pontes, composta por elementos metálicos elípticos entrelaçados e dispostos simetricamente ao longo da estrutura.


Há pontes que dão as horas

As pontes são das construções que permitem maior criatividade, existindo sempre variadas formas de fazer a passagem entre A e B. A Sundial Bridge, localizada na Califórnia, é um exemplo perfeito desta procura de soluções inesperadas para resolver o simples problema de atravessar um rio.


Um dos desafios associados à construção desta ponte pedonal situada no interior de um parque natural era minimizar seu o impacto ambiental, protegendo os habitats do rio.

Sundial Bridge (Foto: Turtle Bay Exploration Park)

O projetista escolhido para o desafio foi Santiago Calatrava, arquiteto Espanhol cujas (controversas) criações parecem desafiar as leis da gravidade. A sua solução dispensou a construção de pilares no leito do rio, ao suportar o tabuleiro da ponte com tirantes fixos a uma torre inclinada, construída na margem Norte.


Para além de resistir às cargas da ponte, a geometria e orientação da torre foi pensada de forma a criar um dos maiores relógios solares do mundo — à medida que o sol atravessa o céu, a sombra projetada pela torre indica a hora nas marcações do jardim situado a norte.



É possível comprar relógios numa ponte

Para os verdadeiros fãs de relojoaria, pontes e história, há um lugar em Itália que proporciona a experiência completa — a Ponte Vecchio, no centro de Florença, um dos locais de destaque desta belíssima e rica cidade.


O primeiro atravessamento do rio Arno nesta localização foi feito pelos Romanos, sendo substituída pela versão atual da ponte durante a Idade Média, que cruza o rio através de três arcos de pedra.


Foto por Ali Nuredini via Unsplash

Mais tarde, a ponte passou a suportar uma parte do Corredor Vasari, uma galeria (não muito) secreta que permitia aos Medici deslocarem-se pela cidade fora de perigos e das atenções da população.


Devido ao seu largo tabuleiro e proximidade ao rio, foi inicialmente ocupada pelos talhantes, peixeiros e curtidores de peles da cidade, pela facilidade de se livrarem dos seus restos ao atirá-los para o rio.


Contudo, a sujidade e o cheiro destas lojas afetavam a saúde e o bem estar dos que a atravessavam, o que em 1593 levou Ferdinando de Medici a decretar que a ponte só poderia ser ocupada por ourives e joalheiros, decisão que ainda hoje perdura.


Atualmente, a ponte alberga boutiques da Rolex e da Audemars Piguet, bem como retalhistas de outras marcas de alta relojoaria.


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