Marcas portuguesas activas
- Nuno Margalha

- 27 de jun.
- 7 min de leitura

Hoje é tempo de presente. Depois de uma breve viagem pela história da relojoaria portuguesa, é altura de olhar para a realidade atual. Quem são os relojoeiros, as marcas, os projetos e as instituições que, nos dias de hoje, mantêm viva esta tradição e contribuem para o desenvolvimento da relojoaria em Portugal?
Entre as marcas portuguesas actualmente activas encontram-se a Reguladora, Prometheus, Borealis, Bruno Moreira, Meia Lua, Eximio, Contar, One, Celsus, Eugénio Campos, Monserrate, Museu do Relógio, Twobrothers, Febres, Les Tugas do IPR – Instituto Português de Relojoaria, e outras estruturas contemporâneas ligadas à micro-relojoaria, ao design, à relojoaria independente ou à joalharia.
Estas marcas partilham geralmente características comuns: produção limitada, forte presença digital, utilização de fornecedores internacionais e uma identidade construída sobretudo através do design, da comunicação, da direcção criativa e, em alguns casos, da própria ligação à cultura relojoeira portuguesa.
Marcas propriedade de portugueses, sediadas no estrangeiro
Existe ainda um grupo particularmente interessante de marcas que, embora juridicamente estrangeiras, mantêm fortes ligações portuguesas através dos seus fundadores, identidade cultural ou inspiração conceptual.
O exemplo mais evidente é a Isotope, fundada pelo português José Mendes Miranda e sediada no Reino Unido. Apesar de ser uma marca britânica do ponto de vista legal e operacional, a Isotope incorpora frequentemente referências portuguesas nas suas edições e comunicação, tornando-se um caso emblemático da globalização da relojoaria contemporânea.
Num contexto semelhante surge também a Escudo, criada por Simon Correia e Richard Johnson. Embora apresente uma estrutura internacional, a marca utiliza uma forte inspiração ligada à história marítima portuguesa e à estética dos instrumentos náuticos associados aos Descobrimentos.
Pode igualmente incluir-se neste grupo a Monserrate, marca associada ao português João Ramalhete e desenvolvida fora de Portugal, mas profundamente marcada por referências culturais portuguesas. O próprio nome remete imediatamente para o Palácio de Monserrate, em Sintra, o que reforça a ligação identitária ao património histórico e artístico português.
Estas marcas demonstram como a relojoaria contemporânea tornou cada vez mais difusa a relação entre identidade nacional, local de fabrico e sede legal. Um relógio pode ser concebido por um fundador português, desenhado em Londres, utilizar um movimento suíço, ser fabricado na Ásia e ainda assim manter uma identidade cultural portuguesa.
De certa forma, estes projectos representam uma continuação moderna da própria história da relojoaria portuguesa: uma realidade profundamente internacional, construída através de cruzamentos constantes entre comércio, técnica, design e identidade cultural.
Bruno Moreira e os acabamentos manuais em Portugal
Entre os projectos contemporâneos mais relevantes da relojoaria portuguesa encontra-se o trabalho de Bruno Moreira, cuja abordagem ocupa um lugar muito particular dentro do panorama nacional.
Num contexto em que a maioria das micro-marcas portuguesas depende de componentes industriais praticamente finalizados no estrangeiro, Bruno Moreira destaca-se pela realização de acabamentos manuais e decoração mecânica executados em Portugal, por si próprio, o que o aproxima mais da tradição clássica da relojoaria independente europeia do que da lógica habitual das micro-marcas contemporâneas.
O seu trabalho desenvolve-se em escala reduzida, com produção de poucas unidades, por forma a conseguir um nível de atenção individual praticamente impossível em produção industrial. Entre os aspectos mais relevantes encontra-se precisamente a decoração manual dos próprios movimentos — uma prática historicamente associada à alta relojoaria suíça e praticamente inexistente em Portugal enquanto actividade autoral contemporânea estruturada.
Neste caso, o relógio deixa de ser apenas um objecto montado a partir de componentes externos e passa a incorporar trabalho manual especializado directamente aplicado sobre os elementos mecânicos. Acabamentos, decoração, tratamento de superfícies e atenção ao detalhe tornam-se parte integrante da identidade do relógio.
Este tipo de intervenção representa o surgimento de competências tradicionalmente ausentes da relojoaria portuguesa contemporânea. Durante décadas, Portugal participou sobretudo na montagem, comercialização ou assistência técnica de relógios estrangeiros, mas raramente no domínio da decoração mecânica artesanal associada à relojoaria fina.
O trabalho de Bruno Moreira demonstra, por isso, uma mudança importante: começam finalmente a surgir em Portugal projectos independentes capazes de executar localmente operações tradicionalmente reservadas às oficinas especializadas da alta relojoaria europeia.
Nesse sentido, Bruno Moreira representa talvez um dos sinais mais claros do surgimento de uma verdadeira relojoaria independente portuguesa contemporânea.
Bernardo d’Orey e a relojoaria como objecto artístico

Entre os projectos mais particulares da relojoaria portuguesa contemporânea encontra-se o trabalho de Bernardo d’Orey, cuja abordagem se centra sobretudo na criação de mostradores de relógios conceptuais em pequena escala.
O seu trabalho aproxima-se frequentemente mais do design industrial e da experimentação estética do que da relojoaria tradicional no sentido clássico. Procura criar peças com identidade própria em vez de simplesmente reproduzir códigos já existentes.
Num contexto em que a relojoaria portuguesa sempre esteve muito ligada à reparação, montagem ou comercialização, este tipo de abordagem representa algo relativamente novo: a utilização do relógio como espaço de criação autoral e experimentação visual.
Tal como outros projectos independentes portugueses, o trabalho desenvolve-se em escala reduzida, o que permtite maior liberdade criativa e maior proximidade entre o criador e o objecto final.
Bernardo d’Orey representa uma das faces mais experimentais da nova relojoaria portuguesa contemporânea.
Les Tugas — uma nova abordagem à construção nacional
Les Tugas: www.lestugas.pt
O projecto Les Tugas, desenvolvido pelo IPR, representa um caso particularmente interessante dentro da relojoaria portuguesa contemporânea. Ao contrário da maioria das micro-marcas actuais, cuja produção depende quase integralmente de fornecedores estrangeiros, o Les Tugas procurou incorporar uma componente significativa de construção e transformação nacional.
Embora utilize uma base mecânica internacional, o projecto distingue-se pelo esforço deliberado de integrar produção portuguesa em diversas etapas fundamentais do relógio.
A caixa em aço foi produzida em Lisboa; o mostrador igualmente fabricado em Lisboa; a lapidação do vidro realizada em Salvaterra de Magos; a correia produzida em Gião; o polimento efectuado na zona do Porto; e a caixa de transporte concebida e fabricada também em Lisboa.
Esta abordagem procura recuperar uma ideia praticamente desaparecida da relojoaria portuguesa: a possibilidade de construir localmente componentes especializados através da colaboração entre pequenas oficinas, artesãos, técnicos e estruturas industriais nacionais.
Nesse sentido, o Les Tugas diferencia-se claramente da maioria das micro-marcas contemporâneas portuguesas. Não pretende apenas criar uma marca portuguesa, mas também reconstruir parcialmente uma cadeia de produção nacional, ainda que em escala reduzida.
Talvez esse seja precisamente um dos aspectos mais interessantes do projecto: não a tentativa de competir directamente com grandes manufacturas internacionais, mas a demonstração de que é cada vez mais possível mobilizar conhecimento técnico português para produzir componentes relojoeiros especializados dentro do próprio país.
De certa forma, o Les Tugas aproxima-se mais do espírito das antigas oficinas e manufacturas portuguesas do século XX do que da lógica habitual das micro-marcas contemporâneas.
Tempo Futuro — o surgimento de uma nova relojoaria portuguesa

Durante grande parte do século XX, a relojoaria portuguesa sobreviveu sobretudo através da reparação, da montagem, da distribuição e da adaptação de relógios estrangeiros ao mercado nacional. Mesmo nos momentos de maior vitalidade industrial, Portugal nunca desenvolveu uma manufactura comparável às grandes estruturas suíças, francesas ou alemãs.
Contudo, talvez seja precisamente essa ausência de tradição industrial pesada que torna particularmente interessante aquilo que começa hoje a surgir.
Nos últimos anos, tem-se assistido ao aparecimento de uma nova geração de projectos portugueses ligados à relojoaria: micro-marcas independentes, oficinas especializadas, relojoeiros autorais, iniciativas pedagógicas e pequenos núcleos de produção técnica que procuram construir algo diferente da simples revenda ou personalização de relógios estrangeiros. É neste contexto que surge o conceito de Tempo Futuro.
O Tempo Futuro representa uma mudança de paradigma na relojoaria portuguesa contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, começam a surgir em Portugal iniciativas que procuram não apenas comercializar relógios, mas também desenvolver competências técnicas locais, acabamentos manuais, construção parcial de componentes, restauro especializado e transmissão estruturada de conhecimento relojoeiro.
Projectos como Bruno Moreira, Les Tugas do IPR, Monserrate, Meia Lua, Eximio, Prometheus, Borealis ou Contar demonstram abordagens muito diferentes entre si, mas partilham um elemento comum: a tentativa de construir identidade própria num país historicamente periférico à grande indústria relojoeira.
Em alguns casos essa identidade surge através do design; noutros através da recuperação de referências culturais portuguesas; noutros ainda através da experimentação técnica, da decoração manual ou da tentativa de reconstruir pequenas cadeias nacionais de produção.
Talvez o aspecto mais interessante deste Tempo Futuro seja precisamente o facto de não procurar copiar directamente a relojoaria suíça. A escala é diferente, os recursos são diferentes e a própria realidade histórica portuguesa é diferente. Em vez de competir através da industrialização massiva, muitos destes projectos aproximam-se mais da lógica artesanal, da pequena produção e da especialização técnica.
Num mundo cada vez mais dominado pela produção globalizada, essa escala reduzida pode transformar-se precisamente na maior força da relojoaria portuguesa contemporânea: proximidade, individualidade, flexibilidade e identidade cultural.
Portugal poderá nunca tornar-se uma potência industrial relojoeira. Mas talvez isso já não seja a questão mais importante.
O verdadeiro sinal de maturidade surge quando um país deixa de perguntar se consegue competir com os outros e começa finalmente a construir uma linguagem própria.
Mais do que preservar
Neste contexto, o IPR tem contribuído activamente para a criação de novos profissionais, para o surgimento de novas marcas e para o desenvolvimento de uma comunidade portuguesa de amantes, coleccionadores e consumidores de relojoaria cada vez mais informados e activos.
Iniciativas como a feira Tempo Futuro demonstram precisamente essa vontade de criar um espaço de encontro entre relojoeiros, marcas independentes, alunos, coleccionadores e público especializado, promovendo uma nova dinâmica em torno da relojoaria portuguesa contemporânea.
O projecto Les Tugas representa talvez o exemplo mais claro dessa visão. Procura funcionar como uma verdadeira prova de conceito: a demonstração de que já existe em Portugal capacidade técnica, industrial e artesanal para produzir componentes relojoeiros especializados em território nacional.
Ao mesmo tempo, começam já a surgir várias novas marcas desenvolvidas por ex-alunos do IPR, actualmente em fase de planificação.
O objectivo do Instituto Português de Relojoaria passa precisamente por incentivar o aparecimento de novos projectos nacionais e apoiar activamente todos os que pretendam desenvolver relojoaria em Portugal, tal como oficinas, independentes, marcas emergentes e fábricas instaladas no país.
Talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro futuro da relojoaria portuguesa.




























O artigo mostra muito bem como a relojoaria portuguesa continua a evoluir e a encontrar o seu espaço no panorama internacional. É interessante perceber que, mesmo com produções pequenas, estas marcas conseguem criar uma identidade própria através do design, da história e da ligação à cultura portuguesa. O trabalho de nomes como Bruno Moreira também demonstra que existe talento e capacidade para desenvolver técnicas mais artesanais dentro do país. Uma leitura interessante para quem aprecia relógios e valoriza a combinação entre tradição, criatividade e inovação. roulettino
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https://morospin.pt/ Gosto de ver que existem cada vez mais marcas portuguesas a apostar na relojoaria e a criar uma identidade própria. Nem tudo passa por produzir em massa; o design, os acabamentos e a atenção ao detalhe também fazem a diferença. É interessante perceber como alguns projetos conseguem misturar influências portuguesas com uma visão internacional . Dá vontade de acompanhar a evolução destas marcas e ver até onde conseguem chegar nos próximos anos.