Mudança da hora: como atrasar o relógio sem o estragar

Domingo de manhã é a melhor altura para atrasar uma hora aos relógios mecânicos. Fotografia: IPR.
Na madrugada de domingo, 25 de Outubro, quando forem 2h00 em Portugal continental e na Madeira, os relógios recuam para a 1h00; nos Açores, passa-se da 1h00 para a meia-noite. O telemóvel muda sozinho. O relógio mecânico do pulso, o de pêndulo da sala e o de cuco da cozinha ficam à nossa espera — e alguns não perdoam uma volta dada à hora errada.
Um domingo com 25 horas
Em toda a União Europeia, a hora de Verão termina à 1h00 de tempo universal (UTC) do último domingo de Outubro. É por isso que a mudança acontece no mesmo instante em todo o país, embora os Açores tenham uma hora local diferente. Na prática, a hora entre a 1h00 e as 2h00 repete-se, e o domingo tem 25 horas.
Já contámos aqui a história da mudança da hora em Portugal, desde o primeiro decreto, em 1916, e explicámos quem define a hora do mundo. Desta vez, o assunto é prático: o que fazer a cada relógio da casa.

O Relógio de Ohio, no Capitólio dos Estados Unidos, a ser adiantado a 31 de Março de 1918, quando o horário de Verão entrou em vigor pela primeira vez no país.
Antes de mexer: é dia ou é noite?
Pelos ponteiros, um relógio não distingue as 10h das 22h; quem sabe a diferença é o mecanismo da data. A data muda por volta da meia-noite. Se o relógio estiver acertado com doze horas de diferença, a data passa a mudar ao meio-dia.
Para tirar a dúvida, rode os ponteiros para a frente até ver a data mudar. Nesse momento, o relógio está à meia-noite, e daí basta avançar até à hora certa.
A zona de perigo: das 21h às 3h
Na maior parte dos relógios mecânicos com data, a mudança de data não é instantânea. As rodas que a fazem começam a engrenar horas antes da meia-noite e só desengatam bem depois. Os manuais da Seiko e da Grand Seiko pedem que não se acerte a data entre as 21h e as 3h; a Omega indica o intervalo das 20h às 2h.
Quem usar o acerto rápido da data nesse período força um mecanismo que já está em movimento. Na melhor das hipóteses, a data deixa de mudar à meia-noite seguinte; na pior, partem-se dentes.
Na dúvida, leve primeiro os ponteiros às 6h00. Só depois mexa na data.
O mesmo cuidado vale para rodar os ponteiros para trás. Dentro desta zona, recuar a hora pode obrigar o mecanismo da data a andar ao contrário. Fora dela, na generalidade dos relógios de pulso, atrasar uma hora não traz problema.
Atrasar uma hora, passo a passo
A melhor altura é domingo de manhã, depois das 9h, longe da zona de perigo. Num relógio de pulso com horas, minutos, segundos e data:
Se a coroa for roscada, desenrosque-a primeiro.
Puxe a coroa até à posição de acerto da hora, que é normalmente a última. Em muitos relógios, o ponteiro dos segundos pára.
Rode os ponteiros uma hora para trás, devagar.
Empurre a coroa e, se for roscada, volte a enroscá-la até ao fim: é dela que depende a estanquidade.
Nos relógios com paragem dos segundos há uma alternativa: puxar a coroa e esperar uma hora. O relógio fica parado enquanto o tempo o alcança, sem nenhum ponteiro andar para trás. Se tiver um relógio automático parado na gaveta, aproveite para lhe dar corda antes de o acertar.

Um movimento de relógio de pulso Eta 2824-2 com a haste e a coroa, por onde se dá corda e se acertam a hora e a data. Fotografia de Rama, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0 FR.
Calendários perpétuos e anuais
São os relógios mais sensíveis, porque o mecanismo que conta os dias, os meses e os anos bissextos está ligado aos ponteiros. As regras mudam de marca para marca.
Nos manuais dos calendários perpétuos da IWC, os ponteiros não podem ser rodados para trás a partir das 20h, nem rodados para trás para lá das 2h da manhã. A Patek Philippe desaconselha rodar os ponteiros no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio: não danifica o mecanismo, mas pode desacertar as indicações do calendário. A MB&F permite, no LM Perpetual, rodar os ponteiros para trás a qualquer hora, mas avisa que recuar para lá da meia-noite não faz recuar o calendário.
Num calendário perpétuo, quem manda é o manual. Se não o tiver, pare o relógio durante uma hora em vez de o atrasar.

Audemars Piget com calendário perpétuo e fases da lua. Fotografia de jcw, Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0.
GMT e horas do mundo
Nos relógios com segundo fuso pensados para viajantes, a mudança é simples. No Rolex GMT-Master II, por exemplo, o ponteiro das horas locais salta de hora em hora, para a frente ou para trás, sem mexer nos minutos e nos segundos e sem parar o relógio: basta recuá-lo um salto. O ponteiro das 24 horas, que mostra a hora de referência, só tem de ser mexido se essa referência for a hora de Lisboa.
Nos relógios de horas do mundo, convém lembrar que nem todos os países mudam a hora, e os que mudam nem sempre o fazem no mesmo dia. Os Estados Unidos, por exemplo, só atrasam os relógios uma semana depois, a 1 de Novembro.
Quartzo e radiocontrolados
Muitos relógios de quartzo com data têm a mesma zona de perigo: a Grand Seiko indica-a também nos manuais dos seus calibres de quartzo. Os relógios radiocontrolados mudam sozinhos quando recebem o sinal do emissor alemão DCF77, perto de Frankfurt. Como Portugal fica no limite do alcance, a mudança pode não acontecer, e nesse caso é preciso acertá-los à mão.
Relógios de pêndulo e de parede
Num relógio de parede ou de caixa alta que só marca as horas, pode rodar o ponteiro dos minutos para trás. Se o relógio dá horas, meias horas ou quartos, o caso muda: ao recuar o ponteiro dos minutos, o mecanismo de toque pode encravar e o relógio parar. A solução mais segura é parar o pêndulo durante uma hora e voltar a pô-lo a oscilar quando os ponteiros coincidirem com a hora certa.
Nunca rode o ponteiro das horas sozinho. A única excepção é quando o relógio dá um número de badaladas diferente da hora que mostra: nesse caso, leva-se apenas o ponteiro das horas até ao número que o relógio tocou e acerta-se depois pelo ponteiro dos minutos, sempre para a frente, deixando-o tocar em cada meia hora e em cada hora.

Aula de relojoaria grossa no IPR. Fotografia: IPR.
Relógios de cuco
Nos cucos da Floresta Negra certificados pela VDS, a associação dos fabricantes da região, as instruções são claras: acerta-se rodando o ponteiro dos minutos, o maior, para a esquerda, e nunca se toca no ponteiro das horas. Quem preferir rodar para a direita tem de esperar que o cuco acabe de cantar em cada meia hora e em cada hora antes de continuar. Também aqui, parar o pêndulo durante uma hora é uma alternativa.
Nos cucos a pilhas, o procedimento varia de modelo para modelo, e há casos em que se retira a pilha e se roda o ponteiro dos minutos sempre no sentido dos ponteiros do relógio. Siga o manual.

Relógio de cuco. Fotografia: IPR.
Será a última vez?
Não deverá ser. A Comissão Europeia propôs em 2018 acabar com a mudança da hora, depois de uma consulta pública em que 84% dos 4,6 milhões de participantes defenderam o fim, e o Parlamento Europeu aprovou a proposta em 2019. Desde então, o processo está parado no Conselho, onde os Estados-membros não chegaram a acordo sobre qual das horas manter. Em Outubro de 2025, Espanha voltou a pôr o tema em cima da mesa, e a Comissão encomendou um novo estudo, que deverá ficar concluído até ao fim de 2026.
Entretanto, o calendário já está fixado. Em Março de 2026, a Comissão publicou no Jornal Oficial da União Europeia as datas da hora de Verão de 2027 a 2031. As próximas passagens para a hora de Inverno serão a 31 de Outubro de 2027, 29 de Outubro de 2028, 28 de Outubro de 2029, 27 de Outubro de 2030 e 26 de Outubro de 2031.
Lista para domingo
Acerte os relógios no domingo de manhã, depois das 9h, longe da zona de perigo das 21h às 3h.
Relógio simples ou com data: puxe a coroa e recue uma hora.
Nunca use o acerto rápido da data entre as 21h e as 3h.
Calendário perpétuo ou anual: siga o manual; na dúvida, pare o relógio durante uma hora.
GMT com ponteiro das horas independente: recue um salto.
Coroa roscada: volte a enroscá-la até ao fim.
Relógio de pêndulo com toque ou de cuco: nunca mexa no ponteiro das horas; pare o pêndulo durante uma hora ou siga as instruções do fabricante.
Se alguma coisa correr mal
Uma data que deixou de mudar, uma coroa que não volta ao lugar ou um relógio de parede que toca as horas erradas têm, quase sempre, solução. A oficina do IPR faz reparação, manutenção e restauro de relógios, e o orçamento não tem custos. A recepção de relógios é de segunda a sexta, das 10h às 12h e das 13h30 às 17h, na Rua Alfredo da Silva, 13B, em Lisboa.

No IPR, em Lisboa. Fotografia: IPR.
Fontes
Directiva 2000/84/CE, relativa às disposições respeitantes à hora de Verão, e Comunicação da Comissão C/2026/1660, de 18 de Março de 2026.
Manuais de instruções da Seiko, da Grand Seiko, da IWC, da Patek Philippe e da MB&F.
Rolex, ficha técnica do GMT-Master II (calibre 3285).
Instruções de utilização dos relógios de cuco certificados pela VDS.




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