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Mudança da hora: como atrasar o relógio sem o estragar

Atualizado: há 6 horas

Mão a acertar a coroa de um relógio de pulso mecânico

Domingo de manhã é a melhor altura para atrasar uma hora aos relógios mecânicos. Fotografia: IPR.


Na madrugada de domingo, 25 de Outubro, quando forem 2h00 em Portugal continental e na Madeira, os relógios recuam para a 1h00; nos Açores, passa-se da 1h00 para a meia-noite. Começa a hora de Inverno, que dura até 28 de Março de 2027. O telemóvel muda sozinho. O relógio mecânico do pulso, o de pêndulo da sala e o de cuco da cozinha ficam à nossa espera — e alguns não perdoam uma volta dada à hora errada.


Um domingo com 25 horas


Em toda a União Europeia, a hora de Verão termina à 1h00 de tempo universal (UTC) do último domingo de Outubro. É por isso que a mudança acontece no mesmo instante em todo o país, embora os Açores tenham uma hora local diferente — e no mesmo instante em Madrid, Paris ou Berlim, onde os relógios recuam das 3h00 para as 2h00. Na prática, a hora entre a 1h00 e as 2h00 repete-se, e o domingo tem 25 horas.


As datas vêm da Directiva 2000/84/CE, que fixa a mudança no último domingo de Março e no último domingo de Outubro; em Portugal, o regime está estabelecido no Decreto-Lei n.º 17/96. No Inverno, o continente e a Madeira usam a hora UTC, a mesma de Londres e de Dublin; os Açores ficam uma hora atrás. No Verão, todos avançam uma hora.


A mudança não acrescenta nem tira luz ao dia: altera apenas a hora do relógio a que ela chega. Em Lisboa, o pôr do Sol passa de perto das 18h45 para perto das 17h45, e as manhãs ficam mais claras à hora de sair de casa. Quem mantiver a hora habitual de se levantar ganha uma hora de cama nessa noite; o corpo costuma precisar de alguns dias para se acertar.


Em Março, os relógios avançam; em Outubro, recuam. Sempre no último domingo do mês.

Já contámos aqui a história da mudança da hora em Portugal, desde o primeiro decreto, em 1916, e explicámos quem define a hora do mundo — e porque é que Portugal não tem hoje nenhuma entidade formalmente encarregada de emitir a hora legal. Desta vez, o assunto é prático: o que fazer a cada relógio da casa.


O Relógio de Ohio, no Capitólio dos Estados Unidos, a ser acertado em 1918

O Relógio de Ohio, no Capitólio dos Estados Unidos, a ser adiantado a 31 de Março de 1918, quando o horário de Verão entrou em vigor pela primeira vez no país.


Antes de mexer: é dia ou é noite?


Pelos ponteiros, um relógio não distingue as 10h das 22h; quem sabe a diferença é o mecanismo da data. A data muda por volta da meia-noite. Se o relógio estiver acertado com doze horas de diferença, a data passa a mudar ao meio-dia.


Para tirar a dúvida, rode os ponteiros para a frente até ver a data mudar. Nesse momento, o relógio está à meia-noite, e daí basta avançar até à hora certa.


A zona de perigo: das 21h às 3h


Na maior parte dos relógios mecânicos com data, a mudança de data não é instantânea. As rodas que a fazem começam a engrenar horas antes da meia-noite e só desengatam bem depois. Os manuais da Seiko e da Grand Seiko pedem que não se acerte a data entre as 21h e as 3h; a Omega indica o intervalo das 20h às 2h.


Quem usar o acerto rápido da data nesse período força um mecanismo que já está em movimento. Na melhor das hipóteses, a data deixa de mudar à meia-noite seguinte; na pior, partem-se dentes.


Na dúvida, leve primeiro os ponteiros às 6h00. Só depois mexa na data.

O mesmo cuidado vale para rodar os ponteiros para trás. Dentro desta zona, recuar a hora pode obrigar o mecanismo da data a andar ao contrário. Fora dela, na generalidade dos relógios de pulso, atrasar uma hora não traz problema.


Atrasar uma hora, passo a passo


A melhor altura é domingo de manhã, depois das 9h, longe da zona de perigo. Num relógio de pulso com horas, minutos, segundos e data:


  • Se a coroa for roscada, desenrosque-a primeiro.

  • Puxe a coroa até à posição de acerto da hora, que é normalmente a última. Em muitos relógios, o ponteiro dos segundos pára.

  • Rode os ponteiros uma hora para trás, devagar.

  • Empurre a coroa e, se for roscada, volte a enroscá-la até ao fim: é dela que depende a estanquidade.


Nos relógios com paragem dos segundos há uma alternativa: puxar a coroa e esperar uma hora. O relógio fica parado enquanto o tempo o alcança, sem nenhum ponteiro andar para trás. Se tiver um relógio automático parado na gaveta, aproveite para lhe dar corda antes de o acertar.


Movimento de relógio de pulso com a haste e a coroa

Um movimento de relógio de pulso ETA 2824-2 com a haste e a coroa, por onde se dá corda e se acertam a hora e a data. Fotografia de Rama, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0 FR.


Calendários perpétuos e anuais


São os relógios mais sensíveis, porque o mecanismo que conta os dias, os meses e os anos bissextos está ligado aos ponteiros. As regras mudam de marca para marca.


Nos manuais dos calendários perpétuos da IWC, os ponteiros não podem ser rodados para trás a partir das 20h, nem rodados para trás para lá das 2h da manhã. A Patek Philippe desaconselha rodar os ponteiros no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio: não danifica o mecanismo, mas pode desacertar as indicações do calendário. A MB&F permite, no LM Perpetual, rodar os ponteiros para trás a qualquer hora, mas avisa que recuar para lá da meia-noite não faz recuar o calendário.


Num calendário perpétuo, quem manda é o manual. Se não o tiver, pare o relógio durante uma hora em vez de o atrasar.

Relógio de pulso com calendário perpétuo e fases da lua

Audemars Piguet com calendário perpétuo e fases da lua. Fotografia de jcw, Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0.


GMT e horas do mundo


Nos relógios com segundo fuso pensados para viajantes, a mudança é simples. No Rolex GMT-Master II, por exemplo, o ponteiro das horas locais salta de hora em hora, para a frente ou para trás, sem mexer nos minutos e nos segundos e sem parar o relógio: basta recuá-lo um salto. O ponteiro das 24 horas, que mostra a hora de referência, só tem de ser mexido se essa referência for a hora de Lisboa.


Nos relógios de horas do mundo, convém lembrar que nem todos os países mudam a hora, e os que mudam nem sempre o fazem no mesmo dia. O Reino Unido e a Irlanda mudam com Portugal; os Estados Unidos só atrasam os relógios uma semana depois, a 1 de Novembro, e durante esses sete dias Nova Iorque fica a quatro horas de Lisboa em vez de cinco.


Quartzo, radiocontrolados e o resto da casa


Muitos relógios de quartzo com data têm a mesma zona de perigo: a Grand Seiko indica-a também nos manuais dos seus calibres de quartzo. Os relógios radiocontrolados mudam sozinhos quando recebem o sinal do emissor alemão DCF77, perto de Frankfurt. Como Portugal fica no limite do alcance, a mudança pode não acontecer, e nesse caso é preciso acertá-los à mão.


Telemóveis, computadores e relógios inteligentes mudam sozinhos, desde que tenham a data e a hora automáticas ligadas. Ficam por acertar à mão os relógios do forno, do micro-ondas e do carro, os despertadores e os aparelhos com programação horária, como os temporizadores do aquecimento ou da rega.


Relógios de pêndulo e de parede


Num relógio de parede ou de caixa alta que só marca as horas, pode rodar o ponteiro dos minutos para trás. Se o relógio dá horas, meias horas ou quartos, o caso muda: ao recuar o ponteiro dos minutos, o mecanismo de toque pode encravar e o relógio parar. A solução mais segura é parar o pêndulo durante uma hora e voltar a pô-lo a oscilar quando os ponteiros coincidirem com a hora certa.


Nunca rode o ponteiro das horas sozinho. A única excepção é quando o relógio dá um número de badaladas diferente da hora que mostra: nesse caso, leva-se apenas o ponteiro das horas até ao número que o relógio tocou e acerta-se depois pelo ponteiro dos minutos, sempre para a frente, deixando-o tocar em cada meia hora e em cada hora.


Aula de relojoaria grossa no IPR, com relógios de parede e de caixa alta

Aula de relojoaria grossa no IPR. Fotografia: IPR.


Relógios de cuco


Nos cucos da Floresta Negra certificados pela VDS, a associação dos fabricantes da região, as instruções são claras: acerta-se rodando o ponteiro dos minutos, o maior, para a esquerda, e nunca se toca no ponteiro das horas. Quem preferir rodar para a direita tem de esperar que o cuco acabe de cantar em cada meia hora e em cada hora antes de continuar. Também aqui, parar o pêndulo durante uma hora é uma alternativa.


Nos cucos a pilhas, o procedimento varia de modelo para modelo, e há casos em que se retira a pilha e se roda o ponteiro dos minutos sempre no sentido dos ponteiros do relógio. Siga o manual.


Relógio de cuco de parede com pêndulo e pesos

Relógio de cuco. Fotografia: IPR.


Será a última vez?


Não deverá ser. Em 2018, depois de uma consulta pública em que 84% dos 4,6 milhões de participantes defenderam o fim da mudança — a maior participação de sempre numa consulta da Comissão Europeia —, Bruxelas propôs acabar com ela. Em Março de 2019, o Parlamento Europeu aprovou a proposta por 410 votos contra 192, com 2021 como ano da última mudança.


Desde então, o processo está parado no Conselho da União Europeia, onde os governos nunca chegaram a acordo sobre qual das horas manter para sempre: a de Verão ou a de Inverno. Em Outubro de 2025, Espanha voltou a pôr o tema em cima da mesa. Em Março de 2026, a Comissão afirmou à agência Lusa que uma solução coordenada «ainda é possível» e anunciou um novo estudo, a concluir até ao fim de 2026; a decisão continua nas mãos dos Estados-membros.


Para Portugal, a escolha não é teórica. Entre 1966 e 1976, e de novo entre 1992 e 1996, o continente adoptou a hora da Europa Central, e por duas vezes voltou atrás, depois de Invernos em que o Sol nascia já depois das nove. Em 2021, a Associação Portuguesa do Sono defendeu que acabar com a mudança e ficar na hora de Inverno traria benefícios para a saúde física e psicológica, e que o argumento da poupança de energia já não tem peso suficiente para justificar a hora de Verão.


Enquanto os Estados-membros não se entenderem, os relógios continuam a mudar duas vezes por ano.

O calendário já está fixado. A próxima mudança é a 28 de Março de 2027, quando os relógios avançam uma hora: à 1h00 no continente e na Madeira, à meia-noite nos Açores. Em Março de 2026, a Comissão publicou no Jornal Oficial da União Europeia as datas da hora de Verão de 2027 a 2031; as próximas passagens para a hora de Inverno serão a 31 de Outubro de 2027, 29 de Outubro de 2028, 28 de Outubro de 2029, 27 de Outubro de 2030 e 26 de Outubro de 2031.


E a «hora intercalar»?


Não tem relação com a mudança deste domingo, mas as datas coincidiram. A 15 de Outubro, em Versalhes, a Conferência Geral de Pesos e Medidas aprovou o fim do segundo intercalar. A partir de 20 de Maio de 2027, o tempo universal coordenado (UTC), pelo qual se acertam os relógios de todo o mundo, passa a correr sem interrupções e poderá afastar-se até uma hora da rotação da Terra antes de ser corrigido. O segundo intercalar dá assim lugar a uma «hora intercalar».


Desde 1972, o UTC recebeu 27 segundos intercalares, o último a 31 de Dezembro de 2016, para nunca se afastar mais de 0,9 segundos da hora dada pela rotação do planeta (UT1). Cada minuto de 61 segundos obrigava os sistemas informáticos a adaptar-se, e houve falhas em sites e serviços em 2012 e em 2015. Com a Terra a rodar mais depressa nos últimos anos, crescia também a hipótese de um segundo intercalar negativo — um minuto de 59 segundos —, que nunca foi aplicado e que, segundo o Bureau Internacional de Pesos e Medidas, traria riscos para infra-estruturas críticas.


A mudança da hora é uma decisão política sobre a hora legal de cada país. A hora intercalar é um acerto científico da referência de tempo de todo o mundo.

No dia-a-dia, ninguém dará por ela: o desvio acumula-se tão devagar que a primeira hora intercalar só deverá ser necessária daqui a séculos, ou mesmo milénios. Quem vai sentir a diferença são a astronomia, as ciências da Terra e os satélites, que precisam de conhecer com rigor a orientação do planeta. Explicámos todo este sistema em «Quem define a hora do mundo?».


Infografia do IPR: mudança da hora ou hora intercalar? Os mostradores das 2h00 e da 1h00, a comparação entre as duas correcções e a cronologia do segundo intercalar de 1972 a 2027

Mudança da hora ou hora intercalar? Toque na imagem para a ampliar. Infografia: IPR.


Lista para domingo


  • A hora recua na madrugada de 25 de Outubro: às 2h00 no continente e na Madeira, à 1h00 nos Açores.

  • Acerte os relógios no domingo de manhã, depois das 9h, longe da zona de perigo das 21h às 3h.

  • Relógio simples ou com data: puxe a coroa e recue uma hora.

  • Nunca use o acerto rápido da data entre as 21h e as 3h.

  • Calendário perpétuo ou anual: siga o manual; na dúvida, pare o relógio durante uma hora.

  • GMT com ponteiro das horas independente: recue um salto.

  • Coroa roscada: volte a enroscá-la até ao fim.

  • Relógio de pêndulo com toque ou de cuco: nunca mexa no ponteiro das horas; pare o pêndulo durante uma hora ou siga as instruções do fabricante.

  • Forno, micro-ondas, carro, despertadores e temporizadores: acerte-os à mão.


Se alguma coisa correr mal


Uma data que deixou de mudar, uma coroa que não volta ao lugar ou um relógio de parede que toca as horas erradas têm, quase sempre, solução. A oficina do IPR faz reparação, manutenção e restauro de relógios, e o orçamento não tem custos. A recepção de relógios é de segunda a sexta, das 10h às 12h e das 13h30 às 17h, na Rua Alfredo da Silva, 13B, em Lisboa.


Alunos numa aula no Instituto Português de Relojoaria

No IPR, em Lisboa. Fotografia: IPR.


Fontes

  • Directiva 2000/84/CE, relativa às disposições respeitantes à hora de Verão; Comunicação da Comissão C/2026/1660, de 18 de Março de 2026; Decreto-Lei n.º 17/96.

  • Comissão Europeia, resultados da consulta pública sobre a mudança da hora (Setembro de 2018); votação do Parlamento Europeu de Março de 2019; declarações da porta-voz da Comissão à agência Lusa (Março de 2026).

  • Associação Portuguesa do Sono, posição sobre a mudança da hora (2021).

  • Conferência Geral de Pesos e Medidas, 28.ª reunião (Outubro de 2026); Público, «Relógios vão voltar a atrasar-se. E o que é a hora intercalar?», 24 de Outubro de 2026.

  • Manuais de instruções da Seiko, da Grand Seiko, da Omega, da IWC, da Patek Philippe e da MB&F.

  • Rolex, ficha técnica do GMT-Master II (calibre 3285).

  • Instruções de utilização dos relógios de cuco certificados pela VDS.

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Abílio Silveira
há 3 horas
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Este artigo é autêntico serviço público. Deveria ser publicado no Diário da República.

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