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O CALENDÁRIO DOS ANTIGOS EGÍPCIOS GLOBALIZOU-SE

Atualizado: 31 de dez. de 2022

por: Telo Ferreira Canhão

Calendário Perpétuo Português IWC, International Watch Company,

em ouro rosa de 18K, com o número de referência IW503302.



 

Dados básicos


Marca: IWC

Modelo: Portuguese Perpetual Calendar

Número de referência: IW503302

País de fabrico: Suíça

Ano de fabrico: Desconhecido

Género: Relógio de homem/Unissexo


Movimento


Movimento: Automático

Calibre/Movimento: 52610

Reserva de corda: 168 h

Número de rubis: 54


Caixa


Material da caixa: Ouro rosa 18 K

Diâmetro: 42.3 mm

Espessura: 15,6 mm

Estanqueidade: 3 ATM (30 metros)

Vidro: Cristal de safira

Algarismos do mostrador: Árabes

Material da luneta: Ouro vermelho

Mostrador: Prata

Fundo: cristal de safira transparente


Funções:

  • Fases da lua,

  • Data,

  • Indicação dos meses,

  • Indicação do ano de 4 dígitos,

  • Calendário perpétuo

  • Indicação da reserva de marcha de 7 dias

 

A IWC Schaffhausen foi fundada em 1868. Em 1939, dois empresários portugueses encomendaram à marca suíça um relógio de pulso que tivesse a precisão dos cronómetros da Marinha. Assim nasceu a linha IWC Portugieser, que conta actualmente com numerosos e excelentes exemplares. O relógio mecânico mais complicado já feito pela IWC é o Portugieser Sidérale Scafusia. Além da hora solar, este relógio também exibe a hora sideral, que se desvia da anterior cerca de 4 minutos diários e é amplamente utilizada na astronomia.



Hodiernamente é habitual usar relógios com calendário. Um relógio com calendário é um instrumento mecânico que, além das horas, minutos e segundos, indica os dias do mês, por vezes, os nomes da semana e dos meses e, alguns relógios, ainda, as fases da lua. Normalmente distinguem-se três tipos de calendários nos relógios. Os mais simples são os relógios de calendário completo, que indicam simplesmente os dias, podendo indicar também os nomes dos dias e dos meses, e, alguns, as fases da lua. Estes relógios precisam sempre de ser acertados manualmente nos meses que não têm 31 dias (cf. Oliveira, 2007: 34). Depois temos os relógios com calendários anuais, em que o mecanismo indica os dias, os nomes dos dias e dos meses, prevendo meses de 30 e 31 dias, além do mês de Fevereiro de 28 dias e, eventualmente, as fases da lua. Mas como não prevêem os anos bissextos, têm que ser acertados manualmente de quatro em quatro anos (cf. Oliveira, 2007: 34). Por fim, os mais arrevesados são os relógios de calendário perpétuo, uma complexa solução mecânica para um problema astronómico. Podem indicar os segundos, minutos e horas, os dias, o ano, o nome dos dias da semana e do mês, e as fases da lua. Através de engrenagens, molas e balanços conseguem reproduzir a rotação da Terra em redor do Sol, determinando automaticamente se o mês tem 28, 30 ou 31 dias, e calculando os anos bissextos. Graças a Gregório XIII, este calendário apenas precisa de correcção a cada mudança de século, excepto nos séculos divisíveis por quatrocentos, como veremos. Na realidade, um relógio com calendário perpétuo é uma obra-prima da tecnologia onde a data é sempre exibida correctamente, independentemente do número de dias do mês, e de ser ou não um ano bissexto. É óbvio que isto faz com que os dispositivos técnicos que garantem que o calendário perpétuo funcione sempre sem qualquer problema sejam muitos e complexos. Por isso, são sobretudo as melhores marcas de relógios, na gama de preços mais elevada, que os apresentam nas suas colecções. Contudo, algumas tecnologias modernas já permitem tornar acessíveis a um público cada vez mais vasto alguns relógios com calendário perpétuo (cf. Oliveira, 2007: 34-36). Como chegámos aqui?



A GLOBALIZAÇÃO DO CALENDÁRIO


Anno Domini (A. D.) é uma expressão latina que significa «ano do Senhor» e é utilizada para marcar os anos seguintes ao ano 1 do calendário mais comum no Ocidente. No mundo ocidental a forma de contagem do tempo é linear e tem como ponto de partida o nascimento de Jesus Cristo, designando-se por isso de Era Cristã. A partir desse momento conta-se o tempo posterior (d. C. – todas as datas sem esta indicação são consideradas datas posteriores ao nascimento de Cristo) ou anterior (a. C.), somando-se dias, meses e anos uns a seguir aos outros em ambos os sentidos. O sistema de organização e contagem do tempo baseia-se na observação do movimento dos astros, ou seja, na astronomia, e chama-se, portanto, calendário, termo que deriva da palavra latina kalendae, o nome dos primeiros dias dos meses do calendário romano.[1] A contagem do tempo e os calendários são coisas muito antigas, pois surgiram um pouco por toda a parte à medida que a sedentarização do homem foi avançando. Mas, em relação ao calendário que usamos hoje em dia, qual é a sua origem? Grande parte das pessoas sabe chamar-lhe calendário gregoriano, recuando ao século XVI, a Gregório XIII; outros, ainda, conseguem recuar ao século I a. C., ao calendário juliano, invocação do seu responsável, Júlio César. Mas ficam-se por aí. Raros são os que sabem ir mais além! Contudo, é possível recuar muito mais, chegando mesmo ao Neolítico. E ainda que se saiba que noutras partes do mundo, a domesticação de plantas e animais levou à concepção de diferentes calendários, nós podemos acompanhar essa aventura até ao antigo Egipto, ligando essa antiga civilização ao actual calendário ocidental. É verdade, no antigo Egipto o ano já tinha 365 dias dividido em 12 meses que tinham os respectivos nomes, e que era, aliás, muito mais perfeito do que o calendário romano.


As rápidas ligações entre todas as partes do mundo, próximas ou distantes, que hoje existem graças à globalização, para além da dinamização dos seus primeiros desígnios, o económico e o social, também dinamizaram a disseminação das tradições e tendências de cada lugar através da globalização cultural. Com o crescente fluxo e rapidez da informação e dos transportes, muito do que era simplesmente local ou regional globalizou-se, vivendo actualmente cada região, grosso modo, um misto de preservação local e mesclagem internacional. O nosso quotidiano está cheio de exemplos que nos mostram que, nos mais recônditos e primitivos lugares, há sempre um ou mais objectos de «modernidade»! E se, historicamente, o início a globalização da cultura foi, sobretudo, exercido pela hegemonia da Europa, que impôs a sua cultura aos povos de todos os outros continentes, mantiveram-se por todo o lado valores regionais que, paulatinamente, conseguiram introduzir-se e reproduzir-se noutros territórios, por vezes no lado oposto do mundo, em muitos casos reinventando-se. Hoje, o processo de globalização cultural está entranhado no nosso quotidiano, mostrando lado a lado diferentes culturas e sociedades do planeta. Um dos exemplos mais visíveis é o da restauração, com casas de comida das mais diversas latitudes e sabores, abertas por onde quer que nos desloquemos: italianas, indianas, vietnamitas, nepaleses, japonesas, chinesas, tailandesas, angolanas, brasileiras… para não falar das principais marcas de fast-food americanas que aparecem por toda a parte.


Em alguns casos excepcionais, o alargamento a todo o planeta de uma concepção local, tem uma origem bem mais remota. E em épocas em que nem se sabia ainda o que era a globalização, nem se previa o surgimento desse conceito! Um dos casos mais extraordinário e antigo é o do calendário que usamos. Mesmo havendo alguns calendários regionais, sobretudo religiosos ou festivos, o calendário ocidental é a ferramenta para o relacionamento internacional em todo o mundo. E como contarei, ele teve origem no antigo Egipto, provavelmente, ainda antes do período faraónico. Sobre a concepção do tempo e os calendários egípcios já escrevi um artigo (2006) que, mais tarde, foi adaptado e publicado em inglês (2013), ambos indicados na bibliografia, mas nenhum deles privilegiando esta perspectiva.



A AVALIAÇÃO DO TEMPO NO ANTIGO EGIPTO


A ideia que hoje temos de eternidade é que é algo infinito, que não começa nem acaba, ou seja, é a inexistência de tempo, e uma vez que transcende o tempo, não pode ser medida por ele. Os antigos Egípcios exprimiram o conceito de eternidade de forma dual, como acontecia com quase tudo no Egipto. A sua concepção de tempo assentava na união de duas ideias complementares de eternidade: djet, uma contagem linear de ciclos que se iniciavam cada vez que um novo rei subia ao trono, sucedendo-se uns aos outros de forma irreversível e eterna, «afinal a ausência de tempo num tempo sem tempo» (Araújo, 2001: 350), e cujo determinativo de terra o ligava mais às ideias de permanência e duração;[2] e neheh, uma contagem cíclica contínua e sem fim porque se repetia permanentemente, baseada na periodicidade dos fenómenos cósmicos, em particular no movimento do Sol que, regenerando-se, reiniciava todos os dias o seu ciclo, por isso ligada à ideia de «nascer», «transformar-se», «devir». A própria concepção de história no Egipto antigo era uma «celebração» do eterno retorno à «primeira vez», ao tempo em que o criador estabelecera a ordem primordial que o faraó teria que manter. Através do mito osiríaco, o rei assumia-se como um novo Osíris, entrando na eternidade (neheh) perpetuamente (djet), dois conceitos que ao aparecem juntos expressavam a ideia de «para todo o sempre». É a coexistência perfeita de dois conceitos diferentes: um tempo cíclico marcado pelas tradições e pelos rituais religiosos, e, por isso, relacionado com o sagrado; e um tempo linear, mais pautado pela actividade quotidiana e, portanto, profano. A união destes dois conceitos representava a totalidade do tempo (Canhão, 2006: 39).


O ANO DE 365 DIAS

E é evidente que, pragmáticos como eram, a sua concepção de eternidade não os impedia de contar o tempo. Sem a marcação de qualquer acontecimento fundador, os anos eram de 365 dias contados a partir da subida ao trono de cada rei. O segundo ano desse novo ciclo começava na data imediatamente a seguir ao último dia do ano em curso e assim sucessivamente. Com o rei seguinte reiniciava-se a contagem a partir do zero.


O número 365 teria sido primitivamente calculado, muito provavelmente na Época Pré-Dinástica, ou antes do final do Neolítico, através do cálculo da média do registo sistemático dos dias impostos pela observação lunar, ou, então, pela observação do intervalo entre dois aparecimentos de uma estrela de referência, que, como veremos, era Sírio.


AS ESTAÇÕES DO ANO SOLAR

Esta contagem era independente das três estações em que se subdividia o ano solar, que tinham uma existência precisa, marcada exclusivamente de acordo com as necessidades agrícolas:


- Akhet (período da inundação ou estação da Inundação, que pelo calendário juliano ia de 19 de Julho a 14 de Novembro, e no calendário actual de 15 de Junho a 11 de Outubro);[3]


- Peret (período do crescimento das plantas ou estação do Inverno, de 15 de Novembro a 14 de Março, e no calendário actual de 12 de Outubro a 8 de Fevereiro);


- Chemu (período da colheita ou estação do Verão, de 15 de Março a 13 de Julho, e no calendário actual de 9 de Fevereiro a 9 de Junho).


OS MESES

Cada estação (ter) tinha quatro meses (abed) de trinta dias (heru) cada, numerados de 1 a 30, perfazendo 360 dias, aos quais se acrescentavam cinco dias (heru renpet - «aqueles que estão acima do ano», considerados fora do ano e numerados de 1 a 5), a que os gregos chamaram de epagómenos, num total de 365 dias, no fim dos quais se celebrava «A abertura do Ano», isto é, o Ano Novo. Em cada um dos cinco dias epagómenos era comemorado o nascimento, respectivamente, de Osíris (mesut Usir, 14 de Julho/10 de Junho), Hórus (mesut Hor, 15 de Julho/11 de Julho), Set (mesut Set, 16 de Julho/12 de Junho), Ísis (mesut Iset, 17 de Julho/13 de Junho) e Néftis (mesut Nebet-hut, 18 de Julho/14 de Junho), as cinco divindades que na teologia heliopolitana, a mais antiga, representavam o Tempo. Por sua vez, no primeiro dia do ano, 19 de Julho/15 de Junho, celebrava-se o «nascimento de Ré», mesut Ré (cf. Canhão, 2006: 40). Fruto das preocupações relacionadas com a produção de alimentos, o antigo calendário egípcio era baseado em observações lunares combinadas com o ciclo anual das inundações do Nilo, medidas através de sistemas designados por nilómetros. A cada mês era atribuído um nome, geralmente o nome do festival que se realizava nessa ocasião e, simultaneamente, o nome da divindade festejada. Isto está comprovado para o Império Médio, na região de Mênfis:


- o 1º mês de Akhet designava-se por Tekhi, o 2º por Menekhet, o 3º por Khenethuthor, o 4º por Nehebkau;


- o 1º mês de Peret (5º mês) por Chefbedet, o 2º (6º mês) por Rekehaá, o 3º (7º mês) por Rekehnedjés, o 4º (8º mês) por Renenutet;


- o 1º mês de Chemu (9º mês) por Khonsu, o 2º (10º mês) por Khenetkhetyperetj, o 3º (11º mês) por Ipethemet e o 4º (12º mês) por Upetrenpet (Allen, 2000: 108).


No Império Novo a maior parte destas designações foi alterada, sobretudo por reflexo da supremacia dos festivais realizados em Tebas. Reforçando a nomeação teofórica, isto é, atribuindo-lhes nomes de deuses ou formando os seus nomes a partir de nomes divinos, prática corrente no antigo Egipto na atribuição dos nomes dos indivíduos, as designações egípcias sobreviveram no grego e ainda hoje são usadas no calendário religioso da igreja copta. As novas designações (entre parêntesis a designação grega) eram:


- o 1º mês de Akhet era Djehuti (Tot), o 2º era Paneipet (Paofi), o 3º era Huthor (Athir) e o 4º era Kahorka (Khoiak);


- o 1º mês de Peret era Taabet (Tibi), o 2º era Panepamekheru (Mechir), o 3º era Paneamen-hotep (Famenoth) e o 4º era Panerenenutet (Farmuti);


- o 1º mês de Chemu era Panekhensu (Pakhonsu), o 2º era Paneinet (Paini), o 3º era Ipip (Epifi) e o 4º era Mesutré (Mesori) (Allen, 2000: 108; Depuydt, 1997: 129). Dependendo das fontes, surgem variantes para alguns destes nomes.


Os nomes dos meses apareciam principalmente em listas de festivais ou em cartas privadas, sendo raros nos textos comuns.[4] Aqui, quando queriam registar a data de um acontecimento, faziam-no em função de uma datação fixa da seguinte forma: «Ano 6 (i.e., número de ano de reinado), 2 Inverno 12 (i.e., segundo mês da estação de Peret, Panepamekheru, dia 12), sob a majestade do rei do Alto e do Baixo Egipto (seguido do nome de coroação do faraó reinante)». A data em hieróglifos que aparece, por exemplo, no verso do Papiro Ebers é:

[5]


Também há uma variação em relação ao posicionamento dos dias epagómenos. Embora o último dia do ano seja sempre o 30 de Mesutré e os cinco dias epagómenos estejam para além do ano, no Império Antigo precediam o ano e nos Impérios Médio e Novo eram colocados no fim do ano.


Fig. 1 - Revolução: as 36 estrelas decanais do ano. Em cada dez dias do movimento de trasladação da Terra aparece uma nova estrela. Com a Terra em A só são visíveis as estrelas do lado externo, a face nocturna. O Sol impede a visibilidade de Sírio. É o seu período de invisibilidade. Um observador em B2 (princípio da noite) não pode ver Sírio por causa da massa da Terra; mas em B1 (fim da noite) vai ver Sírio imediatamente antes da aurora: é o erguer helíaco de Sírio. Em C, Sírio permanece visível toda a noite.

Fig. 1 - Revolução: as 36 estrelas decanais do ano. Em cada dez dias do movimento de trasladação da Terra aparece uma nova estrela. Com a Terra em A só são visíveis as estrelas do lado externo, a face nocturna. O Sol impede a visibilidade de Sírio. É o seu período de invisibilidade. Um observador em B2 (princípio da noite) não pode ver Sírio por causa da massa da Terra; mas em B1 (fim da noite) vai ver Sírio imediatamente antes da aurora: é o erguer helíaco de Sírio. Em C, Sírio permanece visível toda a noite.


A divisão natural do mês lunar em quartos irregulares ainda hoje origina, num primeiro acerto, os nossos meses com diferentes números de dias. No início da civilização egípcia é provável que tivessem semanas com sete e oito dias que alternavam em conformidade com as fases lunares, mas cedo foram ultrapassadas pela introdução de um sistema muito mais regular: o mês egípcio de três décadas, cada uma marcada pelo aparecimento de um decano. Os decanos egípcios eram estrelas que nasciam, viviam e morriam, em função dos movimentos da Terra, sobretudo o de rotação e o de translação, por isso eram designadas por «os que vivem» (ankhu), em oposição às estrelas circumpolares «aquelas que não conhecem a destruição» (ikhemu-sek), por estarem sempre visíveis. No ciclo decanal o percurso completo de cada decano era de 360º. Eram 36 estrelas e devido ao movimento de translação da Terra cada uma era visível por períodos de dez dias, daí o seu nome (Sauneron, 1970: 80) (fig.1). Assim, dividia-se o ano em 36 períodos de dez dias e cada mês em três décadas: tepi, a primeira, her-ib, a segunda, e pehui, a terceira. Todos os decanos tinham nome e deificação própria. Por exemplo, o ciclo decanal que se iniciava com o aparecimento de Sírio era designado por tepa-kenmut e o seu deus era Seb. Embora a palavra «semana» fosse desconhecida dos Egípcios, cada década correspondia, em termos actuais, a uma «semana» de dez dias. O hiato de cinco dias entre o último e o primeiro decano desta organização decimal era preenchido pelos dias epagómenos, marginais ao ciclo decanal (36 x 10 dias = 360 dias; ou 12 meses x 30 dias = 360 dias; ou 3 estações x 120 dias = 360 dias) e, como tal, tratados após as 36 décadas, só então se completando o ano de 365 dias.


Fig. 2 - Rotação: os doze decanos visíveis em cada noite. Devido à rotação da Terra, cada um indica uma hora da noite. Nos equinócios cada hora da noite é igual à 24ª parte do dia.



O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA DECANAL

O próprio funcionamento do sistema decanal levaria os Egípcios à divisão do dia em vinte e quatro horas (unut), cada uma igual a 1/24 do dia, com sessenta minutos cada (Brier & Hobbs, 1999: 77), sendo doze horas nocturnas, as «horas de obscuridade», e doze horas diurnas, as «horas de Sol», tendo como referência o Sol no zénite. O dia era naturalmente dividido em dez horas segundo o movimento do Sol, mais duas de crepúsculos, a aurora e o ocaso. O facto de no Verão, na latitude do Egipto, só poderem ser vistos a levantarem-se na escuridão doze decanos em cada noite (fig. 2), conduziu-os à divisão da noite em doze «horas». De noite o sistema funcionava do seguinte modo: o decano I erguia-se ao princípio da noite do dia 19 de Julho /15 de Junho e a sua saída do campo visual assinalava o fim dessa noite, o mesmo acontecendo nas nove noites seguintes. Era então substituído nessa função pelo decano II durante outros dez dias. Ao fim de outros tantos dias era substituído pelo decano III e assim sucessivamente até se chegar ao decano XXXVI. Em cada 1/24 do dia entrava o decano seguinte, que ficava a aguardar a sua década de «comando». Assim, os relógios estelares foram organizados em quadros de trinta e seis colunas, cada uma para uma década, e doze linhas, cada uma para uma hora da noite. A simplicidade do esquema complicava-se com os dias epagómenos, para os quais foram introduzidos outros doze decanos intermediários. Cada decano deslocava-se regular e diagonalmente de forma ascendente de uma década para a seguinte.

A cada hora correspondia um casal divino e um nome, usados, sobretudo, em textos astronómicos. Por exemplo, designavam a primeira hora do dia de ubenut, «a luminosa», a última da noite de peter neferu neb set, «a que vê a beleza de Ré», a sexta hora do dia, o meio-dia, de ahat, «aquela que está em pé», exprimindo a verticalidade da sombra. Contudo, em textos correntes, as horas eram designadas por contagem dos números ordinais. Por exemplo: unut mehet-10 net heru é a «décima hora do dia» (quatro horas da tarde) ou unut 4-nut net gereh a «quarta hora da noite» (dez horas da noite). A divisão do dia e da noite em doze horas cada, parece originalmente egípcia e pode ter a ver com a necessidade prática de manter ao longo do ano a igualdade equinocial entre dia e noite, combinada com questões mitológicas, os doze territórios da Duat que Ré percorria na sua viagem nocturna, por exemplo, ou, ainda, por analogia com os doze meses em que se divide o ano.



AS HORAS DE 60 MINUTOS

Porém, a divisão da hora em 60 minutos foi introduzida pelos Babilónios, que utilizavam o sistema sexagesimal criado pelos sumérios, os primeiros a cultivar a astronomia e a aplicar-lhe métodos matemáticos que nós ainda hoje usamos na medição do tempo (60 é divisível por 30, 20, 15, 12, 10, 6, 5, 4, 3 e 2). O seu dia era dividido em doze duplas horas, a hora dividia-se em sessenta duplos minutos e o minuto em sessenta duplos segundos. Embora a divisão do minuto em sessenta segundos não tenha sido alcançada pelos Egípcios, eles tiveram a noção de que o minuto era ainda uma medida de tempo muito alargada em determinadas circunstâncias, uma vez que reconheciam como mais pequena unidade de tempo o at, normalmente traduzido por «momento», «instante» e sem duração definida (Shaw & Nicholson, 1995: 58). Para além das designações usadas em situações religiosas e astronómicas, havia designações populares para as horas, em que determinadas expressões tinham uma correspondência numérica, relativamente às horas do dia ou da noite, tais como: em duá, «de manhã»; nu en seti-rá, «a hora do perfume para a boca», isto é, hora da refeição do meio-dia; mesit, «ceia», «última refeição do dia»; er ter en khani, «na hora da noite».



APARELHOS E TÉCNICAS DE MEDIÇÃO DO TEMPO

Fig. 3 - Relógio de sombra com a marcação da primeira à sexta hora do dia.


O dia começava com o nascer do Sol, havendo diversos aparelhos para medir as horas. De dia utilizava-se o relógio de sombra, que Gregos e Romanos chamaram de gnómon, literalmente o «indicador». Era um simples relógio solar que media o comprimento ou a direcção de uma sombra, produzida por uma vara e projectada horizontal, vertical ou obliquamente numa superfície graduada plana ou curva (fig. 3).

Fig. 4 - Aparelho de medição de tempo composto por uma tábua de madeira graduada por pontos, com dois gnómones verticais de madeira, ou “balizas”. A posição da sombra projectada pela peça horizontal que liga os gnómones indica a hora. Egipto, 1000-800 a. C. Museu da Ciência, Londres.

Fig. 5 - Relógio de sol descoberto no chão da cabana de um trabalhador do Vale dos Reis, datado do século XIII a. C., da XIX dinastia. Este dispositivo de medição do tempo é cerca de mil anos mais antigo do que os relógios de sol deste tipo encontrados no antigo Egipto, que datam ao período Greco-romano (332 a. C.-395 d. C.).


Os mais simples poderiam ter dois gnómones verticais, ou «balizas», ligados por uma peça horizontal cuja sombra projectada sobre a escala marcada por simples pontos na madeira horizontal indicava a hora (fig. 4). Contudo, um relógio de sol semelhante a muitos dos relógios de sol nossos contemporâneos, descoberto recentemente por uma equipa de egiptólogos suíços no Vale dos Reis, o local de sepultamento dos governantes do Egipto no Império Novo (c. 1560 a 1070 a. C.), pode ser o mais antigo relógio de sol egípcio do mundo (fig. 5). Datando do século XIII a. C., mais precisamente da XIX dinastia (c. 1292-1186 a. C.), foi encontrado no chão da cabana de um dos trabalhadores do Vale dos Reis. Este dispositivo de medição do tempo é cerca de mil anos mais antigo do que os relógios de sol deste tipo encontrados no antigo Egipto, que datam ao período Greco-romano (332 a. C.-395 d. C.). Feito num óstraco achatado de calcário, tem gravado a negro um semicírculo dividido em 12 secções com cerca de 15º graus cada, com pequenos pontos no meio de cada secção, provavelmente para fornecerem tempos mais precisos. No orifício que exibe no local de união dos riscos separadores das divisórias seria inserido um pino vertical, de metal ou madeira, cuja projecção da sua sombra serviria para revelar a hora do dia. Segundo a directora dessa equipa, a egiptóloga Susanne Bickel, e os seus colegas, esta peça pode ter tido uma de duas funções: pode ter sido usada em paralelo com os textos ilustrados que eram inscritos nas paredes dos túmulos dos faraós com a representação da noite dividida em doze horas, como vemos no «Livro de Amduat» («Livro daquele que está no Além (Duat)»), e a viagem do deus sol através do submundo, ultrapassando os perigos de cada hora, podendo o relógio ter servindo para visualizar o comprimento dessas horas; ou, simplesmente, para medir as horas de trabalho dos trabalhadores.[6]

Fig. 6 – Relógios estelares: o merkhet (A) e o intercolúnio (B); a tabela astronómica (C) que, no exemplo,

apresenta a lista de estrelas do 16º dia de Paneipet, o segundo mês de Akhet.

Uma vez que os quadrantes solares eram inoperantes de noite, os decanos eram utilizados para a determinação das doze horas nocturnas. A partir da sua observação utilizavam-se um relógio estelar, o merkhet, «instrumento do saber» (fig. 6A), uma barra horizontal com um fio de prumo, e o intercolúnio (fig. 6B), um mastro em forquilha feito de um pecíolo de folha de palmeira que na extremidade superior tinha um corte em V que funcionava como um instrumento de mira. Usados em conjunto tinham uma função similar à do astrolábio (Sales, 2001: 121). Com dois merkhet e dois intercolúnios fixavam as miras nas linhas de prumo através dos V e alinhavam-nos com a Estrela Polar fixando a orientação norte-sul, estimando o tempo pelo trânsito das estrelas decanais ao cruzarem-se com esse alinhamento. A observação da evolução das estrelas estava reservada a sacerdotes incumbidos de medir o tempo (fig. 7), uma espécie de astrónomos que mediam sistematicamente a altura das estrelas de referência, faziam o seu registo em tabelas (fig. 6C) e comparavam-nas com outras anteriores (Rachet, 1987: 45). Embora sem ser de forma precisa, mas apenas aproximada, determinavam em qualquer momento da noite a hora em que se encontravam. Era um trabalho sistemático, com uma periodicidade quinzenal, uma vez que os movimentos de rotação e translação da Terra determinam constantes alterações no posicionamento das estrelas.

Fig. 7 – Hipótese reconstrutiva do avistamento e registo das estrelas pelos sacerdotes astrónomos egípcios.

A partir do Império Novo, uma tabela estelar completa compunha-se de vinte e quatro tabelas parciais, duas para cada mês, não sendo considerados os dias epagómenos. Estas tabelas astronómicas quinzenais mostram a imagem de um homem ajoelhado no chão, com o rosto de frente para o observador e o corpo rodeado de estrelas dispostas numa grelha de fundo composta por nove colunas verticais e doze linhas horizontais (fig. 6C). É a representação de um dos dois sacerdotes encarregues de medir o tempo. Cada desenho só mostra um desses dois astrónomos que se encontravam frente a frente segundo a direcção sul-norte, no telhado horizontal de um templo. Tinha um quadro onde ia inscrevendo a posição das estrelas de referência em cada hora da noite e um aparelho de visão astronómica, para observar a entrada das estrelas representadas no quadro, na linha sul-norte.


Deste modo, podiam indicar a qualquer momento a hora da noite em que se encontravam. O observador indicava o posicionamento celeste de uma estrela, segundo a posição que ela ocupava em relação à silhueta do seu parceiro: por cima ao meio do corpo, por cima do cotovelo direito, por cima da orelha direita ou do olho direito ou, eventualmente, por cima do olho, da orelha ou do cotovelo esquerdos (fig. 6C). Este trânsito decanal era referenciado na grelha nas sete linhas verticais internas. Há belas listas de decanos, figurando a mais célebre no tecto abobadado do túmulo de Seti I, organizadas em tabelas horárias bastante completas e com as respectivas divindades associadas. Ressalve-se, no entanto, que pelo facto das tabelas dos túmulos reais serem sobretudo destinadas à decoração, o posicionamento das estrelas junto das figuras não coincide totalmente, ou está mesmo em desacordo, com as indicações da respectiva tabela.


Em relação ao exemplo da figura 6C, o décimo sexto dia do mês de Paneipet (Paofi), o segundo mês de Akhet, temos:

Quinze dias mais tarde, no primeiro de Hathor, o 3º mês de Akhet, as estrelas ocupam as seguintes posições em nova tabela:

Passados outros quinze dias, no décimo sexto dia do mesmo mês de Hathor, as estrelas foram dispostas assim noutra tabela:




Fig. 8 – A clepsidra de Karnak, datada do tempo de Amen-hotep III (1402-1364 a. C.). Em cima à direita, a escala pontilhada do seu interior que indica os 12 meses do ano, e, em baixo, três visões da sua decoração exterior.


No Império Novo foi inventado outro instrumento para medir o tempo, quer diurno quer nocturno: a clepsidra ou relógio de água (fig. 8). Os mais antigos datam da XVIII dinastia. Eram recipientes de pedra, cobre ou cerâmica, de dimensões consideráveis, com o exterior decorado com inscrições e representações de divindades horárias, uma escala horária gravada no interior, e um orifício na base para escoar a água. Por causa do movimento decanal, por razões cultuais, ou por ambas, os Egípcios dividiram as noites desiguais em doze partes iguais. De facto, com excepção dos dois equinócios anuais, todos os outros dias e noites do ano têm durações desiguais devido à obliquidade axial da Terra em relação à sua órbita que, para além de determinar as estações, provoca noites curtas no Verão e longas no Inverno. Diferentes graduações internas das clepsidras davam os diferentes comprimentos das horas da noite segundo as estações e os meses do ano. A maior ou menor velocidade de escoamento da água era obtida através da variação do diâmetro do buraco por onde passava a água que, mantendo a mesma cadência, levava as doze partes de cada noite a esgotar-se. Deviam mudar de aparelho conforme a época do ano, uma vez que só nos chegaram relógios de água de um orifício, o que, segundo os fragmentos de uma inscrição de um tal Amenemhat, é um aperfeiçoamento da clepsidra de múltiplos orifícios. O inventor desta clepsidra aperfeiçoada não só deixou registado o facto de o rei Amen-hotep I a ter considerado «a mais bela de todas as coisas», como especifica que do seu «excelente vaso para medir, a água se escoa apenas por um único orifício» (Erman & Ranke, 1976: 449-450). Há ainda representações pictóricas de clepsidras que apresentam em simultâneo o Sol de Verão e o Sol de Inverno, sendo o primeiro representado mais alto do que o segundo.[7] O uso dos diversos tipos de relógio mostra-nos que os Egípcios utilizavam alternadamente a hora definida pelos decanos, a hora equinocial igual à vigésima quarta parte do tempo de rotação da terra no momento dos equinócios, e a hora solar que variava de tamanho segundo os meses do ano, graduando os seus diferentes relógios em conformidade.


O CALENDÁRIO DUPLO DO ANTIGO EGIPTO

Os Egípcios desvalorizaram os ciclos lunares e a descoordenação entre a contagem dos dias e a revolução real do Sol (num ano solar de 365,2500 dias cabem 12 meses lunares de 354 dias, uma vez que a Lua demora 29 dias e meio a regressar à mesma fase) (Savoie, 1998: 102; Bomhard, 1999: 6), que o calendário juliano viria a considerar, mantendo o seu calendário praticamente imutável ao longo de toda a sua civilização. Mas, não só não desconheciam estas questões, como nem mesmo as puseram totalmente à margem. Como disse o astrónomo e matemático grego Geminus de Rodes no século I a. C., em Elementa Astronomica, os Egípcios tentaram «conduzir os anos de acordo com o sol; os dias e os meses de acordo com a lua».[8] Para os Egípcios, o ano solar marcava automaticamente os fenómenos astronómicos que regiam o seu ano agrícola e, atentos a isso, celebravam outra «Abertura do Ano» no primeiro dia de cada ano solar, independente do primeiro dia de cada ano da contagem linear, motivada pelas entronizações reais. Este dia era determinado pelo aparecimento a oriente da estrela mais brilhante do céu durante a noite, Sepedet, Sírio (gr. seirios; lat. sirius), pertencente à constelação Cão Maior e, por via latina, vulgarmente chamada Canícula, o que acontecia sistematicamente a 19 de Julho de cada ano (peret sepedet), altura em que o Nilo iniciava a sua subida (Shaw & Nicholson, 1995: 42). Esta relação estabelecida entre o ciclo anual estelar e a vida do Nilo, e com a própria sobrevivência dos Egípcios, desde cedo levou à constatação de que o eterno retorno da inundação coincidia com o ciclo anual da estrela Sírio.[9] Percepcionando um fenómeno de bom augúrio, viam nela a divindade feminina Sopdet (a Sótis grega), senhora da inundação, identificada tanto com Satjet (ou Satet), divindade protectora da região da primeira catarata, como com Ísis, cujas lágrimas derramadas por Osíris engrossavam o Nilo.


Dois calendários estavam então em uso: um baseado no percurso solar e nas fases da Lua ̶ o calendário civil ou móvel; e outro na elevação helíaca de Sírio ̶ o calendário sotíaco ou fixo. Contudo, independentemente de algumas questões que possam ainda manter-se em aberto em relação à coordenação entre os dois (como a não concordância entre os ciclos astronómicos ou a fracção excedentária de ¼ que tem cada ano solar de 365 dias), com base em documentos astronómicos que se apoiam em Sírio e Órion ̶ o par masculino de Sírio[10] ̶ nas diversas personificações astrais e, até, noutros textos não astronómicos, é fortemente plausível que o calendário faraónico tenha reunido os ciclos do Sol, da Lua e de Sírio num sistema único, um «grande ano» de 1461 anos, um sistema que em vez de anular a contagem civil, implicava a sua manutenção, uma vez que o atraso de um dia de quatro em quatro anos do calendário em relação ao tempo astral, só se anulava ao fim dos 1461 anos em que se cumpria o chamado «período sotíaco» (Sales, 2001: 166).


Entre todas as estrelas, Sírio é a que apresenta um ano mais próximo do ano trópico solar: 365,2500 dias para os 365,2422 dias deste último. Para manter o calendário sotíaco a par do calendário lunar, implicaria introduzir um dia suplementar de quatro em quatro anos. Caso isto fosse feito, esta questão deixava de ser um epifenómeno para passar a ser o resultado de uma decisão que impediria os dois calendários ̶ o sotíaco e o lunar ̶ de evoluírem cada um por si, pondo em causa o mecanismo de união natural existente entre eles, num ciclo que se completava cada 1460 anos e para o qual era totalmente absoluto o ano móvel. São dois períodos numericamente iguais: um pequeno, de quatro anos com 365 dias cada, mais um dia, perfazendo 1461 dias (calendário lunar); e um grande, de quatro vezes 365 anos mais um ano, perfazendo 1461 anos (calendário sotíaco).


Este calendário duplo forneceu uma base sólida tanto para as operações técnicas que giram em torno da contagem do tempo, mas também para o desenvolvimento de uma visão mais ampla da evolução do próprio tempo: não tinham o ano bissexto, mas o atraso de um dia todos os quatro anos, era anulado ao fim de 1461 anos (Bomhard, 1999: 28-30). Devido ao mesmo posicionamento que a terra assume em cada ano por causa do seu movimento de translação, o ano sotíaco relacionava-se directamente com as estações. Mas se um ano sotíaco é o intervalo de tempo que decorre entre duas elevações helíacas numa mesma latitude de referência, é preciso saber que referência era essa, porque a elevação helíaca varia com a latitude. No Egipto antigo, provavelmente seria Buto, na parte no ocidental do Delta.


Fig. 9 – Pequena placa do Hórus Djer, c. 3000 a. C., Abido.


É a pequena placa de marfim do Hórus Djer (segundo ou terceiro rei da I dinastia, cerca de 3000 a. C.), encontrada em Abido, que clarifica esta questão (fig. 9). Numa escrita hieroglífica ainda muito primitiva, a sua leitura tem merecido diferentes interpretações. Partilhamos a opinião daqueles que pensam que nela se faz a relação entre o aparecimento de Sírio e o início da inundação, surgindo o nome da localidade de Buto como possível atestado da antiguidade do estabelecimento do duplo calendário. Na placa há duas colunas de leitura viradas para o centro onde se encontra um símbolo solar, um obelisco (tekhen), um «raio do Sol» tido como sagrado pelo menos desde a I dinastia e evocando, provavelmente, a componente solar do rei. Do lado esquerdo, de cima para baixo, começando pelo serekh,[11] lê-se hor djer dep, «Hórus aquele que socorre Dep (Buto)» ou, tendo em conta a frase seguinte, «Hórus aquele que acaba [com a fome] em Dep»; do lado direito temos su sepedet akhet, literalmente «no dia em que a Inundação chegar com Sírio», isto é, «na abertura do ano». A representação de Sírio sob a forma de vaca não é única,[12] sendo uma provável associação ao conceito de «vaca do céu», a «alimentadora» e protectora do faraó e do Egipto, figura sincrética que pode aparecer como Ísis, Hathor, Sekhmet, Sótis ou Sekhathor. A pluma sobre os cornos da vaca tem conotações com o retorno cíclico da inundação[13] e costuma aparecer em composições astronómicas como parte da coroa de Sírio, normalmente encimada por um disco solar. Além do mais, Buto preenche as condições geográficas (latitude) e históricas (antiguidade) exigidas para a elevação sotíaca (Bomhard, 1999: 46-49).


O ciclo sotíaco foi também o ponto de partida para a tentativa de datar com maior precisão o estabelecimento do calendário. Como no ano 139, durante o reinado do imperador romano Antonino Pio (138-161), o levantamento helíaco coincidiu com o primeiro dia do nosso calendário actual, sucessivas subtracções de períodos de 1461 anos atingem primeiramente o ano de 1322 a. C., no início da XIX dinastia, depois o de 2783 a. C., na II dinastia, Época Arcaica ainda antes do Império Antigo se iniciar, e 4244 a. C., no fim do Neolítico ou princípio da Época Pré-Dinástica, que no Baixo Egipto correspondeu às culturas de Merimdé e Omari, no Médio Egipto à cultura do Faium A e no Alto Egipto à cultura de Tasa (Rachet, 1987: 59).[14]


Apesar de uma certa descoordenação entre eles, os Egípcios mantiveram funcionais os seus dois calendários, o móvel e o fixo. As referências ocasionais deste acontecimento nos documentos mostram que o ano sotíaco nunca suplantou o ano civil em contextos administrativos. Tinham consciência das desvantagens da utilização do ano móvel, que classificavam de «mau», de incorrecto, que se opunha ao «bom», ao correcto, mas que, mesmo assim, nunca substituiu o ano fixo, que era usado como uma obrigação. Isto contrariava a própria teologia e os seus rituais, nomeadamente no que respeita ao culto solar que não encontrava reflexo na natureza do calendário. Mas esta contradição é apenas aparente. A utilização do ano móvel era imperativa, uma vez que o funcionamento do calendário repousava sobre dois dados essenciais: a elevação de Sírio, que inaugurava o ano fixo, e o modo de compatibilizar o quarto de dia suplementar do ano sotíaco. Para tal, a estrela Sírio era o fulcro da questão.


Fig. 10 – Disposição horizontal dos ciclos astronómicos no tecto do Ramesseum (1279-1213 a. C.).


Embora o período sotíaco já fosse conhecido dos autores clássicos, só depois de Champollion ter decifrado a escrita hieroglífica (1822) foi possível confirmá-lo através da leitura de documentação variada, cuja maioria tem mais valor para o estudo da astronomia egípcia e da cronologia do que para determinar a estrutura do calendário. Não é o caso do verso do Papiro Ebers, único manuscrito onde se encontra uma relação entre uma data sotíaca e uma lista de festividades do ano móvel, reportando-se ambas ao ano nove do reinado de Amen-hotep I (Bomhard, 1999: 31-33),[15] a partir do qual é possível fazer uma análise tanto dos aspectos estruturais como dos aspectos conjunturais do calendário. Também a pedra de Elefantina, a carta de Kahun, o calendário de Medinet Habu ou a estela de Buto, encerram importantes contributos para esta temática. Outras fontes (normalmente túmulos reais e templos funerários) reúnem informações relacionadas com os planetas, Sírio e as divindades lunares.[16]


Particularmente importantes para o estudo do calendário, destacam-se duas composições astronómicas: a clepsidra de Karnak (fig. 8), em disposição circular (Bomhard, 1999: 15-17), e o tecto do Ramesseum (fig. 10) em disposição horizontal (Bomhard, 1999: 84-85). Ambas com três registos:


- o superior com Sírio, os decanos e os planetas (registo II do Ramesseum: ano sotíaco compreendendo o ciclo decanal, os decanos e os planetas);


- o médio com as constelações do céu do norte e as divindades lunares (registo III do Ramesseum: ano lunar e ciclos mensais);


- e o inferior, onde o faraó, por vezes assimilado à divindade solar, honra as divindades representativas dos meses (registo IV do Ramesseum: celebração, pelo faraó, das divindades representativas das doze festas que dividem o ano em doze meses).


A maioria das representações contempla apenas os dois primeiros registos. Contudo, no Ramesseum surge um quarto registo, o registo I, com o ano móvel ao qual se reportam todos os ciclos.


Apresentando-se sempre na parte central do registo superior (registo II, do tecto do Ramesseum), como em todas as representações do calendário sotíaco, Sírio e Órion parecem dominar todo o conjunto. Na sua figuração mais comum, a primeira é colocada sobre uma barca personificada na deusa Ísis, conforme indica o nome aí inscrito: Ísis ou Sopdet; na sua frente, também sobre uma barca e deificado, Sah, o seu par Órion, encimado pelas três estrelas que compõem a constelação. Independentemente das pequenas diferenças entre documentos e épocas, que vários autores justificam, Sírio e Órion mantêm a sua postura com o rosto virado no sentido da progressão dos decanos, mas Órion tem o corpo virado para trás, para Ísis, parecendo ir ao seu encontro, tanto mais que as barcas estão de proa contra proa. Este defrontar marca o limite dos períodos, a separação dos ciclos anuais: enquanto Órion anuncia o fim do ano precedente, Ísis-Sírio inaugura o novo ano.


Apesar dos Egípcios terem um termo próprio para planeta (guenemu), utilizavam vulgarmente o vocábulo seba tanto para estrela como para planeta (o que nos impede de usar este termo com o significado restrito de estrela), embora os diferenciassem uns dos outros: as 36 estrelas decanais constituíam uma entidade e os planetas constituíam outra colocada à parte junto dos dias epagómenos, ambas localizadas no registo superior, nas representações de dois registos (registo II do tecto do Ramesseum). Nos tempos faraónicos estavam identificados os cinco planetas visíveis a olho nu. Tendo em consideração as suas órbitas em relação à da Terra estavam agrupados em internos, Mercúrio e Vénus (sebeg e djai-benu) e externos, Marte, Júpiter e Saturno (hor dechre, sebá-resi e hor ka pet) (Bomhard, 1999: 72-74). Entre estes dois grupos eram representados os dias epagómenos.


No registo inferior surge a Lua, o seu ciclo mensal e o ano lunar (registo III do tecto do Ramesseum), que é diferente do ano fixo. Em tectos como os dos túmulos de Senenmut e Seti I, apresentam-se as divindades lunares dispostas, orientadas e enquadradas com os outros elementos representados. Cada fase da Lua do ciclo lunar, que se identifica com uma festa especial, tem a sua própria designação: Lua Nova – pesedjenetiu, Quarto Crescente – senet; Lua Cheia – semedt e Quarto Minguante – denit. Os dias da fase ascendente da Lua são representados por uma escada de catorze degraus, igualmente ascendentes, contendo cada degrau um dos deuses da Grande Enéade de Karnak. No topo, Tot apresenta o mais poderoso símbolo do Egipto antigo, o «Olho Santo», o udjat, o olho esquerdo de Hórus que personificava a Lua Cheia, aquele que Set lhe arrancou e Tot recuperou (Bomhard, 1999: 79-79).


Como parece já o terem entendido os antigos Egípcios através da observação do movimento dos planetas e da determinação dos seus períodos de revolução sinódica, determinada posição de um ou mais planetas repetindo-se periodicamente permite a construção de um sistema de datação. Clarifique-se, no entanto, a seguinte questão: a astronomia egípcia, dominada por uma elite sacerdotal, era basicamente uma ciência de carácter religioso que procurava responder a preocupações práticas que, para além da medição do tempo e do início da inundação, permitia, por exemplo, a correcta orientação de templos e túmulos, segundo os seus princípios religiosos. Contudo, nunca alcançaram o brilhantismo da astronomia dos Babilónios. Embora tivessem determinado o pólo norte com precisão e a sua variação ao longo dos tempos, distinguido os planetas visíveis sem a ajuda de qualquer aparelho, observado eclipses, aperceberem-se da existência de meteoros e seguirem um corpo celeste brilhante, provavelmente o cometa Halley (Sauneron, 1970: 30), foram incapazes de elaborar explicações de carácter científico em relação a estes fenómenos astronómicos. Apesar de tudo o que referimos requerer um bom conjunto de observações, no seu todo a astronomia egípcia permaneceu bastante rudimentar.



A HELENIZAÇÃO DO CALENDÁRIO DO ANTIGO EGIPTO


Ao instalarem-se no Egipto em 332 a. C., os Gregos não viram grande utilidade em manter este calendário cósmico, uma vez que o calendário móvel, o solar, se encontrava bastante desalinhado. Procuraram antes criar um mecanismo que permitisse não só corrigir esse desalinhamento, como evitá-lo daí para diante. O desfasamento de um dia de quatro em quatro anos entre os dois calendários e, consequentemente, a deslocação do início do ano de um mês em cada cento e vinte anos, levou Ptolemeu III Evergeta I (246-221 a. C.) a tentar resolver a questão por decreto (Decreto de Canopo, de 238 a. C.), ajustando ao ano móvel um sexto dia epagómeno de quatro em quatro anos. Mas alterar a lei divina de Tot não era fácil para os Ptolemeus. Em todo o caso, o dia escolhido não foi o do decreto ptolemaico ̶ o dia em que Sírio se erguia ̶ mas o primeiro dia do mês de Tot do calendário móvel, que no ano da reforma foi 41 dias depois do erguer helíaco. Com a sua inclusão, o antigo ano móvel passou a fixo, contando o Egipto a partir dessa data com dois calendários fixos: o calendário sotíaco, que se iniciava com o aparecimento da estrela Sírio; e o calendário alexandrino que começava no primeiro dia de Tot, 41 dias após Sírio se elevar. Esta alteração teve sempre fortes resistências.



A ROMANIZAÇÃO DO CALENDÁRIO HELENIZADO DO ANTIGO EGIPTO


No século I a. C., Alexandria era a área urbana mais populosa do Mundo Antigo, exceptuando Roma. Uma miríade de raças e culturas provenientes do mundo grego, de Roma, Pérsia, Arábia, incluindo uma grande comunidade judaica, juntou-se à população indígena de egípcios e núbios. Aí, a cultura helenística tardia floresceu. Foi por meio de Alexandria que o Egipto se abriu ao mundo mediterrâneo. Nesse mesmo século, o ano civil romano estava três meses adiantado em relação ao ano solar, mostrando a imperfeição ancestral do calendário romano, inicialmente lunar e depois lunissolar. Como diz Maria do Rosário Laureano dos Santos, «Os Romanos tiveram uma grande dificuldade na contagem do tempo, tal como todos os povos civilizados, exceptuando alguns, como por exemplo os Egípcios, que, cuidadosamente, tentaram observar a passagem das épocas» (Santos, 2006: 119 e 125). Vejamos como funcionava o calendário romano.


O primeiro calendário romano era atribuído a Rómulo, datando o seu início de cerca de 753 a. C. Era um calendário lunar em que o ano tinha 10 meses de 30 ou 31 dias, totalizando 304 dias. Os outros 61 dias coincidiam com o Inverno e não entravam no calendário. O ano começava em Março, com o equinócio da Primavera, e estava assim organizado:

Martius (31 dias) Sextilis (30 dias)

Aprilis (30 dias) September (30 dias)

Maius (31 dias) October (31 dias)

Junius (30 dias) November (30 dias)

Quintilis (31 dias) December (30 dias) (Santos, 2006: 119-120)


No século I a. C., depois da reforma de Numa Pompílio por volta de 713 a. C., o ano ainda começava em Março (foi assim até 153 a. C.),[17] mas o calendário já era simultaneamente lunar e solar. O início dos meses manteve-se coincidente com o início das fases da Lua, os meses de 30 dias passaram a 29, foram adicionados dois novos meses no fim do calendário, acrescentando-se ainda mais um mês extra de dois em dois anos, Mercedonius, de 22 ou 23 dias para completar o ano solar. Este novo calendário romano era bem mais preciso do que o anterior e tinha-se baseado no calendário ateniense que era lunissolar. Contudo, a contagem do tempo estava ainda longe de ser perfeita. O calendário romano viu o seu tamanho aumentando para 355, 377 ou 378 dias, numa média de 366,25, organizado do seguinte modo:


Martius (31 dias) Quintilis (31 dias) November (29 dias)

Aprilis (29 dias) Sextilis (29 dias) December (29 dias)

Maius (31 dias) September (29 dias) Januarius (29 dias)

Junius (29 dias) October (31 dias) Februarius (28 dias) (Santos, 2006: 120)


Quando foi empossado Pontifex Maximus, Júlio César (100-40 a. C.) passou a ser o responsável pelo funcionamento do calendário, como todos os detentores deste cargo, sendo tentado a resolver o problema, adicionando os dias necessários para afinar as datas das efemérides que Roma festejava. Por isso, para acertar o ano em 45, a. C., o ano 46 a. C. atingiu excepcionalmente 445 dias, correspondendo ao ano 708 após a fundação da cidade de Roma e terá sido o «ultimus annus confusionis», segundo os escritos de Macróbio, escritor romano do início de século V, no seu livro Saturnais (Santos, 2006: 120).


De 45 a. C. em diante, os romanos adoptaram o calendário solar egípcio de 365 dias e seis horas, ou 365,25, adicionando os dias extras necessários aos meses mais curtos. Em 25 a. C., Augusto fez inserir um dia entre 23 e 24 de Fevereiro, a cada quatro anos, que era chamado de bissexto, já que o sexto dia anterior às calendas de Março era contado duas vezes. Este dia deu o nome ao ano em que foi incluído, mas não era ainda o 29 de Fevereiro, que na época não existia. Em sua homenagem, o Senado atribuiu ao mês até então chamado de Sextilis o seu nome e foram redistribuídos os dias dos meses, para que o mês de Augustus não ficasse menor do que o dedicado a Júlio César. Com as intervenções de Júlio César e Augusto estabeleceram-se definitivamente os nomes dos 12 meses do ano e a duração de cada um: Ianuarius, 31 dias; Februarius, 28 ou 29 dias; Martius, 31 dias; Aprilis, 30 dias; Maius, 31 dias; Iunius, 30 dias; Iulius (homenagem a Júlio César), 31 dias; Augustus (homenagem a Augusto), 31 dias; September, 30 dias; October, 31 dias; November, 30 dias; December, 31 dias (Santos, 2006: 119 e 125). A semana de sete dias, o tempo aproximado de duração de uma fase lunar, começou a ser usada no início do período imperial, depois do calendário juliano ter entrado em vigor. Estas foram, porventura, as reformas mais significativas das que foram ocorrendo até à grande reforma gregoriana. Este calendário ficou conhecido como calendário juliano e foi usado até 31 de Dezembro de 1581.


O calendário egípcio, primeiro helenizado e depois romanizado, que Júlio César instalou em todo o mundo romano, era de grande simplicidade matemática. Embora houvesse outros calendários na antiguidade pré-clássica (Sumério, Babilónio…) ou clássica (Grego), este não necessitava de ajustes constantes por inserção de dias ou meses, para além dos referidos, e servia para datar qualquer acto oficial ou oficioso, religioso ou civil, levando à afirmação de Júlio César «o único calendário inteligente que já existiu na História do Homem» (Posener, 1970: 40). Sobre este assunto, foi assessorado pelo hemerologista egípcio Sosígenes de Alexandria (Santos, 2006: 120), um egípcio sobre o qual pouco se sabe, mas que conseguiu impor as suas ideias a Júlio César, visto que se baseavam numa prática milenar que já se tinha revelado realmente boa. Foi aqui também, que o calendário perdeu toda a sua conotação religiosa e passou a ser visto como uma simples ferramenta de medição do tempo.



DO CALENDÁRIO JULIANO AO CALENDÁRIO GREGORIANO


No dia 1 de Janeiro de 1582, o papa Gregório XIII fez a última grande reforma ao calendário egípcio helenizado e romanizado, implementando assim o calendário gregoriano, como o conhecemos, e que ainda está em uso.


A pequena diferença em relação à duração real da revolução solar (365,2422 dias), que de 4 em 4 anos gerava um ano a mais, levou o papa Gregório XIII a corrigi-lo em 1582, retirando-lhe a diferença acumulada de dez dias de adiantamento em relação à data oficial (a seguir ao 4 de Outubro de 1582 veio o 15 de Outubro de 1582). O erro passou a ser evitado introduzindo ainda a regra de que só os anos terminados em zero que fossem múltiplos de 400 seriam bissextos. Deste modo, em cada 100 anos retira-se um dia e em cada 400 adiciona-se um dia, ou seja, em cada 400 anos eliminam-se três anos bissextos. A reforma gregoriana não só estabeleceu o calendário actual como embebeu profundamente as suas raízes no Egipto antigo (Canhão, 2006: 58-59).



CONCLUSÃO


O calendário egípcio era, claramente, de natureza decanal, tendo como elemento dominante e central das representações astronómicas a estrela Sírio, em volta da qual se organizava e assentava o ano civil, desde sempre o ano mais usual, num sistema que incluía métodos naturais de auto-regulação dos ciclos astronómicos. A própria hora equinocial foi definida em função do comprimento do ano: um novo decano aparecia todos os dez dias e a sua revolução avançava um grau por dia cumprindo-se em 360 dias. Doze grupos de três décadas constituíam os doze meses que coincidiam com os ciclos lunares, ajustando-se os dias epagómenos para o ano móvel ter 365 dias. O quarto de dia em falta era contabilizado anualmente em cada elevação de Sírio, sendo o dia assim gerado em cada quatro anos, escamoteado. O acerto entre os anos civil e sotíaco fazia-se naturalmente, em períodos de 1461 anos. De facto, uma leitura vertical axial do Ramesseum (Fig. 7) mostra-nos Sírio como pivot do sistema, inaugurando o ano sotíaco, o ciclo sotíaco, o ciclo decanal e o ano lunar, sendo a sua precisão, estabilidade e perenidade simbolizadas por Tot sentado sobre um pilar djed, cujos quatro degraus evocam a tetrarquia sotíaca. Além disso, em todas as representações astronómicas o registo que diz respeito à Lua e ao seu ciclo aparece sempre em segundo lugar, o que não parece favorável à ideia de um calendário originalmente, ou essencialmente, lunar. Daí que pensemos que enquanto a maioria dos povos da antiguidade desenvolveram calendários baseados nas fases da Lua, corrigindo artificialmente o desfasamento em relação ao ano solar, os egípcios sem abandonar essa vertente, conceberam um calendário com base no ciclo das estações através da utilização de astros fixos e com meios auto-reguladores próprios. O calendário egípcio foi concebido como uma verdadeira obra de eternidade.


A conjugação de diversos elementos referidos, permite fazer o paralelismo entre os diferentes calendários, incluindo o que usamos actualmente. Não só documentos do tipo do Papiro Ebers põem em evidência a relação entre o ano móvel e o ano fixo dos Egípcios, mas também certos acontecimentos astronómicos, como os equinócios ou a elevação helíaca, permitem referências fixas em qualquer calendário. Assim é possível dizer que ao terceiro mês de Verão do calendário móvel egípcio, correspondia o mês do Festival de Ano Novo no seu calendário fixo; este começava no primeiro dia do mês de Tot, que correspondia ao 19 de Julho do calendário juliano que, por sua vez, corresponde ao 15 de Junho do nosso calendário actual, na latitude de Mênfis. É evidente que o estabelecimento da cronologia egípcia é complexo e há que considerar outros elementos para além da astronomia: listas reais, textos históricos, inscrições biográficas, datas lunares dos festivais egípcios, correspondência com listas de reis mesopotâmicos e hebreus… E quando não há, ou rareiam, os vestígios escritos, apela-se, ainda, para outros tipos de documentos postos a descoberto pela arqueologia. Por tudo isto é que a cronologia do antigo Egipto ainda tem tantas oscilações. Muitas delas pequenas, é certo, mas ainda existem. Contudo, nada disto, incluindo a ligeira inexactidão do calendário civil egípcio com o ciclo astronómico e a forte carga mitológica que pretendia justificar a origem da humanidade e de tudo o que com ela interage, impede muitos especialistas de considerarem o calendário egípcio alicerce daquele que é usado actualmente com carácter universal, como o mais racional, ordenado e claro de todos os que foram criados ao longo da História.


De facto, o actual calendário, o gregoriano, não foi criado por Gregório XIII. Os seus astrónomos simplesmente aperfeiçoaram o calendário juliano, retirando-lhe deficiências que continuavam a acontecer mesmo depois das reformas anteriores. Mas Júlio César também não foi criador de nenhum calendário. Também ele melhorou algo que vinha de trás. Júlio César percebeu que o calendário egípcio era o que mais se aproximava do sistema lunissolar, sendo muito melhor do que o que existia até então no Império Romano, ao qual faltavam dias, e adoptou-o, fazendo-lhe algumas alterações. Sobretudo quebrou o epifenómeno de 1461 anos e procurou que a correcção temporal fosse mais rápida e encaixável na existência humana. Dessa forma, o quarto de dia a mais todos os anos, permitia uma correcção de 4 em 4 anos. Portanto, a Júlio César se deve a implementação deste calendário em todo o Império Romano. Mais tarde, a Igreja, os comerciantes e os Descobrimentos ampliaram essa expansão, e o tempo e a modernização fizeram o resto. Hoje ninguém lhe chama calendário egípcio, mas é ele que se impõe em todo o mundo, ou seja, globalizou-se. Mesmo em regiões que têm outros calendários, sobretudo religiosos ou festivos, é com este calendário que se uniformizam as relações entre todos, em qualquer parte do mundo. Ou seja, uma realidade local ̶ egípcia ̶ foi-se adaptando e melhorando sem nunca se tornar impossível reconhecer a sua origem. Extravasando a sua utilização exclusivamente nilótica, alargou primeiro a sua implantação em torno do mare nostrum, depois foi ampliando ainda mais os seus horizontes, e, por fim, globalizou-se. Em qualquer contacto, de negócios ou de lazer, para qualquer parte do mundo, são os fusos horários e este calendário ̶ egípcio, romano, gregoriano ̶ que nos sincronizam uns com os outros: falamos com alguém às tantas horas, no dia tal, de tal ano, graças ao reconhecimento universal destas ferramentas inigualáveis. E é ele que muitos trazem nos seus pulsos, em pequenas grandes máquinas que medem o tempo, encerrando em tão reduzidos espaços toda a complexidade mecânica que possibilita incluir toda a orgânica astronómica que permite medir do segundo ao ano, podendo passar pelo minuto, pela hora, o dia, a semana e o mês, sem esquecermos as fases da lua e ainda outras capacidades de medição dos relógios como, por exemplo, simples indicadores de reserva de energia.


E se a maioria das pessoas não é capaz de recuar para além de Júlio César, a culpa nem sequer é sua! É uma questão que se fica a dever ao natural desenrolar dos acontecimentos. A cultura clássica começou a ser estudada no Renascimento, quando a partir de meados do século XIV, os humanistas, fluentes em língua latina e grega, fizeram da Antiguidade Clássica exemplo para reformular a vida medieval e dar início à Idade Moderna. Só muito mais tarde começariam os estudos egiptológicos, que tiveram como ponto de partida a decifração dos hieróglifos por Jean-François Champollion, em 1822. Esta diferença de cerca de cinco séculos, permitiu que os estudos clássicos atingissem uma grande vantagem em relação aos estudos egiptológicos, mas como pensamos que acabámos de demonstrar apenas para um tema, muitas outras temáticas começaram a ser desenvolvidas antes dos Gregos e dos Romanos. Certo e sabido é que quanto mais olharmos para o passado, melhor podemos ver o futuro.


NOTAS:

[1] Os Romanos tinham nomes especiais para três dias em cada mês: o primeiro dia do mês era chamado de Calendas (Kalendae), correspondendo ao aparecimento da lua nova; o 5º ou o 7º dia do mês de Nonas (Nonae), correspondendo à fase lunar de quarto crescente; e o 13º ou o 15º dia do mês de Idos (Idus), correspondendo ao dia de lua cheia. Em Janeiro, Fevereiro, Abril, Junho, Agosto, Setembro, Novembro e Dezembro, as Nonas ocorriam ao 5º dia e os Idos ao 13º dia; em Março, Maio, Julho e Outubro, as Nonas ocorriam ao 7º dia e os Idos ao 15º dia. Os outros dias eram identificados por contagem regressiva. Por exemplo: 3 de Setembro dizia-se 3 dias antes das Nonas de Setembro, 7 de Setembro dizia-se 7 dias antes dos Idos de Setembro, ou referia-se o 20 de Setembro como 11 dias antes das Calendas de Outubro (Santos, 2006: 119 e 125).
[2] Ver na inscrição heroglífica infra o último hieróglifo, que se encontra por baixo da cobra, que é o antepenúltimo caracter.
[3] As datas que fazemos corresponder ao calendário actual, o calendário gregoriano, são apenas aproximadas, podendo haver uma diferença de mais ou menos um dia em cada estação, uma vez que dependiam de fenómenos astronómicos variáveis. Contudo, o seu conjunto soma indiscutivelmente 360 dias.
[4] Pensa-se que a designação dos meses era comum no egípcio falado, tal como hoje usamos «Janeiro» para o «mês um», «Fevereiro» para o «mês dois», «Março» para o «mês três», etc.
[5] Embora sem a indicação do mês e do dia, lê-se renpet hor hem en nesu-bit djeser-ka-ré ankh djt, que significa «Ano 9, sob a majestade do rei do Alto e do Baixo Egipto Djeserkaré (Amen-hotep I), que viva eternamente.» (Papiro Ebers, verso).
[7] Sem o mencionarem, é o reconhecimento empírico de que a Terra percorre uma órbita elíptica, situando-se o Sol num dos focos da superfície cónica, em que a Terra passa no ponto mais próximo do Sol, o periélio, em Janeiro e no ponto mais afastado, o afélio, em Julho.
[8] Geminus, 8, 7 apud Santos, 2006: 122.
[9] Como a conjunção entre fenómenos celestes e terrestres só era possível após longas observações e registos de dados, as divindades tutelares do tempo e do calendário eram o par divino Tot, deus da sabedoria, da escrita e da lua, e Sechat, deusa da escrita e das medições.
[10] Sírio e Órion aparecem sempre juntas, em posição central, nas representações do calendário sotíaco.
[11] O serekh era um símbolo hieroglífico que representava a fachada do palácio real com o nome de Hórus do rei inscrito e, geralmente, encimado por um falcão, ilustrando o conceito de «Hórus está no palácio».
[12] Uma descrição semelhante aparece num relevo à entrada da sala hipostila do templo de Dendera.
[13] Neste caso, evoca a viagem que Tot assumiu sob a forma de Chu à Núbia, para trazer a inundação de volta ao Egipto.
[14] Se alguns aceitam esta última data como ponto de partida do calendário, outros, baseando-se na ideia de que o ano fixo inicialmente não estava vinculado a Sírio tendo-se desenvolvido a partir do calendário lunar, têm-na como inaceitável. Recuam cerca de mil anos, para aproximadamente 3400 a. C., e tendo em consideração a designação dos dias epagómenos, atribuem a sua invenção aos sacerdotes heliopolitanos, numa altura em que Heliópolis era capital de um reino local unificado, no fim da Época Pré-Dinástica, antes ou na altura da provável unificação de Narmer e, portanto, na época do Hórus Djer ou próximo dela.
[15] Esta é a data que foi reproduzida anteriormente.
[16] Essas representações evocam o destino solar, estelar e cósmico do rei. A sua datação varia da VIII dinastia à Época Baixa.
[17] Na República Romana os anos não eram contados como agora. O primeiro dia do ano era o primeiro dia do mandato consular e cada ano era o ano dos dois cônsules que eram empossados anualmente. Eram empossados em Dezembro e assumiam o poder nos Idos de Março, ou seja, no dia 1 de Março seguinte. Por exemplo, o ano de 154 a. C. foi o ano de Lúcio Postúmio Albino e de Quinto Opímio, mas o primeiro foi assassinado e substituído por Mânio Acílio Glabrião, os últimos cônsules a marcarem o início do seu mandato e, portanto, o primeiro dia do ano, no dia 1 de Março. O ano de 153 a. C. foi o ano de Quinto Fúlvio Nobilior e de Tito Ânio Lusco, tendo o primeiro deles ao ser nomeado cônsul recebido a missão de continuar o trabalho de seu pai na Hispânia, de acabar com a revolta dos celtiberos. Para defender os interesses de Roma, pediu com sucesso que o deixassem assumir o posto imediatamente após a nomeação. Isso aconteceria no dia 1 de Janeiro, passando o ano romano a iniciar-se nesta data, o que ainda hoje acontece. Só nos finais da República alguns historiadores e sábios começaram a contar os anos a partir da data da fundação da cidade de Roma, sendo a data mais usada o ano de 753 a. C., que foi calculada por Marco Terêncio Varrão para a fundação de Roma (cf. Santos, 2006: 120-121; Lista de cônsules da República Romana, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_c%C3%B4nsules_da_Rep%C3%BAblica _Romana).

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Origem das Figuras: fig. 1, 2, 3, 8, 9 e 10 adaptadas de Bomhard, 1999: 65, 65, 68-69, 15-16-17, 48, 18-19; fig. 4 adaptada de http://cienciaviva.org.br/index.php/2020/05/03/construarelogiosolegipcio/; fig. 5 adaptada de http://www.ciencia-online.net/2013/03/ relogio-de-sol-do-antigo-egipto.html; fig. 6 adaptada de Erman & Ranke, 1976: 449-450; fig. 7 adaptada de Franci, 2010: 90.


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