Radar Horológico — 9 de setembro de 2026
O dia em resumo
A Seiko olha simultaneamente para Tóquio e para o universo dos cocktails, enquanto a alta-relojoaria explora caminhos bem diferentes: cerâmica, astronomia e novas leituras de complicações históricas.
A nova King Seiko VANAC HKF005 leva a coleção para uma estética nocturna inspirada em Tóquio; os Presage Cocktail Time GMT regressam com Corcovado e Daiquiri; e a Titoni surpreende com um turbilhão manual em cerâmica e mais de 100 horas de reserva de marcha. Mais acima na escala da relojoaria, a Christiaan van der Klaauw mostra o Planetarium Skeleton e a Louis Vuitton dá um passo particularmente significativo: o Spin Time ganha cinco referências na coleção permanente.
Cinco novidades muito diferentes, mas uma ideia comum: as marcas estão a procurar identidade através da mecânica e do desenho, não apenas através da novidade.
King Seiko VANAC HKF005: Tóquio depois de escurecer

A King Seiko acrescenta uma nova referência à família VANAC: a HKF005, uma versão em aço com mostrador negro pontuado por partículas que procuram evocar as luzes da paisagem urbana de Tóquio à noite. É uma alteração aparentemente simples, mas importante para uma coleção cujo regresso assenta numa interpretação contemporânea do desenho angular e colorido dos VANAC dos anos 1970.
A arquitetura mantém os elementos que definem a geração atual: caixa fortemente facetada, ausência de bisel tradicional, bracelete integrada visualmente no conjunto e o calibre automático 8L45. A própria Seiko apresenta o 8L45 como o seu movimento mecânico de produção mais preciso, regulado entre +10 e −5 segundos por dia, com cerca de 72 horas de reserva de marcha.
O interesse da HKF005 está menos numa revolução técnica do que na consolidação da VANAC como a face mais contemporânea de King Seiko. Em vez de competir apenas no território clássico historicamente associado ao nome, a Seiko está a dar-lhe uma linguagem própria e mais urbana.
Presage Cocktail Time: Corcovado e Daiquiri levam o GMT para o outono
A outra novidade Seiko do dia chega à Presage Cocktail Time. Corcovado e Daiquiri são duas novas interpretações GMT da fórmula que tornou esta coleção tão popular: mostradores muito trabalhados, inspiração direta no universo dos cocktails e posicionamento relativamente acessível dentro da relojoaria mecânica japonesa.
O mais relevante aqui é a continuidade. A Seiko não está a reinventar a Cocktail Time; está a alargar uma linguagem que o público reconhece imediatamente, agora com a utilidade de um segundo fuso horário. É precisamente essa combinação entre complicação prática, forte presença visual e preço comparativamente contido que explica a longevidade da família Presage.
Greubel Forsey GMT Balancier Convexe: menos volume, a mesma ambição
A Greubel Forsey apresentou uma nova leitura azul do GMT Balancier Convexe, agora numa execução mais compacta. Numa marca conhecida por movimentos tridimensionais e caixas de forte presença, reduzir proporções não é apenas uma decisão estética: obriga a preservar a leitura espacial das indicações e a teatralidade mecânica que constituem a assinatura da casa.
O GMT Balancier Convexe continua a colocar a indicação de múltiplos fusos horários e o balanço inclinado no centro da experiência. A mudança de escala é particularmente interessante porque acompanha uma tendência mais ampla da alta-relojoaria recente: peças tecnicamente exuberantes, mas progressivamente menos dependentes de grandes diâmetros para demonstrarem complexidade.
Christiaan van der Klaauw Planetarium Skeleton: o céu deixa ver a mecânica
A Christiaan van der Klaauw levou a sua especialidade astronómica para um território mais aberto com o Planetarium Skeleton. A peça expõe a arquitetura do módulo planetário através de um mostrador de safira e mantém a representação heliocêntrica das órbitas de Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno.
Na versão em platina, a caixa mede 40 mm e a produção está limitada a seis exemplares. O calibre automático CKM-01 oferece cerca de 60 horas de reserva de marcha. Mais do que a raridade, interessa a forma como a esqueletização muda a leitura da complicação: o planetário deixa de parecer uma indicação aplicada sobre um mostrador e passa a revelar-se como parte da própria arquitetura mecânica.
É uma evolução coerente para uma casa cuja identidade depende menos de tendências de design do que de uma especialização extremamente clara: traduzir astronomia em mecanismos de pulso.
Titoni Luxe Tourbillon Ceramic: uma mudança de escala para a marca suíça

A Titoni entra num território substancialmente mais ambicioso com o Luxe Tourbillon Ceramic. A combinação de caixa integral em cerâmica, turbilhão de corda manual e uma reserva de marcha superior a 100 horas afasta esta proposta do núcleo mais tradicional da marca.
A notícia é relevante precisamente pela origem. Um turbilhão é hoje menos raro do que há duas décadas, mas continua a funcionar como teste à capacidade de uma marca para gerir construção, acabamento, posicionamento e serviço num segmento muito diferente. Na Titoni, o Luxe Tourbillon Ceramic deve por isso ser lido tanto como produto como declaração de intenção.
Louis Vuitton Tambour Spin Time: de demonstração a coleção permanente

Talvez a decisão estratégica mais interessante do dia venha da Louis Vuitton. O Spin Time, sistema patenteado de indicação das horas através de cubos rotativos e introduzido em 2009, regressa agora como uma proposta permanente, com cinco novas referências.
A importância desta passagem não está apenas nas novas variantes. Ao integrar de forma estável o Spin Time na coleção, a Louis Vuitton transforma uma complicação visualmente espetacular numa assinatura mecânica recorrente. É mais um sinal do investimento da casa em construir legitimidade relojoeira própria através da La Fabrique du Temps, em vez de depender exclusivamente do peso do nome Louis Vuitton.
A indicação por cubos é especialmente eficaz porque consegue aquilo que muitas complicações procuram e poucas alcançam: ser identificável à distância. Num mercado em que tantas marcas dominam tecnicamente os mesmos repertórios, possuir uma forma de mostrar as horas imediatamente associada a uma casa tem valor estratégico.
L’Epée 1839 The Football: relojoaria mecânica fora do pulso
Entre as novidades recentes que merecem entrar no radar está The Football, da L’Epée 1839. A manufatura transforma a geometria clássica de uma bola de futebol numa escultura mecânica de 220 mm, com um movimento de oito dias composto por 882 componentes.
É uma peça de nicho, mas ilustra uma área frequentemente esquecida quando se fala de relojoaria contemporânea: a relojoaria mecânica de mesa continua a ser um laboratório para arquiteturas, objetos cinéticos e formas que seriam impraticáveis num relógio de pulso.
Geneva Watch Days: o balanço confirma a escala crescente do salão
Com o Geneva Watch Days terminado, os primeiros balanços ajudam a medir a dimensão que o evento atingiu. A edição de 2026 reuniu mais de 70 marcas; os organizadores apontam para um recorde de visitantes e a imprensa especializada contabiliza cerca de 400 relógios apresentados durante o período do salão.
Mais importante do que a contagem é a função que o Geneva Watch Days consolidou: uma plataforma descentralizada capaz de reunir independentes, grupos e marcas de dimensões muito diferentes sem reproduzir integralmente o modelo de uma grande feira tradicional. Para o setor, setembro em Genebra tornou-se já um segundo momento anual de lançamento com peso próprio.
Notícias breves
A A. Lange & Söhne apresentou novas execuções do Triple Split e do 1815 Up/Down: o cronógrafo rattrapante surge em platina com mostrador rodiado, enquanto o 1815 Up/Down recebe edições limitadas em ouro rosa e ouro branco com mostradores azuis.
O mercado continua também atento às novidades apresentadas em torno da semana de Genebra, mesmo quando não fazem formalmente parte do salão. Essa fronteira cada vez menos rígida entre “novidade de feira” e lançamento paralelo é, por si só, uma característica importante do calendário atual.
O que merece atenção
Nos próximos dias, vale a pena acompanhar o fecho da Geneva Sessions da Phillips, a 11 de setembro, e perceber que lotes ganham tração num mercado de leilões que continua muito seletivo. Mais à frente, a venda beneficente dos quatro Rolex Daytona “Four Seasons”, marcada para 28 de setembro em Londres, deverá ser um dos acontecimentos de leilão mais observados do mês.
Radar Horológico é a seleção diária do IPR – Instituto Português de Relojoaria sobre o que merece ser conhecido na relojoaria internacional.



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