Watches and Wonders 2026 — Dia 1 em Genebra
- Nuno Margalha

- há 7 minutos
- 6 min de leitura
Um início institucional — e simbólico

O dia 14 de Abril de 2026 marcou o arranque oficial do maior evento relojoeiro do mundo. A cerimónia de inauguração, realizada no auditório do Palexpo, reuniu cerca de 300 convidados — entre autoridades políticas, líderes da indústria, jornalistas internacionais e representantes das 65 marcas presentes.

Sob a presidência de Cyrille Vigneron, a mensagem foi clara: Genebra não é apenas um centro industrial — é um território cultural onde a relojoaria se constrói, transmite e reinventa. A ideia de equilíbrio entre competição e cooperação define bem o momento actual do sector.

Já Nathalie Fontanet reforçou o papel estratégico do ecossistema relojoeiro num contexto global incerto: um conjunto único de competências, herança e capacidade de inovação que continua a posicionar Genebra como referência mundial.

O corte da fita, com representantes das marcas e autoridades, não foi apenas um gesto protocolar — foi o início de uma semana que mobiliza milhares de pessoas e redefine, ano após ano, o lugar da relojoaria contemporânea.

Escala e impacto: um evento fora de escala
Os números desta edição são reveladores:
~60.000 visitantes esperados
~1.700 jornalistas internacionais
6.000 retalhistas
~50.000 noites de hotel já reservadas
~7.000 pessoas envolvidas na organização
Em menos de cinco anos, o número de expositores praticamente duplicou. O salão tornou-se uma verdadeira “cidade dentro da cidade”, com impacto directo na economia local e na projecção internacional de Genebra.
Um salão em transformação
A edição de 2026 afirma uma mudança estrutural: o evento deixou de estar confinado ao Palexpo.
Integração com o centro da cidade (In The City)
Programação cultural alargada
Parceria com o Montreux Jazz Festival
Concertos, exposições e experiências abertas ao público
A relojoaria passa a ocupar o espaço urbano — não como indústria, mas como cultura viva.
Dia 1 — O que se vive no terreno
Se a manhã foi institucional, o resto do dia revelou aquilo que verdadeiramente define o Watches and Wonders: a experiência.
O ambiente
O primeiro dia tem sempre uma densidade particular:
Fluxo constante entre stands
Luz controlada, quase museológica
Contacto directo com peças de altíssimo valor
Encontros rápidos entre profissionais de todo o mundo

Tendências visíveis desde o início
Mesmo antes dos grandes anúncios, algumas direcções tornam-se evidentes:
Primeiros destaques a circular
Entre as peças que começaram a marcar o ritmo:
TAG Heuer Monaco Evergraph

O TAG Heuer Monaco Evergraph representa uma evolução técnica dentro de uma das caixas mais icónicas da relojoaria contemporânea, mantendo a arquitectura quadrada do Monaco enquanto introduz uma abordagem mais avançada ao cronógrafo.
A principal novidade reside na optimização do sistema de acionamento dos botões, pensado para maior precisão, consistência e fiabilidade ao longo do tempo, reflectindo um foco claro na funcionalidade real e não apenas na estética.
Com uma linguagem visual mais técnica — mostrador aberto, contrastes cromáticos e leitura reforçada — o Evergraph posiciona-se como uma interpretação contemporânea do espírito original do Monaco: um cronógrafo experimental, agora adaptado às exigências actuais da engenharia relojoeira.
Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux

O Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux apresentado em 2026 afirma-se como uma interpretação plenamente contemporânea do espírito viajante da colecção Overseas, inteiramente construído em titânio para conjugar leveza, resistência e conforto. Com caixa de 41 mm e bracelete integrada, o modelo introduz quatro variantes de mostrador, cada uma associada a um ponto cardinal — uma abordagem conceptual que liga directamente o relógio à ideia de exploração e orientação.
No seu interior, o calibre de manufactura 5110 DT/3 assegura as funções essenciais ao viajante — duplo fuso horário, indicação dia/noite e data sincronizada com a hora local — com uma arquitectura pensada para leitura clara e utilização prática.
A estética técnica do titânio, reforçada por contrastes subtis e apontamentos em laranja, encontra-se com um nível de acabamento certificado pelo Poinçon de Genève, resultando numa peça que equilibra robustez desportiva, utilidade real e tradição de alta-relojoaria.
Zenith G.F.J. Calibre 135

O Zenith G.F.J. Calibre 135 — especialmente na versão em tântalo que tens no pulso — deve ser entendido menos como um exercício estético e mais como uma afirmação técnica e histórica.
O ponto central é o calibre 135: um dos últimos grandes movimentos de observatório, cuja arquitectura privilegia um balanço de grandes dimensões e uma construção pensada para precisão cronométrica extrema. A versão contemporânea mantém essa base, mas introduz melhorias funcionais claras — maior reserva de marcha, protecção contra choques e uma regulação extremamente apertada, na ordem dos ±2 segundos por dia .
Ao nível da execução, a diferença face ao resto da gama Zenith é evidente: o acabamento aproxima-se de padrões de alta-relojoaria, com anglage polido à mão, decoração cuidada e uma abordagem mais tradicional às pontes . Não é um calibre industrial “bem feito” — é um calibre tratado como peça de prestígio.
No pulso, isso traduz-se numa dualidade interessante: por um lado, um relógio formal, contido e relativamente compacto (cerca de 39 mm); por outro, um objecto com uma densidade técnica invulgar para um simples três ponteiros .

E é precisamente aí que a versão em tântalo ganha força: retira qualquer leitura “clássica” ou tradicional e aproxima o relógio de um território mais contemporâneo e quase instrumental. Não é exuberante — é exigente.
O olhar do IPR — presença e leitura crítica
Para o IPR – Instituto Português de Relojoaria, o primeiro dia vive-se mais do que se observa. É um mergulho directo num ecossistema onde tudo acontece ao mesmo tempo — e onde cada detalhe conta.
No terreno, a sensação é imediata. Há uma densidade humana rara, quase esmagadora, onde se cruzam conhecimento, experiência e decisão num espaço limitado. O ritmo impõe-se desde os primeiros minutos: reuniões que se sucedem, conversas interrompidas para dar lugar a outras, apresentações que se sobrepõem. Nada pára.
Mas é fora do protocolo que muitas coisas realmente acontecem. Nos corredores, entre dois compromissos, numa pausa improvisada — é aí que surgem as conversas mais francas, os encontros inesperados, as ligações que fazem avançar projectos.
Ao mesmo tempo, percebe-se que já não há fronteiras claras: marketing, técnica e cultura misturam-se de forma natural. Um relógio é simultaneamente objecto, discurso e identidade.
O reel captado neste dia tenta fixar precisamente isso. Não apenas os relógios, mas o ambiente que os envolve — as pessoas, o ritmo, a energia. No fundo, aquilo que faz a relojoaria contemporânea existir para lá das vitrinas.
Um ano com peso histórico
O contexto de 2026 reforça a importância deste primeiro dia:
Regresso da Audemars Piguet ao salão
Aniversários estruturantes (Rolex Oyster, Patek Philippe Nautilus)
Expansão significativa do número de marcas
O primeiro dia do Watches and Wonders Geneva 2026 confirma uma realidade incontornável:
A relojoaria contemporânea já não vive apenas da tradição — vive da sua capacidade de se transformar.
Entre discurso institucional e experiência directa, entre cidade e salão, entre técnica e narrativa, Genebra volta a afirmar-se como o centro onde o tempo se pensa, se constrói e se projecta.
E o Dia 1 — captado no terreno pelo IPR — é exactamente o ponto onde tudo começa a ganhar forma.





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