top of page

Resultados de pesquisa

Search this site

1120 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão

    Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão A F.P. Journe anunciou o vencedor da edição de 2026 do Young Talent Competition, iniciativa criada em 2015 para identificar e apoiar a nova geração de relojoeiros independentes. O vencedor deste ano foi o japonês Shin Ohno, de 27 anos, distinguido pela criação Fuyu-Geshiki (“Paisagem de Inverno”), apresentada durante uma cerimónia realizada na manufactura da marca, em Genebra. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Organizado pela F.P. Journe com o apoio da The Hour Glass, um dos principais retalhistas de relojoaria de luxo na região Ásia-Pacífico, o concurso procura dar visibilidade a jovens relojoeiros capazes de conceber e fabricar projectos independentes de elevada complexidade técnica. O vencedor recebe um diploma e uma bolsa de 50 mil francos suíços, destinada à aquisição de ferramentas ou ao financiamento de futuros projectos relojoeiros. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Formado no National Institute of Technology, Toyota College, Shin Ohno desenvolveu integralmente o relógio vencedor no seu próprio atelier — desde o desenho do movimento ao fabrico dos componentes — sem recorrer a qualquer calibre de base. Inspirada nas paisagens de inverno de Nagano, no Japão, a peça reúne uma combinação particularmente ambiciosa de complicações: grande sonnerie, petite sonnerie, repetição de quartos e turbilhão. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Segundo a organização, o projecto destacou-se tanto pela exigência técnica como pela clareza conceptual, visível na arquitectura do movimento, no trabalho acústico e no cuidado aplicado aos materiais e acabamentos. O júri da edição de 2026 reuniu algumas das figuras mais relevantes da relojoaria contemporânea, incluindo Andreas Strehler, Giulio Papi, Marc Jenni, Michael Tay, Elizabeth Doerr e François-Paul Journe. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Mais do que premiar uma peça isolada, o concurso continua a afirmar-se como uma das poucas plataformas internacionais verdadeiramente orientadas para o futuro da relojoaria independente — e o trabalho de Shin Ohno demonstra que essa nova geração já está a produzir peças de enorme ambição técnica.

  • Watches and Wonders 2026 — Dia 4 em Genebra

    Genebra, junto ao Rio Ródano — em frente à sede do GPHG, a instalação do Watches and Wonders ganha forma pelas mãos de um artista de graffiti , que deixa a sua marca num dos pontos centrais da cidade durante o salão. Foto © IPR 2026 Jaeger-LeCoultre O Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon à Stratosphère representa uma das expressões mais radicais da busca pela precisão: um tourbillon de três eixos, integrado no calibre manual 178, cuja cinemática cobre 98% das posições possíveis, reduzindo ao mínimo a influência da gravidade. Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon À Stratosphère Q5306480 A arquitectura organiza-se em profundidade, com o regulador multi-eixos a dominar a leitura, enquanto o restante movimento — decorado com técnicas de métiers rares — se dissolve na composição. Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon À Stratosphère Q5306480 Não se trata de acumular complicações, mas de levar uma única ideia ao limite: transformar o órgão regulador num sistema quase absoluto de compensação. O Jaeger‑LeCoultre Reverso One Precious Flowers desloca o foco da mecânica para o trabalho de superfície, transformando a caixa num campo de expressão artesanal. A decoração combina esmaltação, gravação e engaste de diamantes numa composição figurativa que ocupa integralmente a carrure, por forma a explorar o formato do Reverso como suporte artístico. A arquitectura mantém-se inalterada — é na pele do relógio que acontece a transformação. Jaeger-LeCoultre Master Control Chronometre Date Q4158120 No pulso, o Jaeger-LeCoultre Master Control Chronometre Date Q4158120 traduz a abordagem da marca para 2026 numa forma mais contida: uma construção clássica que integra, pela primeira vez nesta linha, uma bracelete metálica contínua com a caixa. A leitura mantém-se essencial — horas, minutos, segundos e data — suportada pelo calibre automático 899 com 70 horas de autonomia, enquanto a nova certificação HPG testa o relógio já montado em condições reais de uso, deslocando o foco da precisão teórica para o comportamento efectivo no pulso. A Van Cleef & Arpels manteve em 2026 uma linha muito coerente com a sua identidade: menos foco em arquitectura pura de movimento e mais numa relojoaria narrativa, onde a mecânica serve uma ideia visual — este ano centrada no tema “Poetry of the Heavens” . Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs o Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs apresenta uma das leituras mais depuradas do duplo fuso horário no salão. As horas surgem em janelas independentes, enquanto os minutos são indicados por um ponteiro retrógrado central, criando uma composição equilibrada onde a complexidade mecânica permanece invisível à primeira leitura. Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs No pulso, o Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune VCARPESA00 articula duas complicações sobrepostas numa única paisagem em movimento: um disco de 24 horas que anima a transição entre dia e noite e um segundo sistema astronómico que reproduz a fase lunar, visível também sob pedido. Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune O horizonte em madrepérola guilloché estrutura a leitura, enquanto o céu em aventurina cria profundidade, resultando numa construção onde a mecânica se dissolve na imagem — não se lê apenas a hora, observa-se a evolução do tempo como fenómeno contínuo. Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune No verso, o Midnight Jour Nuit Phase de Lune apresenta uma composição astronómica centrada na Terra, rodeada por astros e planetas estilizados, dispostos sobre um fundo com acabamento radial. Roger Dubuis A Roger Dubuis apresenta neste salão uma leitura particularmente clara da sua própria identidade: três peças que partem da mesma base — a arquitectura Excalibur — mas que exploram caminhos distintos dentro da relojoaria contemporânea. Entre a complexidade extrema do calendário perpétuo, a funcionalidade directa da versão em aço e a dimensão declaradamente artística da linha Brocéliande, constrói-se um conjunto coerente onde técnica, uso e expressão visual coexistem sem conflito. Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar (ouro rosa) Ref. DBEX1178 O Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar reúne uma das arquitecturas mais densas do salão: calendário perpétuo com indicações bi-retrógradas, fase da lua e um mostrador construído em vários níveis que expõe o mecanismo com clareza. A leitura mantém-se surpreendentemente equilibrada, apesar da complexidade, e confirma uma abordagem onde a expressividade da linha Excalibur convive com uma disciplina técnica muito rigorosa. Excalibur Biretrograde Calendar (aço) Ref. DBEX1209 Em tons diferentes, e menos complicado, o Excalibur Biretrograde Calendar Ref. DBEX1209 traduz a linguagem da marca para um registo mais utilizável, sem abdicar da complexidade. A caixa em aço de 40 mm integra-se com naturalidade, enquanto o mostrador em “Cosmic Blue”, construído em múltiplos níveis, revela o calibre RD840 com indicação bi-retrógrada de dia e data. Certificado pelo Poinçon de Genève, mantém a exigência de acabamento da alta relojoaria, mas num objecto pensado para uso contínuo e leitura imediata. Roger Dubuis Excalibur Brocéliande Dawn Rose DBEX1208 Com um tom feminino, o Excalibur Brocéliande Dawn Rose DBEX1208 revela uma abordagem onde a relojoaria se aproxima declaradamente do objecto artístico. A caixa em ouro rosa de 38 mm, com luneta engastada com diamantes, enquadra um mostrador construído sobre safira, onde folhas em madrepérola lacada são aplicadas manualmente, criando uma composição em relevo e em camadas. No interior, o calibre automático esqueletizado mantém-se visível e funcional, mas é deliberadamente subordinado à dimensão estética, numa peça que privilegia a expressão visual sem abdicar da base mecânica da linha Excalibur. O Watches and Wonders termina O Watches and Wonders termina, mas o que fica não são apenas os relógios. Fica a percepção de um sistema em funcionamento — um espaço onde técnica, cultura e estratégia se cruzam continuamente, e onde cada peça surge como parte de um discurso mais amplo. Ao longo dos dias, a leitura altera-se. O impacto inicial dá lugar à comparação, depois à filtragem. O excesso desaparece e ficam apenas as propostas que resistem à repetição — aquelas que mantêm coerência no pulso, fora do contexto controlado do salão. Este ano confirmou uma tendência clara: menos gestos isolados, mais estruturas consistentes. A complexidade surge organizada, a estética torna-se mais controlada e a inovação, quando existe, é integrada num discurso contínuo, não apresentada como ruptura. No final, o Watches and Wonders revela-se menos como uma sequência de lançamentos e mais como um ponto de observação privilegiado sobre o estado da relojoaria contemporânea — um lugar onde o tempo, para além de medido, é pensado.

  • Watches and Wonders 2026 — Dia 3 em Genebra

    ORIS Oris Star no pulso — mostrador limpo, proporções contidas e uma linguagem directa que atravessa décadas, mantendo intacta a ligação ao momento em que a Oris redefiniu o seu caminho. O novo Oris Star é a reedição directa de um momento fundador. Em 2026, a Oris recupera este modelo precisamente para assinalar os 60 anos da vitória jurídica conduzida por Dr. Rolf Portmann, cuja batalha contra o Swiss Watch Statute libertou a marca das limitações técnicas impostas durante décadas; foi essa conquista que permitiu, em 1966, lançar o primeiro Oris Star com escape de âncora, marcando o início de uma nova era para a casa. Hoje, o lançamento da Star Edition retoma esse relógio com grande fidelidade — caixa compacta de inspiração space age , mostrador limpo e construção simples — não como peça de arquivo, mas como símbolo: um relógio que não representa inovação formal, mas antes a possibilidade de inovar, lembrando que a existência da relojoaria mecânica moderna da Oris começa, precisamente, com um advogado. Oris Artelier Calibre 111 (Ref. 01 111 7700 4063) · Oris Artelier Complication Pointer Date (Ref. 01 781 7729 4051) · Oris Artelier Complication Pointer Date (Ref. 01 781 7729 4051 – bracelete) Oris ProPilot Date (Ref. 01 733 7805 4167-07 8 20 04LC) · Oris Artelier Complication (Ref. 01 782 7811 4056-07 6 20 17FC) Hublot Hublot Big Bang Unico Bronze – Ref. 421.BZ .1110.RX A Hublot reafirma na Watches and Wonders 2026 a sua identidade assente na Art of Fusion , concentrando-se quase exclusivamente na evolução do Big Bang com a nova linha Big Bang Reloaded : uma abordagem mais depurada que coloca o movimento cronógrafo Unico no centro do design, com maior legibilidade mecânica, novas execuções em materiais como cerâmica, magic gold e versões especiais associadas a figuras como Usain Bolt e Kylian Mbappé, confirmando uma estratégia menos dispersa e mais focada na afirmação do seu ícone contemporâneo. Hublot Big Bang Unico Usain Bolt – Ref. 411.QX.1189.NR .USB17 Edição limitada dedicada a Usain Bolt, com caixa em carbono e detalhes em dourado que evocam a sua assinatura estética. Mostrador esqueletizado com o cronógrafo Unico em evidência e acentos verdes inspirados na Jamaica. No verso, o raio dourado e a inscrição da edição confirmam o carácter de peça comemorativa e altamente identificável dentro da linha Big Bang. Chronoswiss Neo Digiteur - Chronoswiss Ref. CH-1371R.2-GO A Chronoswiss lançou um relógio integralmente em ouro, onde a caixa, ricamente gravada em relevo, assume um carácter escultórico dominante. A leitura do tempo faz-se através de uma arquitectura não convencional, com horas em janela e indicação retrógrada, integrada num conjunto que privilegia a expressividade formal. No pulso, o impacto resulta da combinação entre o volume, o peso do material e a densidade ornamental, aproximando-se de uma peça de alta joalharia relojoeira. Chronoswiss Delphis (Art Déco) O Chronoswiss Delphis retoma a arquitectura emblemática da marca — horas saltantes, minutos retrógrados e pequenos segundos — numa execução mais contida e clássica. O mostrador, de tom prateado com texturas subtis, privilegia a legibilidade e a organização geométrica da informação. A caixa com luneta canelada e coroa tipo cebola reforça a continuidade estética da Chronoswiss. No conjunto, trata-se de uma interpretação equilibrada entre tradição mecânica e linguagem formal inspirada no período Art Déco.

  • Watches and Wonders 2026 — Dia 2 em Genebra

    Watches and Wonders 2026 — Dia 2 em Genebra O segundo dia no Watches and Wonders marca uma mudança clara de foco: da percepção geral do evento para o contacto directo com os relógios. É neste momento que a presença no terreno começa verdadeiramente a fazer sentido — quando as peças saem das vitrines institucionais e passam para o pulso, quando as apresentações dão lugar a conversas, e quando a leitura deixa de ser superficial para se tornar crítica. As imagens recolhidas ao longo do dia reflectem isso mesmo: menos cenário, mais substância. E, sobretudo, uma diversidade de abordagens que revela bem o estado actual da relojoaria contemporânea. Audemars Piguet — complexidade organizada A presença da Audemars Piguet neste segundo dia destacou-se pela amplitude da proposta. Audemars Piguet Royal Oak automático calendario perpétuo Ref: 26685XT.OO.1320XT.01 No pulso, o Royal Oak calendário perpétuo confirma aquilo que já se tornou uma constante na marca: a capacidade de integrar funções adicionais sem comprometer a leitura global. A informação está presente, mas organizada. Não há ruído. Audemars Piguet Royal Oak automático calendario perpétuo Ref: 26685XT.OO.1320XT.01 Este modelo esqueletizado revela outra dimensão — a da exposição da arquitectura. Aqui, o movimento deixa de ser invisível e passa a estruturar a estética do relógio. Não se trata apenas de mostrar, mas de tornar legível aquilo que normalmente permanece oculto. Code 11.59 da Audemars Piguet automático turbilhão voador Já no Code 11.59 com turbilhão, percebe-se o esforço contínuo de afirmação desta linha. A peça assume um posicionamento mais clássico na forma, mas com uma ambição técnica elevada. É um território ainda em consolidação, mas claramente estratégico. Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour (Ref. 15245OR.OO.A206VE.01) Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour Ref. 15245OR.OO.A206VE.01 — uma das propostas mais inesperadas da marca neste ano, reinterpretando o histórico modelo de 1929 com uma linguagem decididamente contemporânea. A indicação do tempo abandona os ponteiros tradicionais: horas por salto instantâneo em janela às 12h e minutos em arco às 6h, numa leitura directa e quase gráfica. Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour (Ref. 15245OR.OO.A206VE.01) A caixa rectangular em ouro rosa, com gadroons laterais marcados, enquadra um mostrador em safira PVD que elimina qualquer estrutura visível, enquanto o novo calibre automático 7122 — o primeiro jumping hour automático da marca — assegura a precisão do salto horário com estabilidade mecânica e 52 horas de autonomia. Tudor — equilíbrio e intenção A Tudor apresenta uma proposta mais contida, mas extremamente consistente. Os modelos observados — tanto o de linguagem contemporânea com luneta marcada, próximo da família Black Bay, como o de inspiração mais clássica com dia e data integrados, e ainda a proposta de pequenos segundos de leitura mais tradicional — revelam um controlo muito rigoroso das proporções, da ergonomia e da legibilidade. No pulso, a sensação é imediata: são relógios pensados para uso real. Não procuram impressionar à distância, mas funcionam quando usados — na espessura, no equilíbrio da caixa, na forma como o peso se distribui. Essa diferença, subtil mas decisiva, torna-se evidente após poucos segundos. Uma das conversas ao longo do dia reforçou essa leitura: a estratégia passa por consolidar identidade, não por reinventar constantemente. Num contexto como o Watches and Wonders, onde a novidade tende a dominar o discurso, essa disciplina torna-se particularmente clara — e, de certa forma, rara. Tudor Monarch (pequenos segundos) Tudor Monarch (pequenos segundos) — evocação directa de uma linguagem mais tradicional, com mostrador de inspiração vintage e submostrador às 6 horas, onde a leitura se faz com serenidade e proporção. Tudor Black Bay (bracelete em aço)   Tudor Black Bay (bracelete em aço) — interpretação contemporânea do relógio de mergulho da marca, com forte legibilidade e uma presença sólida no pulso, onde a funcionalidade continua a ser o elemento central. Tudor Royal Day-Date Tudor Royal Day-Date — proposta mais urbana e versátil, com luneta canelada e indicação completa de dia e data, num equilíbrio entre códigos clássicos e uma execução claramente contemporânea. Parmigiani Fleurier — silêncio e precisão As peças observadas da Parmigiani Fleurier introduzem um contraste interessante no conjunto do dia.   Tonda PF Chronograph Mystérieux   A grande novidade é, sem dúvida, o Tonda PF Chronograph Mystérieux — aqui na sua versão em platina — e é ele que redefine a leitura do conjunto apresentado. À primeira vista, nada o denuncia. Mostrador praticamente intacto, ausência total de contadores, uma leitura pura, quase neutra. Tudo aponta para um três ponteiros convencional. Mas essa leitura é deliberadamente falsa! Neste modelo, o cronógrafo não se mostra — desaparece. Em repouso, o mostrador permanece silencioso. Não há qualquer indicação da presença de uma das complicações mais complexas da relojoaria. Só quando se acciona o monopusher é que o mecanismo se revela: os ponteiros reorganizam-se, assumindo funções de cronógrafo, enquanto um segundo conjunto — em ouro rosa — emerge para manter a leitura da hora. Cinco ponteiros ocupam o mesmo eixo, perfeitamente sobrepostos quando inactivos, separando-se apenas durante a medição e voltando depois a alinhar-se numa única leitura. Esta transformação não é apenas visual — resulta de uma arquitectura profundamente distinta, com um sistema de embraiagens desenvolvido especificamente para permitir esta alternância entre presença e ausência. O próprio movimento, o calibre PF053, foi concebido de raiz com esse objectivo: controlar a aparição e o desaparecimento da função cronográfica. Na versão em platina, esta ideia ganha ainda mais densidade. O material introduz peso, presença física, enquanto o mostrador jateado reduz tudo ao essencial. O resultado é paradoxal: um relógio simultaneamente afirmativo e silencioso.   Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” Ao lado desta proposta, o Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” surge como o contraponto natural. Mostradores limpos, texturas subtis, ausência de elementos supérfluos. Tudo aponta para uma abordagem onde o detalhe substitui o gesto evidente. Parmigiani Fleurier Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” Panerai — escala e imersão Pavilhão da Panerai no Watches and Wonders 2026 A entrada no espaço da Panerai marca uma mudança de escala. A cenografia é dominante, quase cinematográfica, e coloca o visitante dentro de um ambiente imersivo. Mas, ao contrário do que poderia acontecer, essa dimensão não anula o produto — enquadra-o. A ligação histórica da marca ao universo marítimo continua a ser o eixo central, agora traduzido em linguagem contemporânea. A experiência não é apenas visual, é narrativa. Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 O Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 representa uma abordagem rara e deliberada à gestão de energia na relojoaria contemporânea: através de quatro tambores acoplados em série, o calibre P.2031/S atinge uma reserva de marcha de 31 dias, mas, mais importante, fá-lo com controlo — limitando o excesso de torque no início e evitando a perda de amplitude no fim, graças a um sistema patenteado de regulação da energia útil. Em caixa de Goldtech, com o seu tom quente característico, o relógio assume-se como um objecto técnico e escultórico, onde a arquitectura aberta do movimento não serve apenas a estética, mas expõe uma lógica funcional coerente com o ADN instrumental da Panerai: duração, robustez e clareza mecânica. Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 O segundo dia do Watches and Wonders 2026 trouxe uma leitura mais clara do que está em jogo. Cada marca constrói o seu discurso de forma distinta — umas através da complexidade técnica, outras pela clareza formal, outras ainda pela narrativa ou pela experiência. Mas há um ponto comum: a necessidade de equilibrar aquilo que se mostra com aquilo que se esconde. A presença do IPR no terreno permite precisamente acompanhar esse equilíbrio — observar, questionar e compreender. E é nesse espaço, entre o visível e o invisível, que a relojoaria contemporânea continua a evoluir.

  • Watches and Wonders 2026 — Dia 1 em Genebra

    Um início institucional — e simbólico Foto oficial de grupo do Watches and Wonders Geneva 2026 — reunindo autoridades do Cantão e da Cidade de Genebra, executivos da indústria e representantes das 65 marcas participantes, assinalando o arranque da maior edição de sempre do salão. O dia 14 de Abril de 2026 marcou o arranque oficial do maior evento relojoeiro do mundo. A cerimónia de inauguração, realizada no auditório do Palexpo, reuniu cerca de 300 convidados — entre autoridades políticas, líderes da indústria, jornalistas internacionais e representantes das 65 marcas presentes. Cyrille Vigneron — Presidente da Fundação Watches and Wonders Geneva, durante o discurso de abertura oficial do Watches and Wonders Geneva 2026, onde sublinhou o papel do salão como plataforma central da relojoaria contemporânea. Sob a presidência de Cyrille Vigneron, a mensagem foi clara: Genebra não é apenas um centro industrial — é um território cultural onde a relojoaria se constrói, transmite e reinventa. A ideia de equilíbrio entre competição e cooperação define bem o momento actual do sector. Nathalie Fontanet — Conselheira de Estado do Cantão de Genebra, responsável pelo Departamento das Finanças, Recursos Humanos e Assuntos Externos, durante o discurso de inauguração do Watches and Wonders Geneva 2026. Já Nathalie Fontanet reforçou o papel estratégico do ecossistema relojoeiro num contexto global incerto: um conjunto único de competências, herança e capacidade de inovação que continua a posicionar Genebra como referência mundial. Momento oficial de abertura do Watches and Wonders Geneva 2026 — corte da fita com a presença de Cyrille Vigneron, Nathalie Fontanet e representantes institucionais e da indústria relojoeira, assinalando o início da maior reunião mundial do sector. O corte da fita, com representantes das marcas e autoridades, não foi apenas um gesto protocolar — foi o início de uma semana que mobiliza milhares de pessoas e redefine, ano após ano, o lugar da relojoaria contemporânea. Ritmo inaugural no Watches and Wonders Geneva 2026 Escala e impacto: um evento fora de escala Os números desta edição são reveladores: ~60.000 visitantes esperados ~1.700 jornalistas internacionais 6.000 retalhistas ~50.000 noites de hotel já reservadas ~7.000 pessoas envolvidas na organização Em menos de cinco anos, o número de expositores praticamente duplicou. O salão tornou-se uma verdadeira “cidade dentro da cidade”, com impacto directo na economia local e na projecção internacional de Genebra. Um salão em transformação A edição de 2026 afirma uma mudança estrutural: o evento deixou de estar confinado ao Palexpo. Integração com o centro da cidade ( In The City ) Programação cultural alargada Parceria com o Montreux Jazz Festival Concertos, exposições e experiências abertas ao público A relojoaria passa a ocupar o espaço urbano — não como indústria, mas como cultura viva. Dia 1 — O que se vive no terreno Se a manhã foi institucional, o resto do dia revelou aquilo que verdadeiramente define o Watches and Wonders: a experiência. O ambiente O primeiro dia tem sempre uma densidade particular: Fluxo constante entre stands Luz controlada, quase museológica Contacto directo com peças de altíssimo valor Encontros rápidos entre profissionais de todo o mundo Interior do Watches and Wonders Geneva no Palexpo — o espaço central do salão em plena actividade, onde profissionais, jornalistas e marcas se encontram entre reuniões, apresentações e primeiros contactos do dia. Tendências visíveis desde o início Mesmo antes dos grandes anúncios, algumas direcções tornam-se evidentes: Primeiros destaques a circular Entre as peças que começaram a marcar o ritmo: TAG Heuer Monaco Evergraph Apresentação no Watches and Wonders Geneva 2026 — o novo TAG Heuer Monaco em destaque num ecrã de grande formato, revelando as primeiras novidades do salão perante uma audiência internacional. O TAG Heuer Monaco Evergraph representa uma evolução técnica dentro de uma das caixas mais icónicas da relojoaria contemporânea, mantendo a arquitectura quadrada do Monaco enquanto introduz uma abordagem mais avançada ao cronógrafo. A principal novidade reside na optimização do sistema de acionamento dos botões, pensado para maior precisão, consistência e fiabilidade ao longo do tempo, reflectindo um foco claro na funcionalidade real e não apenas na estética. Com uma linguagem visual mais técnica — mostrador aberto, contrastes cromáticos e leitura reforçada — o Evergraph posiciona-se como uma interpretação contemporânea do espírito original do Monaco: um cronógrafo experimental, agora adaptado às exigências actuais da engenharia relojoeira. Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux O Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux apresentado em 2026 afirma-se como uma interpretação plenamente contemporânea do espírito viajante da colecção Overseas , inteiramente construído em titânio para conjugar leveza, resistência e conforto. Com caixa de 41 mm e bracelete integrada, o modelo introduz quatro variantes de mostrador, cada uma associada a um ponto cardinal — uma abordagem conceptual que liga directamente o relógio à ideia de exploração e orientação. No seu interior, o calibre de manufactura 5110 DT/3 assegura as funções essenciais ao viajante — duplo fuso horário, indicação dia/noite e data sincronizada com a hora local — com uma arquitectura pensada para leitura clara e utilização prática. A estética técnica do titânio, reforçada por contrastes subtis e apontamentos em laranja, encontra-se com um nível de acabamento certificado pelo Poinçon de Genève, resultando numa peça que equilibra robustez desportiva, utilidade real e tradição de alta-relojoaria. Zenith G.F.J. Calibre 135 Zenith G.F.J. Calibre 135 — no pulso, uma leitura contemporânea de um dos grandes calibres de observatório, onde a densidade do tântalo e a profundidade do ónix substituem qualquer necessidade de exuberância. O Zenith G.F.J. Calibre 135 — especialmente na versão em tântalo que tens no pulso — deve ser entendido menos como um exercício estético e mais como uma afirmação técnica e histórica. O ponto central é o calibre 135: um dos últimos grandes movimentos de observatório, cuja arquitectura privilegia um balanço de grandes dimensões e uma construção pensada para precisão cronométrica extrema. A versão contemporânea mantém essa base, mas introduz melhorias funcionais claras — maior reserva de marcha, protecção contra choques e uma regulação extremamente apertada, na ordem dos ±2 segundos por dia . Ao nível da execução, a diferença face ao resto da gama Zenith é evidente: o acabamento aproxima-se de padrões de alta-relojoaria, com anglage polido à mão, decoração cuidada e uma abordagem mais tradicional às pontes . Não é um calibre industrial “bem feito” — é um calibre tratado como peça de prestígio. No pulso, isso traduz-se numa dualidade interessante: por um lado, um relógio formal, contido e relativamente compacto (cerca de 39 mm); por outro, um objecto com uma densidade técnica invulgar para um simples três ponteiros . Zenith G.F.J. Calibre 135 — mostrador em bloodstone , onde a matéria natural, com as suas inclusões e variações, contrasta com a precisão absoluta do calibre. E é precisamente aí que a versão em tântalo ganha força: retira qualquer leitura “clássica” ou tradicional e aproxima o relógio de um território mais contemporâneo e quase instrumental. Não é exuberante — é exigente. O olhar do IPR — presença e leitura crítica Para o IPR – Instituto Português de Relojoaria, o primeiro dia vive-se mais do que se observa. É um mergulho directo num ecossistema onde tudo acontece ao mesmo tempo — e onde cada detalhe conta. No terreno, a sensação é imediata. Há uma densidade humana rara, quase esmagadora, onde se cruzam conhecimento, experiência e decisão num espaço limitado. O ritmo impõe-se desde os primeiros minutos: reuniões que se sucedem, conversas interrompidas para dar lugar a outras, apresentações que se sobrepõem. Nada pára. Mas é fora do protocolo que muitas coisas realmente acontecem. Nos corredores, entre dois compromissos, numa pausa improvisada — é aí que surgem as conversas mais francas, os encontros inesperados, as ligações que fazem avançar projectos. Ao mesmo tempo, percebe-se que já não há fronteiras claras: marketing, técnica e cultura misturam-se de forma natural. Um relógio é simultaneamente objecto, discurso e identidade. O reel captado neste dia tenta fixar precisamente isso. Não apenas os relógios, mas o ambiente que os envolve — as pessoas, o ritmo, a energia. No fundo, aquilo que faz a relojoaria contemporânea existir para lá das vitrinas. Um ano com peso histórico O contexto de 2026 reforça a importância deste primeiro dia: Regresso da Audemars Piguet ao salão Aniversários estruturantes (Rolex Oyster, Patek Philippe Nautilus) Expansão significativa do número de marcas O primeiro dia do Watches and Wonders Geneva 2026 confirma uma realidade incontornável: A relojoaria contemporânea já não vive apenas da tradição — vive da sua capacidade de se transformar. Entre discurso institucional e experiência directa, entre cidade e salão, entre técnica e narrativa, Genebra volta a afirmar-se como o centro onde o tempo se pensa, se constrói e se projecta. E o Dia 1 — captado no terreno pelo IPR — é exactamente o ponto onde tudo começa a ganhar forma.

  • A Misteriosa História do Breguet Nº 160

    Sílvio Pereira OS MISTÉRIOS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA Parte 1 O RELÓGIO IMPOSSÍVEL: HISTÓRIA, POLÍTICA E ARTE DO BREGUET Nº160 “MARIE ANTOINETTE” Entre todos os artefactos produzidos pela relojoaria europeia, nenhum cristaliza tão profundamente o imaginário coletivo como o Breguet Nº 160, mais tarde baptizado como “Marie Antoinette”. Não é apenas um relógio — é um símbolo civilizacional, um ponto de inflexão na história técnica do século XVIII, um objecto ao mesmo tempo político, artístico e misterioso. A sua génese envolve paixão, poder, queda monárquica, fuga, morte e uma recuperação improvável mais de duzentos anos depois. É raro encontrar um mecanismo capaz de sintetizar num único corpo metálico tantas camadas simbólicas e históricas. Mais raro ainda é que esse mecanismo seja, simultaneamente, uma das obras-primas absolutas da engenharia mecânica. Nesta primeira parte, examinaremos os fundamentos históricos, a paisagem cultural que moldou a sua criação e o papel de Abraham-Louis Breguet enquanto protagonista e visionário. Trata-se de um relógio que, por si só, conta a história do final do Antigo Regime, e cujo destino acompanhará, de forma quase metafórica, a derrocada da monarquia francesa. Palácio de Versailles onde estava sediada a Corte Francesa ©en.wikipédia  A Paris do último quartel do século XVIII Conde Axel von Fersen ©wikipédia  No início da década de 1780, Paris vivia o clímax da cultura cortesã: um turbilhão de luxo, ciência nascente, filosofia iluminista e intriga política. No centro desse mundo encontrava-se Marie Antoinette , figura simultaneamente adorada e odiada, cujo estilo pessoal ditava modas e orientava o apetite aristocrático por objectos de requinte. É neste contexto que surge a encomenda do futuro Breguet Nº160 — uma encomenda enigmática, feita sem restrições de custo ou prazo. A ausência de um nome no registo de encomenda deixa espaço para especulação. A hipótese mais discutida atribui a encomenda ao conde Axel von Fersen , nobre sueco e íntimo confidente da rainha. Outras versões sugerem um patrono ainda mais próximo da corte, talvez alguém que desejasse permanecer anónimo para evitar atenção política. Seja qual for a verdade, o gesto é inequívoco: pretendia-se oferecer à Rainha o mais perfeito relógio jamais concebido . Enquanto símbolo político, o presente era arriscado. Numa França marcada por tensões económicas e sociais, o investimento numa peça de luxo extrema, destinada à rainha estrangeira, seria facilmente lido pelos opositores como evidenciação de decadência moral da aristocracia. Mas, como sabemos hoje, isso não impediu a encomenda — pelo contrário, agiu como catalisador para a criação de uma peça que ultrapassou todas as fronteiras técnicas da sua época. Abraham-Louis Breguet ©wikipédia  Abraham-Louis Breguet: o relojoeiro que pensava como um engenheiro Não seria possível compreender o Nº160 sem entender o génio de Abraham-Louis Breguet . Mais do que um mestre artesão, Breguet era um engenheiro conceptual , alguém que percebia o relógio não como um conjunto de peças, mas como um sistema dinâmico  sujeito a relações de força, elasticidade, gravidade, atrito e conservação de energia. Antes mesmo do projeto do Marie Antoinette, Breguet já tinha introduzido: o escape natural, o pêndulo de sobrebalanceamento, soluções de anti-choque, o rotor para relógios automáticos ( perpétuelles ), mostradores de leitura clara e racional, e uma filosofia de design assente na simplicidade funcional onde fosse possível e na complexidade apenas quando necessária. Era, portanto, o único relojoeiro capaz de aceitar um pedido tão extremo. Quando a encomenda chegou, a instrução era clara: o relógio devia incorporar todas as complicações conhecidas — e ficar o mais perto possível da perfeição mecânica . Não se tratava de construir um relógio. Tratava-se de construir "o relógio" . Breguet Nº 160   ©sjx.watches O Projecto: uma ambição sem precedentes À época, nenhum relógio — seja de bolso, seja de torre — reunia simultaneamente tantas funções: repetição de minutos, calendário perpétuo completo, equação do tempo, termómetro, segundos independentes, cronógrafo primitivo, reserva de marcha, mecanismo automático com massa oscilante, proteções anti-choque, uso de materiais inovadores como safira para reduzir atrito. Com mais de 800 componentes, o relógio ultrapassou a classificação tradicional do termo “complicação”. Passou a ser um compêndio de ciência mecânica, uma espécie de tratado portátil sobre o estado da técnica relojoeira de finais do século XVIII. Mas o triunfo técnico esconde uma verdade mais profunda: o relógio foi concebido num período de incerteza crescente. À medida que Breguet avançava no trabalho, a Europa caminhava para a convulsão revolucionária, e o destino da rainha mudaria rapidamente. A Interrupção: Revolução, Exílio e Morte Revolução francesa   ©jusbrasil Em 1789, a Revolução Francesa adquire velocidade. A corte é cercada, o clima político torna-se hostil, e Breguet, associado à elite aristocrática, percebe que permanecer em Paris é perigoso. Exila-se primeiro na Suíça, depois em Londres. A sua oficina permanece fechada, o projecto do Nº160 em suspenso. O relógio da Rainha — irónico nas suas pretensões simbólicas — fica inacabado enquanto ela própria segue para um destino trágico. Em 1793, Marie Antoinette é executada. A encomenda deixa de ter destinatário, mas não perde relevância. Vale notar que, mesmo após regressar a Paris em 1795, Breguet não consegue dedicar-se imediatamente ao Nº160. A oficina precisava ser reconstruída e as encomendas dos novos líderes políticos tinham prioridade. De facto, Breguet passa a trabalhar para figuras como Talleyrand, Napoleão e o futuro czar Alexandre. Apenas décadas depois o projecto volta à mesa. A Conclusão Póstuma Abraham-Louis Breguet falece em 1823 , sem ter completado o relógio. Quem o acaba é o seu filho, Louis-Antoine Breguet , em 1827. O relógio é finalmente concluído, mas nunca chega a cumprir a sua “missão” original de adornar a rainha de França. A ironia é sublime: o objecto mais opulento concebido para a monarquia francesa é finalizado numa Europa já profundamente pós-revolucionária, onde reis reinam sob constituições e onde o absolutismo já não tem lugar. O relógio é, portanto, um fantasma do Antigo Regime , uma lembrança palpável de um mundo perdido. O Século XIX e a Invenção do Mito Sir David Lionel Salomons ©sjx.watches Ao contrário de outras peças célebres, o Nº160 não ganhou notoriedade imediata. Passa silenciosamente por colecionadores privados e só no final do século XIX se torna verdadeiramente conhecido quando entra na coleção de Sir David Lionel Salomons , inventor, engenheiro e um dos grandes vultos do colecionismo relojoeiro. É no seu catálogo que o relógio recebe o nome que hoje o consagra: “Marie Antoinette” . Daí em diante, a peça começa a adquirir uma aura de objecto mítico — simultaneamente testemunho técnico e cápsula histórica que liga a relojoaria à política, à arte e à psicologia do poder. Assim termina a primeira parte, dedicada aos fundamentos históricos e artísticos da peça. Na segunda, abordaremos a dimensão criminal, a recuperação dramática e a avaliação crítica do seu legado mecânico.

  • Nivada Grenchen Antarctic Erotic

    O Nivada Grenchen Antarctic Erotic  é um relógio que conjuga a base técnica de um tool watch  clássico com uma abordagem lúdica inspirada na tradição dos relógios eróticos, mantendo um mostrador frontal discreto e escondendo no fundo uma animação mecânica activada pela corda. Apresenta uma caixa em aço inoxidável de 38 mm (“Spider Case”), 12,45 mm de espessura e 45 mm de asa a asa, com vidro de safira e resistência à água de 100 metros, alojando um calibre manual modificado Soprod P054, a 28.800 alternâncias por hora, com cerca de 42 horas de reserva de marcha, responsável pelas funções de horas, minutos e segundos e pelo accionamento do módulo animado no fundo. Disponível em várias versões de mostrador e com múltiplas opções de bracelete, o modelo combina robustez funcional, estética vintage e um elemento mecânico inesperado que o posiciona entre tradição relojoeira e provocação contemporânea. Saber mais

  • Konstantin Chaykin Thinking Mystery

    O Konstantin Chaykin Thinking Mystery  insere-se na abordagem experimental do relojoeiro independente russo, explorando conceitos de ultra-finura e de arquitectura não convencional para redefinir a forma como o tempo é exibido e construído mecanicamente. Tecnicamente, o projecto deriva da investigação que levou ao desenvolvimento do ThinKing, um relógio mecânico com apenas 1,65 mm de espessura, onde a própria caixa funciona como platina do movimento, reduzindo drasticamente a altura total e exigindo soluções inéditas ao nível do tambor de corda e do órgão regulador . Esta arquitectura implica uma construção em múltiplos níveis extremamente reduzidos, com componentes redesenhados para operar num plano quase bidimensional e minimizar perdas energéticas, ao mesmo tempo que levanta desafios estruturais relacionados com rigidez e deformação. Em algumas configurações, o relógio recorre a um módulo externo — o PalanKing  — que permite dar corda e ajustar a hora, evidenciando a natureza conceptual e experimental da peça, que se afirma mais como manifesto técnico sobre os limites da relojoaria mecânica do que como um relógio convencional. Saber mais

  • RODA — Serviço Pós-Venda: o percurso invisível de um relógio

    No passado dia 2 de Abril de 2026, o Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa, recebeu mais uma sessão da RODA — o ciclo de encontros promovido pelo Instituto Português de Relojoaria. Desta vez, o tema centrou-se no serviço pós-venda, com Bruno Leal a conduzir uma reflexão clara e directa sobre um dos momentos mais decisivos na vida de um relógio. A sessão partiu de uma pergunta simples, mas raramente explorada com profundidade: o que acontece a um relógio depois de ser entregue a um relojoeiro? Para muitos coleccionadores, esse momento representa um gesto de confiança. Entregar um relógio — muitas vezes com valor emocional acumulado ao longo de anos — implica aceitar uma perda temporária de controlo. É precisamente aí que começa o trabalho invisível do pós-venda. Bruno Leal descreveu esse percurso com detalhe. A entrada de um relógio em assistência não se reduz a uma intervenção técnica imediata. Antes de qualquer decisão, existe uma fase essencial de observação e diagnóstico. Trata-se de compreender o estado global da peça, identificar problemas evidentes e, sobretudo, antecipar fragilidades que possam comprometer o seu funcionamento no futuro. Só depois desta leitura se define o tipo de intervenção. E é neste ponto que surgem algumas das decisões mais delicadas da relojoaria contemporânea: substituir ou conservar? Intervir apenas no necessário ou avançar para uma revisão completa? Cada escolha implica consequências — no desempenho, na autenticidade e no valor do relógio. A sessão evidenciou que o pós-venda vive de equilíbrios. Entre a exigência técnica e a preservação histórica. Entre as normas das marcas e a realidade do trabalho independente. Entre a expectativa do cliente e o tempo necessário para fazer bem. O tempo, aliás, foi um dos temas centrais. Ao contrário de outros sectores, a relojoaria não se adapta facilmente à lógica da imediatidade. A disponibilidade de componentes, a complexidade das intervenções e a necessidade de validação exigem prazos que nem sempre são compatíveis com a urgência do cliente. Daí a importância da comunicação — clara, fundamentada e contínua. Ao longo da sessão, tornou-se evidente que o serviço pós-venda não é um simples prolongamento da venda, mas uma dimensão estrutural da relojoaria. É nele que se constrói a relação de confiança entre relojoeiro e cliente. É nele que se decide o futuro de cada peça. Num ambiente próximo e atento, a RODA voltou a cumprir o seu propósito: abrir espaço para discutir os temas que realmente definem a prática relojoeira. Neste caso, aquilo que não se vê — mas que sustenta tudo o resto. A sessão decorreu no Museu Medeiros e Almeida , na Rua Rosa Araújo, n.º 41, em Lisboa. O museu Medeiros e Almeida encontra-se aberto ao público de terça-feira a domingo, entre as 10h e as 17h30, constituindo um dos espaços de referência em Portugal para a história das artes decorativas, com especial relevância para a relojoaria.

  • Garantias na relojoaria — o enquadramento legal essencial

    Representação simbólica do barco de Teseu e de um relojoeiro a escolher peças para reparação de relógios A história do barco de Teseu levanta um dos dilemas mais persistentes da Filosofia: ao longo do tempo, as suas tábuas foram sendo substituídas uma a uma até que nenhuma peça original permanecia — e, ainda assim, continuava a ser considerado o mesmo barco; mas o problema adensa-se quando se imagina que alguém recolhe todas as peças antigas e reconstrói com elas o navio original — qual dos dois é, então, o verdadeiro barco de Teseu? Também os relógios percorrem a sua vida útil entre revisões, reparações e substituições sucessivas de componentes, regressando ciclicamente ao relojoeiro para manter o seu funcionamento; esta realidade coloca, no contexto do pós-venda, uma questão paralela e concreta: até que ponto a manutenção e as garantias asseguram a continuidade de um relógio ao longo do tempo, e como se enquadra essa continuidade no regime legal aplicável? Fomos analisar o enquadramento legal e a prática do sector. Reunimos aqui os elementos essenciais para compreender — e saber aplicar — as regras das garantias na relojoaria. Garantia legal vs garantia comercial Em Portugal, o regime principal encontra-se no Decreto-Lei n.º 84/2021 , aplicável às relações entre profissionais e consumidores. A garantia legal resulta directamente da lei e não depende da vontade do vendedor. Já a garantia comercial (frequentemente designada como garantia internacional da marca) constitui um compromisso adicional, voluntário, definido pelo fabricante. Importa sublinhar que a garantia comercial não substitui nem limita a garantia legal. Compra de relógios novos Na venda de um relógio novo por um profissional a um consumidor, aplica-se uma garantia legal de 3 anos. Durante os primeiros 2 anos, qualquer defeito presume-se existente à data da entrega, salvo prova em contrário. Este ponto tem grande relevância prática: o consumidor não tem de demonstrar a origem do problema nesse período. Perante uma desconformidade, o consumidor pode exigir: Reparação Substituição Redução do preço Resolução do contrato A escolha segue uma hierarquia prática: privilegia-se a reposição da conformidade, através de reparação ou substituição. O prazo de reparação é, como regra, de 30 dias , podendo ser superior quando exista justificação técnica — situação frequente na relojoaria, devido a diagnóstico complexo ou necessidade de peças. DL n.º 84/2021, de 18 de Outubro   Artigo 18.º - Reparação ou substituição do bem (...) 3 - O prazo para a reparação ou substituição não deve exceder os 30 dias, salvo nas situações em que a natureza e complexidade dos bens, a gravidade da falta de conformidade e o esforço necessário para a conclusão da reparação ou substituição justifiquem um prazo superior . (...) Relógios usados No caso de relógios usados vendidos por profissionais, a lei permite reduzir o prazo de garantia para 18 meses, desde que exista acordo claro e expresso com o consumidor, normalmente formalizado no momento da compra. Esta possibilidade reconhece a natureza própria de um bem usado — sujeito a desgaste, intervenções anteriores e incertezas técnicas — sem afastar, ainda assim, a obrigação de assegurar a sua conformidade com o contrato. Ou seja, mesmo com prazo reduzido, o vendedor continua responsável por defeitos que existam à data da entrega ou que se manifestem dentro do período de garantia. A distinção entre venda profissional e venda entre particulares assume, neste contexto, importância decisiva. Quando um profissional vende a um consumidor, aplica-se integralmente o regime legal de garantias previsto no direito do consumo, com todas as protecções associadas. Já nas transacções entre particulares, essa protecção não existe: a compra é feita “no estado em que se encontra”, salvo situações de dolo ou erro relevante. Plataformas como a Vinted ou similares inserem-se, em regra, neste segundo cenário, funcionando como intermediárias entre utilizadores privados; contudo, sempre que o vendedor actue de forma profissional — ainda que dentro da plataforma — poderá ser considerado como tal, com a consequente aplicação das regras de garantia. Garantias em reparações A reparação de um relógio configura uma prestação de serviços, com particularidades relevantes no plano jurídico e técnico, distinguindo-se claramente da venda de um bem. Neste contexto, a garantia não incide sobre o relógio na sua totalidade, mas sobre a intervenção realizada: cobre o trabalho efectuado e as peças substituídas, ficando excluídas avarias distintas da inicialmente diagnosticada ou decorrentes de factores externos. Esta distinção é essencial, sobretudo em relógios complexos ou com histórico desconhecido, onde podem coexistir múltiplas fragilidades independentes. Na prática, a garantia deve assegurar dois pontos fundamentais: que a avaria identificada foi efectivamente resolvida e que os componentes substituídos funcionam de forma correcta e duradoura. Se o relógio apresentar novamente o mesmo problema após a intervenção, estabelece-se, em regra, uma presunção de falha do serviço, cabendo ao profissional demonstrar o contrário. Esta presunção tem implicações directas na gestão do pós-venda, exigindo rigor no diagnóstico, na execução e no registo técnico da intervenção realizada. O prazo de garantia nas reparações não se encontra definido de forma uniforme e directa como sucede na venda de bens, o que introduz alguma margem de interpretação. Ainda assim, em contexto de relações de consumo, tende a alinhar-se com o regime geral de conformidade, sendo prática recomendada — e juridicamente prudente — que o profissional defina de forma clara, por escrito, o âmbito e a duração dessa garantia. A transparência neste ponto é determinante para evitar conflitos e assegurar uma relação de confiança entre cliente e relojoeiro. Limitações e exclusões Existem limitações legítimas à aplicação das garantias, particularmente relevantes na relojoaria, onde a natureza mecânica dos objectos e a sua sensibilidade ao uso introduzem variáveis difíceis de controlar. Entre essas limitações incluem-se o desgaste natural — como a degradação de óleos, o desgaste de pivôs ou o envelhecimento de juntas —, situações de mau uso, como choques, exposição a campos magnéticos ou contacto indevido com água, bem como intervenções externas não autorizadas que possam comprometer o funcionamento do relógio. Acrescem ainda os defeitos pré-existentes não detectados no momento da intervenção, especialmente em peças com histórico desconhecido ou incompleto. A fronteira entre defeito e uso indevido constitui, por isso, uma das principais fontes de conflito neste domínio. Determinar se uma anomalia resulta de falha técnica, desgaste expectável ou utilização inadequada exige frequentemente uma análise especializada, onde o rigor do diagnóstico e a documentação do estado do relógio à entrada assumem um papel decisivo. A clareza na comunicação destas limitações, desde o primeiro contacto com o cliente, revela-se essencial para alinhar expectativas e reduzir potenciais litígios. Garantias das marcas As marcas relojoeiras oferecem, frequentemente, garantias comerciais com duração variável — tipicamente entre dois e cinco anos — e, em muitos casos, com cobertura internacional. Estas garantias constituem compromissos voluntários definidos pelos próprios fabricantes, com condições específicas que regulam o seu âmbito de aplicação. Entre essas condições, é habitual exigir que a manutenção e as intervenções sejam realizadas exclusivamente em centros autorizados, sob pena de perda de cobertura, bem como excluir danos resultantes de uso indevido, como choques, exposição à água fora dos limites previstos ou magnetismo. Importa sublinhar que a existência de uma garantia de marca não substitui nem limita os direitos do consumidor ao abrigo da garantia legal. Mesmo quando o fabricante assume determinadas obrigações, o vendedor permanece responsável perante o consumidor, nos termos da lei aplicável, pela conformidade do bem. Esta sobreposição de regimes — legal e comercial — exige uma leitura cuidadosa por parte de profissionais e clientes, de modo a compreender exactamente quem responde por cada situação e em que condições. Orçamentos e transparência Na reparação de um relógio, o orçamento assume um papel central, funcionando como ponto de convergência entre a análise técnica e o enquadramento contratual da intervenção. Mais do que uma estimativa de custos, o orçamento deve traduzir, de forma clara e rigorosa, o que será feito, em que condições e com que expectativas. Entre as boas práticas destacam-se a descrição detalhada da intervenção prevista, a identificação de riscos — nomeadamente a possibilidade de surgirem problemas adicionais durante o processo — e a indicação de prazos previsíveis, ainda que sujeitos à complexidade do diagnóstico e à disponibilidade de peças. A aceitação do orçamento pelo cliente constitui, na prática, a base do contrato entre as partes, definindo os limites da intervenção autorizada. Qualquer alteração relevante — seja ao nível dos trabalhos a efectuar, dos custos ou dos prazos — deve ser comunicada de forma transparente e previamente aprovada pelo cliente. Este procedimento não é apenas uma formalidade: é uma garantia de clareza, confiança e protecção jurídica para ambas as partes, especialmente num contexto técnico onde as variáveis nem sempre são totalmente previsíveis à partida. Situações frequentes Importa reconhecer que no sector relojoeiro se observam, com regularidade, casos como relógios que voltam a parar após uma revisão, problemas de estanqueidade depois de uma intervenção, atrasos superiores aos prazos inicialmente previstos ou recusas de garantia com fundamento em alegado mau uso. Cada uma destas situações apresenta uma complexidade própria que impede leituras automáticas: um relógio que deixa de funcionar após revisão pode indiciar uma falha na intervenção, mas também pode revelar um problema estrutural que não era detectável no diagnóstico inicial; da mesma forma, uma perda de estanqueidade pode resultar de uma vedação incorrecta ou de limitações inerentes à caixa, sobretudo em peças antigas ou já intervencionadas múltiplas vezes. Os atrasos na entrega constituem igualmente uma fonte recorrente de tensão, muitas vezes associados à dificuldade em obter peças, à necessidade de diagnósticos adicionais ou à própria carga de trabalho das oficinas. Ainda que a lei estabeleça prazos de referência, a realidade técnica da relojoaria — especialmente em peças complexas ou vintage — pode justificar desvios, desde que devidamente fundamentados e comunicados. Já as recusas de garantia com base em alegado mau uso colocam o foco na prova: cabe frequentemente ao profissional demonstrar que a anomalia resulta de factores externos, como choques, magnetismo ou exposição indevida à água. Do ponto de vista jurídico, todas estas situações exigem uma análise integrada que considere o conteúdo do orçamento aprovado, o estado do relógio à entrada, a natureza da intervenção realizada e as condições de utilização posteriores. A distinção entre defeito, desgaste natural e uso indevido revela-se central e constitui, não raras vezes, a principal linha de conflito entre cliente e profissional. Neste contexto, a documentação rigorosa, a clareza na comunicação e a definição prévia de condições assumem um papel determinante. Evitar conclusões simplistas não é apenas uma questão de prudência — é uma exigência para garantir decisões justas, tecnicamente sustentadas e juridicamente sólidas. Boas práticas No plano das boas práticas, a actuação dos profissionais assume um papel determinante na prevenção de conflitos e na correcta gestão do pós-venda. Entre os procedimentos recomendáveis destaca-se o registo detalhado do estado do relógio à entrada, que permite fixar uma referência objectiva para futuras avaliações, bem como a documentação fotográfica, essencial para comprovar condições externas e eventuais danos pré-existentes. A existência de condições gerais escritas, claras e acessíveis, contribui igualmente para definir o enquadramento da intervenção, nomeadamente no que respeita a garantias, prazos e limitações. A tudo isto deve acrescer uma comunicação transparente e contínua com o cliente, sobretudo quando surgem imprevistos ou necessidade de trabalhos adicionais. Do lado do consumidor, algumas atitudes simples podem fazer uma diferença significativa. Guardar comprovativos — como facturas, orçamentos e relatórios de intervenção — permite sustentar eventuais reclamações ou pedidos de garantia. Solicitar sempre um orçamento antes da realização dos trabalhos assegura clareza quanto ao âmbito e custo da intervenção. Por fim, evitar intervenções não autorizadas, especialmente durante o período de garantia, é fundamental para não comprometer direitos que, de outro modo, poderiam ser plenamente exercidos. O regime de garantias na relojoaria exige equilíbrio entre protecção do consumidor e realidade técnica do objecto. Um relógio não é um bem descartável: trata-se de um mecanismo sujeito a desgaste, dependente de manutenção e sensível ao uso. A correcta aplicação da lei depende, por isso, de conhecimento jurídico, competência técnica e, sobretudo, de transparência na relação entre as partes.

  • Arnold ou Breguet? A controvérsia silenciosa na origem do turbilhão

    Sílvio Pereira GRANDES POLÉMICAS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA ©swiss-watch passport.ch Durante mais de dois séculos, o turbilhão tem sido celebrado como uma das mais fascinantes invenções da relojoaria mecânica. Contudo, por detrás desta complicação lendária esconde-se uma questão histórica que continua a despertar o interesse de estudiosos e colecionadores: terá sido realmente uma criação isolada de Abraham-Louis Breguet ou surgiu num ambiente técnico fortemente influenciado pelo génio inglês John Arnold? O nascimento de um mito relojoeiro Poucas complicações mecânicas possuem o prestígio simbólico do turbilhão. A sua presença num relógio continua a ser, ainda hoje, sinal de virtuosismo técnico e de excelência artesanal. A autoria da invenção é normalmente atribuída ao relojoeiro suíço radicado em Paris Abraham-Louis Breguet , que registou oficialmente a patente do mecanismo em 26 de junho de 1801. Nesse documento, Breguet descreve um sistema destinado a compensar os erros de marcha provocados pela gravidade, fazendo girar o conjunto regulador do relógio dentro de uma estrutura móvel.   Contudo, ao examinar o contexto técnico da época, surge inevitavelmente outro nome fundamental: o do grande relojoeiro inglês John Arnold . Arnold foi um dos principais responsáveis pela evolução da cronometria no século XVIII e, em vários aspetos, os seus trabalhos anteciparam problemas que o turbilhão procuraria resolver. A partir daqui nasce uma pergunta que tem alimentado a historiografia relojoeira: terá o conceito do turbilhão sido influenciado, direta ou indiretamente, pelas investigações de Arnold? O problema que intrigava os relojoeiros Para compreender a importância desta discussão, é necessário regressar ao principal desafio da relojoaria de precisão no século XVIII: os erros de posição . Os relógios mecânicos dependem do equilíbrio extremamente delicado entre o balanço e a espiral. Qualquer irregularidade microscópica — seja no pivô do balanço, na forma da espiral ou na geometria do escape — pode provocar variações na marcha. Quando um relógio permanece numa posição constante, como acontecia frequentemente com os relógios de bolso transportados no colete, a gravidade atua sempre sobre os mesmos pontos do mecanismo. Esse efeito produz desvios que podem atingir vários segundos por dia. Num período em que a precisão era vital para a navegação marítima e para a cronometria científica, tais erros eram considerados inaceitáveis. Assim, numerosos relojoeiros começaram a procurar soluções capazes de neutralizar ou compensar essas variações. Arnold ©wikipédia John Arnold e a revolução da cronometria inglesa Na segunda metade do século XVIII, a relojoaria inglesa dominava o campo da cronometria de precisão. Entre os seus protagonistas destacava-se John Arnold , figura central na evolução dos cronómetros marítimos. Arnold desenvolveu instrumentos destinados a resolver um dos maiores desafios científicos da época: a determinação da longitude no mar. Para tal, era necessário dispor de relógios extremamente precisos e estáveis, capazes de resistir às variações de temperatura, humidade e movimento a bordo dos navios. Inspirado pelo trabalho pioneiro de John Harrison , Arnold procurou simplificar e tornar mais acessíveis os cronómetros marítimos. Introduziu melhorias decisivas no escape de detenção e aperfeiçoou sistemas de compensação térmica baseados em balanços bimetálicos. Mais importante ainda, Arnold dedicou grande atenção ao comportamento do regulador em diferentes posições. Embora não tenha desenvolvido um mecanismo equivalente ao turbilhão, é evidente que investigava precisamente o mesmo problema físico que mais tarde levaria Breguet à sua famosa invenção. Breguet ©wikipédia Breguet: o arquiteto da relojoaria moderna Enquanto Arnold trabalhava em Londres, Abraham-Louis Breguet  construía em Paris uma carreira absolutamente extraordinária. Poucos relojoeiros da história reuniram tantas inovações num único percurso. Entre as suas contribuições encontram-se a espiral sobrelevada — conhecida hoje como espiral Breguet —, o escape natural, aperfeiçoamentos nos relógios de repetição e diversos avanços na construção de relógios automáticos. Breguet possuía uma rara capacidade de síntese técnica. Mais do que inventar componentes isolados, sabia integrar princípios mecânicos distintos numa solução elegante e coerente. O turbilhão é talvez o exemplo mais emblemático dessa abordagem. A ideia consistia em montar o balanço, a espiral e o escape numa gaiola rotativa que executa uma rotação completa em intervalos regulares, geralmente de um minuto. Ao fazê-lo, o mecanismo distribui os erros de posição por todas as orientações possíveis, permitindo que esses desvios se anulem mutuamente. Era uma solução engenhosa e profundamente sofisticada. Um relacionamento marcado pelo respeito Curiosamente, a história do turbilhão não se constrói sobre uma rivalidade amarga entre Arnold e Breguet. Pelo contrário, existem numerosos indícios de uma relação de grande respeito entre os dois mestres. Durante o final do século XVIII, Breguet visitou Londres e entrou em contacto com os principais relojoeiros ingleses. Arnold, cuja reputação era imensa, tornou-se um interlocutor natural nesse diálogo técnico. Ambos partilhavam uma obsessão comum: alcançar níveis cada vez mais elevados de precisão cronométrica. É precisamente essa proximidade intelectual que leva alguns historiadores a considerar a possibilidade de influência mútua. Mesmo que Arnold não tenha concebido o turbilhão, as suas reflexões sobre os erros de posição podem ter contribuído para moldar o pensamento de Breguet. O relógio que perpetuou a polémica Um episódio singular reforça ainda mais essa interpretação. Quando John Arnold faleceu em 1799 , Breguet decidiu prestar-lhe uma homenagem rara. Construiu um cronómetro equipado com turbilhão e gravou no movimento uma inscrição dedicada à memória do relojoeiro inglês. O relógio foi oferecido ao filho de Arnold, John Roger Arnold , que continuou a atividade da família. A peça ficou conhecida na história da relojoaria como Arnold nº 11 . Para alguns estudiosos, esta dedicatória pode sugerir que Breguet reconhecia em Arnold um precursor intelectual. Para outros, trata-se simplesmente de um gesto de admiração entre dois mestres cuja obra transformou profundamente a cronometria. Seja qual for a interpretação, o episódio revela a profunda ligação profissional entre ambos. Quantos turbilhões construiu Breguet? Outro elemento importante na análise desta controvérsia é o próprio número de turbilhões produzidos por Breguet. Estima-se que o mestre tenha construído cerca de quarenta exemplares ao longo da sua vida. Cada um deles exigia um trabalho extremamente complexo, envolvendo tolerâncias mínimas e uma execução artesanal de altíssimo nível. O turbilhão nunca foi uma solução de produção corrente. Pelo contrário, permaneceu durante décadas como uma demonstração de mestria técnica. No século XIX, alguns fabricantes utilizaram o sistema em cronómetros de observatório, onde a procura pela precisão absoluta justificava experiências mecânicas sofisticadas. Contudo, o turbilhão permaneceu sempre uma complicação rara. O consenso entre os historiadores Hoje, a maioria dos especialistas concorda em três pontos fundamentais. Primeiro, Abraham-Louis Breguet é indiscutivelmente o inventor do turbilhão , uma vez que concebeu o mecanismo, registou a patente e produziu os primeiros exemplares. Segundo, John Arnold desempenhou um papel crucial na evolução da cronometria , explorando muitos dos problemas técnicos que levariam à criação do turbilhão. Terceiro, a relojoaria do século XVIII era um ambiente profundamente colaborativo . Ideias, conceitos e experiências circulavam entre oficinas, cidades e países, alimentando um processo contínuo de inovação. Assim, a controvérsia entre Arnold e Breguet deve ser vista menos como uma disputa de autoria e mais como um reflexo da extraordinária vitalidade científica da relojoaria europeia daquele período. Do instrumento científico ao símbolo de prestígio Curiosamente, o papel do turbilhão mudou profundamente ao longo dos séculos. No início do século XIX, tratava-se de uma tentativa séria de melhorar a precisão dos relógios mecânicos. No entanto, os avanços tecnológicos posteriores — novas ligas metálicas, melhores espirais e métodos de regulação mais sofisticados — reduziram a necessidade prática do mecanismo. Mesmo assim, o turbilhão nunca perdeu o seu fascínio. Pelo contrário, tornou-se uma espécie de assinatura de excelência na alta-relojoaria contemporânea. A visão da gaiola rotativa, executando a sua lenta coreografia mecânica, continua a representar uma das expressões mais poéticas da engenharia relojoeira. Uma invenção nascida de um grande tempo histórico A história do turbilhão demonstra que as grandes invenções raramente surgem isoladas. O génio criativo de Abraham-Louis Breguet  produziu uma solução técnica brilhante que permanece, mais de duzentos anos depois, como uma das maiores conquistas da relojoaria mecânica. Contudo, essa invenção nasceu num ambiente intelectual extraordinariamente fértil, onde mestres como John Arnold  exploravam incessantemente os limites da precisão. Arnold aperfeiçoou a ciência da cronometria. Breguet transformou essa ciência numa obra-prima mecânica. E o turbilhão continua a girar, século após século, como testemunho de uma época em que o engenho humano procurava — com paciência, talento e imaginação — dominar o próprio tempo.

  • Chuck Norris - uma homenagem em 25 piadas

    Partiu ontem — ou melhor, decidiu ausentar-se — Chuck Norris, figura maior da cultura contemporânea e, segundo fontes não verificáveis mas amplamente aceites, a única referência verdadeiramente estável para a medição do tempo. Resolvemos prestar a nossa homenagem à estrela dos memes da internet com 25 piadas originais sobre Chuck Norris e relojoaria. Tem uma piada preferida? Tem uma piada que quer partilhar? Escreva o seu comentário no fundo da página. Chuck Norris - uma homenagem em 25 piadas 1 - O relógio de Chuck Norris atrasou um segundo uma vez — foi assim que nasceram os segundos mortos 2 - O Chuck Norris teve um relógio que atrasava porque tinha medo de o acompanhar. Foi assim que nasceu o Crash. 3 - Todos os cronocomparadores são ajustados pelo ritmo de Chuck Norris. 4 - Os relógios de quartzo de Chuck Norris não necessitam de pilha — o quartzo simplesmente treme de medo. 5 - O Chuck Norris não dá corda — dá ordens ao relógio. 6 - A COSC é certificada por Chuck Norris. 7 - O tempo universal Coordenado (UTC) ajusta-se ao local em que Chuck Norris se encontra. 8 - O Chuck Norris usa lupa, mas para ver ao longe. 9 - O relógio de Chuck Norris não é estanque — a água tem medo de entrar. 10 - O Chuck Norris não regula relógios — é ele que define o tempo. 11 - Chuck Norris não perde peças, as peças fogem dele. 12 - O Chuck Norris não desmonta movimentos — são eles que se rendem. 13 - Os rubis do relógio de Chuck Norris são naturais. 14 - Chuck Norris uma vez riscou um vidro de safira, apenas porque olhou para ele com demasiada itensidade. 15 - Uma vez o Chuck Norris deu um pontapé rotativo num balanço, foi assim que nasceu o Turbilhão. Depois deu um duplo rotativo — e nasceu o Turbilhão quadruplo. 16 - Esta piada não foi aprovada por Chuck Norris. 17 - Chuck Norris consegue fazer a manutenção a um calendário perpétuo. Só com uma ponta de apoio. 18 - Chuck Norris consegue ver as Fases da Lua, num repetidor de minutos. 19 - O relógio de Chuck Norris tem Equação do Tempo. O Sol simplesmente faz o que o relógio indica. 20 - O relógio de Chuck Norris não tem hora mundial, tem apenas — A Hora. 21 - Todos os relógios de Chuck Norris são de Força constante. 22 - O ruído da máquina de ultrasons de Chuck Norris é feito a partir dos gemidos dos seus inimigos. 23 - O Turbilhão do Chuck Norris não compensa a força da gravidade — compensa a força do Chuck Norris. 24 — O calendário perpétuo de Chuck Norris não precisa de correcção. É a referência. 25 - O calendário anual do relógio de Chuck Norris não falha em Fevereiro — Fevereiro adapta-se.

bottom of page