Watches and Wonders 2026 — Dia 2 em Genebra
- Nuno Margalha

- 16 de abr.
- 5 min de leitura

O segundo dia no Watches and Wonders marca uma mudança clara de foco: da percepção geral do evento para o contacto directo com os relógios. É neste momento que a presença no terreno começa verdadeiramente a fazer sentido — quando as peças saem das vitrines institucionais e passam para o pulso, quando as apresentações dão lugar a conversas, e quando a leitura deixa de ser superficial para se tornar crítica.
As imagens recolhidas ao longo do dia reflectem isso mesmo: menos cenário, mais substância. E, sobretudo, uma diversidade de abordagens que revela bem o estado actual da relojoaria contemporânea.
Audemars Piguet — complexidade organizada
A presença da Audemars Piguet neste segundo dia destacou-se pela amplitude da proposta.

No pulso, o Royal Oak calendário perpétuo confirma aquilo que já se tornou uma constante na marca: a capacidade de integrar funções adicionais sem comprometer a leitura global. A informação está presente, mas organizada. Não há ruído.
Este modelo esqueletizado revela outra dimensão — a da exposição da arquitectura. Aqui, o movimento deixa de ser invisível e passa a estruturar a estética do relógio. Não se trata apenas de mostrar, mas de tornar legível aquilo que normalmente permanece oculto.
Já no Code 11.59 com turbilhão, percebe-se o esforço contínuo de afirmação desta linha. A peça assume um posicionamento mais clássico na forma, mas com uma ambição técnica elevada. É um território ainda em consolidação, mas claramente estratégico.

Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour Ref. 15245OR.OO.A206VE.01 — uma das propostas mais inesperadas da marca neste ano, reinterpretando o histórico modelo de 1929 com uma linguagem decididamente contemporânea. A indicação do tempo abandona os ponteiros tradicionais: horas por salto instantâneo em janela às 12h e minutos em arco às 6h, numa leitura directa e quase gráfica.

A caixa rectangular em ouro rosa, com gadroons laterais marcados, enquadra um mostrador em safira PVD que elimina qualquer estrutura visível, enquanto o novo calibre automático 7122 — o primeiro jumping hour automático da marca — assegura a precisão do salto horário com estabilidade mecânica e 52 horas de autonomia.
Tudor — equilíbrio e intenção
A Tudor apresenta uma proposta mais contida, mas extremamente consistente.
Os modelos observados — tanto o de linguagem contemporânea com luneta marcada, próximo da família Black Bay, como o de inspiração mais clássica com dia e data integrados, e ainda a proposta de pequenos segundos de leitura mais tradicional — revelam um controlo muito rigoroso das proporções, da ergonomia e da legibilidade.
No pulso, a sensação é imediata: são relógios pensados para uso real. Não procuram impressionar à distância, mas funcionam quando usados — na espessura, no equilíbrio da caixa, na forma como o peso se distribui. Essa diferença, subtil mas decisiva, torna-se evidente após poucos segundos.
Uma das conversas ao longo do dia reforçou essa leitura: a estratégia passa por consolidar identidade, não por reinventar constantemente. Num contexto como o Watches and Wonders, onde a novidade tende a dominar o discurso, essa disciplina torna-se particularmente clara — e, de certa forma, rara.

Tudor Monarch (pequenos segundos) — evocação directa de uma linguagem mais tradicional, com mostrador de inspiração vintage e submostrador às 6 horas, onde a leitura se faz com serenidade e proporção.

Tudor Black Bay (bracelete em aço) — interpretação contemporânea do relógio de mergulho da marca, com forte legibilidade e uma presença sólida no pulso, onde a funcionalidade continua a ser o elemento central.

Tudor Royal Day-Date — proposta mais urbana e versátil, com luneta canelada e indicação completa de dia e data, num equilíbrio entre códigos clássicos e uma execução claramente contemporânea.
Parmigiani Fleurier — silêncio e precisão
As peças observadas da Parmigiani Fleurier introduzem um contraste interessante no conjunto do dia.

A grande novidade é, sem dúvida, o Tonda PF Chronograph Mystérieux — aqui na sua versão em platina — e é ele que redefine a leitura do conjunto apresentado.
À primeira vista, nada o denuncia. Mostrador praticamente intacto, ausência total de contadores, uma leitura pura, quase neutra. Tudo aponta para um três ponteiros convencional.
Mas essa leitura é deliberadamente falsa!
Neste modelo, o cronógrafo não se mostra — desaparece.
Em repouso, o mostrador permanece silencioso. Não há qualquer indicação da presença de uma das complicações mais complexas da relojoaria. Só quando se acciona o monopusher é que o mecanismo se revela: os ponteiros reorganizam-se, assumindo funções de cronógrafo, enquanto um segundo conjunto — em ouro rosa — emerge para manter a leitura da hora.
Cinco ponteiros ocupam o mesmo eixo, perfeitamente sobrepostos quando inactivos, separando-se apenas durante a medição e voltando depois a alinhar-se numa única leitura.
Esta transformação não é apenas visual — resulta de uma arquitectura profundamente distinta, com um sistema de embraiagens desenvolvido especificamente para permitir esta alternância entre presença e ausência.
O próprio movimento, o calibre PF053, foi concebido de raiz com esse objectivo: controlar a aparição e o desaparecimento da função cronográfica.
Na versão em platina, esta ideia ganha ainda mais densidade. O material introduz peso, presença física, enquanto o mostrador jateado reduz tudo ao essencial. O resultado é paradoxal: um relógio simultaneamente afirmativo e silencioso.

Ao lado desta proposta, o Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” surge como o contraponto natural.
Mostradores limpos, texturas subtis, ausência de elementos supérfluos. Tudo aponta para uma abordagem onde o detalhe substitui o gesto evidente.

Panerai — escala e imersão
A entrada no espaço da Panerai marca uma mudança de escala.
A cenografia é dominante, quase cinematográfica, e coloca o visitante dentro de um ambiente imersivo. Mas, ao contrário do que poderia acontecer, essa dimensão não anula o produto — enquadra-o.
A ligação histórica da marca ao universo marítimo continua a ser o eixo central, agora traduzido em linguagem contemporânea. A experiência não é apenas visual, é narrativa.

O Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 representa uma abordagem rara e deliberada à gestão de energia na relojoaria contemporânea: através de quatro tambores acoplados em série, o calibre P.2031/S atinge uma reserva de marcha de 31 dias, mas, mais importante, fá-lo com controlo — limitando o excesso de torque no início e evitando a perda de amplitude no fim, graças a um sistema patenteado de regulação da energia útil.
Em caixa de Goldtech, com o seu tom quente característico, o relógio assume-se como um objecto técnico e escultórico, onde a arquitectura aberta do movimento não serve apenas a estética, mas expõe uma lógica funcional coerente com o ADN instrumental da Panerai: duração, robustez e clareza mecânica.

O segundo dia do Watches and Wonders 2026 trouxe uma leitura mais clara do que está em jogo.
Cada marca constrói o seu discurso de forma distinta — umas através da complexidade técnica, outras pela clareza formal, outras ainda pela narrativa ou pela experiência.
Mas há um ponto comum: a necessidade de equilibrar aquilo que se mostra com aquilo que se esconde.
A presença do IPR no terreno permite precisamente acompanhar esse equilíbrio — observar, questionar e compreender.
E é nesse espaço, entre o visível e o invisível, que a relojoaria contemporânea continua a evoluir.





Artikkelissa esitetyt havaintoja Watches and Wonders -tapahtumasta herättävät mielenkiintoisia kysymyksiä. Miten eri merkit tasapainottavat näkyvää ja piilotettua? Esimerkiksi Audemars Piguet onnistuu esittelemään innovatiivisia ratkaisuja, kuten Betano -konseptit, jotka yhdistävät kauneuden ja käytännöllisyyden. Tämä tasapaino on avainasemassa nykyajan kelloteollisuudessa.
Muito obrigado pela partilha! Dá vontade de lá ir para o ano.