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1117 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Daniel Roth

    O Daniel Roth Extra Plat Rose Gold Skeleton apresenta-se como uma interpretação moderna e elegante da tradição relojoeira clássica, combinando uma estética esqueletizada com uma arquitectura técnica depurada e uma caixa em ouro rosa de perfil extremamente fino. Este modelo destaca-se pela leitura clara do movimento através de pontes trabalhadas e componentes visíveis que valorizam a profundidade e a geometria do conjunto, ao mesmo tempo que mantém um equilíbrio visual sofisticado entre a caixa, o mostrador aberto e os ponteiros, tudo pensado para oferecer uma experiência refinada à medida no pulso. Saber mais

  • Hublot

    A Hublot reforçou a colecção Big Bang com novas propostas que exploram tanto a experimentação estética como a evolução cromática da linha, destacando-se a colaboração com o designer Samuel Ross e a introdução da tonalidade coal blue . O Big Bang Unico SR_A traduz a linguagem industrial e arquitectónica de Ross numa interpretação escultórica do Big Bang, combinando materiais técnicos, grafismos estruturais e o calibre manufacturado Unico com cronógrafo flyback e longa reserva de marcha. Em paralelo, a nova cor coal blue surge aplicada a vários modelos Big Bang e Spirit of Big Bang, criando uma leitura mais sóbria e contemporânea através de uma paleta mineral que cruza azul, cinzento e negro, sem abdicar da identidade técnica e do carácter expressivo que definem o ADN da marca. Saber mais

  • Louis Vuitton

    A Louis Vuitton ampliou a sua colecção Escale com três relógios complicados , marcando uma evolução para o território da alta-relojoaria. Os modelos incluem o Escale Minute Repeater , que combina um calibre com repetição de minutos com um mostrador que integra ponteiro retrogrado e detalhes de guilloché tradicionais; o Escale Worldtime Flying Tourbillon , que apresenta um turbilhão voador central e indica 24 fusos horários com bandeiras pintadas à mão; e o Escale Twin Zone , um relógio de duplo fuso com indicador dia/noite e arquitectura pensada para viajantes. Todos os modelos mantêm o espírito inspirador da viagem que caracteriza a coleção Escale, com estéticas coloridas e acabamento artesanal, inserindo complicações clássicas num design contemporâneo. Saber mais

  • Panerai

    O Radiomir Tourbillon GMT Bronzo PAM01284 condensa a herança funcional da Panerai com uma visão contemporânea da alta relojoaria, unindo a icónica caixa Radiomir em bronze — material vivo que evolui com o tempo — a um tourbillon de concepção inovadora. O calibre P.2015/T, de estrutura aberta e com tourbillon horizontal patenteado, foi desenvolvido especificamente para relógios de pulso, integrando função GMT e reserva de marcha de quatro dias, num conjunto que alia sofisticação técnica, legibilidade arquitectónica e a robustez instrumental característica da marca. Saber mais https://www.panerai.com/pt/en/home.html https://www.facebook.com/PaneraiOfficial/ www.instagram.com/panerai

  • Tag Heuer

    A Zenith colocou a sua icónica colecção Defy no centro das atenções durante a LVMH Watch Week 2026 , apresentando seis novos modelos que reforçam o carácter urbano, técnico e contemporâneo da família Defy . Entre as novidades destacam-se um revival inspirado no clássico Defy A3643 de 1969, novas versões do Defy Skyline com mostradores prateados de 36 mm e variações mais complicadas e arquitectónicas com cronógrafo e esqueletização, incluindo um modelo com indicação de décimos de segundo – uma referência ao legado do El Primero – e uma versão Tourbillon Skeleton . Estes lançamentos sublinham a versatilidade e evolução contínua da colecção, combinando design contemporâneo com materiais inovadores e movimentos mecânicos de elevado desempenho.

  • O Stackfreed

    Por: Sílvio Pereira MECANISMOS ESQUECIDOS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA Entre os inúmeros artefactos que compõem a evolução da relojoaria portátil, poucos são tão intrigantes quanto o stackfreed . Hoje praticamente desconhecido fora de círculos académicos e colecionistas especializados, este dispositivo exerceu um papel central nas primeiras tentativas de estabilizar a força motriz dos relógios de bolso renascentistas. O stackfreed  foi, a seu tempo, uma resposta engenhosa a um problema real: a irregularidade do binário produzido pela mola principal. Embora tenha sido suplantado por soluções mais eficazes, como o fusée , o stackfreed  sobrevive como testemunho de uma fase experimental e inventiva da mecânica do tempo. Este artigo propõe-se revisitar, de forma minuciosa, a história, o funcionamento e a relevância deste mecanismo singular. É minha convicção que compreender o stackfreed não é apenas um exercício arqueológico; é uma oportunidade de observar a criatividade dos primeiros relojoeiros e de reconhecer que, ao longo da história, a procura pela regularidade foi quase sempre feita por aproximação, tentativa e erro, e sobretudo por engenho. Enquadramento Histórico Leonardo da Vinci, desenho de um dispositivo de equalização da força de uma mola do tipo Stackfreed, Codex Madrid I, posterior a 1493,  © Madrid, Biblioteca Nacional. A relojoaria portátil emergiu entre os séculos XV e XVI, impulsionada pelos avanços na metalurgia e na miniaturização de mecanismos de peso. A substituição dos pesos por molas principais permitiu, pela primeira vez, conceber objectos portáteis — as célebres “ovos de Nuremberga”,  associadas (ainda que nem sempre com rigor histórico) a Peter Henlein  e à escola germânica. Contudo, incorporar uma mola principal trouxe um novo desafio: o binário fornecido por ela não é constante. Logo após o total enrolamento, a mola liberta muita força; à medida que se desenrola, essa força diminui acentuadamente. Esta variação gerava amplitudes irregulares no escape e no regulador, comprometendo a precisão. Os relojoeiros depararam-se assim com a necessidade de dispositivos de força constante ou de mecanismos que, pelo menos, suavizassem a curva de torque. O stackfreed  surge precisamente neste contexto, sobretudo entre relojoeiros alemães e boémios, entre meados do século XVI e o início do XVII. Antes de ser eclipsado pelo fusée — mecanismo que, além de mais eficiente, se difundiu rapidamente nas ilhas britânicas e em França — o stackfreed  conheceu um período de popularidade moderada, sendo encontrado em peças de elevada qualidade e complexidade estética. De certa forma, o stackfreed representa uma fase “transitória” na história da relojoaria europeia: um momento em que a necessidade era urgente, mas as soluções ainda tímidas, pragmáticas e fortemente condicionadas pelas técnicas de fabrico disponíveis. Anatomia e Funcionamento do Stackfreed O stackfreed consiste tipicamente em três elementos fundamentais: Uma alavanca elástica ou braço de aço temperado (A); Um rolete ou came secundário, situado na extremidade desta alavanca (B); Um came excêntrico montado no tambor da mola principal (D).   O funcionamento é relativamente simples de descrever, mas sofisticado na sua execução mecânica: Quando o tambor gira (durante o desenrolamento da mola), o rolete percorre a superfície irregular do came. Este veio tem forma assimétrica, geralmente semelhante a uma espiral achatada ou caracol. Nas zonas mais largas do came, a alavanca é forçada a comprimir mais a sua mola interna — produzindo maior resistência. Nas zonas mais estreitas, a resistência diminui. Deste modo, cria-se uma força de travagem variável, inversamente proporcional à força natural disponível na mola. Quando a mola está muito tensionada, o stackfreed  oferece maior resistência; quando está quase no fim, oferece menos. O resultado pretendido era “achatar” a curva de força: uma solução de compromisso entre a brusquidão da mola e a regularidade desejada. Efeitos práticos Na prática, o stackfreed : Melhora parcialmente a regularidade da força transmitida ao trem de rodas; Introduz inevitavelmente atrito adicional, exigindo molas mais fortes; Aumenta o desgaste e impõe necessidades de lubrificação cuidadosa. Embora funcional, trata-se de uma solução que sacrifica eficiência energética em troca de regularidade. Para os padrões renascentistas, era aceitável; comparado com soluções posteriores, revela-se rudimentar. Contexto Técnico e Filosofia Mecânica Os relojoeiros do século XVI ainda não dispunham de materiais adequados para fabricar molas produtoras de força motriz com curvas de torque mais previsíveis. Também não existiam ainda métodos fiáveis de cálculo, simulação ou padronização de componentes. Por isso, muitos mecanismos da época devem ser entendidos como tentativas pragmáticas: pequenas respostas locais a problemas reais. O stackfreed , nesse sentido, é fruto de uma filosofia muito particular: a regulação por oposição . O mecanismo não tenta otimizar a mola, não tenta redistribuir a força, não tenta equalizá-la mecanicamente — limita-se a travar o excesso, deixando o resto fluir. Se o excesso de força era um problema, a solução era introduzir resistência. Stackfreed e Fusée  © the watch O fusée , que surgiria como alternativa, representa uma filosofia diferente: uma transformação da força, através de variação da vantagem mecânica. O stackfreed simplesmente a contraria. Na minha opinião, este contraste revela uma profunda mudança intelectual na relojoaria europeia. O stackfreed é pré-científico, táctil, intuitivo. O fusée aproxima-se de um raciocínio proto-matemático. A história escolheu a segunda — mas a primeira não deve ser vista como erro, apenas como etapa necessária. Relógio de bolso: peça de museu, grande relógio de bolso renascentista com mecanismo de repetição de horas e relógio de sol, sul da Alemanha, cerca de 1580.  © Invaluable Aplicações e Difusão Geográfica O stackfreed  é encontrado sobretudo em: Relógios alemães e boémios; Algumas peças suíças e austríacas; Um número reduzido de peças inglesas dos primórdios da relojoaria portátil. É frequente encontrá-lo em movimentos ricamente decorados, com mostradores esmaltados ou gravados, e caixas de latão, prata ou ferro. Peças de museu revelam que o stackfreed coexistiu, durante algum tempo, com mecanismos de calendário, fases da lua e até com complicações sonoras rudimentares. Contudo, a difusão nunca foi massiva. Há três razões principais: Concor­rência do fusée , mais elegante do ponto de vista mecânico; Custo energético elevado , que reduzia a autonomia; Sensibilidade ao desgaste , que tornava a manutenção difícil.   Por volta da década de 1630, o stackfreed  estava já em declínio. Em 1650 é raro; no final do século XVII, praticamente desaparecera. Vantagens e Limitações Apesar das suas limitações, o stackfreed não deve ser entendido como mecanismo mal concebido. Ele cumpriu o papel que lhe cabia no momento histórico em que surgiu. Vantagens Simplicidade técnica face ao fusée , exigindo menos peças e menos exigência de fabrico. Perfil relativamente fino , permitindo relógios menos espessos do que os que utilizavam fusée. Integração possível com stopwork , funcionando simultaneamente como limitador de enrolamento. Robustez estrutural , apesar do desgaste natural do ponto de contato. Limitações Atrito elevado , causa principal da sua obsolescência. Dependência de lubrificação constante , numa época em que óleos de boa qualidade eram escassos. Molas principais mais fortes , necessárias para compensar as perdas, o que podia reduzir a vida útil. Eficácia limitada , sobretudo em relógios que pretendiam maior precisão. Independentemente destas limitações, considero que o stackfreed  representa uma solução elegante para um problema urgente. Não foi a melhor resposta — mas foi uma resposta engenhosa dentro das capacidades técnicas da época. © British Museum O Stackfreed em Restauro e Colecionismo Hoje, relógios equipados com stackfreed são peças de grande valor histórico, frequentemente encontradas em museus e coleções privadas. O restauro exige extrema prudência. Pontos de atenção no restauro Stackfreed pontos de restauro © Wikimédia Commons Condição da mola do braço : qualquer amolecimento compromete a curva de resistência. Desgaste do came : pequenas irregularidades na superfície alteram a progressão da resistência. Rodeamento do rolete : desgaste irregular degrada a suavidade do movimento. Lubrificação mínima , apenas o suficiente para evitar abrasão sem comprometer a força de travagem. Os restauradores experientes sabem que uma intervenção excessiva pode destruir a autenticidade mecânica do mecanismo. Em muitos casos, a melhor decisão é estabilizar e conservar, em vez de tentar devolver plena funcionalidade. Valorização no colecionismo Peças com stackfreed são particularmente valorizadas por: Representarem uma fase curta e experimental da relojoaria; Apresentarem movimentos ricamente ornamentados; Revelarem técnicas de manufatura renascentistas; Serem relativamente raras no mercado. Na minha opinião, o stackfreed está subvalorizado entre colecionadores generalistas, que tendem a privilegiar fusées e peças inglesas posteriores. Mas para o estudioso sério, é um elemento-chave para compreender a génese da relojoaria portátil. © Wikipédia O Stackfreed na História Intelectual da Relojoaria O valor do stackfreed ultrapassa a sua função mecânica. Ele representa uma etapa na forma como os europeus começaram a pensar o tempo. Antes do século XVI, a medida do tempo era essencialmente pública e comunitária: campanários, relógios de torre, clepsidras, ampulhetas. Com a relojoaria portátil, o tempo torna-se pessoal, móvel, táctil. O stackfreed  é um dos primeiros mecanismos criados para domesticar essa intimidade mecânica, tentando assegurar que o tempo medido na mão fosse tão digno de confiança quanto o tempo medido na praça. Creio que, ao observar este pequeno mecanismo, reconhecemos algo maior do que o seu aspeto técnico: vemos o esforço humano, persistente e obstinado, de transformar um fenómeno natural — a elasticidade do metal — numa unidade de experiência regular e previsível: o minuto. Considerações Finais O stackfreed  não é o protagonista da história da relojoaria. Mas é, sem dúvida, um dos seus personagens mais marcantes. Representa uma tentativa precoce de obter regularidade num momento em que os materiais, as técnicas e os conhecimentos teóricos ainda eram insuficientes. Por isso, merece atenção redobrada — não apenas como curiosidade histórica, mas como exemplo de criatividade aplicada. O stackfreed  mostra que a relojoaria nunca foi apenas a procura da perfeição, mas também a arte de encontrar soluções possíveis com os recursos existentes. É minha opinião que qualquer relojoeiro, restaurador, colecionador ou historiador do tempo deveria estudar este mecanismo com respeito e curiosidade. Ele revela-nos algo essencial: o progresso da relojoaria faz-se por camadas, e cada camada, mesmo a menos perfeita, contribui para a elegância das que se seguem. Leituras Recomendadas Artigo de síntese na Wikipédia sobre Stackfreed — bom ponto de partida técnico e histórico. Wikipedia   Páginas e imagens do British Museum  e do Science Museum : coleções com movimentos que mostram o stackfreed em detalhe; úteis para comparar variantes.   Textos especializados sobre mecanismos de força constante e história da relojoaria, e artigos de divulgação técnica (por exemplo, publicações como Hodinkee  sobre dispositivos de força constante) para leitura crítica contemporânea. Hodinkee

  • Os 5 momentos principais do IPR em 2025

    Nos relógios, o tempo é constante; no pensamento, muda connosco. Dilata-se durante a espera e acelera quando os acontecimentos nos absorvem. Em retrospectiva, é surpreendente como 2025 conseguiu albergar tantos e tão importantes acontecimentos. Vamos recordar os mais importantes do ano. Lançamento do Second Vive de Dann Phimphrachanh Após uma caminhada longuíssima o relojoeiro casapiano Phimphrachanh lançou o seu relógio, o Second Vive. Tornou-se desta forma o primeiro português a integrar a AHCI ( Académie Horlogère des Créateurs Indépendants ) . Na entrevista que deu ao IPR no Masters of Horology em Génebra Dann conta a sua história e a história do seu relógio, processo descrito em pormenor no artigo mais lido do ano do IPR: Second Vive de Dann Phimphrachanh: um relojoeiro português independente e a construção manual do seu relógio . Salões do Tempo Os Salões do Tempo funcionam, até ao momento, em dois tempos: Tempo Passado e Tempo Futuro. O primeiro assume a forma de feira de relógios vintage e decorre sempre no dia seguinte ao Black Friday ; o segundo, de exposição dedicada à relojoaria independente portuguesa e decorre sempre dia 10-10. Ao longo deste ano, o IPR organizou dois Tempos Passados, um Tempo Futuro e três Encontros do Futuro, dedicados à apresentação individual de marcas independentes portuguesas. TEMPO PASSADO 1 - PRIMAVERA 2025 TEMPO PASSADO 2 - | breve resumo Tempo Futuro – O Nascimento da Relojoaria Independente em Portugal ENCONTROS DO FUTURO — 10, 16 e 18 de Dezembro 25 RODAS As Rodas são as conferências de relojoaria do IPR. A partir de 2025 passaram a ter lugar no Museu Medeiros e Almeida, um espaço de referência, com uma colecção de relógios de grande relevância, aberto e de entrada livre para todos os alunos e ex-alunos do Instituto. Entre todas as Rodas realizadas, importa destacar a dedicada a Kari Voutilainen . Receber um dos mais conceituados relojoeiros do mundo num dos espaços mais elegantes da cidade é um privilégio raro. Esta sessão incluiu um momento musical de excepção, com a guitarra portuguesa de Pedro Castro , acompanhada pela viola de André Ramos . Kari Voutilainen partilhou o seu percurso, abordou a história do Guilhoché e dialogou com o público num ambiente próximo e informal. A noite terminou com um jantar que reuniu o relojoeiro e um grupo restrito de coleccionadores. No seguinte vídeo é possível assistir integralmente à conferência: RODA - Kari Voutilainen e a arte do guilhoché - descrição e vídeo Lançamento do Livro de Sílvio Pereira - História da Relojoaria dos Séculos XVII e XVIII Sílvio Pereira é, sem dúvida, o escritor convidado do blogue do IPR com o maior número de artigos publicados. É igualmente um dos poucos autores que se dedica, de forma sistemática, à história da relojoaria em Portugal. Um conjunto de textos dedicados à História da Relojoaria dos séculos XVII e XVIII deu origem à publicação de um livro em 2025, obra que se encontra ainda disponível em: https://www.ccvlonline.com/livrohr.html Les Tugas — Lançamento do 1º relógio português de pulso Les Tugas — primeiro relógio português de pulso, disponível em: www.lestugas.pt O ano de 2025 ficou marcado por ter sido o ano do lançamento do primeiro relógio português de pulso. Nesse mesmo ano, o IPR apresentou o seu primeiro relógio, cuja percentagem de custos de fabrico alocados a Portugal ultrapassa os 70%. O projecto foi igualmente desenhado, inspeccionado, montado e regulado em território nacional. O Les Tugas contou, ao longo de vários anos de desenvolvimento, com a colaboração fundamental de Bruno Dinis , Bruno Moreira , Lourenço Salgueiro e Nuno Margalha . O lançamento foi iniciado com a publicação do manifesto: Manifesto — Les Tugas Somos Todos Nós Seguiu-se o lançamento no Tempo Futuro , bem como a sua apresentação num dos   Encontros do Futuro . Actualmente, é possível adquirir o relógio e escolher o respectivo número de série através do site www.lestugas.pt . Apesar de não ter sido realizada qualquer divulgação fora dos canais de comunicação do IPR, após o lançamento, as vendas revelaram-se muito superiores ao inicialmente previsto, o que se constituiu como um dos maiores desafios enfrentados pelo IPR ao longo de 2025. Um 2025 para recordar Para além dos momentos aqui destacados, 2025 consolidou o IPR como uma plataforma activa de criação, reflexão e partilha de conhecimento relojoeiro em Portugal. Entre lançamentos, encontros, publicações e iniciativas públicas, o ano confirmou a capacidade do Instituto para articular investigação histórica, produção contemporânea e diálogo internacional, sempre com uma relação próxima com alunos, ex-alunos, coleccionadores e autores. Mais do que a soma dos acontecimentos, 2025 afirmou um método de trabalho e uma visão de longo prazo, cujos efeitos continuarão a marcar a actividade do IPR nos anos seguintes. OBRIGADO POR UM EXCELENTE ANO E DESEJAMOS A TODOS O MELHOR QUE POSSAM DESEJAR PARA 2026 — A EQUIPA DO IPR Deixe o seu comentário no Google

  • O ano é novo. E nós, quem somos?

    Uma caixa de relógios vazia está cheia de possibilidades. Uma caixa de relógios cheia é o sinal claro de que precisamos de uma vazia. De caixa em caixa avançamos, empurrados pelo desejo e puxados pelo acaso. Tornamo-nos coleccionadores e, nesse processo, construímos um estilo pessoal. Num exercício assumidamente teórico, procurámos isolar alguns dos perfis mais recorrentes, como quem escolhe os instrumentos de uma composição musical. “Tudo num ponto” é o título de um conto de Italo Calvino que parte de uma ideia vertiginosa: todo o universo concentrado num único ponto. O narrador, o Sr. Qfwfq, descreve o seu percurso desde esse instante inicial — o Big Bang — até ao presente, sempre com a certeza de um eventual regresso ao ponto primordial. Pode dizer-se que se trata de um conto sobre a maior colecção de todos os tempos: a colecção de tudo. Porque razão o conjunto de todos os relógios existentes não pode ser considerado uma colecção? Antes de mais, porque não pertencem ao mesmo dono. Depois, porque não estão reunidos. E, por fim, porque não obedecem a critério algum. O critério é, talvez, o elemento mais importante na distinção entre uma colecção e uma simples acumulação de objectos. É ele que estabelece parâmetros de comparação. Qualquer característica capaz de distinguir um relógio de outro pode tornar-se critério de colecção. Os critérios podem organizar-se de múltiplas formas, e é precisamente essa organização — a selecção, a hierarquia, a insistência — que define o perfil de cada coleccionador. Poderíamos afirmar: mostra-me a tua colecção de relógios e dir-te-ei quem és. Observar uma colecção é sempre um exercício de autoconhecimento, no qual emergem traços evidentes da personalidade do seu coleccionador. Tal como num livro todas as personagens são, em última instância, criações do escritor, numa colecção todos os relógios resultam de escolhas pessoais e, por isso, reflectem quem os escolheu. Resta o sonho. Mais do que aquilo que somos, uma colecção revela aquilo que gostaríamos de ser. Os mergulhadores, os pilotos e os exploradores de escritório sabem-no bem. As colecções funcionam como espelhos onde reconhecemos forças e tentamos compensar fragilidades. Os mais meticulosos, os apaixonados pela cronometria, compreendem-no de forma particularmente clara. Quando a realidade se revela monótona, as complicações oferecem uma saída. Quando o mundo se apresenta demasiado feio, o design pode ser um refúgio. Quando o passado parece superior ao presente, o vintage surge como resposta. Quando as relações afectivas se tornam difíceis, o compromisso com uma marca pode servir de compensação. Quando a vida económica assusta ou entusiasma, uma colecção orientada pelo investimento pode trazer segurança ou excitação. Nada disto é absoluto. A complexidade humana raramente encaixa em categorias estanques. Como se o acaso não bastasse, ao longo da vida do coleccionador os critérios mudam, e com eles transforma-se a própria colecção. Todos sabemos como começámos; ninguém sabe como terminará. Muitas vezes, o puxão do acaso revela-se mais forte do que o empurrão do desejo. O exercício que se segue afasta-se deliberadamente da realidade concreta de cada um. Deve ser entendido como um conjunto de espelhos nos quais podemos encontrar um reflexo fiel, imperfeito, ou mesmo nenhum reflexo. O Narciso Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Narcísico Entre as várias versões do mito de Narciso, uma das mais sugestivas conta que Tirésias profetizou, no dia do seu nascimento, que o jovem teria uma vida longa desde que jamais contemplasse a própria imagem. Narciso cresceu e tornou-se de uma beleza extraordinária, despertando o amor de várias ninfas, entre elas Eco. O desprezo com que as tratou conduziu algumas a pedir vingança aos deuses. Némesis condenou-o então a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Prisioneiro dessa contemplação, Narciso definhou. Após a morte, foi transformado na flor que ainda hoje leva o seu nome. À semelhança de Narciso, este coleccionador adopta a beleza como critério central. Os seus relógios reflectem a beleza que possui — ou a que gostaria de possuir. Não é raro surpreendê-lo a contemplar demoradamente o próprio relógio, quase como Narciso diante da água imóvel. Trata-se, talvez, do coleccionador mais ancorado no presente, já que o critério estético tem ganho um protagonismo crescente. O que é belo varia com o contexto: nos relógios vintage, as marcas do tempo acrescentam carácter; nos relógios novos, procura-se a perfeição imaculada. Tal como o próprio coleccionador, os seus relógios devem estar sempre impecavelmente apresentados, com correias e braceletes escolhidas ao detalhe. O Narciso reconhece-se nos relógios que lhe agradam visualmente e, ao usá-los, sente-se contaminado pela sua beleza. Elogiar o seu relógio equivale a elogiar a sua aparência. O Meticuloso Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Meticuloso Para o Meticuloso, um relógio assemelha-se a uma matrioska infinita: cada camada removida revela outra, pronta a ser explorada. E se há coisa que aprecia é a luz, pois a escuridão alimenta o desconhecimento, um dos principais ingredientes do medo. É neste jogo entre luz e sombra que nasce o Meticuloso. Sentir é infelizmente uma forma eficaz de apagar a luz. Um sentimento intenso conduz-nos, muitas vezes, a fechar os olhos à realidade. O Meticuloso prefere reduzir a intensidade do sentimento para aumentar o controlo. O domínio dos detalhes torna-se, assim, uma forma de iluminar o desconhecido, e os relógios oferecem uma fonte inesgotável desses detalhes. Pode sê-lo em relação ao funcionamento ou ao aspecto. O primeiro controla-se através da análise da cronometria. Um relógio preciso transmite segurança; a reserva de marcha indica durante quanto tempo podemos confiar nele. Cruzar ambos os dados permite acompanhar variações ao longo de todo o ciclo de corda. No aspecto, os detalhes multiplicam-se: o acabamento dos ponteiros, a textura do mostrador, a inclinação das asas. O Meticuloso observa um relógio como quem se aproxima demasiado de um quadro impressionista, e analisa cada pincelada para evitar o impacto emocional do conjunto. Ainda assim, a maioria encontra, por vezes, coragem para recuar, afastar o olhar dos detalhes e sentir. O Investigador Imagem de IA - O coleccionador de relógios Investigador Em cada relógio existe um mundo por explorar. Quem aprecia romances policiais reconhece facilmente este perfil. Cada peça da colecção equivale a uma cena de crime pronta a ser analisada. A investigação exige calma, paciência e tempo. Para estes coleccionadores, mergulhar no passado dos seus relógios constitui uma forma eficaz de descansar do presente. O presente cansa pela sua urgência; o futuro inquieta pela imprevisibilidade. O passado, pelo contrário, apresenta-se estável e, por isso, tranquilizador. Nos relógios novos, investiga-se o percurso da marca e as variações que conduziram ao modelo actual. Nos vintage, o campo é quase ilimitado: marcas de manutenção, dedicatórias, personalizações, contrastes, indícios de proveniência. A investigação prolonga-se naturalmente para a pesquisa em livros, revistas, arquivos e alfarrabistas. Concluído o processo, surge a necessidade de partilhar resultados. Publicar, discutir, divulgar em fóruns, blogues ou redes sociais permite despertar interesse pela história e fornecer critérios a futuros coleccionadores. O Guardador de Memórias Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Guardador de Memórias Agostinho da Silva aconselhava: “Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti”. Se o futuro resiste à arrumação, resta organizar o passado. Existe uma memória para cada relógio e um relógio para cada memória. Esse é o lema do Guardador de Memórias. Os relógios funcionam como cofres capazes de conter triunfos, nascimentos, viagens, encontros e despedidas. A sua caixa assemelha-se a um álbum de fotografias. O valor comercial, o design ou as complicações pouco importam. Essencial é que o relógio esteja vivo, em funcionamento, sinal de que a memória associada também permanece activa. O passado não é tão estático quanto parece. As descrições alteram-se com o tempo, contaminadas pelas vivências posteriores. A precisão dilui-se; o sentimento permanece. O Guardador de Memórias preserva sobretudo esse sentimento. Usar um relógio associado a uma vitória pode iluminar um dia difícil. Usar o relógio de alguém que já partiu aproxima-nos dessa presença ausente. Aprisionar o tempo é impossível, mas o gesto traz serenidade. O Engenhocas Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Engenhocas Se é possível complicar, para quê simplificar? A simplicidade, embora bela e serena, revela-se aborrecida para o Engenhocas. Relógios de horas, minutos e segundos causam-lhe inquietação. A vida é demasiado curta para o que é simples. Este coleccionador procura movimento constante. Os relógios devem esconder talentos, truques e surpresas. Devem provocar espanto. Tudo o que é estático inspira desconfiança. A sua caixa é um verdadeiro parque de diversões para as complicações relojoeiras. O Engenhocas reconhece que o tempo acelera ou abranda conforme o contexto. O entusiasmo é o único antídoto contra a lentidão. Compreender o funcionamento de uma complicação é alegria pura em forma de latão e aço. A calma surge apenas depois da compreensão total, semelhante à do alpinista no topo da montanha. O futuro representa invenção; o passado, descoberta. O lado estético importa apenas enquanto consequência do processo técnico. O Investidor Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Investidor Comprar e vender relógios permite conhecer muitos modelos. O Investidor aprecia esse conhecimento, ainda que superficialmente técnico. O momento da aquisição é o auge da experiência. Sabe que, se necessário, pode converter rapidamente a colecção em liquidez, sem perdas significativas. A segurança é central. Apresentar uma compra como investimento neutraliza a culpa associada ao luxo. Cada relógio representa um degrau numa trajectória económica. A colecção torna-se uma sucessão de provas de sucesso financeiro. Como o agricultor, o Investidor planta relógios e colhe euros. Depende do ambiente, do contexto, do comportamento humano. A crise do quartzo ilustra bem essa instabilidade. A melhor defesa reside na percepção apurada e no bom timing. No fim, sabe que controla melhor o dinheiro do que os próprios relógios. O Comprometido Imagem de IA - O coleccionador  de relógios Comprometido Manter uma relação amorosa é complexo. O Comprometido encontra mais estabilidade na relação com a sua marca de eleição do que nas relações afectivas. Assistir ao pôr-do-sol ou jantar à luz das velas com o relógio no pulso basta-lhe. A fidelidade exige esforço. Nem sempre é fácil permanecer fiel a uma única marca, mas alguns conseguem-no com distinção. A curiosidade por outras casas é mínima. Esta relação não é estranha, pois a marca oferece pertença, comunidade e previsibilidade. Os encontros entre seguidores reforçam essa ligação. Traições não são toleradas. Mudanças abruptas de estratégia podem ser sentidas como rupturas emocionais. A fidelidade refere-se aos princípios, não à exclusividade. O Comprometido procura constantemente novos adeptos para a sua marca, fortalecendo-a. É, entre todos, o mais gregário dos coleccionadores. Convidamo-lo a iniciar 2026 com uma reflexão sobre o seu estilo de coleccionador. Identifica-se com um ou com vários destes perfis? A sua opinião é bem-vinda, mesmo que partilhada de forma anónima. Publicidade

  • Os relógios de Stranger Things

    Stranger Things  é uma série de ficção científica criada por Matt e Ross Duffer e produzida pela Netflix, cuja estreia ocorreu a 15 de Julho de 2016, com a narrativa situada na cidade fictícia de Hawkins, Indiana, na década de 1980. Na série é acompanhado um grupo de crianças e adolescentes confrontados com fenómenos inexplicáveis, experiências científicas secretas e uma dimensão paralela conhecida como Upside Down . O final está anunciado e será disponibilizado em Portugal à 01h00 do dia 1 de Janeiro de 2026. Desde a primeira temporada, a série construiu uma identidade própria, onde se cruzaram referências da cultura popular dos anos 1980 com uma mitologia progressivamente mais complexa. A quarta temporada estreou em 2022. Embora Stranger Things  não seja uma obra sobre relojoaria ou ciência do tempo no sentido técnico, o tempo ocupa um papel estrutural na narrativa. Nas primeiras temporadas, o tempo surge como tempo quotidiano, marcado por horários escolares, rotinas familiares e ciclos normais da vida suburbana americana. Esse tempo “normal” contrasta com o Upside Down , um espaço onde a progressão temporal parece suspensa ou fixada num instante do passado. Por outro lado, a explicação da relação entre o Upside Down e o mundo “normal” remete para a teoria dos buracos de minhoca formulada por Albert Einstein e Nathan Rosen  em 1935, conhecida como ponte de Einstein–Rosen , que descreve matematicamente a possibilidade de ligações entre regiões distintas do espaço-tempo através de atalhos teóricos previstos pela relatividade geral. Natalia Dyer no papel de Nancy Wheeler  em STRANGER THINGS frente ao relógio de coluna.  Crédito: Cortesia da Netflix © 2022 Na quarta temporada, o tempo passa de pano de fundo a tema explícito. O vilão Vecna associa-se directamente a um relógio de coluna, que surge como sinal de perigo iminente. Este relógio não mede o tempo; simboliza-o como algo inevitável, opressivo e ligado à memória traumática. Os próprios criadores da série confirmaram em entrevistas que este relógio constitui uma parte central do mistério da temporada. Assim, ao longo da série, o tempo evolui de simples enquadramento narrativo para força activa, com impacto directo no destino das personagens. Existem vários significados por detrás da aparição do relógio de caixa alta junto das vítimas de Vecna em Stranger Things , temporada 4. Um dos primeiros elementos desta temporada a ser revelado ao público foi precisamente o relógio de caixa alta (ainda em 2020), embora ninguém tivesse percebido o que a equipa de marketing pretendia comunicar com a sua presença nos vários teasers . Infelizmente para os habitantes de Hawkins, acabou por se revelar uma espécie de assinatura de Vecna, o novo vilão da quarta temporada. Demogorgon Vecna não é um monstro como o Demogorgon ou o Mind Flayer, nem está interessado em Eleven ou nos seus poderes. Trata-se antes de um humanoide, uma espécie de feiticeiro sombrio, que utiliza as suas capacidades para formar uma equipa, à semelhança do que o Mind Flayer fez em Stranger Things , temporada 2, com os Demodogs. Contudo, há mais par saber do que apenas isso: Vecna não escolhe as suas vítimas ao acaso, nem as mata quando lhe apetece. O seu modo de actuação revela-se meticulosamente calculado, começa por atacar as pessoas a nível psicológico, seguindo-se as visões, antes de as arrastar para o seu domínio. Vecna começa por atingir as suas vítimas através de dores de cabeça intensas, depois surgem hemorragias nasais e, por fim, visões relacionadas com traumas do passado. No caso de Max, essas visões materializam-se em Billy, que morreu durante a Batalha de Starcourt. Antes de Vecna reclamar as suas vítimas, surge sempre a visão de um relógio de caixa alta, que funciona como um aviso de que lhes resta menos de um dia de vida. Max percebeu o padrão temporal e concluiu que Chrissy e Fred (e, mais tarde, Patrick) morreram todos no prazo de 24 horas após a primeira visão. Este facto enquadra-se ainda na obsessão de Henry Creel com a ordem do mundo e na ideia de que o tempo — segundos, minutos, horas — constitui uma imposição artificial sobre a natureza. De certa forma, foi o tempo que alimentou o seu ódio pela humanidade. Recordação de Henry Creel no 7º episódio da 4ª temporada Uma teoria recorrente sugere que o relógio de caixa alta poderá funcionar como uma passagem para o Upside Down. Em Stranger Things , temporada 4, o relógio surge no interior da Casa Creel e chega mesmo a rachar (ou a partir-se por completo) nos trailers , o que sugere uma função mais profunda. Na quinta temporada, contudo, não é estabelecido canonicamente que o relógio de caixa alta funcione como uma passagem literal para o Upside Down . O relógio mantém-se como símbolo narrativo associado a Vecna, ao trauma e à manipulação do tempo, mas não é revelado como portal físico ou mecanismo dimensional autónomo. A ideia do relógio enquanto passagem permanece, assim, no domínio da leitura simbólica e das teorias dos fãs, sem validação explícita na narrativa final. Directora de adereços de Stranger Things Num artigo publicado pela Hodinkee  em 2020, o jornalista Danny Milton entrevistou Lynda Reiss, Prop Master  responsável pelos adereços de True Detective  e das primeiras temporadas de Stranger Things . A conversa revela como os relógios de pulso, longe de serem acessórios neutros, desempenham um papel subtil mas decisivo na construção das personagens e da atmosfera da série. “Enquanto Prop Masters , ajudamos a estabelecer o lugar socioeconómico da personagem e o seu estado emocional. Há uma grande diferença entre dizer e mostrar — e mostrar é sempre melhor. Um relógio é um exemplo perfeito disso. Se a câmara sobe e a personagem usa um IWC, um Rolex ou um Omega, o espectador percebe imediatamente o seu nível económico. Se, pelo contrário, usa algo preso com fita-cola, isso diz-nos outra coisa. É esse tipo de camadas que temos de construir.” Segundo Reiss, a escolha de um relógio ajuda a definir o contexto social, económico e emocional de cada personagem. Um modelo simples ou gasto comunica imediatamente uma realidade diferente de um relógio caro ou ostensivo. Em Stranger Things , esta lógica foi aplicada com especial cuidado, uma vez que a série decorre no início da década de 1980 e exigia coerência cronológica rigorosa. Barb , de Stranger Things , a usar um Swatch branco . Reiss adquiriu vários exemplares deste relógio para utilização na produção. “O problema surge quando um actor tem um acordo externo de product placement. Ouvimos coisas como ‘tenho de usar este relógio’, e eu respondo: ‘Está bem, mas a sua personagem é um argumentista falido e desempregado — não faz sentido andar com um relógio de 10.000 dólares’. Às vezes é preciso escolher bem as batalhas.” A Prop Master  explica que a primeira temporada se situa em 1981, período em que muitos relógios hoje associados aos anos 80 — como as Swatch ou certos digitais — ainda não estavam amplamente disponíveis. Por esse motivo, foi necessário evitar anacronismos e recorrer a modelos coerentes com a transição entre os anos 1970 e 1980. Ainda assim, personagens como Barb usaram um dos primeiros Swatch, justificados por uma construção narrativa específica: filha única, protegida e com acesso às novidades do consumo juvenil da época. As crianças da série usaram sobretudo relógios digitais e calculadora, de marcas como Casio ou Timex, escolhidos pela sua verosimilhança histórica. Reiss admite, porém, que estes relógios criaram dificuldades práticas durante as filmagens, devido a alarmes e botões accionados inadvertidamente, obrigando muitas vezes à remoção das pilhas. Entre os adultos, destaca-se o Timex Atlantis TW2V51000 usado pelo Sheriff Hopper, um relógio utilitário com bússola integrada, coerente com o carácter pragmático e funcional da personagem. O artigo sublinha que, em Stranger Things , os relógios não servem para chamar a atenção do espectador, nem funcionam como product placement . Pelo contrário, integram-se silenciosamente na narrativa, reforçando a credibilidade do universo ficcional e ajudando a contar a história sem palavras. Edições especiais de relógios Stranger Things Para além dos relógios que surgem em cena, o universo de Stranger Things  deu origem a edições especiais de relógios licenciadas, lançadas posteriormente por marcas de grande difusão. Estes modelos não correspondem, regra geral, aos relógios usados pelas personagens, mas assumem-se como interpretações contemporâneas da estética da série e da cultura material dos anos 1980. Em Junho de 2022, a Timex apresentou uma colecção cápsula em colaboração com Stranger Things , assumindo de forma explícita a estética e o imaginário dos anos 1980 que definem a série da Netflix. A parceria surge como um exercício natural de nostalgia, num contexto em que a relojoaria contemporânea revisita frequentemente o seu próprio passado. Timex Atlantis  ( ref.  TW2V51000) Ambientada, como vimos, nos anos 80, Stranger Things  tornou-se uma referência visual dessa década, cruzando ficção científica, terror e cultura juvenil, com uma linguagem cinematográfica que evoca E.T.  e The Goonies . É precisamente esse universo que a Timex transpõe para esta colecção, recuperando três modelos históricos do seu catálogo oitentista : o Timex Camper , o Timex T80  e o Timex Atlantis . Timex Expedition – edição especial Stranger Things Segundo Shari Fabiani, vice-presidente sénior de Brand Marketing  da Timex, esta colaboração junta duas marcas de culto numa cápsula profundamente ligada ao momento cultural actual, e recupera assim uma das décadas mais expressivas do século XX através de design intemporal e narrativa visual. Os três relógios incorpora m grafismos e referências visuais da série, incluindo detalhes associados ao Upside Down . O Timex Camper , modelo analógico de inspiração militar usado pela personagem Lucas Sinclair, integra uma iluminação INDIGLO® com imagem oculta. Os modelos digitais T80  e Atlantis , ambos lançados originalmente no início dos anos 1980, apresentam um alarme personalizado com a melodia de Stranger Things . Cassio DW-5600  e o AQ-800 A Casio , por sua vez, apresentou edições temáticas baseadas em modelos clássicos da sua linha Vintage , como o DW-5600  e o AQ-800 , adaptados com pormenores gráficos e inscrições alusivas a Stranger Things . Estes relógios mantêm integralmente a arquitectura técnica dos modelos originais, distinguindo-se apenas pela linguagem visual e pela embalagem especial. A colecção Timex × Stranger Things  foi lançada em três versões em 2022 — Camper (40 mm), T80 (34 mm) e Atlantis (40 mm) — todas com um preço de 89 dólares , posicionando-se como uma edição acessível, comemorativa e claramente orientada para fãs da série e da estética retro.

  • O Tempo como Presente: Três Relógios oferecidos que se Tornaram Lendas

    O universo dos relógios revela-se sempre mais vasto do que aparenta. Mais do que simples instrumentos de medição, os relógios mecânicos encerram um mecanismo vivo que serve de receptáculo para intenções, sentimentos e memórias — acolhendo, no próprio metal e no próprio ritmo, tudo aquilo que resiste ao tempo. Talvez por isso, mesmo ultrapassados na exactidão pelos relógios de quartzo, pelos atómicos ou pela ubiquidade da hora nos telemóveis, os relógios mecânicos permanecem nos pulsos, com,o mensageiros de uma dimensão simbólica e afectiva que nenhuma tecnologia conseguiu substituir. Nesta véspera de Natal damos a conhecer três relógios oferecidos em circunstâncias extraordinárias, peças que se tornaram parte da história pelos melhores motivos. Estas histórias revelam momentos empolgantes da relojoaria e dos seus protagonistas e sabemos que são histórias como estas que nos fazem admirar os relógios: não pela utilidade, mas sim pelo significado e pela memória que encerram. Patek Philippe - Gago Coutinho e Sacadura Cabral ©IPR Relógio de pulso Patek Philippe  em ouro, oferecido em 1922 pela Comissão Executiva da recepção aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, por ocasião da primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Em 1922, a travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral tornou-se símbolo da conjugação entre ciência, navegação e perícia técnica. No coração da aventura, o tempo não era abstracção mas ferramenta: cada trajectória dependia da precisão dos cronómetros marítimos e dos relógios de aviação embarcados no “Lusitânia”, no “Pátria” e no “Santa Cruz”. Entre os instrumentos documentados constavam, por exemplo, cronómetros da marca britânica Dent — fornecedora da Marinha Portuguesa desde o século XIX — e cronómetros da Johannsen e da Kullberg, que equipavam os navios e, nesta missão, foram adaptados para utilização aérea. Não se tratava de relógios de adorno, eram verdadeiros instrumentos científicos. Quando se olha para a travessia aérea do Atlântico Sul em 1922, é fácil esquecer que o verdadeiro protagonista não foi apenas a máquina voadora, mas o tempo — medido, regulado e interpretado com precisão científica. O próprio Gago Coutinho  esclarece este ponto no relatório da viagem, apresentado ao Estado no ano seguinte: Na navegação astronómica empregou-se, como a bordo dos navios, um cronómetro médio, que dá a hora de Greenwich; e levávamos também um bom contador médio. Na previsão de observações astronómicas de noite, tínhamos mais um cronómetro regulado para o tempo sideral de Greenwich.   Gago Coutinho Na preparação da missão, o Observatório Naval de Lisboa revia, ajustava e selava os cronómetros segundo padrões rigorosos. O próprio método de navegação de Gago Coutinho, baseado no “sextante de horizonte artificial”, só era possível graças à leitura exacta dos cronómetros — e o sucesso da travessia dependeu literalmente do seu funcionamento. Sabia-se, por testemunhos directos e registos museológicos, que Gago Coutinho utilizou um cronómetro Dent Nº 32511 durante a viagem, e que, após o regresso:  A Comissão Executiva da recepção aos aviadores portugueses ofereceu-lhes um relógio de pulso Patek Philippe em ouro. A relação entre homem, máquina e tempo ficou assim inscrita na história portuguesa. Estas peças são testemunhos materiais de uma época em que medir o tempo era, em si, um acto de conquista. O Breguet Nº 160 “Marie-Antoinette” Breguet Marie-Antoinette Por volta de 1783 , um admirador da rainha Maria Antonieta de Áustria , esposa de Luís XVI, encomendou a Abraham-Louis Breguet  um relógio sem precedentes. A identidade do cliente permanece desconhecida, mas a intenção foi clara e documentada: criar o relógio mais complexo e perfeito possível, sem limite de custos nem prazos, destinado à rainha. O pedido incluía explicitamente todas as complicações conhecidas na época . Não se tratava de ostentação imediata, mas de um gesto absoluto, quase conceptual, em que o tempo e o dinheiro deixavam de ser critérios. O relógio tornava-se uma prova técnica e simbólica. A execução do relógio revelou-se extraordinariamente longa. A Revolução Francesa, iniciada em 1789, interrompeu a vida da corte e conduziu à execução de Maria Antonieta em 1793, antes de o relógio estar concluído. O projecto, porém, não foi abandonado. O Breguet Nº 160 só ficou concluído em 1827, mais de quarenta anos após a encomenda e quatro anos depois da morte de Abraham-Louis Breguet. O relógio integra, entre outras, repetição de minutos, calendário perpétuo, equação do tempo, termómetro, reserva de marcha, corda automática e indicação das horas em múltiplos formatos. Nunca foi entregue à sua destinatária original. Ainda assim, ficou para sempre associado ao seu nome, não pelo uso, mas pela intenção. Ao longo do século XIX, o relógio passou por vários proprietários privados. No início do século XX, integrou a colecção de Sir David Lionel Goldsmid-Stern-Salomons, um importante coleccionador britânico de relojoaria e ciência. Em 1966, a peça foi doada ao Museu L.A. Mayer de Arte Islâmica, em Jerusalém, onde passou a ser um dos objectos mais importantes da colecção de relojoaria histórica, apesar de não ter ligação directa ao mundo islâmico. A sua presença no museu justificava-se pelo valor universal do objecto enquanto obra de engenharia e arte. Breguet Marie-Antoinette Na noite de 15 de Abril de 1983, o museu foi assaltado. Foram roubados mais de uma centena de relógios, incluindo o Breguet Nº 160. O assalto foi meticulosamente planeado e não deixou pistas imediatas. Durante décadas, o paradeiro do relógio permaneceu desconhecido. A sua singularidade tornava-o impossível de vender no mercado legal, o que contribuiu para o mistério em torno do roubo. Em 2007, após mais de vinte anos desaparecido, o Breguet Nº 160 foi recuperado. O relógio foi devolvido ao museu por uma mulher que afirmou estar a cumprir a vontade do seu falecido marido, identificado como Na’aman Diller, um ladrão profissional israelita, já falecido à data. A investigação confirmou a autenticidade da peça. O relógio encontrava-se completo, embora necessitasse de avaliação técnica e conservação. A recuperação foi considerada um dos episódios mais notáveis da história recente da relojoaria museológica. Oferta nº3 Rolex Paul Newman - Rolex Cosmograph Daytona, referência 6239 Rolex Paul Newman - Rolex Cosmograph Daytona, 6239 Em 1968, o actor Paul Newman encontrava-se profundamente envolvido no automobilismo de competição. Para além da sua carreira no cinema, corria regularmente em provas de resistência e em programas de preparação profissional, uma actividade que comportava riscos reais e constantes. Foi nesse contexto que a sua esposa, a actriz Joanne Woodward, lhe ofereceu um relógio: um Rolex Cosmograph Daytona, referência 6239, com mostrador exótico, hoje universalmente conhecido como Paul Newman Daytona . O Rolex Daytona não foi seleccionado como símbolo de ostentação. Era um cronógrafo profissional, concebido para a medição de tempos em pista, equipado com escala taquimétrica e leitura clara. Funcionava, de forma directa e eficaz, como instrumento adequado à actividade de Newman enquanto piloto. O gesto não procurava criar um símbolo público nem um ícone mediático. O relógio destinava-se ao uso quotidiano e desportivo do seu destinatário. No verso da caixa, Joanne Woodward mandou gravar a frase “DRIVE CAREFULLY ME”. A mensagem é simples, directa e profundamente pessoal. Não contém o nome do destinatário nem qualquer data. A escolha da palavra final — ME — transforma a frase num apelo íntimo: não se trata apenas de prudência, mas de responsabilidade afectiva. Esta gravação encontra-se amplamente documentada através de fotografias, testemunhos familiares e do próprio percurso conhecido do relógio. Paul Newman usou este Rolex durante vários anos, tanto fora como dentro de pista. O relógio surge em múltiplas fotografias e registos públicos, confirmando que não foi guardado como peça simbólica ou de excepção, mas integrado na sua vida quotidiana. Esse uso continuado reforça o carácter genuíno da oferta: o relógio cumpriu exactamente a função para a qual foi oferecido. Mais tarde, Newman ofereceu o relógio ao então namorado da sua filha, James Cox, quando este se preparava para iniciar uma carreira no automobilismo. O gesto manteve intacta a lógica original da oferta: o relógio acompanhava quem enfrentava o risco. Durante décadas, o paradeiro da peça permaneceu discreto, fora do circuito mediático e afastado do mercado de coleccionismo. Em 2017, o relógio foi leiloado pela Phillips, em Nova Iorque, alcançando o valor de 17,75 milhões de dólares e tornando-se, à data, o relógio de pulso mais caro alguma vez vendido em leilão. Este Rolex não é importante por ser um Paul Newman Daytona . Tornou-se um Paul Newman Daytona  porque foi usado por Paul Newman. E tornou-se histórico porque foi oferecido com uma mensagem privada que nunca perdeu o seu sentido. A frase “DRIVE CAREFULLY ME” não foi pensada para o público. Foi escrita para um homem específico, num momento concreto, com uma preocupação real. Joanne Woodward e Paul Newman A oferta do Rolex por Joanne Woodward a Paul Newman demonstra que um relógio pode tornar-se histórico sem qualquer intenção de o ser. Basta que o gesto seja verdadeiro, que o uso seja real e que a história seja documentada. Entre todas as grandes ofertas relojoeiras conhecidas, esta permanece uma das mais humanas: um relógio oferecido por amor, usado com naturalidade e valorisado pelo tempo.

  • O Tempo que Criou a Ciência: O Papel do Relógio na Revolução Científica (1500–1700)

    Sílvio Pereira Entre os séculos XVI e XVII, a Europa viveu uma transformação intelectual que alterou para sempre a forma como concebemos a natureza, o conhecimento e o próprio tempo. A Revolução Científica consolidou métodos experimentais, reforçou a matemática como linguagem universal das leis naturais e impulsionou instrumentos cada vez mais precisos. No centro desta mudança esteve o relógio: não apenas como artefacto técnico, mas como verdadeiro motor conceptual e operacional da ciência moderna. Este artigo analisa, em detalhe, como este objecto, nascido do engenho artesanal e aperfeiçoado por artesãos, astrónomos e físicos, desempenhou um papel decisivo na construção de uma nova visão do mundo. O relógio como instrumento fundador da modernidade científica A história da ciência é, em grande parte, a história da capacidade humana de medir. Medir é comparar, fixar grandezas, estabelecer relações estáveis e, finalmente, formular leis. Todavia, a ciência europeia do século XVI dispunha de instrumentos limitados: não havia termómetros padronizados, a óptica estava nos seus primórdios, a balança ainda não era um dispositivo de laboratório rigoroso e a cronometria oferecia apenas aproximações grosseiras. É neste contexto que surge a importância do relógio mecânico. O relógio não foi apenas mais uma ferramenta; foi o primeiro instrumento capaz de oferecer uma regularidade autónoma , independente do corpo humano ou do ambiente. Um relógio mecânico bem construído podia marcar intervalos de tempo iguais sem fadiga e sem flutuações perceptíveis — algo impossível através da observação da natureza ou da percepção humana. Dito de forma directa: a própria ideia de uma lei natural — regular, repetível, constante — tornou-se mais plausível quando existia um objecto que encarnava essa mesma regularidade . O relógio não apenas media o tempo da ciência; moldava a própria imaginação científica. Da energia potencial aos mecanismos reguladores: evolução técnica (1500–1700) Mola real 1.     A invenção da mola e a miniaturização do tempo No início do século XVI, relojoeiros alemães, entre eles o nome frequentemente citado de Peter Henlein (conhecido como o criador dos "Ovos de Nuremberg"), introduziram dispositivos accionados por molas metálicas. A energia potencial concentrada numa mola enrolada substituiu os tradicionais pesos dependentes da gravidade, libertando o relógio do espaço fixo da torre, da parede ou da mesa. Nasceu o relógio portátil, inicialmente impreciso, mas revolucionário em conceito. Esta inovação, embora modesta em precisão, abriu caminho à internalização pessoal do tempo: o tempo começava a caber no bolso. Esta portabilidade transformou não apenas hábitos mas também expectativas — se o tempo se podia transportar, também a sua medição poderia tornar-se mais íntima, mais rigorosa, mais universal. 2.     O escape medieval: engenho e limites Foliot e Verge O escape “verge and foliot”,  dominante até ao último terço do século XVII, é um mecanismo simultaneamente engenhoso e limitado. Proporcionava uma cadência de oscilação aproximada, assegurando uma regularidade básica, mas era sensível a variações de atrito, amplitude e torque. Em consequência, os relógios oscilavam em precisão diária com margens amplas — às vezes horas. Contudo, este mecanismo preservava um princípio fundamental: a criação de um ritmo mecânico , isto é, um movimento oscilatório capaz de dividir o tempo em partes organizadas. Sem esta ideia, as revoluções posteriores não teriam ocorrido. 3.    O pêndulo: a revolução dentro da revolução Relógio de pêndulo de Huygens ©Science Museum, London O salto decisivo ocorre com Galileo Galilei ,  que observou a isocronia aproximada das oscilações do pêndulo: quanto menor a amplitude, mais estável o período. Embora não tenha construído um relógio funcional baseado nessa descoberta, abriu o caminho conceptual. A implementação prática coube a Christiaan Huygens ,  que em 1656 concebeu e fez fabricar o primeiro relógio de pêndulo realmente funcional. Esta inovação reduziu o erro diário de horas para minutos e, mais tarde, segundos. Na época, foi uma mudança tecnológica tão radical quanto o advento do quartzo no século XX. O relógio de pêndulo tornou-se rapidamente o instrumento padrão de laboratórios, observatórios e casas abastadas. A Europa passou a dispor de um marcador de tempo objectivo e fiável, algo que jamais tinha possuído. 4.     A espiral: passo decisivo para portabilidade Mola espiral de Huygens Ainda no século XVII, a controvérsia entre Robert Hooke  e Huygens quanto à invenção da espiral de balanço (balance spring)  revela a importância crítica deste componente. Esta mola reguladora estabilizou os relógios portáteis, elevando-os a instrumentos científicos viáveis. O relógio portátil aproximava-se, pela primeira vez, da precisão de um relógio estacionário, abrindo caminho para a futura resolução do problema da longitude e para a sofisticação relojoeira do século XVIII. O relógio como aliado das ciências exactas 1.     Astronomia: o tempo como coordenada cósmica. Relógio astronómico por George Margetts ©Science Museum Group Collection A astronomia renascentista procurava quantificar o movimento dos corpos celestes. Essa quantificação exigia registos temporais fiáveis. Tycho Brahe , embora utilizasse principalmente instrumentos angulares, dependia já de relógios para sincronizar observações. Kepler , ao analisar os dados de Brahe , pôde elaborar leis do movimento planetário porque tinha acesso a séries de dados temporalmente ordenadas. O relógio de pêndulo transformou completamente esta prática. Observatórios europeus adoptaram-no rapidamente, pois permitia registar posições estelares em minutos exactos e calcular irregularidades celestes com precisão inédita. Sem um tempo regular, a astronomia seria apenas estatística imprecisa; com ele, tornou-se uma ciência matemática rigorosa. 2.     Física e método experimental: o tempo como variável mensurável Projecto Galileu para relógio de pêndulo ©Science Museum, London A física moderna nasceu quando o tempo se tornou uma variável tratável. Experiências com queda livre, osciladores, projécteis e fluidos dependiam de medições temporais rigorosas. Galileo  já utilizara rudimentares métodos de cronometria (pêndulos contados) para medir acelerações. Com relógios de pêndulo, investigadores puderam repetir experiências, comparar resultados e quantificar relações — condições indispensáveis para a formulação de leis como as de movimento. Assim, o relógio ajudou a criar uma mentalidade científica baseada na repetibilidade e no controlo experimental. 3.     Navegação: o prelúdio do cronómetro marítimo John Harrison e o seu H4 ©Redfern animation Determinar a latitude era relativamente simples; determinar a longitude era um quebra-cabeças secular. A solução teórica era conhecida: comparar a hora local (determinada pela posição do Sol) com a hora do porto de partida, guardada num relógio. Mas os relógios do século XVII tinham grandes amplitudes de variabilidade. Contudo, a procura de precisão tornou-se um incentivo colossal à inovação relojoeira. As marinhas europeias ofereciam recompensas e patrocinavam relojoeiros e cientistas. Este esforço, ainda inconclusivo antes de 1700, criaria as bases para a revolução cronométrica do século XVIII com John Harrison. Assim, a ciência náutica e a relojoaria tornaram-se parceiras estratégicas. Oficinas, ciência e cultura: o relógio no tecido social europeu 1.     Oficinas como laboratórios Antiga oficina de relojoeiro ©stockcake Relojoeiros do século XVII eram artesãos que combinavam matemática prática, metalurgia, técnicas de corte e fresagem e uma extraordinária capacidade manual. Muitos colaboraram directamente com cientistas. Salomon Coster , na Holanda, fabricou os primeiros relógios de pêndulo sob orientação de Huygens . Em Londres e Paris, relojoeiros eram consultados por astrónomos e membros de academias científicas. Deste encontro surge uma característica essencial da modernidade europeia: a ciência precisava da precisão artesanal, e o artesanato precisava da teoria científica . 2.     O relógio como disciplinador social A difusão dos relógios alterou ritmos sociais. O tempo deixou de ser marcado exclusivamente por sinos, pelo ciclo agrícola ou pelas rotinas religiosas. Começa a emergir um tempo civil, laico, uniforme. A vida urbana acelerou-se: horários de comércio, regulamentos laborais e deslocações passaram a depender de medições mais exactas. A partir do século XVII, possuir um relógio tornava-se símbolo de estatuto, mas também de integração num mundo cada vez mais regulado. O relógio moldou hábitos, pontualidade e expectativas de sincronização — factores que contribuíram para uma nova organização económica e social. 3.          O relógio como símbolo intelectual A metáfora do universo como máquina tornou-se central no pensamento mecanicista de Descartes, Boyle, Hooke  e outros. Não é coincidência que esta metáfora surja num período em que relógios complexos e fiáveis se tornam objectos familiares. Um relógio, com as suas engrenagens, cadência e previsibilidade, oferecia o modelo perfeito para imaginar uma natureza ordenada por leis universais. A relojoaria contribuiu, assim, não apenas com instrumentos, mas com imagens conceptuais que estruturaram a ciência moderna. Principais avanços tecnológicos Galileu ©Wikipédia 1.     Galileo Galilei:  o nascimento conceptual da cronometria científica Galileo  foi pioneiro na utilização sistemática do tempo em experiências físicas. Ao observar o pêndulo numa catedral, intuiu propriedades que se tornariam fundamentais. A sua ambição de construir um relógio regulado por pêndulo mostra como os problemas técnicos e científicos se entrelaçavam. Mesmo sem ter criado um mecanismo funcional, forneceu a ideia que permitiria a Huygens revolucionar a relojoaria. 2.     Christiaan Huygens:  engenheiro da regularidade Huygens ©Wikipédia Huygens combinou teoria e prática como poucos. Além de formular matematicamente o período do pêndulo, concebeu o sistema de suspensão, patenteou o mecanismo e colaborou com relojoeiros para o fabricar. A sua obra mostrou que a ciência podia orientar directamente a tecnologia e que a tecnologia podia consolidar a ciência. 3.     Oficinas europeias: centros de inovação discreta Relojoeiros de Londres, Paris, Genebra e Nuremberga foram actores silenciosos da Revolução Científica. Cada melhoria — uma roda mais simétrica, um pivô melhor polido, uma mola de melhor liga — aumentava a precisão e tornava os relógios mais fiáveis para usos científicos. Este progresso incremental, acumulado por milhares de mãos anónimas, foi tão determinante como as descobertas teóricas. O relógio fez a ciência ou a ciência fez o relógio? É insuficiente afirmar que o relógio gerou a Revolução Científica; e é igualmente redutor dizer que a ciência apenas aperfeiçoou um objecto já existente. Na verdade, houve uma coevolução profunda : a astronomia exigia mais precisão → relojoeiros inovavam; relojoeiros criavam instrumentos mais fiáveis → cientistas realizavam medições mais rigorosas; a física formulava novas leis → oficinas desenvolviam mecanismos para testá-las. A relação foi um verdadeiro diálogo entre teoria e prática. O relógio tornou-se uma metáfora da ordem natural, mas também uma ferramenta que tornava essa ordem mensurável. Hoje, num mundo dominado por osciladores atómicos, algoritmos de compensação térmica e calibres micrométricos, é fácil esquecer a dimensão filosófica desta história: a nossa visão mecanicista do universo nasceu de uma máquina manejável, ruidosa e engenhosamente simples — o relógio. O legado duradouro da cronometria na construção do conhecimento Relógios e conhecimento ©pngtree Entre 1500 e 1700, o relógio deixou de ser um marcador aproximado de horas para se tornar um instrumento científico. Este percurso implicou avanços técnicos (mola, escape, pêndulo, espiral de balanço), mas também transformações culturais: a interiorização do tempo, a sua regularidade, a sua quantificação. A Revolução Científica não teria adquirido o rigor que hoje lhe atribuímos sem a capacidade de medir intervalos temporais de forma precisa e replicável. A astronomia, a física e a navegação foram áreas profundamente transformadas por este progresso, e a relojoaria tornou-se, simultaneamente, ferramenta, beneficiária e parceira da ciência. O relógio não foi apenas um produto da modernidade; foi um dos seus arquitectos. Ao impor ao mundo uma cadência constante, ensinou-nos a procurar regularidade na natureza. Ao dividir o tempo em unidades iguais, habituou-nos a pensar a realidade como algo quantificável. E ao aperfeiçoar-se século após século, inspirou-nos a acreditar na melhoria contínua da técnica e do conhecimento. Para o leitor interessado em relojoaria, o reconhecimento desta herança é mais do que um exercício histórico: é um regresso às raízes profundas do ofício. Cada calibre moderno, cada oscilador minúsculo, cada escape inovador, carrega dentro de si quatro séculos de diálogo entre artesãos e cientistas — um diálogo que ajudou a construir a própria ciência moderna. Bibliografia aconselhada Fontes gerais e de síntese Scientific Revolution — Encyclopedia Britannica. Contexto conceptual sobre o movimento científico. Encyclopedia Britannica A Walk Through Time — NIST: A Revolution in Timekeeping.  Contexto técnico sobre mola, pêndulo e cronologia das inovações. NIST Estudos sobre o pêndulo e Huygens Willms, A. R., Huygens' clocks revisited , Royal Society Open Science (2017). Análise técnica da invenção do pêndulo e sua implementação. royalsocietypublishing.org APS News — Christiaan Huygens Patents the First Pendulum Clock . Breve síntese histórica sobre 1656–1657 e Salomon Coster. aps.org Fontes sobre Galileo e experiências com pêndulos Museu Galileu / arquivos (synthetic pages) sobre observações e ideias de Galileo sobre isocronia; estudos que discutem limitações das experiências documentadas. galileo.library.rice.edu +1 Relógios e astronomia / oficinas Mechanical clocks and the advent of Renaissance astronomy  (Matthes & Sánchez-Barrios). Discussão de como relógios contribuíram para observação astronómica precisa. ResearchGate The Met Museum — European Clocks in the Seventeenth and Eighteenth Century (ensaio museológico sobre adopção do pêndulo e efeitos culturais). The Metropolitan Museum of Art Fontes de síntese e divulgação World History Encyclopedia — Clocks in the Scientific Revolution : História Mundial

  • ENCONTROS DO FUTURO: Les Tugas | 18-12-25 | 17h-20h

    Les Tugas - Fundo No terceiro Encontro do Futuro vamos conhecer o Les Tugas , o primeiro relógio português de pulso. Resultado do trabalho conjunto de vários profissionais em território nacional, este relógio presta homenagem a todos os portugueses que fizeram da relojoaria a obra de uma vida. É amplamente reconhecido que muitos dos melhores relógios do mundo são feitos por mãos portuguesas em países francófonos, razão que explica o nome — Les Tugas . Menos conhecido é o facto de uma parte significativa dos componentes relojoeiros ser fabricada em Portugal, realidade que este projecto vem tornar visível. Na próxima quinta-feira será possível conhecer o Les Tugas , experimentá-lo, conversar com os seus criadores e tomar uma bebida num ambiente acolhedor, na Avenida da Liberdade, 102 , na Maria João Bahia — Joalharia de Autor , entre as 17h e as 20h . Venha passar o final de tarde connosco, conhecer o Les Tugas e a comunidade que o rodeia. Nuno Margalha Inscrições e informações:

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