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  • Derek Pratt

    Os relojoeiros indepententes não são uma criação da actualiadade. Sempre existiram relojoeiros que trabalharam de forma independente para os seus clientes ou para as marcas que os contratam. Derek Pratt foi um relojoeiro independente, talvez um dos melhores. Não é fácil encontrar os seus relógios, mesmo em leilões, são raros. Apresentamos aqui o relojoeiro e a sua obra, para que a sua memória se mantenha viva por muitos anos. Este relojoeiro inglês é provavelmente mais conhecido pelo seu incrível trabalho com a Urban Jürgensen, ao lado do seu amigo Peter Baumberger, ou talvez pela sua réplica inacabada do cronómetro H4 de John Harrison. Porém há muito para descobrir acerca do seu trabalho. Já passou mais de uma década desde o seu falecimento e desde então aconteceu uma verdadeira explosão na relojoaria independente. Derek Pratt tinha uma dedicação absoluta à mecânica, muito para além da relojoaria. Desde os Mazdas com motor wenkel, até às bicicletas clássicas, o amor de Pratt à mecânica não conhecia limites. UM INÍCIO PRECOCE Pratt talvez estivesse sempre destinado a criar mecanismos incríveis numa escala minúscula. Nascido em Petts Wood, nos arredores de Orpington, no sudeste de Londres, ele estava perto de Greenwich e de todas as obras-primas horológicas que lá podiam ser vistas. As primeiras lembranças da vida de Pratt vêm através de seu amigo de infância, Derek Goldsmith. Cresceram juntos e partilharam uma paixão por todas as coisas mecânicas. Goldsmith fez milhões através da invenção de uma válvula misturadora, que se tornaria a base da empresa de chuveiros Aqualisa. Tanto Pratt quanto Goldsmith pertenceram aos escoteiros juntos, e ambos conseguiram que os seus pais instalassem tornos nas suas garagens, permitindo que trabalhassem em projetos juntos durante a adolescência. Pratt nos seus anos de juventude - encostado a um Mazda com um motor Wankel (esquerda) e em uma bicicleta Dursley Pedersen (direita). Ambos frequentaram a Escola Técnica de Beckenham, com Goldsmith um ano à frente de Pratt. Depois de se formar em 1953, Pratt fez uma formação na Smiths Industries e, mais tarde, em 1956, começou um curso no National College of Horology. Este foi projectado para ser um curso de três anos, no qual os alunos faziam um relógio de bolso completo, no último ano. No entanto, este programa foi interrompido a meio do curso de Pratt, fazendo com que ele o terminasse mais cedo, apesar de ser um estudante premiado até ao momento. "Pratt viu isso como uma traição", diz Timothy Treffry, um amigo de longa data de Pratt e ex-editor do Horological Journal. Desde muito cedo, Pratt tinha uma visão clara do que queria fazer, e os seus interesses já eram bem visíveis. De acordo com o livro escrito por Goldsmith publicado pelo British Horological Institute (BHI) Derek Pratt - Watchmaker, os dois fundaram uma empresa juntos em 1960 chamada Pratt e Goldsmith. Produziram peças pequenas e precisas para outras empresas, o que significa que acabaram por fazer aquilo que mais gostavam, enquanto ganhavam um algum dinheiro ao mesmo tempo. O ano em que Pratt teve de abandonar o seu curso de relojoaria foi o último para o National College of Horology, fecharam pouco depois. Este percalço permitiu que Pratt começasse a trabalhar para Andrew Fell, o ex-diretor da faculdade. Trabalharam com relógios de mesa, entre outros projetos de micro engenharia, e micro soldadura, que estavam a sentir uma impulsão devido ao crescimento do campo da micro eletrónica. Este trabalho levou Pratt emigrar para a Suíça, onde se estabeleceu com sua primeira esposa Franziska. O INÍCIO DE UMA JORNADA HOROLÓGICA Juntamente com os projectos que Pratt estava a desenvolver com Fell, começou a fazer um trabalho de restauração independente, um caminho traçado por muitos dos independentes mais bem-sucedidos da actualidade. Pratt restaurou cronómetros e relógios antigos, iniciando uma área de trabalho que continuou ao longo de sua carreira - um fascínio pela relojoaria tradicional e restauro. Enquanto alguns relojoeiros da sua época começavam a procurar novas técnicas, materiais e designs, Pratt dedicava sua vida a dominar as velhas maneiras de fazer as coisas. Um verdadeiro historiador do ofício, olharia para as obras de Breguet, Harrison e Tompion para recolher inspiração, na esperança de continuar a tradição que esses primeiros relojoeiros estabeleceram cerca de 200-300 anos antes. Detalhes no mostrador do Urban Jürgensen Oval Tourbillon Pocket Watch com realce para a dedicação de Pratt aos métodos tradicionais. Essas influências são claras, não apenas no seu trabalho, mas na sua oficina. Pratt iniciou a construção da sua coleção de ferramentas e máquinas no início da década de 1970, um momento tumultuoso para a indústria relojoeira. Durante a crise/revolução do quartzo, milhares de empregos foram perdidos, mas isso também significou que as máquinas usadas para fazer relógios mecânicos tradicionais passaram a estar disponíveis. Muitas empresas pensaram que nunca mais precisariam dessas ferramentas e vendiam-nas como sucata. Pratt conseguiu aproveitar esse período e comprou todo o equipamento que precisava por uma pequena fração do que deveria ter custado. “Logrou configurar cada torno para fazer um trabalho específico”, segundo Treffry, “o que significava economizar muito tempo pois desta forma tornou-se possível desempenhar trabalhos diferentes sem ter de redefinir a máquina”. Outra dessas técnicas tradicionais que Pratt foi capaz de dominar, e especialmente pela qual atraiu grande atenção, foi o guilloché. Pratt conseguiu desempenhar esta técnica com uma precisão incrível. De acordo com Treffry, “ele desligava o telefone e ignorava a porta se alguém tentasse chamá-lo enquanto o fazia”. Há até uma história de alguém que foi visitar Pratt enquanto ele estava a trabalhar num mostrador e, depois de várias tentativas fracassadas de chamar a sua atenção a bater à porta, optou por atirar bolas de neve à sua janela. O que mostrava o nível de concentração que alcançava ao trabalhar com as suas máquinas. Derek Pratt a fazer um guilloché um mostrador No livro que escreveu acerca da sua vida e obra, Dr. Helmut Crott observou que as máquinas que Pratt usou na altura não eram as mais modernas. Crott encontrou fotos de Pratt a trabalhar num mostrador. “Eu mostrei essas fotos ao meu fabricante de mostradores que tem 82 anos, e que passou 65 anos no negócio construção de mostradores”, escreveu. “Ele ficou muito surpreendido com as ferramentas que Derek usou. Pareciam arcaicas, mas acrescentou que alguém capaz de usar essas ferramentas deve ser muito talentoso.” Pratt estava claramente determinado a fazer relógios de uma maneira tradicional e não seria influenciado pela modernidade. Também foi observado por Crott que não havia uma máquina CNC à vista na sua oficina. Pratt muitas vezes brincava ao dizer que não usava CAD (Computer-Aided Design), preferia muito mais CARD - cartão. Fez modelos à escala de certos componentes em cartão, com recurso a elásticos para os mover, confirmando desta forma o seu funcionamento antes dos construir em metal. Dominar essas técnicas antigas e manter essas máquinas envelhecidas significava que Pratt era capaz de trabalhar com sensibilidade em peças vintage. O seu trabalho de restauração acabou por ser quase uma constante ao longo da sua vida. Também foi o veículo que o uniu a Peter Baumberger. Baumberger foi um dos principais negociantes de antiguidades que mais tarde se tornaria o proprietário da marca dinamarquesa Urban Jürgensen und Sønner, um nome que tem ligações para alguns dos relógios mais complexos no início de 1800. Graças a essa complexidade frequentemente encontrada nas peças de Urban Jürgensen, Baumberger teve problemas para consertar algumas das suas peças - e foi essa busca que o levou ao primeiro encontro com Pratt. Tendo construído uma reputação por trabalhar com técnicas tradicionais e uma capacidade de lidar com movimentos multifacetados, o nome de Pratt estava a difundir-se pelos quatro cantos do mundo. DR. HELMUT CROTT Pratt começou a fazer mais e mais trabalhos para Baumberger, e os dois acabaram por se tornar amigos íntimos. Quando este último estava prestes a assumir o controlo total da Urban Jürgensen und Sønner, havia realmente apenas uma pessoa que ele queria ao seu lado lado na secção de investigação técnica. Mas não eram apenas nos relógios Urban Jürgensen que Pratt trabalharia sob a alçada de Baumberger, nos primeiros dias - ele também terminou o restauro de um Vacheron Constantin oferecido ao rei Fuad I em 1929. OS ANOS DE JÜRGENSEN URBANOS O movimento de um turbilhão feito por Derek Pratt para Urban Jürgensen. O movimento tem as palavras "Invenit et Fecit", que significam "criado e feito", um lema encontrado nos relógios Breguet, tal como nos F.P. Journe. Recentemente, houve algum burburinho em torno de Urban Jürgensen, já que o relojoeiro finlandês Kari Voutilainen assumiu o cargo de seu novo CEO e colocou a sua filha Venla no comando do serviço pós-venda. Na altura, ocorreu uma excitação semelhante a que também ocorreu em torno da aquisição da marca por Baumberger. Nesse período a marca viveu uma era bastante prolífica, em grande parte graças à capacidade de Pratt. Ao falar sobre o envolvimento de Pratt com Urban Jürgensen, frequentemente é referida a qualidade dos seus mostradores. O seu trabalho com o torno de relojoeiro foi sempre extremamente bem considerado na indústria, mesmo após sua morte. Ao limpar sua oficina, foi encontrada uma gaveta cheia de mostradores descartados. Para alguém com menos olho, pareciam perfeitos, mas depois de uma inspeção séria e de perto, foi possível identificar erros mínimos com os quais aqueles que fosse menos perfeccionistas do que Pratt ficariam em paz. Embora seu trabalho de construção de mostradores tenha sido extraordinário, este foi apenas um dos contributos para a marca da qual se tornou diretor técnico em 1982, cargo que ocupou até 2005. Maquina que Pratt usou para criar seus mostradores extraordinários Quando se trata do trabalho de Pratt com Urban Jürgensen, muitos pensarão instantaneamente no seu relógio de bolso oval. Este foi um projeto que levaria mais de duas décadas a concluir, com os toques finais concluídos por Kari Voutilainen. Apesar do facto da sua forma distinta da caixa poder ajudá-lo a destacar-se esteticamente, o verdadeiro destaque deste relógio encontra-se no seu movimento. Para este relógio, Pratt inventou uma nova maneira de encaixar um balanço e umas rodagens num turbilhão. Qual foi inovação? Montar um balanço extra dentro da gaiola do turbilhão. Ele também incorporaria um escape de détente a este mecanismo, um dos seus favoritos graças à sua qualidade única de, aparentemente, não precisar de lubrificação. Houve muitos desafios únicos que Pratt enfrentou na construção deste relógio, mas parece que os enfrentou a todos com a mesma determinação que muitos conheceram ao longo da sua carreira. Ele fez todas as partes deste relógio à mão, até os parafusos. Este relógio em particular tinha três caixas construídas - uma em prata, uma em platina e outra em ouro rosa. Os exemplos de platina e ouro rosa foram produzidos entre 2005 e 2006 por Bruno Affolter, um mestre caixista da Les Artisans Boîtiers, uma empresa subsidiária da Parmigiani. No entanto, a caixa de prata foi feita por Pratt no seu torno. Devido à sua forma oval, foi necessário encaixar um acessório especial no seu torno para completar a tarefa. Fez um trabalho tão bom que o mestre caixista Jean-Pierre Hagmann diria, depois de ter a oportunidade de examinar a caixa: “O domínio e a qualidade da fabricação são excelentes! O criador merece o título de mestre caixista!” Igualmente também aceitaria o desafio de formar os dois vidros que cobririam a frente e a parte de trás do relógio - o que não seria algo que qualquer artesão pudesse fazer. Pratt procurou o conselho de, supostamente, o único homem capaz de moldar safira desta forma, que se riu de Pratt quando este explicou as dimensões do projeto. Assim que ficou claro que a colaboração não seria possível, Pratt decidiu levar a cabo a tarefa sozinho. Acabou sendo capaz de produzir os dois, incluindo o vidro do fundo que tem dois furos para dar corda e acertar o relógio. Pratt estava incrivelmente orgulhoso deste relógio, ao ponto de acrescentar um esboço dele ao seu cartão de visita. No entanto, como mencionamos acima, não conseguiu terminar o projeto. Em 2004, quando o câncro de Pratt estava numa fase inicial, Baumberger perguntou-lhe se poderia entregar o projeto a Kari Voutilainen, que adicionaria as peças finais ao movimento, além de aplicar os acabamentos espetaculares. Para um guia mais detalhado deste relógio, recomendamos ler o artigo do Dr. Helmut Crott num artigo publicado no SJX. Urban Jürgensen Ref. 2 ao lado da Ref.3. Claro, esta não foi a única peça que Pratt faria para Urban Jürgensen e Baumberger. Ele trabalhou e desenvolveu os relógios de pulso de Ref.2 e 3, no qual o seu módulo de calendário perpétuo foi sobreposto a um calibre de F. Piguet. A única diferença entre estes dois foi a adição de um indicador de reserva de energia situado na metade inferior do mostrador das fases da lua, na Ref 3. Estes dois relógios definiriam os códigos de design para Urban Jürgensen por muitos anos. Após o falecimento de Pratt e Baumberger a estética destes dois relógios delineou todo o estilo da marca. A RELAÇÃO COM GEORGE DANIELS Olhando para trás, pode parecer óbvio que Derek Pratt e George Daniels se tornariam amigos. Os dois maiores talentos da sua geração nasceram na Inglaterra, com 12 anos de diferença. De acordo com Treffry, “ os dois teriam longas conversas telefónicas todos aos domingos discutindo longamente os vários desafios que ambos enfrentavam no seu trabalho ao longo da semana. Embora partilhassem muitas habilidades e conhecimentos, também foram capazes de se complementar muito bem. A habilidade de Pratt na usinagem, especificamente a Usinagem de Descarga Elétrica (EDM), foi de grande ajuda para Daniels, e acredita-se que Pratt construiu o pequeno pivot necessário para criar o escape coaxial. George Daniels com Derek Pratt e Grahame Brooks, o Diretor de Vendas da altura, do Reino Unido, da Audemars Piguet, em 1986, frente a um “Blower Bentley' de 1928. O amor de Pratt por todas as coisas horológicas não se limitava a relógios de bolso e relógios de pulso - tinha também um grande fascínio por relógios de ferro, góticos, que ainda funcionam em tantas torres de relógio de aldeias europeias actualmente. Ele também produziria quatro relógios de água ao longo de sua carreira. É um aspecto da relojoaria que muitos não pensam hoje, e possivelmente não é o lado mais atraente da indústria, mas intrigou Pratt. Um que ele fez e continuaria a desenvolver por vários anos ficou em dois andares da sua oficina e agora está no Museu BHI em Upton Hall, Nottinghamshire. O seu terceiro relógio de água foi uma comissão para uma aldeia que comemorava seu 950º aniversário, assumindo o papel de parte arte pública, parte cronometrista funcional. Embora estes dois mestres relojoeiros britânicos fossem muito semelhantes em muitos aspectos, talvez sejam as suas diferenças que afectam os seus legados. Daniels era conhecido por ser uma força da natureza na indústria: nada iria atrapalhar o seu caminho de tornar o coaxial um sucesso comercial, nem pararia de pressionar constantemente para promover a relojoaria inglesa e o Método Daniels. Enquanto isso, Pratt ficou muito feliz em trabalhar sob o nome de outras pessoas. "Ele estava quieto; educado de uma maneira muito discreta", diz Richard Stenning, co-proprietário da Charles Frodsham & Co.e recorriam a triângulos Reuleaux, uma forma curva com uma largura constante, que Pratt utilizava no seu sistema de balanço. Não foram apenas as máquinas que entusiasmaram Pratt - ele também encontrou grande prazer em barcos pop-pop, um pequeno brinquedo que pode ser feito em casa usando peças bastante rudimentares. Pratt aprefeiçoou estes barcos até ao limite e escreveu mesmo vários artigos sobre eles para uma revista da especialidade. Pratt no que se acredita ser um BSA Sloper. Numa ligeira tangente, o amor de Pratt por todas as coisas horológicas não se limitava a relógios de bolso e relógios de pulso - tinha também um grande fascínio por relógios de ferro, góticos, que ainda funcionam em tantas torres de relógio de aldeias europeias actualmente. Ele também produziria quatro relógios de água ao longo de sua carreira. É um aspecto da relojoaria que muitos não pensam hoje, e possivelmente não é o lado mais atraente da indústria, mas intrigou Pratt. Um que ele fez e continuaria a desenvolver por vários anos ficou em dois andares da sua oficina e agora está no Museu BHI em Upton Hall, Nottinghamshire. O seu terceiro relógio de água foi uma comissão para uma aldeia que comemorava seu 950º aniversário, assumindo o papel de parte arte pública, parte cronometrista funcional. Embora estes dois mestres relojoeiros britânicos fossem muito semelhantes em muitos aspectos, talvez sejam as suas diferenças que afectam os seus legados. Daniels era conhecido por ser uma força da natureza na indústria: nada iria atrapalhar o seu caminho de tornar o coaxial um sucesso comercial, nem pararia de pressionar constantemente para promover a relojoaria inglesa e o Método Daniels. Enquanto isso, Pratt ficou muito feliz em trabalhar sob o nome de outras pessoas. "Ele estava quieto; educado de uma maneira muito discreta", diz Richard Stenning, co-proprietário da Charles Frodsham & Co. O DESENVOLVIMENTO DO ESCAPE Enquanto Daniels é conhecido em toda a comunidade relojoeira pelo seu escape coaxial, Pratt também desenvolveu uma forma engenhosa de escape que se inspira diretamente no trabalho de A.L. Breguet. Este foi, é claro, seu remontoire tourbillon, que manteve um escape de détente. Em 1981, Pratt decidiu-se a resolver um problema que Breguet não foi capaz de resolver - criar um turbilhão de força constante. Como Andrew Crisford, especialista em relojoaria britânica e Breguet aponta no seu livro, Breguet tentou este feito em alguns relógios nos quais havia gravado “Echappement à force-constanté”, mas há apenas um desses relógios sobrevivente, e desde então viu o seu escape substituído. Os princípios mecânicos por trás do escape de Derek Pratt A solução de Pratt era incorporar um balanço dentro do turbilhão. Este balanço é o que impulsiona o turbilhão e recebe energia diretamente das rodagens. Isso significa que o pivot do escape que normalmente acciona o turbilhão, em redor a uma das rodas é substituído pelo pivot ligado ao balanço. Este balanço de um segundo é anexado à roda de escape através da espiral que, se enrola e liberta a cada segundo, fornecendo um impulso à roda de escape. O sistema Reuleaux O componente desta construção que se destaca mais é o triângulo Reuleaux. Este triângulo equilátero curvo actua como um excêntrico, controlando o movimento das palhetas que interagem com o balanço. Atribuído ao engenheiro mecânico alemão do século XIX Franz Reuleaux, o triângulo Reuleaux faz parte dos polígonos Reuleaux, que partilham a qualidade única de ter um diâmetro constante. Isso permite que os dentes do garfo em que ele acenta permaneçam em contacto constante com o excêntrico à medida que gira e desloca as palhetas a cada rotação. Esta é a mesma forma usada pela Mazda nos seus motores Wankel, como mencionado acima. Este escape apareceu pela primeira vez numa série de relógios de bolso feitos para Urban Jürgensen. Pratt produziria uma segunda série desses relógios de bolso na década de 1990, a principal diferença sendo que o excêntrico triangular era feito de um rubi sintético em vez de aço, permitindo um atrito muito menor. Em 1997, Pratt voltaria sua atenção para um novo projeto com um novo escape inovador. Desta vez, inspirava-se em Daniels e no seu design de roda dupla, e construía um relógio que incorporasse isso num turbilhão que também recorria de um escape de deténte. Num escape de roda dupla de Daniels, as duas rodas giram em direções opostas, o que é ligeiramente contraintuitivo para um turbilhão. De acordo com Treffry, Pratt, “enquanto estava na casa de banho, percebeu que se se adicionar uma segunda roda fixa com dentes voltados para dentro, ela leva a roda de escape a rodar na direção oposta”. Pratt fez este relógio para uma competição comemorando o 250º aniversário do nascimento de Breguet. Combinando duas das invenções dos antigos mestres, conseguiu ficar em segundo lugar e continuaria a fornecer algumas das inspirações para o escape do Chronometer de Pulso Duplo de Frodsham. Este relógio está agora em exibição no Museu da Ciência, em Londres. O SEU H4 INACABADO Pratt assumiu a tarefa hercúlea de replicar o H4, o último cronómetro de marinha produzido por John Harrison, famoso por vencer o Longitude Challenge. Este foi um pouco um projecto de paixão para Pratt, que estava fascinado por esta peça há anos, juntamente com o catálogo completo de trabalhos de John Harrison. Treffry diz-nos que não se deveria referir ao cronómetro de Pratt como sendo uma réplica, "ele sempre disse que estava ‘a construir outro' ". “Queria entrar na mentalidade de Harrison para tentar resolver os problemas que ele tinha que resolver.” Também era importante não o chamar de réplica porque, na época, o H4 era tecnicamente de propriedade do almirantado e era um segredo de estado. Isso significava que ninguém tinha permissão para lhe aceder, barrando aqueles que trabalhavam no museu em Greenwich - e, na época, o único homem de confiança para manter o H4 a funcionar era Jonathan Betts, curador emérito do Observatório Real, em Greenwich. Este seria o projeto final de Pratt. Começou em 1997, mas teria que entregá-lo à equipa de Frodsham para terminá-lo. "Foi uma entrega difícil", diz Roger Stevenson, um relojoeiro agora semi-aposentado em Frodsham, que, junto com Philip Whyte, viajou para a Suíça e ficou com Derek por uma semana para iniciar a transição do projeto. “Ele tinha dedicado tanto tempo e esforço neste projecto e deve ter percebido gradualmente que não seria capaz de o terminar.” A visita de Stevenson e Whyte não foi o primeiro contacto que Frodsham teve com este projecto. De acordo com Stevenson, Whyte colocou Pratt em contacto com os vários artesãos que o ajudaram com as partes especializadas deste projeto. Martin Matthews fez a caixa de prata; Charles Scarr completou o intrincado trabalho de gravação; e Jos Houbraken trabalhou no mostrador delicado Algo que impressionou foi que esta era a definição de um esforço de equipa. No entanto, Treffry apontou que todos esses artesãos externos ainda tinham que viver de acordo com as altas expectativas de Pratt. “Acho que ele passou por três fabricantes de construção de mostrador antes de encontrar Houbraken”, referiu. Pratt era muito perfeccionista. No seu do BHI livro dedicado a Pratt, Whyte detalha como não foi apenas o fabricante de mostradores que viu várias iterações - Pratt também passou por vários caixistas e gravadores para garantir que todos os detalhes de seu H4 ficassem perfeitos. A caixa do H4 e o movimento concluído em 2014 Frodsham assumiu oficialmente o controlo do projecto em 2009, pouco antes de Pratt perder a vida por câncro da próstata. Conseguiram concluir o projeto a tempo para uma exposição itinerante chamada Navios, Relógios e Estrelas no Museu Marítimo Nacional em Greenwich em março de 2014. “Nós ingenuamente pensámos que só teríamos que reservar um dia por semana para trabalhar no H4”, diz Stevenson. Esse dia transformou-se em quase todas as horas de vigília à medida que o prazo se aproximava. LEGADO DE PRATT É seguro dizer que Derek Pratt foi um dos relojoeiros mais importantes e talentosos do século XX. O seu trabalho abrange a ampla gama de relojoaria, e suas habilidades e interesses eram tão variados que ele foi claramente capaz de fazer a mão para quase qualquer desafio mecânico. No entanto, para aqueles que o conheciam, isso sempre foi secundário à sua espécie e à sua natureza. "Fosse quem fosse, Derek sempre teve tempo para se sentar e compartilhar alguns conselhos", diz Stenning ao lembrar-se das muitas vezes em que Pratt parava na oficina de Frodsham antes de ir ao pub para uma 'tarde e uma cerveja' obrigatória. Pratt foi premiado com a Medalha de Ouro Tompion da Worshipful Company of Clockmakers por excelência em relojoaria em 2005 Embora ele nunca tenha aceite um aprendiz - de acordo com Treffry, isso foi em parte devido aos seus padrões incrivelmente altos e ao facto de só ter trabalhado com esboços - Pratt estava claramente muito interessado em transmitir o seu conhecimento sempre que podia. Convidava regularmente os alunos da WOSTEP para visitar sua oficina em casa, nas tardes de sábado, quando, além de adquirir conhecimento de alta qualidade, eles seriam tratados com um chá da tarde substancial criado pela segunda esposa de Pratt, Jenny. Ele recebeu vários prémios pela sua capacidade em relojoaria, desde as medalhas de Prata e Ouro, a segunda e primeira maior honra que pode ser concedida pelo BHI, até o Prémio Gaïa. Também foi um raro destinatário da medalha Tompion da Worshipful Company of Clockmakers. Muitas das maiores inovações de Pratt nunca chegaram ao espaço comercial como o co-axial. Em parte, isso foi porque Pratt nunca seguiu esse caminho, mas também o seu alto nível de complexidade tornou-os difíceis de produzir em escala e quase impossível de escalar para um relógio de pulso. Tudo isto muitas vezes torna o seu legado difícil de ressoar junto de muitos colecionadores e entusiastas hoje em dia. Pratt era uma raça rara na relojoaria: um relojoeiro hipertalentoso que aparentemente se aproximou de todas as disciplinas da profissão no mais alto nível. Como Stenning diz, “Ele foi o relojoeiro concretizado”. Este texto foi baseado no artigo Derek Pratt: the forgotten watchmaker e no livro Derek Pratt: Watchmaker do BHI.

  • Gerald Charles Maestro GC3.0-TN Chronograph: Surpreendente sobre o pulso

    Maestro GC3.0-TN Chronograph @ Gerald Charles O Maestro GC3.0-TN Chronograph da Gerald Charles é um daqueles relógios que permite repetir aquele chavão quase desgastado de que se trata de um modelo desportivo, elegante e que pode ser usado em qualquer ocasião. A caixa do relógio é feita de titânio de Grau 5, um material altamente resistente e muito mais difícil de manipular em formas complexas do que o aço. A caixa e os botões tiveram de ser polidos e espelhados de maneira a captar e reter a elegância que atribuímos acima ao Maestro. Maestro GC3.0-TN Chronograph @ Gerald Charles O GC3.0-TN Chronograph pesa menos de metade do que o seu congénere em aço. No interior encontra-se o calibre cronógrafo automático GCA3022/12 Manufacture, desenvolvido em parceria entre a Gerald Charles e os especialistas em movimentos mecânicos suíços da Vaucher Fleurier Manufacture. Este calibre cronómetro, acabado à mão, cumpre os critérios técnicos e estéticos notoriamente exigentes pelo selo Qualité Fleurier para precisão, durabilidade e resistência. O movimento é visível através do fundo da caixa em vidro de safira. No pulso, o modelo surpreende de uma forma que as imagens não fazem justiça. Verso do Maestro GC3.0-TN Chronograph @ Gerald Charles Especificações técnicas - Maestro GC3.0-TN Chronograph Referência GC3.0-TN-01 Movimento: GCA3022/12 Manufacture, calibre de cronógrafo automático, com contadores às 3, 6 e 9, reserva de marcha de 50 horas, 28,800 alt/h, sistema de paragem de segundos, 351 componentes, 46 rubis, espessura de 6.07mm Tamanho da caixa: 39 mm x 41.7 mm Espessura da caixa: 11.5 mm Material da caixa: Titânio de Grau 5 Acabamento da caixa: Polido Coroa: Coroa aparafusada, Titânio de Grau 5 com acabamento ‘Clous de Paris’ e logótipo em relevo Mostrador: Azul ‘Royal’, contadores às 3, 6 e 9; ponteiros e índices aplicados preenchidos com Super-LumiNova® Vidro: Vidro de safira, com tratamento antirreflexo de múltiplas camadas, interno e externo, incolor Fundo da caixa: Vidro de safira transparente Contadores: Contador de 60s às 3h, 30 minutos às 9h, 12h às 6h Bracelete: Bracelete de borracha vulcanizada azul ‘Royal’ Fivela: Fivela em titânio de Grau 5 Resistência à água: 10 atm/100 m Garantia: Cinco anos (após registo no sistema 'Smart Warranty') PVPr: 23.740 € Para mais informação sobre a Gerald Charles, aceda ao sitio da Maison aqui.

  • Phillips totaliza $ 26,4 milhões no "The New York Watch Auction: EIGHT"

    Roger Smith Nº 2 @ Phillips Durante o passado final de semana o “The New York Watch Auction: EIGHT” da Phillips arrecadou US$ 26,4 milhões, vendendo 100% por lote e 100% por valor. A liderar a venda esteve o relógio de bolso número dois de Roger Smith, que foi alvo de animados lances na sala e ao telefone acabando por ser vendido por US$ 4,9 milhões a um colecionador ao telefone com Paul Boutros, o chefe para a relojoaria da Phillips nas Américas. Roger Smith Nº 2 @ Phillips Ao longo de mais de cinco anos, Smith trabalhou para criar um relógio construído à mão e que viria a obter a aprovação de George Daniels, garantindo-lhe um estágio no lendário atelier de Daniels na Ilha de Man. Com o relógio de bolso número um rejeitado por Daniels, foi a perfeição deste relógio - o relógio de bolso número dois - que levou Daniels a dizer a Smith: "Agora és um relojoeiro". O preço alcançado estabelece um novo recorde para qualquer relógio britânico e é o quarto preço mais alto já alcançado por um relógio de bolso em leilão. Segundo Roger Smith: “O leilão foi magistralmente organizado pela Phillips e o preço alcançado pelo relógio está além de todas as expectativas. É realmente um momento profundo para mim. O Pocket Watch No. 2 é o relógio mais importante que fiz. Isso certamente representa um marco importante em minha própria jornada relojoeira, mas também espero que seja uma declaração significativa para a relojoaria britânica também”. Patek Philippe Ref. 2481 "Pristine Forest" @ Phillips A Patek Philippe teve um desempenho particularmente bom, liderado pela Ref. 2481 “Pristine Forest”, que rendeu $ 1,1 milhão, um novo recorde para a referência. A venda deste relógio marca a primeira vez que o mesmo é vendido em quase 70 anos, tendo permanecido na posse da mesma família desde 1954. Para além do relógio de bolso número dois de Roger Smith, os relógios de bolso complicados da Patek Philippe e da Audemars Piguet tiveram um desempenho excepcional, com um relógio de bolso Audemars Piguet Grande Complication em platina, concluído em 2011, a alcançar um recorde mundial de $ 635.000 para a referência, mais de dez vezes a sua estimativa baixa. A Zenith foi outra marca que obteve bons resultados. O tropical A384 El Primero ultrapassou a sua estimativa de US$ 6.000-12.000 para uns notáveis US$ 50.800, estabelecendo um novo recorde para um modelo El Primero vintage. F.P.Journe Ressonance @ Phillips A relojoaria independente continua a inspirar, com modelos de F.P.Journe, Philippe Dufour, Halter Barnes, De Bethune e Daniel Roth a obter excelentes resultados. Ambos os modelos de Daniel Roth alcançaram totais que eram mais de três vezes a sua estimativa baixa e o Halter Barnes Perpetual Antiqua alcançou $ 393.700 contra a sua estimativa de $ 120.000-240.000, estabelecendo um novo recorde para qualquer relógio deste relojoeiro. Halter Barnes Antiqua Perpetual @ Phillips Para mais informações sobre a Phillips clique aqui.

  • Uma História da Publicidade Relojoeira

    Quem se dê ao trabalho de estudar a relojoaria do século XX tem à sua disposição um recurso inestimável: os arquivos acumulados ao longo de décadas por publicações especializadas. São estes repositórios de informação que permitem observar a história tal como ela aconteceu, quase como se tratasse de uma viagem no tempo. Veja-se a Europa Star, por exemplo. Ao longo de décadas, as várias edições internacionais desta revista deram-nos artigos sobre fabricantes, notícias, tecnologia, feiras e técnicas de vendas – sem falar nas milhares de páginas de publicidade. Estes anúncios capturaram o espírito da sua época de uma forma dificil de descrever de outra forma. O trabalho que a Europa Star agora apresenta resulta precisamente desse vasto arquivo acumulado pela publicação e que através do autor Marco Strazzi abrange um século, de 1900 a 2000, e dividido em décadas. O IPR recomenda este trabalho que está disponível no sitio da publicação, e que pode ser acedido clicando na imagem abaixo. @ Europa Star Marco Strazzi é autor de uma obra em dois volumes sobre a publicidade de relógios do século XX. Publicada pela Pressision SA, Watch Ads 1900-1959 e Watch Ads 1960-2000 são trabalhos bilíngues inglês-italiano e podem ser adquiridas online em 10e10.ch. Para mais informações sobre a Europa Star, clique aqui.

  • Novo Rolex Daytona: 100º aniversário das 24 Horas de Le Mans

    A Rolex anunciou ontem uma versão especial do moderno Daytona em homenagem ao centésimo aniversário das 24 Horas de Le Mans, uma corrida anual de resistência automóvel que decorre actualmente em França. Este novo modelo em ouro branco, que se baseia nas referências actualizadas lançadas este ano na Watches & Wonders, comemora a lendária corrida com um mostrador em panda invertido, uma escala taquimétrica especial em cerâmica preta com a indicação "100" a vermelho e um mecanismo adaptado à famosa corrida de resistência diurna. Tal como a geração actual, este novo Le Mans Daytona, referência 126529LN, mede 40 mm de largura e vem com uma bracelete Oyster. O que distingue este modelo, talvez ainda mais do que o ouro branco e o destaque vermelho na luneta, é o facto de a Rolex ter dado a este Daytona um novo movimento, ou pelo menos, uma versão especial do já novo 4131. CALIBRE 4131 e CALIBRE 4132 Quando os novos Daytonas foram lançados em Março, fizeram-no com o novíssimo movimento 4131, mas este novo Daytona ostenta uma nova expressão do movimento, denominada calibre 4132. A diferença? Bem, a contagem máxima do cronógrafo para o 4131 é de apenas 12 horas, o que não se adequa muito bem a uma corrida de resistência de 24 horas. O 4132 aumenta essa medida para 24 horas, adequadas a Le Mans. REFERÊNCIA VINTAGE O outro elemento importante aqui é a aplicação ao estilo de Paul Newman de um mostrador panda invertido. Isto significa um mostrador preto com submostradores brancos que parece uma referência directa ao Daytona 6263 vintage. A Rolex até refere este facto no seu marketing para o novo modelo: "O design gráfico do mostrador é inspirado num mostrador Rolex do passado." 100 ANOS DE LE MANS E PAUL NEWMAN Trata-se de uma bela homenagem aos 100 anos da corrida de Le Mans em ouro branco, com uma disposição do mostrador derivada do PND, luneta especial e uma nova iteração do seu movimento de cronógrafo que está directamente ligada às 24 Horas de Le Mans. Não esqueçamos que Paul Newman não era apenas um fã do Daytona; era também um ávido corredor de resistência e correu nas 24 Horas de Le Mans de 1979 (onde competiu com a equipa Dick Barbour, tendo ficado em 1º lugar na classe e em 2º na geral). Esta é uma versão muito interessante do Daytona moderno, que não só é uma homenagem à história de Le Mans, como também à história da Rolex neste espaço e ao contexto cultural em que o Daytona existe enquanto cronógrafo moderno de desportos motorizados. O novo 126529LN tem um preço de 42407€ antes de impostos. Ficha Técnica Marca: Rolex Modelo: Daytona Cosmograph Número de referência: 126529LN Diâmetro: 40mm Material da caixa: Ouro branco de 18k Cor do mostrador: Preto com submostradores brancos Indexes: Aplicados, luminosos Resistência à água: 100 metros Bracelete: Pulseira Oyster, ouro branco MOVIMENTO Calibre: Rolex 4132 Funções: Horas, minutos, sub-segundos, cronógrafo de 24 horas Reserva de marcha: 72 horas Corda: Automática Frequência: 28.800 vph Rubis: 47 Certificado de Cronómetro: Cronómetro Superlativo Rolex Detalhes adicionais: Mola de espiral Parachrom azul paramagnética, amortecedores Paraflex de alto desempenho. Mais informações: ROLEX

  • Um Omega Frankenstein 3,2M€ depois e o princípio do Observador de Heisenberg

    Um Omega Speedmaster vintage vendido por valor record em leilão é actualmente objecto de uma investigação sobre alegadas actividades criminosas, por parte de três antigos funcionários da Omega. O relógio, um Omega Speedmaster tropical ref. 2915-1 "Broad Arrow", fez originalmente manchetes quando foi vendido por um recorde de 3.2 milhões de euros na Phillips em Novembro de 2021. As notícias começaram em Abril, quando José Pereztroika (Perezcope) publicou as suas descobertas relacionadas com o Speedmaster tropical. Mas a 1 de Junho, um relatório do jornal de Zurique Neue Zürcher Zeitung (NZZ) detalhou uma série de eventos criminosos que resultaram no aparecimento em leilão de um relógio "Frankstein", feito de peças díspares de vários Speedmasters antigos. A Omega afirmou que o relógio foi objecto de um esforço criminoso organizado por um grupo de conspiradores, incluindo três antigos funcionários, entre os quais o antigo director do Museu Omega e do Património da Marca. Em declarações separadas, tanto a Phillips como a Omega afirmaram que foram vítimas conjuntas de actividades criminosas organizadas. De seguida apresentamos a declaração oficial da Omega, traduzida para português pelo IPR. DECLARAÇÃO DA OMEGA A OMEGA e a Phillips foram vítimas conjuntas de uma actividade criminosa organizada que envolveu a venda deste relógio específico em leilão. No leilão, organizado pela Phillips, o Director do Museu OMEGA e do Património da Marca trabalhou em conjunto com intermediários para comprar o relógio para o Museu OMEGA, argumentando que se tratava de um relógio raro e excepcional que seria absolutamente indispensável para as colecções de exposição da OMEGA e que, por isso, deveria ser comprado neste leilão a todo o custo. De facto, o relógio é uma montagem de componentes OMEGA maioritariamente autênticos, vulgarmente designada por relógio "Frankenstein". Este relógio é actualmente uma peça-chave na investigação em curso que deve também trazer à luz o vendedor do relógio. O seu falso legado permitiu aos especuladores justificar uma oferta altamente inflacionada feita através dos intermediários, o que permitiu aos envolvidos recolher e distribuir os lucros gerados pela venda. Actualmente, há três ex-funcionários (entre os quais o ex-Chefe do Museu e Património da Marca OMEGA) que admitiram os acontecimentos quando confrontados durante uma investigação interna da OMEGA, que está activa e em curso. A OMEGA está a apresentar acusações formais contra todos os envolvidos. CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS Para compreender melhor os acontecimentos apresentamos as principais notícias lançadas sobre o assunto. 9 de Abril - Perezcope «Em Novembro de 2021, um antigo Omega Speedmaster Ref. 2915-1 'Broad Arrow', com um deslumbrante mostrador tropical, tornou-se supersónico num leilão da Phillips em Genebra, atingindo uma força G de distorção facial de CHF 3.115.500, incluindo o prémio do comprador. Um recorde absoluto para um Omega. O Speedmaster anterior, que tinha batido o recorde, tinha "apenas" alcançado CHF 408 500. Tal como acontece com muitos dos lotes multimilionários arrematados pelo leiloeiro de topo Aurel Bacs, o relógio é uma montagem, um relógio Frankenstein que não saiu assim da fábrica da Omega. Pouco depois do leilão, o pára-quedas de ruptura foi rapidamente accionado depois de surgirem fotografias do relógio nos círculos Omega, mostrando-o com lume esverdeado, ponteiros diferentes, luneta diferente e um movimento muito posterior. As pessoas conhecedoras ficaram assustadas, pois corriam rumores de que os indivíduos envolvidos eram supostamente membros de um clã cigano potencialmente violento. Um caso ideal para o Perezcope, diria eu. (...) Embora pareça que o sistema criminal procurará fazer justiça a este conjunto de actores, talvez esta série de acontecimentos chame a atenção para as vulnerabilidades das actuais estruturas e instituições em vigor e talvez traga alguma transparência necessária ao mundo dos relógios antigos e dos leilões de relógios.» 1 de Junho - Neue Zürcher Zeitung A 1 de Junho, um relatório do jornal de Zurique Neue Zürcher Zeitung (NZZ) detalhou uma série de eventos criminosos que resultaram no aparecimento em leilão de um relógio "Frankstein" feito de peças díspares de vários Speedmasters antigos. A Omega afirmou que o relógio foi objecto de um esforço criminoso organizado por um grupo de conspiradores, incluindo três antigos funcionários, entre os quais o antigo director do Museu Omega e do Património da Marca. Em declarações separadas, tanto a Phillips como a Omega afirmaram que foram vítimas conjuntas de actividades criminosas organizadas. 7 de Junho - Bloomberg «O fabricante suíço de relógios Omega alegou que três antigos empregados estavam envolvidos numa conspiração criminosa que resultou na venda de um Speedmaster falso em leilão por mais de 3 milhões de dólares.» 8 de Junho - Fratello Watches «Já deve ter visto a notícia sobre o Frankenstein Speedmaster CK2915 que foi arrematado por 3,3 milhões de dólares americanos. Era, supostamente, um Omega Speedmaster de primeira geração, totalmente autêntico, em condições impecáveis, com um mostrador tropical. Foi o valor mais elevado de sempre, pois era o destino da Omega tê-lo para o museu da marca em Biel, na Suíça. Ou assim parecia...» 8 de Junho - SJX «No início desta semana, os principais jornais suíço-alemães Neue Zürcher Zeitung (NZZ) publicaram um longo artigo sobre a possível fraude por detrás da venda recorde de um Omega Speedmaster ref. 2915-1 na Phillips em 2021. Misterioso na altura, o resultado de 3,12 milhões de francos suíços foi um número enorme que excedeu em muito os recordes anteriores para esse Speedmaster em particular. Como o NZZ revelou na sua história, o Speedmaster em questão era um relógio "Franken" montado a partir de componentes vintage variados - e algumas peças falsas - e foi comprado pela própria Omega, a conselho do seu então director do museu. As alegações são de que o então director do museu estava em conluio com o vendedor do relógio. A Omega recorreu à polícia e também divulgou um comunicado, referindo, em parte, que "a Omega e a Phillips foram vítimas conjuntas de uma actividade criminosa organizada que envolveu a venda deste relógio específico em leilão".» 9 de Junho - Hodinkee (retalhista da Omega) «(...) A explicação simples para as alegadas acções dos envolvidos é que demasiado dinheiro e poder foram colocados nas mãos de muito poucos indivíduos, sem qualquer supervisão real ou obrigação de transparência. Resta saber se houve outras circunstâncias em jogo, mas seja qual for o caso, estes alegados maus actores foram capazes de explorar esta situação em seu próprio benefício. Embora pareça que o sistema criminal procurará fazer justiça a este conjunto de actores, talvez esta série de acontecimentos chame a atenção para as vulnerabilidades das actuais estruturas e instituições em vigor e talvez traga alguma transparência necessária ao mundo dos relógios antigos e dos leilões de relógios.» DESCRIÇÃO DO LOTE 53 DA PHILLIPS Apresentamos aqui a descrição original do lote 53 da Philipps: Omega Speedmaster tropical ref. 2915-1 "Broad Arrow". Omega Ref. 2915-1 An early and important stainless steel chronograph wristwatch with Broad Arrow hands and chocolate brown "tropical" dial 1957 38mm Diameter Case, dial, movement and buckle signed Estimate CHF80,000 - 120,000 €74,800-112,000 $87,100-131,000 SOLD FOR CHF3,115,500 A NOSSA OBSERVAÇÃO DOS ACONTECIMENTOS Com o aumento constante dos valores dos relógios antigos em leilão, este torna-se um mundo cada vez mais tentador para golpes e burlas. Neste cenário mais agressivo do que nunca, as marcas, e os seus representantes, são obrigados a melhorar a sua comunicação, que deve ser transparente eficaz, e claro, sempre com o melhor timming possível. Com a acção contundente de Perezcope sobre a autenticidade dos relógios leiloados, as casas de leilões enfrentam uma ameaça enorme à sua credibilidade. Esta ameaça pode resultar numa redução drástica do volume de negócios ou, na verdade, numa exposição mediática desvantajosa a curto prazo mas muito vantajosa a longo prazo. Após a enorme exposição deste caso, muito provavelmente os clientes das casas de leilões vão passar a sentir mais insegurança o que os pode refrear de participar em futuros leilões. No entanto, a concentração das atenções na actividade destas casas leiloeiras pode trazer-lhes a exposição necessária a um aumento de clientes. Estes são dois possíveis futuros para uma situação difícil de prever. Todos temos a ideia clara que a mera observação de um acontecimento não o altera. Pois bem, os físicos, e provavelmente Perezcope, discordam. O SURPREENDENTE PRINCÍPIO DO OBSERVADOR DE HEISENBERG O princípio do observador de Heisenberg é uma teoria da física quântica que afirma que a simples observação de uma partícula subatómica pode afectar sua posição e velocidade, tornando impossível medir ambas as propriedades com precisão ao mesmo tempo. Por outras palavras, quanto mais precisamente a posição de uma partícula é medida, menos precisamente sua velocidade pode ser medida e vice-versa. Este princípio é uma das bases da incerteza quântica e tem implicações profundas na compreensão da natureza da realidade física. Tal como acontece neste princípio de Heisenberg a observação de um fenómeno mediático altera-o. Perezcope merece um grande aumento de crédito por ter observado este Omega tropical, tal como pelo exaustivo trabalho que tem vindo a desenvolver na avaliação de alguns relógios leiloados, ao longo dos últimos anos. Este é um bom exemplo de quando uma observação altera um fenómeno. Os leilões de relógios têm muito para observar actualmente, todos somos observadores e todos temos a capacidade de modificar os acontecimentos, simplesmente por os observarmos. A SUA OBSERVAÇÃO Tem uma observação a fazer sobre esta notícia, deixe o seu comentário na caixa abaixo, todas as contribuições são bem-vindas.

  • H.Moser & Cie Streamliner - uma história de sucesso

    Streamliner Flyback Chronograph Automatic Funky Blue 2.0 @ H.Moser & Cie A H. Moser & Cie. apresentou um novo Streamliner Flyback Chronograph Automatic, agora numa versão 2.0. O trabalho de atualização deste cronógrafo da manufatura de Schaffhausen lançado há pouco mais de 2 anos, centrou-se em diversos detalhes que marcam a diferença neste modelo. Assim, identifica-se à primeira vista o logotipo em laca transparente sobre o mostrador Funky Blue, uma assinatura da H. Moser vista pela primeira vez no modelo Pioneer Mega Cool. Internamente, o movimento apresenta agora acabamentos mais contemporâneos, com banho de ródio cinza antracite nas pontes e na platina, tal como já tínhamos visto no calibre do Streamliner Perpetual Calendar. Streamliner Flyback Chronograph Automatic Funky Blue 2.0 @ H.Moser & Cie Em janeiro de 2020, pouco antes da pandemia, a Moser arriscou num lançamento totalmente virtual do seu Streamliner Flyback Chronograph alcançando um enorme sucesso. A forma “cushion” altamente polarizadora da caixa foi um sucesso, assim como a pulseira integrada; o movimento automático desenvolvido pela Agenhor, um dos actuais sócios da H. Moser & Cie. através da empresa-mãe, a MELB Luxe, foi um garante de qualidade indiscutível. O Streamliner acabou assim por revelar-se um verdadeiro trampolim, permitindo à H. Moser acelerar significativamente o desenvolvimento da marca. Inicialmente lançado como uma edição limitada de 100 peças, o Streamliner Flyback Chronograph Automatic esgotou em apenas alguns dias. Nesse mesmo ano, a H. Moser lançou um modelo de três ponteiros, seguido de uma segunda referência para o seu cronógrafo com mostrador Funky Blue fumé. Em 2021, a marca lançava o seu famoso calendário perpétuo na caixa Streamliner, seguido, em 2022, pelo turbilhão voador com dupla espiral Straumann. Streamliner Flyback Chronograph Automatic Funky Blue 2.0 @ H.Moser & Cie Ao combinar códigos minimalistas com a elegância contemporânea que é a pedra angular da reputação da H. Moser, o design da marca orientou-se de forma natural para a pulseira de aço integrada. Segundo Edouard Meylan, CEO da H. Moser & Cie.: "O Streamliner estabelece um ponto de ligação entre a nossa história, com quase 200 anos, e um futuro bastante promissor. Desde que adquirimos a marca em 2012, aumentamos a produção anual cinco vezes e a facturação oito vezes. A nossa rentabilidade como um grupo ultrapassa em muito a da empresa média suíça no ramo da relojoaria. A coleção Streamliner foi um impulso formidável, mas queremos manter o equilíbrio entre as nossas quatro linhas, cada uma com a sua personalidade e características próprias”. O modelo Streamliner Flyback Chronograph Automatic Funky Blue 2.0 é assim uma evolução dos dois primeiros cronógrafos lançados pela H. Moser & Cie. O 2.0 possui as mesmas qualidades, com alguns elementos-chave do ADN da marca atualizados. Streamliner Flyback Chronograph Automatic Funky Blue 2.0 @ H.Moser & Cie ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS - STREAMLINER FLYBACK CRONÓGRAFO AUTOMÁTICO FUNKY BLUE 2.0 Referência 6907-1200, modelo em aço, mostrador Funky Blue fumé, bracelete em aço integrada Caixa Aço com cristal de safira ligeiramente abaulado Diâmetro: 42,3 mm Altura: 14,2 mm Botões do cronógrafo às 10 e 2 horas Coroa de rosca às 4 horas decorada com um “M” gravado Fundo transparente Resistência dinâmica à água até 12 ATM (permitindo que o cronógrafo e a função flyback sejam usados debaixo de água) Pulseira Pulseira de aço integrada Fecho de báscula com três lâminas de aço, gravado com o logotipo Moser Meios elos disponíveis Mostrador Funky Blue fumé com padrão sunburst Ponteiros de horas e minutos com inserções Globolight® Escala de minutos para os segundos e minutos decorridos Taquímetro na flange Movimento Calibre HMC 907 desenvolvido com a AGENHOR para a H. Moser & Cie., movimento de corda automática Diâmetro: 34,4 mm ou 15 1/4 linhas Altura: 7,3 mm Frequência: 21.600 alternâncias/hora Carga bidirecional Massa oscilante em tungstênio, posicionada entre o movimento e o mostrador Duplo tambor de corda Cronógrafo de roda de coluna Mecanismo de cronógrafo de dois estágios Embreagem horizontal com roda de fricção; roda lisa equipada com microdentes para evitar problemas quando os dentes se entrelaçam e reduzir solavancos indesejados ao iniciar o cronógrafo 434 componentes 55 joias Reserva de marcha: mínimo de 72 horas Pontes e platina com banho de ródio cinza antracite; Listras Moser em ângulo de 45° Funções Horas e minutos Cronógrafo com mostrador central e indicação dos minutos e segundos decorridos Flyback nos minutos e segundos Automático Para mais informações sobre a H.Moser & Cie., clique aqui.

  • Breguet no. 1950 - A magnificência do mercado otomano

    A Sotheby's apresentou no passado dia 14 de Maio no Mandarin Oriental de Genebra, uma impressionante coleção de relógios de bolso raros reunidos ao longo de 45 anos, incluindo uma variedade de peças que vão dos séculos XVI a XX. Composta por quase 100 relógios de excepcional interesse, feitos originalmente para diferentes mercados, da China ao Império Otomano, a coleção foi liderada por um raro relógio Breguet que se acredita ter sido feito para o sultão do Império Otomano. Um relógio fascinante e notável, o Breguet no. 1950 é um dos relógios mais importantes alguma vez produzidos para o mercado otomano e acabou por ser adquirido por 1.016.000 chf. Fazendo recurso de um ébauche de terceira série, o relógio possui um movimento extraordinariamente compacto, mas também complexo; entre eles, os trens de batida e repetição controlam um total de cinco martelos e cinco gongos. A decoração da caixa foi executada exclusivamente para o mercado otomano e contrasta de forma dramática com outros relógios Breguet produzidos para os mercados europeu e russo. Breguet no. 1950 vendido em 1808 @Sothebys Conforme observado por Emmanuel Breguet no seu livro “Breguet, relojoeiros desde 1775”, o autor escreve: “a única liberdade real a que Breguet se permitia na decoração dos seus relógios dizia respeito àqueles que se enquadravam em duas categorias altamente específicas: relógios de tacto decorados com esmalte …e relógios turcos esmaltados” (ver ibid 2ª Edição, p. 373). Criada por um dos fabricantes de caixas mais ilustres da Breguet, Tavernier, a caixa é feita num estilo 'par', mas o mais fora do comum é a sua forma 'cabriolet'. Numa caixa cabriolet, para além de o relógio poder ser apresentado num formato aberto, ou com mostrador à vista, a caixa interna pode ainda ser invertida dentro da sua caixa externa de maneira a apresentar o fundo suntuosamente decorado da caixa interna. Tal é o nível de acabamento excepcional apresentado que, quando invertido dentro da sua caixa externa, a parte de trás da caixa interna encaixa-se de forma tão perfeita na luneta, que os dois elementos aparentam ser um só. Os otomanos usavam os seus relógios no exterior das suas roupas, o que significava que os seus elementos decorativos tinham uma importância ainda maior – de facto, o uso de caixas externas tinha a dupla função de permitir um nível adicional de proteção a estes relógios tão expostos. Breguet no. 1950 @Sothebys O comércio com o Império Otomano tornou-se cada vez mais importante para Breguet durante a primeira década do século 19, quando as guerras napoleónicas interromperam o comércio com três dos seus mercados mais importantes - primeiro a Grã-Bretanha (na sequência do Sistema Continental de Napoleão), seguido pela Espanha em 1808 e a Rússia em 1810. O principal canal de Breguet para as encomendas provenientes de importantes clientes otomanos era através do embaixador otomano em França, Esseid Ali Effendi, conhecido como Galib Effendi. Ali Effendi chegou a Paris em 1797 e foi apresentado à alta sociedade pelo diplomata francês Charles Maurice de Talleyrand-Périgord. Tendo sido devidamente apresentado a Breguet, as primeiras encomendas de Effendi foram um relógio de batidas com repetição de minutos e um relógio de caixa alta (ibid p. 246). Ali Effendi e Breguet acabaram por se tornar amigos e, após o regresso do primeiro à Turquia em 1802, continuaram a corresponder-se de forma regular. Effendi veio a ocupar cargos importantes na corte otomana, chegando mesmo ao cargo de Ministro da Marinha. Breguet no. 1950 @Sothebys Effendi foi claramente uma grande ajuda para Breguet, não só apresentando o relojoeiro a clientes importantes, mas também aconselhando-o sobre o estilo de peças e o tipo de decoração preferido pelos clientes Turcos - especialmente a sua preferência por mostradores de esmalte branco com algarismos turcos e caixas ornamentadas decoradas com esmaltes, principalmente em vermelho. Foi também por intermédio de Effendi que Breguet foi apresentado a um relojoeiro local, Stephanaki, por meio de quem Breguet viria a conduzir muitos negócios (ibid, p. 246). Effendi encomendou dez relógios de repetição e, em 1804, solicitou especificamente a Breguet um relógio de repetição da melhor qualidade para o próprio imperador otomano, Selim III; o imperador ficou claramente satisfeito com o relógio, uma vez que, no ano seguinte, solicitou um segundo relógio idêntico (ibid. pp. 248-249). Os arquivos de Breguet indicam que a construção deste relógio começou em 1806 e terminou em 1807. Um anterior proprietário do presente relógio afirmou que, segundo a tradição familiar, este teria sido oferecido ao seu antepassado pelo sultão Abdulaziz (reinado de 1861-1876), filho de Mahmud II (reinado 1808-1839). Certamente, a decoração opulenta da caixa, assim como a excepcional qualidade do movimento estariam à altura sultão otomano. Tendo iniciado o seu reinado em 1789, Selim III seria deposto e preso em 1807 o que torna plausível o relógio ter sido de facto encomendado pelo sultão, e que, após ter sido entregue a Effendi a 6 de maio de 1808, o mesmo tenha sido oferecido ao seu sucessor , Mahmud II. Breguet no. 1950 @Sothebys Um relógio semelhante, mas menos complicado, com repetição de quartos em vez de repetição de minutos, foi mais tarde vendido a Ali Effendi, no mesmo ano do actual relógio (nº 2090 vendido a 16 de setembro de 1808 por 3.360 francos). Este último relógio tinha também caixa de par 'cabriolet', mas apresentava um bordo liso na luneta da caixa externa, em vez da luneta recortada e mais elaborada do presente modelo. Curiosamente, o interior da caixa externa do nº. 2090 apresenta a gravação “Hadji Assim Effendi”, sugerindo possivelmente que o relógio estaria à guarda do próprio Effendi, ou em alternativa, que servisse servir como forma de recordar a generosidade de Ali Effendi para com o seu destinatário. O Breguet no. 2090 encontra-se ilustrado na obra de Emmanuel Breguet, Breguet, Watchmakers Since 1775, 2nd Edition, p.249 e de George Daniels, The Art of Breguet, 1975, p. 207, fl. 201 d.C. Breguet no. 1950 @Sothebys Curiosamente, os franceses viriam a oferecer a Mahmud II um Sympathique de execução especial, o no. 758, e cujo o custo de 35.000 francos, representou uma quantia extraordinária para a época. Mahmud ficou encantado com a oferta, que lhe foi apresentada em 1813, tendo posteriormente convocado Leroy (Leroy era o agente de Breguet em Constantinopla desde 1811), presenteando-o e colocando-o na chefia da manutenção dos relógios do palácio de Topkapi. Breguet no. 1950 @Sothebys Descrição Abraham-Louis Breguet Um importante relógio cabriolet em ouro e esmalte com grande e pequena sonnerie, repetição independente de minutos e cinco martelos para cinco gongos, feito para o mercado otomano. Vendido a 6 de maio de 1808 a Sua Excelência o Embaixador Otomano Galib Effendi, no. 1950 Mecanismo: platina completa acetinada e dourada de 17''' com base em ébauche de terceira série, escape de cilindro de rubi, dois tambores para corda e batidas, três trens de engrenagens, balanço simples de três braços, suspensão de “pára-quedas”, mola espiral, mecanismo de relógio parcialmente visível à platina traseira, cinco martelos em aço polido e cinco gongos em aço azulado, assinado e numerado Breguet, no. 1950 Mostrador: em esmalte branco, algarismos turcos, anel externo dos minutos, ponteiros Breguet em aço azulado, assinado Breguet et Fils às 6, assinatura secreta às 12 assinado e numerado Breguet, no. 1950 Caixas: Caixa interna - ouro, verso centrado com esmalte vermelho translúcido sobre guilloché sunburst, realçado por paillons em forma de folhas de palmeira, roseta ao centro, bisel dianteiro e traseiro decorados com cachos de uvas e paillons em folha de parreira, Repetição acionada por 1/4 de volta do pistão, bisel interno assinado e numerado Breguet No. 1950 no verso com marcas de controle francesas para 1798-1809, marca do fabricante da caixa PBT dentro de uma cartela em forma de losango para Pierre-Benjamin Tavernier, carimbado B para Breguet e numerado 1950/2563, cuvete de ouro articulada, aberturas para corda do movimentos e batidas, aberturas adicionais no bordo para selecionar grande/petite sonnerie e strike/silence, assinado Breguet, no. 1950 • caixa exterior - ouro, fundo cem esmalte vermelho translúcido sobre guilloché sunburst, realçado por paillons segmentados e centrado por estrela turca e motivo de lua crescente, lunetas com esmalte champlevé azul opaco e turquesa intercalado por esmalte flinqué vermelho e festões dourados, verso interno com marcas de controle francesas para 1798-1809, marca do fabricante de caixas PBT dentro de uma cartela em forma de losango para Pierre-Benjamin Tavernier, carimbado B para Breguet e numerado 1950 Corrente: acompanho por corrente Breguet de dois elos dourados e chave de catraca. Diâmetro da caixa externa 64mm, caixa interna 52mm Certificado original do Breguet no. 1950 de 1808 @Sothebys Para mais informações visite o sitio da Sothebys aqui.

  • A Nivada Grenchen reedita o Antarctic-Diver, e um livro que conta a sua história

    O novo Nivada Grenchen Antarctic Diver @ Nivada Grenchen A história é profunda e ocupa-nos ambas as mãos. Numa, o fiel sucessor de um Original, o Antarctic-Diver; e na outra, um livro que conta a história por detrás deste relógio histórico. Lançado noi final da década de 1950 pela Nivada Grenchen, o modelo destacou-se à sua maneira, à medida que a onda de relógios de mergulho culminava com modelos como o Rolex Submariner ou o Blancpain Fifty-Fathoms. Após a Segunda Guerra Mundial, os relógios skindiver ganharam um enorme popularidade, à medida que os desportos aquáticos e a exploração da vida submarina se tornavam numa nova actividade recreativa. Nenhuma marca que se prezasse podia nesta altura dar-se ao luxo de não contar com um relógio de mergulho na sua linha de modelos. E a Nivada Grenchen não foi um excepção, lançando diversos modelos cujo primeiro foi o Antarctic-Diver. A reedição do Antarctic-Diver Desde que pegou na marca histórica, Guillaume Laidet, o CEO da Nivada Grenchen, sabia que era essencial capturar o espírito do Antarctic-Diver, mas tinha de o fazer de uma forma moderna. Cristal? Safira de cúpula dupla. Movimento? Suíço, é claro: o SOPROD P024. A caixa? Em aço inox 316L com coroa de rosca para garantir uma resistência à imersão de até 20 ATM com 38 mm de diâmetro (acima de 36,5 mm) e 12,9 mm de espessura. O Antarctic Diver sobre o pulso @ Nivada Grenchen No que diz respeito ao design geral do relógio, o mesmo assemelha-se exatamente ao original, incluindo ponteiros e índices já com o que hoje se chama “fauxtina”, uma patina a imitar o antigo e que transmite uma imagem resolutamente vintage. O Antarctic Diver apresenta-se com um mostrador preto, de fácil leitura, proporcionando um fundo de excelente contraste com os marcadores. O aro rotativo unidirecional passou a contar com uma inserção de cerâmica preta, proporcionando um contraste mais profundo e rico, e uma maior durabilidade. A janela de data não choca e está devidamente localizada às 3 horas. Fiel ao original, o mostrador inclui a discreta 'cruz vermelha'. Antigamente, o comprador podia escolher entre várias versões (vermelho ou branco ‘cruzado’; os números 1-12 na luneta). A reedição homenageia a versão com cruzes vermelhas e o aro minimalista e não numerado. A homenagem não estaria completa sem o lendário logotipo Nivada Automatic às 12 horas e Antarctic-Diver às seis horas, ecoando fielmente a estética do modelo original. O fundo da caixa apresenta-se gravado com o emblema da coleção Antártica: o perfil de um pinguim, uma alegoria ao frio do ártico e uma referência ao nome da coleção. O Antarctic Diver em detalhe @ Nivada Grenchen O Antarctic Diver está disponível em dez variações de pulseira: - Pele castanha com ou sem costura branca - Pele preta com ou sem costura branca - Pulseira de aço ‘Forstner Bonklip’ - Pulseira de aço ‘Contas de Arroz’ - Pulseira de aço ‘Oyster’ (3 carreiras) - Pulseira de borracha ‘Tropic’ - Pulseira de aço 'Forstner/Beads of Rice' - Pulseira de aço 'Forstner Rivet' O Antarctic Diver em detalhe @ Nivada Grenchen As variantes do Antarctic Diver @ Nivada Grenchen PVPr: 900 USD / 800 CHF / 815 EUR O Antarctic Diver estará disponível exclusivamente em nivadagrenchenofficial.com. A história da colecção “Antática” em livro Ao mesmo tempo que a Nivada Grenches apresenta a reedição do Antarctic Diver, edita tambem um trabalho de referência que reconstitui meticulosamente todas as variações possíveis desta colecção. Graças à rigorosa metodologia usada pelo autor, Aashdin K. Billmoria, colecionador apaixonado pela marca desde a infância, o novo livro representa não só uma iniciação para o neófito, como também passa a ser um guia de referência para o colecionador mais experiente. "The History of a Legend" por Aashdin Billimoria @ Nivada Grenchen Seguindo o sucesso do livro “Chronomaster” publicado há alguns anos, a Nivada Grenchen lança uma coleção de vários volumes. O conceito é o de resumir em 100 páginas tudo o que existe para saber sobre a coleção Anctartic. Uma abordagem editorial que a marca pretende seguir para cada colecção e que deverá ser publicada anualmente. O livro pode ser adquirido diretamente no site da marca aqui. Preço do livro: 65 USD / 60 EUR Sobre o Autor Aashdin Billimoria é relojoeiro, arquivista, historiador e escritor a tempo inteiro há mais de trinta anos. Os seus actuais projetos incluem um livro sobre a coleção Dephtmaster, assim como um trabalho mais abrangente, o “Comprehensive Guide to Vintage Swiss Watches” (a ser publicado no outono de 2023), e no qual o autor trabalha há mais de 3 anos. Vindo de uma família de colecionadores de relógios, rendeu-se aos encantos do tema logo aos 8 anos de idade. O autor e coleccionador Aashdin Billimoria @ Nivada Grenchen Para mais informações sobre a Nivada Grenchen, clique aqui.

  • Workshop Espiral do Tempo: introdução à fotografia de relógios

    Todos conhecemos em as fases de acolhimento de um relógio novo: 1º - estudar todos os pormenores estéticos: do polimento dos marcadores no mostrador à medida dos ângulos das arestas da caixa. 2º - verificar todo o funcionamento: testamos todas as funções, quando terminamos, confirmamos se o cronocomparador tem alguns elogios por fazer. 3º - experimentar todas as correias e braceletes possíveis: esta não é uma tarefa fácil, por vezes a correia aparentemente certa simplesmente não foi feita para aquele relógio, e entre várias combinações há sempre pelo menos uma que até acaba por ficar tão boa ou melhor do que a original. 4º - fotografar como se não houvesse amanhã: começamos por encontrar a luz certa, é preciso cuidado com os reflexos no vidro, depois o fundo casual tem de ser estudado ao milímetro, trata-se de um trabalho minucioso, este é apenas um estilo. Na verdade estas fotos não implicam menos trabalho do que o jantar do filme dinamarquês de 1987: A Festa de Babette. Há também quem prefira transformar o telemóvel na "Old Painless" do filme, igualmente de 1987: O Predador. Cada um com o eu estilo. Os resultados nem sempre são os que desejamos, e por vezes umas dicas de quem passou parte da vida entre relógios e máquinas fotográficas, ajudam muito. Workshop Espiral do Tempo: introdução à fotografia de relógios A Espiral do Tempo fez da fotografia de relógios uma das suas assinaturas de excelência e para este workshop associou-se à MAD – Marvilla Art District, à Leica, e à Jaeger-LeCoultre. A descrição do workshop contempla o seguinte conteúdo: «A fotografia de relógios em estúdio, assim como a macro fotografia, é um processo desafiante com especificidades únicas, quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista estético. Diferentes materiais, diferentes acabamentos, diferentes texturas e cromatismos tornam os relógios em sujeitos fotográficos complexos que requerem uma abordagem fotográfica própria. Estas especificidades estão na base do workshop. Destinatários Este workshop destina-se a todos os apaixonados por relojoaria e fotografia que pretendam complementar os seus conhecimentos técnicos na área da fotografia e macro fotografia de relógios. Objectivo Contribuir para o conhecimento técnico e estético dos participantes para que consigam replicar e aplicar esses mesmos conhecimentos como fator de motivação para uma redescoberta dos seus próprios relógios.» Informações práticas Data: 17/06/2023 Duração: 6h30 Horário: Manhã – Das 10h às 13h30 Tarde – Das 15h às 18h00 Local: MAD, Marvilla Art District, Rua Fernando Palha 1, Lisboa Inscrições limitadas: 10 participantes Preço para assinantes da revista Espiral do Tempo*: 100 euros, através de um código de desconto a ser aplicado na inscrição. Para ter acesso ao código de desconto, deverá entrar em contacto connosco através do seguinte endereço de email: espiraldotempo@companyone.pt Preço para não assinantes da revista Espiral do Tempo: 150 euros * a assinatura da Espiral do Tempo pelo Clube IPR não contempla este desconto. INSCRIÇÕES As inscrições podem ser feitas no site da Espiral do Tempo onde também é possível consultar o programa completo e esclarecer algumas dúvidas frequentes.

  • A cor das horas, uma palestra da Horological Society of New York

    «The Colour of Hours: Race, Time and the Making of a Black Horologist in Harlem». É este o título da palestra que a Horological Society of New York apresenta hoje. A entrada é livre, é apenas necessário o registo. Basta abrir o site da HSNY aqui e clicar em RSVP (Répondez s'il vous plaît), de seguida recebe um e-mail. As portas abrem às 18h00 ET em The General Society Library 20 West 44th Street New York, NY 10036 EUA. Fica um pouco fora de mão para quem vive em Portugal mas o vídeo da conferência estará disponível para os membros da HSNY imediatamente e para o público em geral após um atraso de dois meses. A COR DAS HORAS Raça, Tempo e a Criação de um relojoeiro Negro no Harlem O tempo - tal como a raça - possui um "naturalismo" ostensivo que muitas vezes obscurece os vários factores históricos que estiveram na sua origem. A investigação do Dr. Paul Lawrie questiona se o tempo é, de facto, relativo - como algo nascido de contingências históricas específicas - então como é que diferentes povos experienciam o tempo de forma diferente? Além disso, como é que a experiência vivida do tempo cria ou reforça a desigualdade racial nas cidades? O tempo e a raça cruzam-se para informar a paisagem da América urbana moderna de várias formas: desde o recolher obrigatório e as deslocações pendulares até à gestão do tempo de trabalho e à própria cronometragem. Na palestra de Junho da Sociedade Horológica de Nova Iorque, o Dr. Paul Lawrie, Professor Associado do Departamento de História da Universidade de York, examinará a vida notável de Peter J. Huffstead - o auto-descrito "mestre relojoeiro" do Harlem - e um dos primeiros membros negros da Sociedade Horológica de Nova Iorque. A análise da carreira de Huffstead revela-nos uma visão fundamental da natureza racializada da especialização, da migração, da política de respeitabilidade e da construção da comunidade urbana na América do início do século XX. Ao considerar o tempo como um agente passado, presente e futuro do desenvolvimento urbano e da identidade racial, esta palestra apresenta novas perspectivas sobre a dinâmica espacial e temporal das relações raciais urbanas, desde a linha de montagem até às ruas da cidade. *As portas abrem às 18h00 ET (23h portuguesas), para quem assistir online, a conferência tem início às 19h00 ET (24h portuguesas). É necessário confirmar a presença aqui: inscrição. ** O vídeo da conferência estará disponível para os membros imediatamente e para o público em geral após um atraso de dois meses. Palestrante: Dr. Paul Lawrie O Dr. Paul Lawrie é Professor Associado de História na Universidade de York, em Toronto, Canadá. É historiador da cultura afro-americana moderna, com interesses específicos em urbanismo, trabalho, deficiência e tecnologia. É autor de "Forging a Laboring Race: The African American Worker in the Progressive Imagination" (NYU Press, 2016), que examinou as intersecções da ciência industrial e da gestão racial na América do início do século XX. A sua investigação actual, apoiada por uma bolsa do Comité de Investigação em Ciências Sociais e Humanas do Canadá, intitulada "The Color of Hours: Race, Time and the Making of Postwar Urban America", liga as histórias afro-americana, laboral e urbana ao campo emergente dos estudos do tempo para traçar as geografias temporais da raça na América urbana do século XX.

  • A história do relógio de caminho de ferro Tissot Ping-Han

    Relógios suíços destinados a comboios chineses: a história do caminho-de-ferro de Ping-Han é fascinante em mais do que um sentido. A sua construção, entre o final do século XIX e o início do século XX, e as vicissitudes do seu desenvolvimento, ilustram todo um capítulo da história da China moderna. Fornecedora dos serviços ferroviários do país, coube à Tissot disponibilizar um relógio com propriedades antimagnéticas específicas e típico do trabalhador ferroviário deste período. Por Dra. Estelle Niklès van Osselt, Especialista em Comunicação do Património, Tissot Texto traduzido e adaptado para português. A construção da primeira grande linha ferroviária da China, que ligava Pequim, no Norte (então capital do Império), a Hankow, no Sul (actual Wuhan), foi dirigida por engenheiros belgas e franceses. Para o efeito, a administração chinesa e o estadista Li Hongzhang (1823-1901) nomearam a empresa belga Société d'Etude de chemins de fer en Chine devido à experiência já demonstrada na Europa na construção de caminhos-de-ferro. Os trabalhos de construção decorreram entre 1898 e 1905: num período inferior a sete anos, foram construídos 1 214 km de carris, o que representou na altura um recorde. Em 1908, apenas três anos após a sua conclusão, a linha era já tão rentável que a empresa pública Imperial Chinese Railway optou imediatamente por adquirir o empréstimo associado ao empreendimento. Mapa do caminho-de-ferro entre Pequim e Guangzhou via Hankow @ Segundo “Pékin-Hankou, la Grande épopée” 1898-1905. O segundo troço do caminho-de-ferro, de Hankow a Guangzhou (Cantão, Sul da China), foi concluído entre as duas guerras mundiais. Concedido pela primeira vez a uma empresa americana (China Development Co.) em 1898, cujas acções foram adquiridas na sua quase totalidade pelo rei belga Leopoldo II (r. 1865-1909), o projecto viu-se rapidamente envolvido em questões políticas. Devido a esta interferência, as autoridades chinesas suspenderam a atribuição da concessão até à queda do Império em 1911, altura em que o novo governo escolheu um consórcio apoiado por fundos franceses, britânicos, americanos e alemães. As intermináveis rondas de negociações e as dificuldades encontradas durante a era republicana acabaram por atrasar a construção durante muitos anos, tendo a totalidade do caminho-de-ferro, de Pequim, no Norte, a Guanzhou, no Sul, sido concluída apenas em 1936. Títulos de acções dos caminhos-de-ferro chineses, 1930 @ Colecção do Museu Tissot. Durante muito tempo a China resistiu à modernização ocidental, temendo a ambição das potências estrangeiras de se envolverem cada vez mais nos seus assuntos internos e porque, confiar nelas, nunca se tinha revelado como sendo uma boa ideia. Em particular, a chegada do comboio era vista como uma grande ameaça, temendo-se que pudesse facilitar a intrusão de tropas estrangeiras, já bastante gananciosas depois das Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860). Locomotiva de tráfego misto a funcionar na linha ferroviária Canton-Hankow, colecção de cigarros Will, década de 1920 @ Colecção do Museu Tissot. Para além disso, o Cavalo de Ferro poderia perturbar a paz do Dragão: a sua construção poderia colidir com os princípios do fengshui (forças energéticas que harmonizam os indivíduos com o ambiente ao seu redor), destruir locais sagrados e provocar a ira do Céu, ao que se seguiriam catástrofes desconhecidas que se abateriam sobre o país. No entanto, cansada da insistência dos ocidentais e consciente de que necessitava desta nova tecnologia, a corte chinesa acabou por ceder permitindo a entrada do caminho-de-ferro nas últimas décadas do século XIX. Embora o comércio já estivesse bem desenvolvido em todo o país - Durante séculos uma densa rede de rios e canais tinha permitido até então a circulação de pessoas e mercadorias - os caminhos-de-ferro iriam ajudar a impulsionar os transportes, a comunicação e a economia. Infelizmente, e como previsto, a chegada do comboio acabou também por acelerar o declínio do Império Chinês, provocando a ascensão de movimentos sociopolíticos. Locomotiva a vapor de tráfego misto que circulava na linha de caminho-de-ferro Pequim-Hankow. Construída pela empresa belga St. Léonard Limited. Início do século XX @ Colecção do Museu Tissot. Juntamente com os caminhos-de-ferro, que rapidamente se transformaram numa rede bastante movimentada, surgiram outras inovações. O seu desenvolvimento era acompanhado pela introdução de novas arquitecturas metálicas para a construção de pontes, túneis e estações, assim como motores a vapor, máquinas, vagões e todo o tipo de mecânica e ferramentas associada. E uma das inovações mais importantes relacionadas com as viagens de comboio foi a medição do tempo. Os relógios tornaram-se essenciais para o estabelecimento de normas que permitissem que os comboios seguissem horários precisos e acelerassem o seu ritmo de funcionamento, evitando acidentes. Este facto foi tanto mais importante quanto, desde a sua construção em 1898, a linha Pequim-Hankow era constituída por uma única via que só foi duplicada com a fundação da República Popular em 1949. Anúncio de Cronómetro de Tissot, 1931 @ Colecção do Museu Tissot. Os relógios europeus tinham já entrado no Império Chinês muito antes da chegada do caminho-de-ferro. Conta-se mesmo que foi graças à arte da relojoaria que um jesuíta conseguiu finalmente aceder à corte Ming (1368-1644). Depois de numerosos pedidos de audiência terem sido rejeitados, o Padre Matteo Ricci (1552-1610) teve a ideia inteligente de oferecer relógios ao Imperador. Um estratagema que lhe abriu de par em par as portas do palácio, uma vez que o Filho do Céu, conquistado pelos presentes de Ricci, foi obrigado a recorrer aos seus serviços para lhes dar corda e fazer a manutenção. Os eunucos, que seriam posteriormente treinados para lidar com os mecanismos, tremiam perante a ideia de uma avaria, esforçando-se por isso por assegurar que o europeu erudito permanecesse com eles, como uma forma de seguro de vida. Desta forma, os jesuítas conseguiram aceder ao vértice do Império. Escusado será dizer que, quando se fala de relógios, os suíços estão sempre presentes. A China não foi excepção. Um primeiro Director Horlogii, o jesuíta Franz Ludwig Stadlin (1658-1740) de Zug, chegou a Pequim em 1707, e até à sua morte, 33 anos mais tarde, criou peças espantosas para grande prazer da corte imperial. As primeiras peças mecânicas feitas para a China - relógios ornamentais, objectos, autómatos, caixas de música e relógios com complicações - eram uma prerrogativa da elite. Mas as peças que se seguiram, numa fase posterior, eram mais variadas para satisfazer a procura de uma clientela mais vasta. No século XIX, os relógios já representavam uma parte significativa das importações chinesas provenientes do Ocidente. Os suíços, como muitos outros ocidentais, viram na abertura do vasto império uma oportunidade inesperada. No entanto, é só no século XX que a empresa relojoeira Tissot se lança à conquista do mercado chinês. Casa e oficina de montagem da família Tissot em Le Locle, segunda metade do século XIX @ Colecção do Museu Tissot. A Tissot foi fundada em 1853 em Le Locle, perto de Neuchâtel. Situada nas montanhas suíças do Jura, a Maison começou por ser uma oficina de montagem na casa da família. Trabalhadores locais especializados fabricavam os diferentes componentes dos movimentos em casa e levavam-nos para a oficina para criar um relógio completo, que era vendido sob uma única marca, uma garantia de qualidade. No mesmo ano, a Tissot começa a exportar para todo o mundo, primeiro para os Estados Unidos e depois para a Rússia imperial. Graças ao seu sucesso, em 1907, a oficina é transformada numa fábrica nas colinas de Le Locle, onde ainda hoje se encontra. O crescimento da produção permite à empresa ir mais longe e a China torna-se extremamente apetecível. De acordo com os arquivos da Tissot, em 1920 havia já um agente da marca em Xangai, sendo logo seguido por outros à medida que os chineses rapidamente se aperceberam de que o artesanato suíço nesta área era verdadeiramente único. Nova fábrica da Tissot construída em Le Locle, 1907 @ Colecção do Museu Tissot. Nas primeiras décadas do século XX, os relojoeiros começaram a preocupar-se com um novo fenómeno. O desenvolvimento da eletricidade e a sua crescente utilização em todos os domínios da vida quotidiana tinham começado a afectar os mecanismos dos relógios. A influência dos campos magnéticos nos movimentos era um problema sério que tinha de ser resolvido, especialmente porque a fiabilidade era um ponto-chave na sua venda. Esta questão levou a Tissot a investir na investigação, a colaborar com laboratórios de física e até mesmo a comprar um crono-electroiman para realizar as suas próprias experiências. Crono-electroiman Tissot adquirido para experiências @ Colecção do Museu Tissot. Nos anos 30, a empresa estava pronta para lançar o primeiro relógio de pulso "não magnético". A Tissot tornou-se pioneira ao substituir o aço dos órgãos reguladores por outros materiais não magnéticos. Esta solução funcionou tão bem que foi gradualmente aplicada a toda a colecção. Consequentemente, a especificidade destes novos modelos foi promovida em várias campanhas de publicidade na Suíça, em todo o mundo e também na China. Esta inovação decisiva foi provavelmente uma das razões pelas quais os funcionários chineses escolheram a Tissot ao procurarem um fornecedor fiável para os seus serviços ferroviários. Campanha publicitária Tissot Antimagnetic, década de 1930 @ Colecção do Museu Tissot. Campanha publicitária Tissot Antimagnetic para o mercado chinês, década de 1930 @ Colecção do Museu Tissot. Durante o mesmo período e depois de ultrapassados muitos obstáculos, a última secção do caminho-de-ferro Pequim-Guangzhou, via Hankow, ficou concluída. Os britânicos. tinham já construído o terceiro troço, de Guangzhou a Kowloon (Hong Kong), entre 1903 e 1911. Este importante eixo é ainda hoje um dos principais meios de transporte através da China. Teve vários nomes ao longo do tempo, desde Pe-Han, Kin-Han, Lu-Han, como foi chamado inicialmente devido aos dois terminais, Pequim (Pe, Kin ou Lu para Lugouqiao, a sudoeste de Pequim, de onde partia o comboio) e Hankow (Han), antes de se tornar Ping-Han em 1928. Como já referido, a administração responsável pela companhia ferroviária procurou sempre cronometristas de boa qualidade para gerir correctamente o tráfego de comboios. E entre todas as opções disponíveis no mercado chinês à época, a Ping-Han Railway acabou por escolher a Tissot. Em 1935, a direcção encomendou cinco mil peças à fábrica de Le Locle, na Suíça - um mês inteiro de trabalho para 150 relojoeiros a tempo inteiro. O cliente deve ter ficado satisfeito com o resultado, já que encomendou mais novecentas peças passado apenas um ano. Relógio de caminho de ferro Tissot Ping-Han, 1937 @ Colecção do Museu Tissot, E00012395. O cronómetro produzido para os caminhos-de-ferro de Ping-Han é um relógio típico de um trabalhador ferroviário, com uma forma redonda e um mostrador aberto. Destinava-se a ser guardado no bolso, à mão, para garantir a pontualidade dos comboios em toda a rede. O relógio era geralmente acompanhado de uma corrente que lhe permitia ser pendurado com segurança na roupa. A caixa em "prata alemã" contém um calibre de 43 mm de qualidade B e manutenção fácil, uma vez que o mecanismo pode ser completamente desmontado para ser regularmente limpo, o lubrificante mudado e qualquer um dos componentes eventualmente substituído. Calibre 43. Tissot Catalogue n°9 des montres de précision, catálogo de clientes, 1934 @ Colecção do Museu Tissot. Este modelo específico é robusto; está protegido contra o pó, resiste a variações drásticas de temperatura ou humidade e exibe orgulhosamente as suas novíssimas propriedades antimagnéticas (como escrito em francês sobre o mostrador, "ANTIMAGNETIQUE"). O mostrador apresenta uma disposição clara das 24 horas, com algarismos árabes pretos pintados sobre um fundo esmaltado branco, realçados por um par de "ponteiros Breguet" que se assemelham a uma maçã oca ou a uma lua crescente. Um mostrador de segundos está situado às 6 horas. Por último, mas não menos importante, o fundo da caixa apresenta uma gravação em talhe-doce (intaglio) de uma máquina a vapor a toda a velocidade. Relógio de comboio Tissot Ping-Han, 1937 @ Colecção do Museu Tissot, E00012395. É interessante notar que a escolha caiu sobre um relógio de bolso em vez de um relógio de pulso (disponível na Tissot desde 1907). Este facto revela claramente que, durante a década de 1930, este modelo ainda possuía todas as qualidades esperadas de uma ferramenta fiável para os trabalhadores ferroviários. Como que a confirmar este facto, a Tissot forneceu a outras companhias ferroviárias relógios utilitários do mesmo tipo. Alguns exemplares fabricados para os caminhos-de-ferro da Sérvia ou da Suíça encontram-se igualmente na colecção do museu. Relógio dos caminhos-de-ferro sérvios da Tissot, 1926 @ Colecção do Museu Tissot, E00016583. Além disso, a Tissot interessou-se desde muito cedo por este novo meio de transporte, uma vez que os seus "voyageurs" (caixeiros viajantes internacionais) também faziam uso do comboio para as suas deslocações profissionais. Em 1909, a Maison já possuía títulos de acções de grandes empresas, mencionadas nos livros como caminhos-de-ferro "orientais" e "russos". O caminho-de-ferro de Ping-Han escolheu, sem dúvida, a Tissot não só pela sua reputação crescente no território chinês, mas também pela sua experiência no mesmo campo. E quando a encomenda final de relógios chegou à China vinda da Suíça, a linha ferroviária já estava concluída até Guangzhou, contando com a possibilidade de chegar directamente a Hong Kong. "Tissot Finest Swiss Craftmanship Since 1853", catálogo de clientes, 1952 @ Colecção do Museu Tissot. A história do caminho-de-ferro de Ping-Han é fascinante em mais do que um sentido. A sua construção e as vicissitudes do seu desenvolvimento traçam todo um capítulo da história da China moderna. Mas este episódio reflecte também a descoberta do Oriente e do Ocidente do ponto de vista tecnológico. Actualmente, a China possui uma das redes ferroviárias de alta velocidade mais extensas e eficientes do mundo. As suas capacidades no campo da engenharia fazem do país um dos maiores concorrentes neste domínio. A China foi uma descoberta importante também para a Tissot. Em 2023, a Maison está a celebrar o seu 170º aniversário, incluindo uma presença de 103 anos no país. A história do relógio ferroviário Ping-Han teve um impacto tão grande que o modelo foi reeditado para o mercado chinês em 1998. Esperemos que esta bela relação dê origem a futuras criações. O Instituto Português de Relojoaria gostaria de agradecer à Drª Estelle Niklès van Osselt, Especialista em Comunicação do Património da Tissot, ter amavelmente aceite o nosso convite para publicar-mos a sua pesquisa. Da mesma forma gostaríamos de agradecer a Serge Maillard, editor da Europa Star, a disponibilidade e amabilidade na intermediação do processo. Para mais informações sobre a Tissot, visite a página da Maison aqui.

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