A Mola Espiral: A Disputa entre Hooke e Huygens pela Alma dos Relógios
- Sílvio Pereira

- 14 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
GRANDES POLÉMICAS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA
Sílvio Pereira

A história da relojoaria é, em grande parte, a história da domesticação do tempo. No século XVII, quando o conhecimento mecânico e a ciência natural se entrelaçavam com a curiosidade dos artesãos, um pequeno componente viria a alterar de modo definitivo o rumo da medição portátil das horas: a mola espiral (ou hairspring). A sua introdução transformou o relógio de bolso de um curioso brinquedo em um instrumento de precisão, conferindo-lhe um batimento constante e previsível.
Contudo, a autoria desta invenção — aparentemente tão singela — tornou-se uma das mais acesas disputas da história científica e horológica. Entre Robert Hooke, o inquieto génio inglês, e Christiaan Huygens, o sábio holandês de temperamento metódico, travou-se uma contenda que cruzou fronteiras, temperamentos e academias.


Contexto histórico (século XVII)
A mola espiral foi a peça-chave que transformou os relógios portáteis num instrumento com utilidade prática: a sua acoplagem ao balanço cria um oscilador harmónico com período relativamente estável, reduzindo fortemente a sensibilidade do relógio às variações de força motriz. Antes da espiral, usavam-se foliots e balanços sem mola que apresentavam grande imprecisão. A importância prática e teórica da invenção tornou a sua atribuição de paternidade um tema de polémica desde o próprio século XVII.
Cronologia e provas documentais essenciais
Robert Hooke (Inglaterra)
Existem notas e esboços de Hooke (o chamado Hooke folio e outros manuscritos) que documentam a sua reflexão sobre corpos elásticos e a aplicação de um elemento elástico a um balanço por volta da década de 1650–1660. Alguns investigadores afirmam haver um pedido de patente (ou um rascunho) datável entre 1663–1665, indicando que Hooke já tinha a ideia de “acoplar uma peça elástica ao balanço” antes de Huygens publicar.


Páginas do "Folio de Hook"
Christiaan Huygens (Países Baixos)
Huygens anotou uma solução concreta em 20 de janeiro de 1675 (diário), desenhando uma mola em espiral presa ao balanço e desenvolvendo, quase simultaneamente, a argumentação teórica que sustentava a utilidade prática do dispositivo. Huygens publicou e divulgou formalmente a sua ideia, trabalhou em conjunto com relojoeiros (notavelmente Isaac Thuret) e obteve um relógio funcional com mola espiral muito cedo após a descoberta.


Duas vistas do mecanismo do primeiro relógio com a mola espiral de Huygens fabricado por de Isaac Thuret - 1675 (Antique
Horology)
Intervenientes técnicos — Tompion, Thuret, Hautefeuille
Além de Hooke e Huygens, surgem como actores relevantes Thomas Tompion (relojoeiro inglês), Isaac Thuret (relojoeiro francês que colaborou/potencialmente e construiu um dos primeiros exemplares com a espiral de Huygens) e Jean de Hautefeuille (que também reclamou prioridade em França). As disputas envolveram tanto a ideia como a execução prática do mecanismo.
Natureza da disputa — ideia vs. implementação
A controvérsia resume-se a duas perguntas distintas:
Quem teve primeiro a ideia conceptual de adicionar um elemento elástico ao balanço?
Quem concebeu a mola em espiral e construiu o primeiro balanço efetivamente funcional?
Os elementos factuais apontam para uma divisão: Hooke parece ter concebido a ideia primitiva primeiro (anotações na década de 1660), mas Huygens foi quem formalizou a solução da mola espiral (com desenho e análise), publicou e, crucialmente, materializou um relógio prático que funcionou com a espiral — frequentemente reconhecido como o primeiro a demonstrar utilidade real. Assim, há duas formas legítimas de reivindicar prioridade: a da ideia inicial (Hooke) e a da solução concreta e operacional (Huygens/Thuret).

Avaliação das provas
Documentos de Hooke: os manuscritos de Hooke mostram que ele teve a intuição de usar um corpo elástico acoplado ao balanço. A descoberta, e alguns esboços, são anteriores a 1675. Contudo, a evidência de que Hooke construiu ou demonstrou um mecanismo fielmente funcional com uma mola espiral é fraca — a sua documentação parece sobretudo conceptual e experimental em laboratório, sem uma prova pública robusta de um relógio portátil com desempenho satisfatório.

Registos de Huygens: a entrada de diário de Huygens (janeiro de 1675) é explícita e acompanhada de ações rápidas para concretizar a invenção com relojoeiros. Huygens procurou proteção e divulgação da sua descoberta e descreveu matematicamente o princípio, o que facilitou a sua adopção prática. A documentação de Huygens é, em termos de publicação e demonstração, mais direta e verificável.
Testemunhos contemporâneos e política científica: em Inglaterra, as relações pessoais (p.ex. Hooke vs Newton, e a influência de figuras como o Presidente da Royal Society) complicaram o reconhecimento e a preservação de provas. A história da prioridade muitas vezes reflectiu também rivalidades e protecção de reputações, não apenas a avaliação fria de factos técnicos.
Diferenças técnicas entre as propostas

Conceito de Hooke: um corpo elástico ligado ao balanço para resistir ao movimento e produzir restituição — ideia correta em essência, ligada aos seus estudos sobre elasticidade (Lei de Hooke). Porém, os esboços sobreviventes parecem não detalhar a geometria ideal da mola (espiral) nem a maneira prática mais eficaz de fixação e fabrico para um relógio de bolso.

Solução de Huygens: Huygens propôs explicitamente uma mola em espiral (hairspring) que, quando fixada ao eixo do balanço, fornece um momento restaurador quase linear nas pequenas oscilações — esquema que permite um oscilador com período determinado e maior isocronia. A formulação teórica de Huygens e a colaboração com um relojoeiro permitiram transformar o conceito em tecnologia praticável.
Consequências tecnológicas e reconhecimento histórico

A adopção da mola espiral melhorou drasticamente a precisão dos relógios portáteis e foi determinante para a relojoaria moderna. Historicamente, Huygens ficou mais associado ao crédito técnico porque publicou e demonstrou a invenção; Hooke, apesar de receber reivindicações póstumas e de ter provas manuscritas, sofreu com a falta de publicação formal e com antagonismos institucionais que dificultaram a sua “visibilidade” histórica.
Opinião crítica e fundamentada
Considero justo repartir o crédito, com distinções claras — e explico porquê:
A Robert Hooke cabe o reconhecimento de ter tido a intuição primeira e de ter trabalhado experimentalmente na ideia de acoplar um elemento elástico ao balanço antes de 1675. Os seus manuscritos confirmam que ele percebeu a relevância do problema e propôs uma solução conceptual anos antes. A descoberta documental do Hooke folio reforça essa posição.
A Christiaan Huygens deve ser creditado por formalizar a solução (mola em espiral), por desenvolver a argumentação analítica que sustentava o conceito e por conseguir rapidamente uma execução prática (com relojoeiros como Thuret) que demonstrou a aplicabilidade da invenção em relógios portáteis. Esse passo — da ideia à demonstração técnica e divulgação — é decisivo para que uma invenção passe de hipótese a tecnologia utilitária.
Portanto, a minha opinião é a de que Hooke foi o inventor da ideia inicial do ‘sprung balance’, enquanto Huygens (com a colaboração de alguns relojoeiros) foi o responsável pela solução técnica da mola espiral e pela sua implementação prática. Se alguém procura um único nome para a paternidade histórica popular, Huygens tem vantagem; se se pretende atribuir mérito pela génese intelectual, Hooke não pode ser ignorado.
Nota sobre justiça histórica e prática científica
A disputa ilustra bem um tema recorrente: a diferença entre ter a visão e materializar a invenção. As instituições (Royal Society, e oficinas de relojoaria) e as rivalidades pessoais influenciaram o legado. Historicamente, a ciência e a tecnologia raramente avançam por um único inventor isolado — aqui, a interacção entre teórico (Huygens), experimentador/ideólogo (Hooke) e artesãos (Thuret, Tompion) foi decisiva.
Leituras e fontes principais (seleccionadas)
Artigo-síntese sobre a mola espiral — Wikipedia: “Balance spring” (bom sumário e bibliografia inicial). Wikipedia
Análise horológica crítica — WatchesBySJX / Monochrome (investigação moderna que reavalia provas e argumenta pela repartição de créditos). SJX Watches
Investigação sobre os manuscritos de Hooke e discussão académica — Ablogtowatch / Hooke folio (documentos e análise histórica). ablogtowatch.com
Registos museológicos sobre movimentos e relojoaria do período — Science Museum (London) — objectos e descrição das disputas práticas com relojoeiros. collection.sciencemuseumgroup.org.uk
Discussões históricas sobre propriedade intelectual e prioridades científicas na Royal Society — R. Iliffe (1992) (contexto político e institucional). adsabs.harvard.edu





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