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A Mola Espiral: A Disputa entre Hooke e Huygens pela Alma dos Relógios


GRANDES POLÉMICAS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA


Sílvio Pereira



A história da relojoaria é, em grande parte, a história da domesticação do tempo. No século XVII, quando o conhecimento mecânico e a ciência natural se entrelaçavam com a curiosidade dos artesãos, um pequeno componente viria a alterar de modo definitivo o rumo da medição portátil das horas: a mola espiral (ou hairspring). A sua introdução transformou o relógio de bolso de um curioso brinquedo em um instrumento de precisão, conferindo-lhe um batimento constante e previsível.


Contudo, a autoria desta invenção — aparentemente tão singela — tornou-se uma das mais acesas disputas da história científica e horológica. Entre Robert Hooke, o inquieto génio inglês, e Christiaan Huygens, o sábio holandês de temperamento metódico, travou-se uma contenda que cruzou fronteiras, temperamentos e academias.


Robert Hook 18.07.1635 - 03.03.1703 (the conversation)
Robert Hook 18.07.1635 - 03.03.1703 (the conversation)
Christian Huygens 14.04.1629 - 08.07.1695  (the conversation)
Christian Huygens 14.04.1629 - 08.07.1695  (the conversation)



















Contexto histórico (século XVII)


A mola espiral foi a peça-chave que transformou os relógios portáteis num instrumento com utilidade prática: a sua acoplagem ao balanço cria um oscilador harmónico com período relativamente estável, reduzindo fortemente a sensibilidade do relógio às variações de força motriz. Antes da espiral, usavam-se foliots e balanços sem mola que apresentavam grande imprecisão. A importância prática e teórica da invenção tornou a sua atribuição de paternidade um tema de polémica desde o próprio século XVII.


Cronologia e provas documentais essenciais


  • Robert Hooke (Inglaterra)

Existem notas e esboços de Hooke (o chamado Hooke folio e outros manuscritos) que documentam a sua reflexão sobre corpos elásticos e a aplicação de um elemento elástico a um balanço por volta da década de 1650–1660. Alguns investigadores afirmam haver um pedido de patente (ou um rascunho) datável entre 1663–1665, indicando que Hooke já tinha a ideia de “acoplar uma peça elástica ao balanço” antes de Huygens publicar.


















Páginas do "Folio de Hook"


  • Christiaan Huygens (Países Baixos)

Huygens anotou uma solução concreta em 20 de janeiro de 1675 (diário), desenhando uma mola em espiral presa ao balanço e desenvolvendo, quase simultaneamente, a argumentação teórica que sustentava a utilidade prática do dispositivo. Huygens publicou e divulgou formalmente a sua ideia, trabalhou em conjunto com relojoeiros (notavelmente Isaac Thuret) e obteve um relógio funcional com mola espiral muito cedo após a descoberta.













Duas vistas do mecanismo do primeiro relógio com a mola espiral de Huygens fabricado por de Isaac Thuret - 1675 (Antique

Horology)


  • Intervenientes técnicos — Tompion, Thuret, Hautefeuille

Além de Hooke e Huygens, surgem como actores relevantes Thomas Tompion (relojoeiro inglês), Isaac Thuret (relojoeiro francês que colaborou/potencialmente e construiu um dos primeiros exemplares com a espiral de Huygens) e Jean de Hautefeuille (que também reclamou prioridade em França). As disputas envolveram tanto a ideia como a execução prática do mecanismo.


Natureza da disputa — ideia vs. implementação


A controvérsia resume-se a duas perguntas distintas:


  • Quem teve primeiro a ideia conceptual de adicionar um elemento elástico ao balanço?

  • Quem concebeu a mola em espiral e construiu o primeiro balanço efetivamente funcional?


Os elementos factuais apontam para uma divisão: Hooke parece ter concebido a ideia primitiva primeiro (anotações na década de 1660), mas Huygens foi quem formalizou a solução da mola espiral (com desenho e análise), publicou e, crucialmente, materializou um relógio prático que funcionou com a espiral — frequentemente reconhecido como o primeiro a demonstrar utilidade real. Assim, há duas formas legítimas de reivindicar prioridade: a da ideia inicial (Hooke) e a da solução concreta e operacional (Huygens/Thuret).

Hook demonstração do principio da elasticidade dos materiais (watchesbysjx)
Hook demonstração do principio da elasticidade dos materiais (watchesbysjx)

Avaliação das provas


  • Documentos de Hooke: os manuscritos de Hooke mostram que ele teve a intuição de usar um corpo elástico acoplado ao balanço. A descoberta, e alguns esboços, são anteriores a 1675. Contudo, a evidência de que Hooke construiu ou demonstrou um mecanismo fielmente funcional com uma mola espiral é fraca — a sua documentação parece sobretudo conceptual e experimental em laboratório, sem uma prova pública robusta de um relógio portátil com desempenho satisfatório.



Espiral Huygens esboço de acopolamento da mola espiral a um foliot de pesos (relógios mecânicos br
Espiral Huygens esboço de acopolamento da mola espiral a um foliot de pesos (relógios mecânicos br
  • Registos de Huygens: a entrada de diário de Huygens (janeiro de 1675) é explícita e acompanhada de ações rápidas para concretizar a invenção com relojoeiros. Huygens procurou proteção e divulgação da sua descoberta e descreveu matematicamente o princípio, o que facilitou a sua adopção prática. A documentação de Huygens é, em termos de publicação e demonstração, mais direta e verificável.


  • Testemunhos contemporâneos e política científica: em Inglaterra, as relações pessoais (p.ex. Hooke vs Newton, e a influência de figuras como o Presidente da Royal Society) complicaram o reconhecimento e a preservação de provas. A história da prioridade muitas vezes reflectiu também rivalidades e protecção de reputações, não apenas a avaliação fria de factos técnicos.


Diferenças técnicas entre as propostas

Lei de Hook - Relação entre força de deformação e elasticidade (sciexplorify)
Lei de Hook - Relação entre força de deformação e elasticidade (sciexplorify)

  • Conceito de Hooke: um corpo elástico ligado ao balanço para resistir ao movimento e produzir restituição — ideia correta em essência, ligada aos seus estudos sobre elasticidade (Lei de Hooke). Porém, os esboços sobreviventes parecem não detalhar a geometria ideal da mola (espiral) nem a maneira prática mais eficaz de fixação e fabrico para um relógio de bolso.



Espiral huygens (museum seiko))
Espiral huygens (museum seiko))
  • Solução de Huygens: Huygens propôs explicitamente uma mola em espiral (hairspring) que, quando fixada ao eixo do balanço, fornece um momento restaurador quase linear nas pequenas oscilações — esquema que permite um oscilador com período determinado e maior isocronia. A formulação teórica de Huygens e a colaboração com um relojoeiro permitiram transformar o conceito em tecnologia praticável.


Consequências tecnológicas e reconhecimento histórico


Esboço dos primeiros osciladores com mola espiral (researchgate)
Esboço dos primeiros osciladores com mola espiral (researchgate)

A adopção da mola espiral melhorou drasticamente a precisão dos relógios portáteis e foi determinante para a relojoaria moderna. Historicamente, Huygens ficou mais associado ao crédito técnico porque publicou e demonstrou a invenção; Hooke, apesar de receber reivindicações póstumas e de ter provas manuscritas, sofreu com a falta de publicação formal e com antagonismos institucionais que dificultaram a sua “visibilidade” histórica.


Opinião crítica e fundamentada


Considero justo repartir o crédito, com distinções claras — e explico porquê:


  • A Robert Hooke cabe o reconhecimento de ter tido a intuição primeira e de ter trabalhado experimentalmente na ideia de acoplar um elemento elástico ao balanço antes de 1675. Os seus manuscritos confirmam que ele percebeu a relevância do problema e propôs uma solução conceptual anos antes. A descoberta documental do Hooke folio reforça essa posição.


  • A Christiaan Huygens deve ser creditado por formalizar a solução (mola em espiral), por desenvolver a argumentação analítica que sustentava o conceito e por conseguir rapidamente uma execução prática (com relojoeiros como Thuret) que demonstrou a aplicabilidade da invenção em relógios portáteis. Esse passo — da ideia à demonstração técnica e divulgação — é decisivo para que uma invenção passe de hipótese a tecnologia utilitária.


Portanto, a minha opinião é a de que Hooke foi o inventor da ideia inicial do ‘sprung balance’, enquanto Huygens (com a colaboração de alguns relojoeiros) foi o responsável pela solução técnica da mola espiral e pela sua implementação prática. Se alguém procura um único nome para a paternidade histórica popular, Huygens tem vantagem; se se pretende atribuir mérito pela génese intelectual, Hooke não pode ser ignorado.

Nota sobre justiça histórica e prática científica


A disputa ilustra bem um tema recorrente: a diferença entre ter a visão e materializar a invenção. As instituições (Royal Society, e oficinas de relojoaria) e as rivalidades pessoais influenciaram o legado. Historicamente, a ciência e a tecnologia raramente avançam por um único inventor isolado — aqui, a interacção entre teórico (Huygens), experimentador/ideólogo (Hooke) e artesãos (Thuret, Tompion) foi decisiva.


Leituras e fontes principais (seleccionadas)


  • Artigo-síntese sobre a mola espiral — Wikipedia: “Balance spring” (bom sumário e bibliografia inicial). Wikipedia

  • Análise horológica crítica — WatchesBySJX / Monochrome (investigação moderna que reavalia provas e argumenta pela repartição de créditos). SJX Watches

  • Investigação sobre os manuscritos de Hooke e discussão académica — Ablogtowatch / Hooke folio (documentos e análise histórica). ablogtowatch.com

  • Registos museológicos sobre movimentos e relojoaria do período Science Museum (London) — objectos e descrição das disputas práticas com relojoeiros. collection.sciencemuseumgroup.org.uk

Discussões históricas sobre propriedade intelectual e prioridades científicas na Royal Society — R. Iliffe (1992) (contexto político e institucional). adsabs.harvard.edu

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