Bernardo d’Orey: da Patek Philippe para Lisboa, com a marchetaria de palha como linguagem artística
- Nuno Margalha

- há 22 horas
- 7 min de leitura
A marchetaria de palha é uma técnica rara, extremamente delicada e praticamente desconhecida do grande público. Tradicionalmente associada às artes decorativas e ao mobiliário, encontrou recentemente um novo território de expressão na relojoaria contemporânea através do trabalho de Bernardo d’Orey.

Instalado recentemente em Portugal, Bernardo desenvolve um trabalho profundamente ligado à luz, à cor e à transformação visual da matéria. Na sua oficina de marchetaria nas Avenidas Novas, em Lisboa, conversámos longamente sobre o seu percurso, a filosofia do artesanato, a relojoaria contemporânea e aquilo que procura verdadeiramente quando cria um mostrador.

O espaço onde trabalha reflecte precisamente essa abordagem: um lugar inteiramente dedicado ao fazer, sem artifícios nem encenação. Sem hesitar e sem esconder o processo, põe mãos à obra para nos explicar como trabalha e como constrói os seus mostradores. Bernardo permanece debruçado sobre a mesa durante períodos curtos e intensos — “como quem faz apneia”, descreve — numa concentração absoluta sobre gestos minúsculos e materiais frágeis. Ao olhar em redor, torna-se inevitável pensar nas infinitas combinações possíveis entre formas, texturas e cores; afinal, são esses elementos que continuam a definir, em grande medida, a identidade visual da relojoaria mecânica contemporânea.
Aqui fica a transcrição da conversa que tivemos com Bernardo, igualmente sem segredos nem filtros:

Como começou o teu percurso até chegares à marchetaria de palha?
O meu percurso começou bastante longe da relojoaria. Passei primeiro pela hotelaria e mais tarde entrei no universo do luxo e dos objectos raros. Foi nessa altura que trabalhei na Louis Vuitton e, posteriormente, também na Patek Philippe, experiências muito importantes porque me permitiram perceber melhor a relação emocional que as pessoas criam com objectos especiais.
Mais tarde trabalhei também no comércio de joalharia antiga e fui desenvolvendo um interesse cada vez maior pelas artes decorativas e pelos trabalhos manuais. A marchetaria de palha apareceu nesse percurso quase como uma descoberta natural e acabou por se transformar no centro do meu trabalho.
O que te fascinou nesta técnica?
No fundo, aquilo que me fascina na marchetaria de palha é partir de uma matéria-prima extremamente pobre — a palha de centeio — e transformá-la numa matéria nobre.
Há quase uma dimensão alquímica nesse processo. Sinto-me um pouco como um alquimista a transformar uma matéria humilde numa matéria preciosa.
Mas aquilo que verdadeiramente me interessa não é tanto o desenho em si. O que me fascina é o brilho, a cor e a percepção da matéria.
Gosto de trabalhar a palha de forma a criar quase a ilusão de outra superfície, outra textura, outra profundidade.

A luz parece desempenhar um papel central no teu trabalho.
Completamente. A luz é essencial.
A palha possui naturalmente aquilo a que eu chamo um verniz de silício, que lhe dá este brilho muito particular. Eu não aplico nenhum verniz por cima da palha. O brilho já existe naturalmente.
Por isso estou constantemente a verificar o trabalho em diferentes condições de luz. Trabalho com microscópio, com luz branca, com luz amarela, mas levanto-me continuamente para ir à janela observar o resultado em luz natural.
É a luz que dá vida ao trabalho.
Existem referências na relojoaria que te tenham inspirado particularmente?
Sou um grande admirador de Kari Voutilainen.
Curiosamente, aquilo que mais me impressiona nos relógios dele não é apenas o mecanismo. É sobretudo o mostrador. A maneira como trabalha a luz nos mostradores fascina-me profundamente.
Eu entro muito no relógio através da emoção visual. E é precisamente isso que tento criar através da marchetaria de palha.
A técnica torna-se mais difícil quando aplicada à relojoaria?
Muito mais difícil.
A palha é uma matéria extremamente delicada e orgânica. Quanto menor é a superfície, menor é também a margem de erro. Num mostrador de relógio trabalho frequentemente abaixo do décimo de milímetro de tolerância.
Cada fibra tem de ser colocada exactamente no sítio certo. E qualquer gesto pode comprometer horas de trabalho.
Além disso, exige uma concentração enorme.

Costumo dizer que trabalho quase “em apneia”.
Não consigo trabalhar duas horas seguidas. Trabalho por blocos de meia hora ou quarenta e cinco minutos e depois preciso de parar, respirar e voltar a olhar para perceber se tudo continua equilibrado.
Chega uma altura em que deixamos simplesmente de ver os erros.

Existe espaço para improvisação?
Sim, bastante.
Eu parto sempre de uma ideia inicial, mas deixo muito espaço para aquilo que a própria matéria me sugere. Cada palha é diferente. Existem manchas, nuances, pequenas irregularidades e variações de cor.
Aquilo que poderia parecer um defeito pode transformar-se numa qualidade dependendo da forma como é integrado no conjunto. E é precisamente aí que entra a improvisação.
Há alguma etapa particularmente difícil?
Todas as etapas são extremamente delicadas.
Abrir a palha, achatá-la, cortá-la, colá-la, aplicar depois o conjunto no mostrador… qualquer gesto pode destruir tudo o que foi feito anteriormente.
Mas isso não me frustra. Pelo contrário. O que me motiva é precisamente sentir que ainda posso fazer melhor.
Espero nunca perder essa sensação. Acho que qualquer artesão vive assim. Como um pianista que sobe ao palco depois de cinquenta anos de carreira e continua a sentir nervosismo antes de tocar.
Essa fragilidade dá-me energia para continuar.
Como vês o papel dos métiers d’art na relojoaria contemporânea?
Tenho uma visão muito particular da relojoaria contemporânea. Acho que, do ponto de vista puramente mecânico, já se inventou quase tudo.
Claro que continuará sempre a existir inovação, mas existe hoje um campo praticamente infinito para explorar na dimensão artística do relógio: decoração, mostradores, acabamentos, identidade visual.
O relógio deixou há muito de ser apenas um instrumento utilitário. Tornou-se um objecto artístico, emocional, quase uma jóia.
E é precisamente aí que os métiers d’art podem fazer toda a diferença.
Achas que hoje existe uma valorização real do artesanato?
Acho que sim, cada vez mais.
Vivemos num mundo profundamente massificado. E justamente por isso cresce o desejo de possuir algo raro, humano e irrepetível.
As pessoas querem possuir um relógio que mais ninguém tem. Querem conhecer a história do objecto, perceber quem o fez, quais são as motivações dessa pessoa, qual é a filosofia por trás do trabalho.
E é aí que o artesão pode fazer a diferença.
Como surgiram as tuas colaborações com marcas de relógios?
A colaboração com a Isotope Watches surgiu de forma muito espontânea através de um contacto ligado ao Instituto Português de Relojoaria.
Já a colaboração com a Louis Erard partiu de uma iniciativa minha. Entrei em contacto, mostrei o meu trabalho e começámos um longo processo de discussão e desenvolvimento.
Também tenho desenvolvido outros projectos fora da relojoaria, incluindo joalharia e trabalhos escultóricos.
Existe algum projecto particularmente marcante?
O mostrador criado para celebrar o Ano da Cobra foi provavelmente o projecto mais complexo que fiz até hoje.
Foram mais de duzentos pequenos triângulos, cada um com cerca de dois milímetros, aplicados individualmente. Sabia que seria extremamente difícil, mas consegui levar o projecto até ao fim graças também aos conselhos da Rose Saneuil, que teve um papel muito importante nesse processo.
Há algum trabalho que sintas representar particularmente bem aquilo que fazes?
Gosto muito de padrões clássicos como o xadrez ou o chevron, porque quando estão bem executados possuem uma enorme força visual.
Mas existem dois trabalhos que neste momento representam talvez melhor aquilo que procuro. Um chama-se Bubbles, inspirado em bolhas de ar. O outro é o Broken Ice, que procura reproduzir a sensação de uma placa de gelo estalada.
Esse tipo de trabalho permite-me explorar misturas de cor, profundidade e gradações subtis de luz, que são precisamente as coisas que mais me interessam.
Mudaste-te recentemente para Portugal. Isso influencia o teu trabalho?
Muito.
Vim sobretudo por razões familiares, mas sinto-me profundamente feliz por estar em Portugal. Existe aqui uma energia muito especial.
Tenho a sensação de que começa finalmente a existir uma consciência maior da qualidade dos artesãos portugueses e do enorme potencial criativo que existe no país.
Durante muito tempo Portugal não soube comunicar a qualidade do seu trabalho. Hoje isso começa a mudar.
Achas que Portugal pode tornar-se um ecossistema relevante ligado à relojoaria independente e aos métiers d’art?
Acho que sim. O grande problema de Portugal sempre foi sobretudo um problema de marketing.
Temos tendência para nos desvalorizar. Mas a percepção internacional do país mudou muito nos últimos anos. Hoje já existe reconhecimento pela qualidade do trabalho, pela criatividade e pela capacidade técnica.
O importante agora é evitar que Portugal seja visto apenas como um país barato. O objectivo deve ser afirmar a qualidade.
O que gostarias ainda de explorar no futuro?
Gostava de continuar a aprofundar aquilo que faço hoje.
Existe uma técnica que desenvolvi e que chamo “escamas de dragão”, que gostaria muito de continuar a explorar, especialmente aplicada à relojoaria. É tecnicamente muito desafiante porque implica uma certa espessura, mas possui um enorme potencial visual.
Também gostaria de explorar combinações com folha de ouro e outras superfícies.

O que te interessa mais neste momento: complexidade técnica ou emoção visual?
A emoção visual.
Eu chego à complexidade técnica através da emoção visual. A minha motivação é sempre criar algo que provoque uma emoção.
É isso que me conduz.
Como imaginas o futuro dos métiers d’art na relojoaria?
Acho que veremos cada vez mais artesãos independentes a colaborar pontualmente com marcas.
Existirão talvez alguns casos de colaboração mais permanente, mas aquilo que vejo nos melhores artesãos é precisamente essa capacidade de trabalhar com diferentes marcas e diferentes linguagens visuais sem perder identidade própria.
Achas que o público tem consciência do tempo e do trabalho necessários para criar estas peças?
Ainda não totalmente.
Muitas destas profissões continuam desconhecidas. As pessoas não imaginam o nível de precisão necessário, o tempo envolvido ou a delicadeza do processo.
Mas cabe também aos artesãos e às marcas comunicar melhor esse trabalho e explicar aquilo que torna estas peças especiais.
Preferes criar poucas peças muito especiais ou produzir de forma mais regular?
Prefiro claramente poucas peças especiais.
Isso permite criar uma emoção diferente em cada peça. Permite também manter uma relação muito mais próxima com aquilo que estou a fazer.
O que gostarias que alguém sentisse ao pegar num relógio com um mostrador teu?
Gostava que a reacção fosse simplesmente: “uau”.
Que a pessoa tivesse vontade de continuar a mover o relógio para ver os reflexos, os jogos de luz e as mudanças de cor.
E no fundo, o que te entusiasma verdadeiramente no acto de criar?
Criar algo belo.

Acho que é isso no fim de tudo: tentar acrescentar um pouco de beleza ao mundo.















Comentários