Entrevista Exclusiva | Gregory Kissling, CEO da Breguet
- Nuno Margalha

- 2 de ago.
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de ago.

Da herança de Abraham-Louis Breguet ao Experimental No. 1, uma conversa sobre inovação, precisão e o futuro de uma das mais importantes manufaturas da história.
No ano em que celebra o seu 250.º aniversário, a manufatura apresentou um conjunto notável de novidades, entre as quais o Classique Souscription 2025, o Tradition Seconde Rétrograde 7035, o Type XX Chronographe 2075 e o Experimental No. 1. Mais do que novos relógios, estes lançamentos revelam uma estratégia assente na inovação e na procura constante da precisão cronométrica.
Durante a nossa visita à Boutique da Breguet, em Genebra, conversámos com Gregory Kissling, CEO da manufatura. Nesta entrevista exclusiva abordámos o legado de Abraham-Louis Breguet, a origem do Experimental No. 1, o novo escape magnético de força constante, desenvolvido ao longo de mais de uma década, e a visão que irá orientar o desenvolvimento técnico da marca nos próximos anos.
Poucas manufaturas podem afirmar que, 250 anos depois da sua fundação, continuam a desenvolver novas soluções técnicas inspiradas diretamente nas ideias do seu fundador. A Breguet é uma dessas raras exceções.
Entre as revelações mais importantes está a confirmação de que o Experimental No. 1 é apenas o primeiro capítulo de uma nova plataforma de investigação. A Breguet pretende apresentar uma nova inovação todos os anos, utilizando estes relógios para desenvolver tecnologias que, depois de validadas, poderão ser integradas nas restantes coleções da manufatura.
Se há uma conclusão que se retira desta conversa, é que a inovação continua a ocupar o mesmo lugar que ocupava no tempo de Abraham-Louis Breguet: no centro da identidade da manufatura.
O Experimental No. 1: o início de uma nova plataforma de inovação

O Experimental No. 1 foi um dos grandes protagonistas da conversa. Longe de ser apenas uma edição limitada de 75 exemplares, este relógio inaugura uma nova plataforma de investigação e desenvolvimento criada para explorar soluções técnicas que poderão vir a integrar futuras coleções da Breguet.
Gregory Kissling revela que o nome Experimental No. 1 não foi escolhido por acaso. O objetivo da manufatura é apresentar uma nova inovação todos os anos, recorrendo à linha Experimental como um verdadeiro laboratório tecnológico. Cada projeto permitirá desenvolver novas soluções, testá-las em condições reais e, posteriormente, adaptá-las aos restantes movimentos da marca.

O primeiro capítulo desta nova abordagem apresenta um escape magnético de força constante, desenvolvido ao longo de mais de dez anos e protegido por patente. Em vez de recorrer aos sistemas tradicionais, a Breguet optou por explorar as propriedades do magnetismo para criar um mecanismo capaz de fornecer energia constante ao órgão regulador, reduzindo simultaneamente a complexidade da construção.
Segundo Gregory Kissling, esta tecnologia não ficará confinada ao Experimental No. 1. A intenção é integrá-la progressivamente noutros movimentos da Breguet, transformando este projeto numa verdadeira plataforma de desenvolvimento para toda a manufatura.

Mais do que um relógio excecional, o Experimental No. 1 representa uma declaração de intenções: continuar a inovar seguindo exatamente a mesma filosofia de Abraham-Louis Breguet — compreender os fenómenos físicos, experimentar novas soluções e colocar a técnica ao serviço da precisão.
O legado de Abraham-Louis Breguet
Grande parte da entrevista foi dedicada à extraordinária capacidade inventiva de Abraham-Louis Breguet. Gregory Kissling recorda que, apesar de ter desenvolvido dezenas de soluções revolucionárias, o fundador da manufatura patenteou apenas duas invenções: o escape de força constante e o turbilhão.
Segundo o CEO da Breguet, esta realidade explica-se pelo contexto da época. No final do século XVIII, o sistema de patentes era muito diferente do atual e muitas das inovações eram divulgadas sem qualquer proteção legal.
Mais importante do que o número de patentes foi o impacto destas invenções. Ainda hoje, os princípios desenvolvidos por Abraham-Louis Breguet continuam a servir de base para muitos dos projetos de investigação da manufatura.
A procura da precisão
A procura da precisão é, talvez, o fio condutor de toda a entrevista.
Gregory Kissling explica como Abraham-Louis Breguet procurou resolver os principais fatores que afetam a marcha de um relógio mecânico: as variações de binário ao longo da reserva de marcha, os efeitos da gravidade, o atrito e, atualmente, também os campos magnéticos e os microchoques.
O Experimental No. 1 reúne precisamente várias dessas respostas num único relógio. O turbilhão compensa os efeitos da gravidade, o novo escape magnético de força constante estabiliza a energia fornecida ao órgão regulador, a frequência de 10 Hz reduz a influência dos microchoques e a construção garante elevada resistência aos campos magnéticos.
O resultado é uma precisão certificada de ±1 segundo por dia, um desempenho que Gregory Kissling considera representar um novo marco para a relojoaria mecânica.
O Perpétuelle: quando a relojoaria deixou de precisar de uma chave
Entre os muitos episódios históricos abordados na entrevista, Gregory Kissling destaca o Perpétuelle, um dos primeiros relógios de corda automática da história.
Desenvolvido apenas alguns anos após a chegada de Abraham-Louis Breguet a Paris, este relógio utilizava uma massa oscilante para aproveitar os movimentos naturais do utilizador e manter o movimento armado.
Mais do que uma inovação técnica, o Perpétuelle alterou profundamente a experiência de utilização de um relógio. Pela primeira vez, deixava de ser necessário recorrer diariamente à chave para dar corda ao mecanismo.
Foi esta invenção que projetou a reputação de Breguet junto da corte francesa e, posteriormente, das principais casas reais europeias.
Muito antes do relógio de pulso
Outro momento particularmente interessante da conversa prende-se com a origem do relógio de pulso.
Gregory Kissling recorda que foi a Breguet quem desenvolveu, em 1810, aquele que é geralmente considerado o primeiro relógio de pulso da história, criado para Caroline Murat, Rainha de Nápoles.
Mais de um século antes da popularização deste formato entre os homens, impulsionada pela Primeira Guerra Mundial, a manufatura já explorava o potencial desta nova forma de usar um relógio.





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