Os relógios que chegaram à Ásia pelas rotas portuguesas

Em Abril de 1551, Francisco Xavier entregou um relógio mecânico ao senhor de Suō, no Japão. Cinquenta anos depois, em Janeiro de 1601, dois relógios entravam na Cidade Proibida. Entre uma data e outra, a rede de Goa, Macau e Nagasáqui, sustentada pelo comércio e pelas missões do padroado português, fez do relógio uma chave para chegar a quem mandava. O que começou como presente acabou em oficinas japonesas e chinesas, com uma relojoaria própria.
Uma rota, duas missões
Os primeiros portugueses chegaram a Tanegashima em 1543. A partir de 1550, a Coroa reservou para si o comércio com o Japão: todos os anos, um capitão-mor fazia a viagem a partir de Goa, com escalas em Malaca e na China. Macau, fundada em 1557, deu a esse comércio uma base estável. Em 1571, Nagasáqui tornou-se o porto definitivo dos portugueses no Japão e, em 1580, foi cedida aos jesuítas.
Entre as sedas, a prata e a porcelana, Charles Boxer regista também mercadorias europeias de luxo, como relógios flamengos. Mas os relógios desta história vieram sobretudo por outra via: a bagagem dos missionários, que os levavam não para vender, mas para oferecer.

1551: o relógio de Xavier
Francisco Xavier chegou ao Japão em 1549. Em Abril de 1551 foi recebido por Ōuchi Yoshitaka, senhor da província de Suō, a actual prefeitura de Yamaguchi, e levou-lhe vários presentes exóticos, entre os quais um relógio mecânico. O jesuíta português Luís Fróis, que trabalhou no Japão de 1563 até morrer, em 1597, descreve-o na sua História de Japam como «hum relogio de horas de grande artificio».
O episódio é confirmado dos dois lados. Uma carta de Cosme de Torres, de 1551, fala de um cravo e de um relógio. E uma biografia japonesa de Ōuchi refere um aparelho, oferecido pelo «homem da Índia», que marcava doze períodos e fazia soar um sino: é, segundo o historiador Ryuji Hiraoka, a primeira menção a tal objecto em fontes japonesas. Yasuyuki Shirai indica que o relógio veio de Goa; não é certo onde foi feito, mas A. C. Koch admite, com dúvidas, que fosse alemão.

A diplomacia do relógio
O gesto repetiu-se. Em 1569, em Quioto, Fróis levou um pequeno relógio de soar a uma audiência informal com Oda Nobunaga, a conselho de Wada Koremasa, um dos seus principais vassalos. Nobunaga admirou-o e quis tê-lo, mas recusou a oferta, porque o achava difícil de manter acertado. Ficou duas horas a fazer perguntas sobre a Europa e a Índia.
Pouco depois, Wada usou o mesmo relógio para abrir a porta do xogum Ashikaga Yoshiaki, que não recebia o padre: se o relógio lhe fosse levado, teria de chamar quem o soubesse acertar. Assim foi, diante de cerca de setenta nobres. Um deles lembrou que vira um melhor em Bungo, que tocava dia e noite sem lhe tocarem. Em 1571, Wada levava visitantes ilustres à igreja a pretexto de lhes mostrar o relógio, e ali ouviam o sermão. Nunca se baptizou.
A estratégia não foi só dos missionários: dependeu também de colaboradores japoneses, como Wada Koremasa, que nunca se tornou cristão.
Portugal entra de novo nesta história em 1580, com o visitador Alessandro Valignano. D. Teotónio de Bragança, arcebispo de Évora, enviara-lhe um relógio grande e magnífico. Numa carta de 25 de Agosto de 1581, Valignano agradece e diz que o levará a Quioto para o dar a Nobunaga, ao filho ou a outro grande senhor. Não se sabe quem o recebeu. Sabe-se que Nobunaga, numa visita inesperada à residência jesuíta de Azuchi, foi ver o relógio da casa, e que autorizou ali o primeiro seminário.
Em 1591, Valignano ofereceu um relógio a Toyotomi Hideyoshi: talvez o de Évora, talvez um dos quatro dados à embaixada Tenshō pelos duques de Mântua. Logo a seguir à audiência, Hideyoshi chamou o irmão português João Rodrigues «Tçuzu» e Mâncio Itō, para lhe ensinarem a acertá-lo.
Macau, a porta da China
No início da década de 1580, os primeiros relógios mecânicos chegaram a Macau com mercadores portugueses. Na China não os havia. A técnica existira sob a dinastia Song, como mostra o relógio de Su Sung, mas caíra em desuso. Valignano apostou em entrar pela ciência, e o relógio servia esse plano. Em Agosto de 1582, Matteo Ricci chegou de Goa a Macau com um relógio; em Goa, frequentara um artífice para aprender como funcionavam. De Agosto a Dezembro, Valignano, Ruggieri e Ricci estiveram juntos em Macau.
Foi Valignano quem decidiu tentar a sorte: em Dezembro de 1582, Michele Ruggieri ofereceu esse relógio ao governador-geral Chen Rui, em Zhaoqing, e obteve autorização para ficar, logo retirada. Em 1583, Ricci voltou, levando de Macau um relojoeiro para fazer um relógio para o governador da cidade, Wang Pan. Desta vez os jesuítas ficaram.
Para Hiraoka, a chamada «diplomacia do relógio» não nasceu na China: Valignano levou para lá trinta anos de experiência jesuíta no Japão.
O elo era também administrativo: a missão da China pertenceu à vice-província do Japão até 1619, e Macau era o ponto de encontro de quem ia e vinha dos dois países.

Janeiro de 1601: os sinos que tocam sozinhos
Ricci demorou quase vinte anos a chegar a Pequim. Em Nanquim expôs os relógios, cuja fama atraiu o eunuco Ma Tang. Este ofereceu-lhe transporte, mas em Tianjin prendeu os jesuítas num templo e ficou com os presentes. Segundo o relato que chegou a Ricci, foi o próprio imperador Wanli quem, meses depois, perguntou pelo relógio prometido. A 24 de Janeiro de 1601, Ricci entrou em Pequim, e no dia seguinte os presentes seguiram para o palácio. O Museu de Relógios de Macau recorda que os dois relógios, um grande e um pequeno, tinham sido preparados a partir de Macau. Na China chamaram-lhes zimingzhong, «sinos que tocam sozinhos».
Dias depois, o maior parou. Ricci foi chamado ao palácio e passou vários dias a ensinar quatro eunucos a regulá-lo. Wanli, que não recebia ninguém de fora do seu círculo, mandava-lhe perguntas sobre os relógios, a Europa e o cristianismo. A Ricci bastou pedir uma coisa: viver e morrer em Pequim. Foi-lhe concedido.
Tomás Pereira e as oficinas do imperador
Depois de Ricci, os jesuítas continuaram a oferecer relógios e passaram a recrutar relojoeiros para a missão. Entre os que serviram a corte estiveram dois portugueses. A Gabriel de Magalhães (1610–1677), natural de Pedrógão Grande, é atribuído, embora não seja certo, um relógio de carrilhão que tocava música chinesa de hora a hora. E Tomás Pereira (1645–1708), natural de São Martinho do Vale, em Famalicão, partiu de Macau em 1672 e serviu o imperador Kangxi durante cerca de 35 anos.
Pereira é conhecido sobretudo como músico, mas construía também relógios e autómatos. Diz-se, embora não seja certo, que fez para a torre de uma igreja de Pequim um relógio com um tambor de pinos, como o de uma caixa de música, que accionava os badalos de um carrilhão: de hora a hora, tocava música tradicional chinesa. Em 1679-80 construiu ainda o órgão da Igreja do Sul (Nantang), com efeitos que imitavam o canto das aves.
No século XVIII, o palácio tinha uma oficina com cerca de 100 artífices, dirigidos por missionários, e formaram-se centros de fabrico em Suzhou e Cantão. O relojoeiro jesuíta Valentin Chalier calculava que houvesse no palácio mais de 4000 relógios, muitos deles de mestres de Paris e Londres. O comércio passava por Cantão, mas fora da época os mercadores viviam em Macau, onde repousam familiares de Ilbery e de Bovet, nomes ligados aos relógios para o mercado chinês. Por volta de 1815, um relógio chinês elaborado já custava metade de um europeu.

Japão: de Nagasáqui à clandestinidade
No Japão, o passo seguinte foi o fabrico local. Por volta de 1601-02, a oficina ligada ao seminário jesuíta, orientada pelo italiano Giovanni Nicolao, formava artífices japoneses em Nagasáqui. O relatório anual diz que alguns faziam relógios tão bem que já viviam desse trabalho, incluindo peças que mostravam o movimento do Sol e da Lua. Em 1603, a torre da Igreja do Cabo, em Nagasáqui, recebeu um grande relógio com letras romanas e japonesas, que indicava também o percurso do Sol e as fases da Lua. Foi por esta altura, ao que parece, que estes relógios começaram a ser vistos pelo público em geral, e não só por quem estava no poder.
Em 1606, João Rodrigues levou a Tokugawa Ieyasu um relógio astronómico para uma torre do castelo de Fushimi, oferta do jesuíta Francesco Pasio. No ano seguinte, Pasio e Rodrigues ofereceram ao seu filho Hidetada um relógio de soar feito em Nagasáqui.
A proibição do cristianismo, em 1614, acabou com tudo isto. Um relato do jesuíta Pedro Morejón mostra como o relógio mudou de sinal: por volta de 1619, Hidetada mandou reparar um relógio oferecido pelos padres, e o governador de Quioto respondeu que só o sabia fazer um cristão preso, na esperança de o libertar. O xogum ordenou que os presos fossem queimados vivos.
Não se conhece nenhum relógio de fabrico jesuíta que tenha sobrevivido no Japão.
O mais antigo relógio europeu ali conservado, no santuário de Kunōzan Tōshō-gū, não veio por esta via: é o que Filipe III de Espanha ofereceu a Ieyasu em 1611, assinado por Hans de Evalo, em Madrid, em 1581. Em 2014 descobriu-se sob a placa outra inscrição, de Nicolaus de Troestenberch, Bruxelas, 1573.

A técnica, porém, sobreviveu aos missionários. Um processo de 1659 fala de Seizaemon, conhecido como «o relojoeiro»: entrara em 1607 numa oficina de relojoaria, cujo mestre era cristão, tornou-se cristão também, regressou ao budismo e esteve preso, por suspeita, de 1645 a 1654.
O relógio que aprendeu as horas japonesas
Havia um problema de fundo. No Japão, o dia e a noite dividiam-se cada um em seis períodos, cuja duração mudava com as estações. Um relógio europeu de horas iguais não servia: Ieyasu tinha o seu como peça decorativa. Os relojoeiros japoneses resolveram-no com o que tinham recebido, o escape de roda de reencontro com foliot. Bastava deslocar os pesos do foliot à madrugada e ao anoitecer, para mudar a marcha, e ajustá-los conforme a estação.
Por volta de 1780, surgiu o relógio de dois foliots, um para o dia e outro para a noite, que passava de um para o outro sozinho. Evitava o acerto diário: bastava ajustar os pesos duas vezes por mês. Noutros modelos, chamados relógios de coluna, a hora lia-se num índice preso ao peso que descia, numa escala ajustável conforme a estação. Nascia o wadokei, o relógio japonês.
Em Portugal, este tipo de relógio pode ser visto em Lisboa, no Museu Medeiros e Almeida.


A paternidade continua em discussão. Uma crónica de 1832 diz que o ferreiro Tsuda Sukezaemon reparou um relógio de Ieyasu e fez outro a partir dele, e a data de 1598 aparece em várias fontes, mas é contestada: um estudo recente aponta 1623 para o primeiro relógio deste tipo, feito por um Tsuda em Edo. Não há prova directa da sua ligação aos jesuítas, embora Hiraoka considere muito provável que a técnica lhe tenha chegado pelos artífices que eles formaram.
Em 1690, um livro de ofícios publicado em Quioto já dava nomes e moradas de relojoeiros. Um deles, Hirayama Musashi, fez um relógio de torre que mostra a posição do Sol e as fases da Lua, como alguns dos feitos em Nagasáqui no início do século. Os holandeses, que substituíram os portugueses, continuaram a oferecer relógios ao xogum entre 1644 e 1651, mas a tradição já tinha caminho próprio. Durou até 1873, quando o Japão adoptou as horas iguais.
O que os relógios fizeram, afinal
Os relógios não converteram a China, como Ricci esperava. Catherine Pagani mostra que ali eram sobretudo símbolos de estatuto, peças decorativas e adornos, e só às vezes instrumentos para saber as horas. No Japão, A. C. Koch defende que não tiveram o efeito revolucionário que tiveram na Europa na forma de contar o tempo.
Fizeram outra coisa. Abriram portas, puseram missionários europeus e artífices asiáticos a trabalhar lado a lado e deixaram, de Nagasáqui a Pequim, gente a saber fazer relógios. Tudo isso passou por Goa e Macau, por cartas escritas em português, e pelas mãos de homens como Luís Fróis, João Rodrigues, Gabriel de Magalhães e Tomás Pereira. É um capítulo da história da relojoaria que também é nosso.





Comentários