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- 24 de Setembro
O dia em resumo A Nivada Grenchen assinala o centenário com uma nova geração F77 MKII de mostradores em pedra natural e movimento La Joux-Perret. A Panerai reduz a arquitetura Luminor dos anos 1990 para 42 mm sem abdicar dos 500 metros de estanqueidade. A canadiana Héron estreia o Continental, uma proposta compacta de inspiração alpina. São três lançamentos de escalas muito diferentes: uma marca histórica suíça a reforçar a mecânica de um dos seus modelos mais reconhecíveis, uma grande maison italiana a tornar um ícone mais versátil e uma microbrand de Montreal a consolidar uma linguagem própria. Para o mercado europeu, a Nivada chega com preços a partir de cerca de 1.660 € nas versões de correia e 1.870 € em bracelete, enquanto os novos Panerai começam nos 6.500 €. O Continental é anunciado pela Héron a 630 dólares. Nivada Grenchen celebra 100 anos com pedra natural Nivada Grenchen F77 MKII Jade 100 Years. Fotografia: Nivada Grenchen. A Nivada Grenchen abre hoje, 24 de setembro, a nova fase do F77 MKII 100 Years. A coleção combina a caixa integrada em aço 316L de 38 mm com mostradores em pedra natural e substitui o anterior Soprod pelo automático La Joux-Perret G101. O G101 trabalha a 4 Hz, usa 24 rubis e oferece 68 horas de reserva de marcha, ficando visível através de um fundo em safira. A caixa mede 11,5 mm de espessura e mantém 10 ATM de estanqueidade. Entre as pedras estão jade, azurite, shungite negra, quartzo fumado, opala negra, labradorite e Ice Agate; esta última é limitada a 100 exemplares numerados. A versão Jade custa 1.790 dólares em bracelete e 1.590 dólares com correia de borracha ou Velcro; a marca indica expedições no início de novembro. Para a Europa, a comunicação de lançamento aponta aproximadamente 1.870 € e 1.660 €, respetivamente. Panerai leva o Luminor dos anos 1990 aos 42 mm Panerai Luminor PAM01710 de 42 mm. Fotografia: Panerai. A Panerai apresentou três novos Luminor de 42 mm — PAM01710, PAM01711 e PAM01714 — que reinterpretam a caixa que marcou a abertura da marca ao público civil em 1993. Os dois primeiros usam aço e mostradores preto e verde; o PAM01714 combina caixa de aço com revestimento DLC negro e mostrador azul. Todos recebem o calibre automático P.980, com 23 rubis, 28.800 alternâncias por hora e três dias de reserva de marcha. A caixa tem 13,8 mm de espessura e, apesar da redução de diâmetro, conserva uma estanqueidade declarada de 50 bar, cerca de 500 metros. A Panerai afirma testar cada relógio acima da classificação garantida. Na Europa, o PAM01710 e o PAM01711 são anunciados a 6.500 €, enquanto o PAM01714 em DLC sobe para 7.500 €. As três referências usam novas correias de canvas de 22/20 mm com reforço em pele nos furos. Héron sobe à montanha com o Continental Héron Continental Black. Fotografia: Héron Watches. A Héron lançou o Continental, uma coleção inspirada no ambiente dos resorts alpinos de meados do século XX e nos relógios usados durante a era das grandes expedições. A estreia surge em três versões — Black, Cream e Blue — com preço anunciado de 630 dólares. A caixa em aço endurecido mantém proporções compactas e um perfil desportivo-elegante, com vidro de safira box, mostrador sandwich e bracelete de múltiplos elos. No verso, um fundo transparente revela um rotor personalizado em forma de floco de neve, referência às origens canadianas da marca. O Continental é uma evolução interessante para a jovem marca de Montreal: em vez de regressar ao universo dos relógios de mergulho Marinor ou ao GMT Mirabel, procura um território mais versátil entre o relógio de exploração e o desportivo de uso diário. O que merece atenção O fio comum do dia é a procura de proporções mais fáceis de usar sem abandonar identidade. A Panerai faz isso de forma explícita ao reduzir o Luminor; a Nivada combina 38 mm com um movimento de maior autonomia; e a Héron aposta numa caixa compacta para construir uma nova família. São caminhos diferentes para a mesma tendência: relógios mecânicos com presença, mas menos dependentes do tamanho para afirmar carácter.
- 23 de Setembro
O dia em resumo A Siam Paragon Bangkok Watch Week abriu a 22 de setembro em Banguecoque com mais de 45 marcas e uma programação dedicada à cultura relojoeira. A Roger Dubuis apresentou The Metamorph Merlin, capítulo final da trilogia dedicada ao mago arturiano. Em Genebra, a Phillips anunciou a primeira parte da coleção Pucci Papaleo, 16 cronógrafos Rolex que irão a leilão em novembro. Bangkok Watch Week abre com mais de 45 marcas A Siam Paragon Bangkok Watch Week 2026 decorre de 22 a 27 de setembro no Siam Paragon. A segunda edição reúne mais de 45 maisons, independentes, colecionadores e especialistas, com exposições, apresentações e o programa The Symposium. A Fondation Haute Horlogerie participa também através da FHH Academy, que estreia no Sudeste Asiático o Academy Lounge e a possibilidade de realizar a certificação Watch Advisor. A abertura ganha relevância por concentrar num só evento marcas como Breguet, Cartier, Grand Seiko, MB&F, Oris, Parmigiani Fleurier, Ressence, Roger Dubuis, Tudor, Universal Genève e Vacheron Constantin. A organização prevê seis dias de programação e apresenta Banguecoque como um polo asiático de cultura relojoeira. Fonte oficial: https://www.siamparagon.co.th/events/siam-paragon-bangkok-watch-week-2026-172 Roger Dubuis fecha a trilogia Merlin A Roger Dubuis revelou The Metamorph Merlin, último capítulo da sequência Knights of the Round Table dedicada a Merlin. A edição é limitada a 28 exemplares e usa uma caixa de 45 mm em ouro rosa, com anel de safira e, pela primeira vez nesta coleção, carrura gravada à mão em micro-relevo — cerca de 70 horas de trabalho por caixa. O mostrador reúne 12 cavaleiros microesculpidos, com aproximadamente 6 mm de altura, e 57 blocos em vidro, ouro rosa e Crystalium, vários deles com revestimento CVD verde. O movimento automático RD821 trabalha a 28.800 alternâncias por hora, oferece 48 horas de reserva de marcha, tem 33 rubis e recebe acabamentos segundo os critérios do Poinçon de Genève. Fonte oficial: https://www.rogerdubuis.com/watches/knights-of-the-round-table/the-metamorph-merlin-45mm-rddbex1118 Phillips anuncia a coleção Pucci Papaleo A Phillips in Association with Bacs & Russo anunciou a 22 de setembro Stopping Time: The Pucci Papaleo Collection of Rolex Chronographs: Part I. Dezasseis relógios serão oferecidos na Geneva Watch Auction: XXIV, a 7 e 8 de novembro, no Hotel President, em Genebra. A seleção percorre a evolução do cronógrafo Rolex dos anos 1930 aos anos 1970. Entre os destaques estão um Ref. 3525 “Bariletto”, um Ref. 3335 em ouro rosa, o provavelmente único Ref. 3830 de caixa quadrada, um Ref. 6239 “Paul Newman Musketeer” e um Ref. 6264 “Paul Newman Lemon” em ouro amarelo de 14 quilates, possivelmente único na série de 2,3 milhões. Fonte oficial: https://www.phillips.com/press/release/phillips-presents-stopping-time-the-pucci-papaleo-collection-of-rolex-chronographs-part-1 O que merece atenção O dia cruza três escalas diferentes do mercado: a consolidação de um grande encontro relojoeiro asiático, a continuidade dos métiers d’art numa série contemporânea de alta relojoaria e a valorização documental do cronógrafo vintage. Para o colecionador europeu, a coleção Papaleo será especialmente relevante quando chegar a Genebra em novembro.
- Radar Horológico — 22 de setembro de 2026
O dia em resumo A Panerai apresentou hoje três Luminor de 42 mm — PAM01710, PAM01711 e PAM01714 — que levam pela primeira vez a caixa dos anos 90 a este diâmetro, com 500 metros de estanquidade e o calibre automático P.980. A Roger Dubuis encerrou a trilogia Merlin da coleção Knights of the Round Table com The Metamorph Merlin, a primeira da série com caixa gravada à mão. E em Hong Kong, um Cartier Cheich em ouro branco foi vendido pela Sotheby's por 3,38 milhões de dólares, recorde para a marca e para um relógio de quartzo. Panerai leva o Luminor dos anos 90 aos 42 mm A Panerai lançou três novos Luminor baseados nas Ref. 5218-201/A e 5218-202/A, apresentadas em 1993, quando a marca saiu do segredo militar e começou a vender ao público civil. É a primeira vez que o desenho dos anos 90 aparece com 42 mm de diâmetro. Luminor PAM01710, PAM01711 e PAM01714: caixa de 42 x 13,8 mm, 500 m de estanquidade e calibre P.980 com 72 horas de reserva de marcha. © Panerai A caixa mede 42 mm por 13,8 mm de espessura e é estanque até 500 metros — mais do que vários Luminor de maior diâmetro. Mantém a ponte protetora da coroa, cuja alavanca comprime a coroa contra a junta, a solução que define o Luminor desde a origem. O PAM01710 tem mostrador preto e o PAM01711 verde, ambos em aço; o PAM01714, em aço com revestimento DLC preto, tem mostrador azul. Um pormenor a notar: não se trata de mostrador sanduíche. Números e índices são impressos em Super-LumiNova sobre base luminescente, e o pequeno segundo às 9 horas tem ponteiro luminoso. O calibre é o P.980, automático, de 12½ linhas e 4,2 mm de espessura, com 23 rubis, a 28 800 alternâncias/hora e 72 horas de reserva de marcha com um único barrilete, e paragem dos segundos. Três dias de autonomia com um só barrilete a 4 Hz exigem uma mola real longa e um trem de rodagem bem otimizado; é por isso que muitos calibres com esta reserva recorrem a dois barriletes. Os preços são de 6500 euros para as versões em aço e 7500 euros para a versão DLC. Roger Dubuis encerra a trilogia Merlin A Roger Dubuis apresentou o Excalibur Knights of the Round Table The Metamorph Merlin, terceiro e último capítulo da trilogia dedicada ao mago, depois do Omniscient Merlin (2024) e do Enchanter Merlin (2025). O mostrador é uma construção arquitetónica de 57 blocos hexagonais a alturas diferentes, inspirados nas colunas de basalto da Giant's Causeway, na Irlanda do Norte, em quatro materiais: vidro jateado e polido com revestimento CVD verde, vidro transparente, ouro rosa e Crystalium. À volta estão os 12 cavaleiros microesculpidos em ouro rosa, com cerca de 6 mm cada. A novidade é que a narrativa sai do mostrador: pela primeira vez na série, a caixa de 45 mm em ouro rosa é gravada à mão, com Merlin representado em forma humana e animal. Os 16,87 mm de espessura devem-se ao anel lateral de safira que deixa ver as costas dos cavaleiros. O movimento é o automático RD821, com 33 rubis e massa oscilante esqueletizada. A série é limitada a 28 exemplares. Cartier Cheich bate dois recordes em Hong Kong Cartier Cheich em ouro branco, encomendado por Giorgio Seragnoli, vendido por 26,5 milhões de dólares de Hong Kong. © Sotheby's Um Cartier Cheich em ouro branco foi vendido no leilão de Hong Kong da Sotheby's por 26,5 milhões de dólares de Hong Kong com comissões, cerca de 3,38 milhões de dólares. Tornou-se o Cartier mais caro alguma vez vendido em leilão público e o relógio de quartzo mais caro de sempre. O Cheich nasceu como prémio para os vencedores do Rali Paris-Dakar, quando a Cartier patrocinava a prova, e reproduz o emblema do rali: o busto estilizado de um tuaregue de turbante. Foram feitos quatro originais em ouro amarelo; o de Gaston Rahier, vencedor em 1984 e 1985, foi vendido pela Sotheby's em 2022 por pouco mais de um milhão de euros. O exemplar agora vendido foi feito cerca de 25 anos depois, por encomenda do colecionador italiano Giorgio Seragnoli. A estimativa ia de 8 a 40 milhões de dólares de Hong Kong. O que merece atenção Os três assuntos de hoje apontam na mesma direção: a forma e a história pesam cada vez mais no valor de um relógio. A Panerai reduz o diâmetro sem tocar na silhueta, a Roger Dubuis transforma a própria caixa em suporte de gravura, e um relógio de quartzo, sem interesse mecânico, torna-se o mais caro da sua categoria graças ao desenho e à proveniência. Para quem trabalha a mecânica, é um lembrete de que caixa, desenho e história documentada fazem parte integral do objeto relojoeiro.
- Cronómetros de marinha: a relojoaria que tornou possível encontrar a longitude
Durante séculos, um navegador podia determinar a latitude com observações do Sol ou das estrelas, mas continuava sem saber com suficiente precisão quanto tinha avançado para Este ou para Oeste. A longitude exigia uma segunda referência: o tempo. Era necessário transportar a bordo a hora de um meridiano conhecido e compará-la com a hora local obtida astronomicamente. O cronómetro de marinha nasceu para cumprir essa missão — e, para a relojoaria, representou um dos problemas técnicos mais difíceis alguma vez colocados a um mecanismo puramente mecânico. Este artigo aborda o tema sobretudo do ponto de vista relojoeiro: a evolução dos escapes, a gestão da força motriz, a compensação térmica, o balanço e a espiral, a suspensão por cardãs, os ensaios de marcha e as diferentes formas que o cronómetro naval assumiu. Termina com uma leitura técnica do exemplar GUB n.º 7986 que se encontra a bordo do Navio-Escola Sagres. NOTA: O cronómetro de marinha não é um cronógrafo. Um cronógrafo conta tempos independentes; um cronómetro de marinha é um guarda-tempo de precisão, concebido para conservar uma referência horária tão regular quanto possível durante semanas ou meses, sujeito a temperatura, humidade, vibração e movimento do navio. É simultaneamente relógio, instrumento científico e equipamento de navegação. 1. Existem categorias de cronómetros de marinha? Sim — mas não uma única classificação universal A palavra “cronómetro” não designa uma forma física específica, mas um relógio concebido e regulado para atingir uma elevada precisão e, sobretudo, um funcionamento muito estável. No contexto marítimo, convém separar várias categorias que se sobrepõem historicamente. © IPR A primeira é o box chronometer, ou cronómetro de caixa: o instrumento clássico instalado numa caixa de madeira, com o movimento alojado num recipiente metálico — o bowl — suspenso em cardãs. É esta a configuração que hoje associamos mais imediatamente ao cronómetro de marinha, e é também a categoria a que pertence o GUB do NRP Sagres. © IPR Em segundo lugar, encontram-se os pocket chronometers: relógios de bolso de elevada precisão, por vezes equipados com escape de detent e com soluções cronométricas semelhantes às utilizadas nos instrumentos de marinha. John Arnold teve um papel particularmente importante no desenvolvimento desta categoria. Nem todos estes relógios eram utilizados como referência principal a bordo, mas demonstraram que os princípios da cronometria de precisão podiam ser aplicados a instrumentos muito mais pequenos e portáteis. © IPR Uma terceira categoria de grande importância prática é a deck watch, ou relógio de convés. Em muitos navios, o cronómetro principal permanecia protegido no seu local de instalação, enquanto um relógio portátil de elevada precisão, previamente comparado ou sincronizado com ele, era levado para o convés durante as observações astronómicas. Desta forma, evitava-se deslocar desnecessariamente o cronómetro de referência e reduzia-se o risco de choque, alteração de posição ou perturbação da sua marcha. Fabricantes como Ulysse Nardin, Longines, Hamilton e outros produziram deck watches de elevada qualidade para marinhas e serviços hidrográficos. Também é habitual classificar cronómetros pela autonomia — um dia, dois dias, oito dias — embora a designação não corresponda sempre exactamente à duração total da marcha. Os cronómetros de dois dias tornaram-se muito comuns: a autonomia superior a 48 horas permitia dar corda diariamente à mesma hora, mantendo o aparelho longe das zonas extremas da curva de força da mola. Existem ainda cronómetros siderais, destinados a conservar tempo sideral para fins astronómicos, e cronómetros de observatório, cuja classificação decorre sobretudo do regime de ensaio e uso científico. © IPR Finalmente, podemos distinguir cronómetros mecânicos, electromecânicos e de quartzo. Esta classificação tecnológica torna-se especialmente relevante no século XX, quando muitas marinhas mantêm durante algum tempo cronómetros mecânicos em paralelo com referências electrónicas antes da transição definitiva para quartzo, rádio e satélite. 2. Longitude: quando quatro segundos podem significar uma milha náutica A Terra completa aproximadamente 360 graus em 24 horas. Em termos médios, uma diferença de uma hora corresponde portanto a 15 graus de longitude, quatro minutos a um grau e quatro segundos de tempo a um minuto de arco. No equador, um minuto de arco de longitude corresponde aproximadamente a uma milha náutica. Isto permite perceber imediatamente a exigência do problema: poucos segundos de erro acumulado podiam traduzir-se em milhas de incerteza de posição. O método cronométrico baseia-se em comparar a hora local — obtida por observação astronómica — com a hora de referência conservada pelo cronómetro. Se o meio-dia local ocorrer quando o cronómetro indica, por exemplo, 14 horas no meridiano de referência, a diferença de duas horas representa aproximadamente 30 graus de longitude. O cálculo real exige correcções astronómicas e náuticas, mas o princípio é este: transformar diferença horária em ângulo. No início do século XVIII não existia um relógio suficientemente estável para esta função em mar aberto. Um relógio de pêndulo podia ser muito preciso em terra, mas o pêndulo reage à aceleração e à inclinação do navio. Um relógio portátil com balanço enfrentava outros problemas: fricção, qualidade irregular das molas, variações de temperatura, alterações de amplitude, erros do escape e diferenças de marcha entre posições. A longitude tornou-se, por isso, um problema de astronomia aplicado à relojoaria de precisão. Cronómetro de marinha GUB n.º 7986 a bordo do Navio-Escola Sagres. Fotografia do autor. ©IPR 3. Antes de Harrison: Sully, Le Roy, Berthoud e uma história mais europeia do que parece A narrativa popular tende a transformar John Harrison num inventor isolado que, sozinho, resolveu a longitude. Harrison foi decisivo, mas a cronologia real é muito mais rica. Desde o final do século XVII e durante todo o século XVIII, relojoeiros ingleses, franceses e suíços experimentaram soluções destinadas a conservar o tempo no mar. Alguns desenvolveram máquinas que falharam, outros chegaram a soluções tecnicamente notáveis mas difíceis de fabricar, e outros criaram ideias que só mais tarde seriam incorporadas no cronómetro clássico. Henry Sully (provavelmente, à esquerda) e o seu cronómetro, o Marine timekeeper by Henry Sully, Paris, 1724 Henry Sully, inglês estabelecido em França, construiu relógios de mar nas primeiras décadas do século XVIII e publicou trabalho importante sobre o tema. Os seus instrumentos não resolveram definitivamente o problema, mas pertencem à linhagem que antecede Harrison. O próprio Royal Museums Greenwich coloca Sully entre os primeiros capítulos da evolução da cronometria marítima. Retrato atribuído a Pierre Le Roy, esquema do seu escape de detent e foto do seu cronómetro Em França, Pierre Le Roy foi uma figura fundamental. A historiografia relojoeira atribui-lhe uma das primeiras formulações do escape de detent e, sobretudo, uma compreensão muito clara de que precisão cronométrica exigia separar funções: um oscilador tão livre quanto possível, impulso breve e controlado e compensação dos efeitos da temperatura. Le Roy é um dos exemplos clássicos de um nome de enorme importância técnica que permanece muito menos conhecido do público do que Harrison. Retrato de Ferdinand Berthoud e fotos do seu cronómetro de marinha Ferdinand Berthoud merece igualmente lugar de primeiro plano. Apresentou à Academia Real das Ciências francesa um projecto de relógio de mar em 1760, produziu vários instrumentos experimentais, acompanhou directamente a discussão europeia sobre Harrison e, a partir de 1768, viu os seus relógios n.º 6 e n.º 8 ensaiados numa viagem de pouco mais de um ano. Em 1770 recebeu o título de Horloger-Mécanicien du Roi et de la Marine e uma encomenda para vinte relógios de longitude. Berthoud não foi um imitador tardio: foi um investigador sistemático que publicou teoria, construção, ensaio e uso dos relógios de mar. A história da longitude é, portanto, uma história internacional. A solução mecânica não surgiu num instante; formou-se por acumulação de experiências sobre escapes, compensação, molas, balanços, materiais, lubrificação e métodos de ensaio. Harrison ocupa o centro da narrativa britânica, mas a relojoaria continental desenvolveu em paralelo soluções de enorme profundidade. 4. John Harrison: de H1 a H4 — quatro máquinas, quatro maneiras de pensar o problema John Harrison, H1, 1735. O primeiro relógio de mar experimental de Harrison substitui o pêndulo por dois grandes balanços interligados, concebidos para reduzir a influência dos movimentos do navio. Ilustração a partir de fotografia do National Maritime Museum, Greenwich, inv. ZAA0034 (fundo alterado). Harrison começou por atacar o problema como construtor de relógios de grande formato. H1, apresentado em 1735, é uma máquina monumental e quase arquitectónica. Em vez de um pêndulo, utiliza dois grandes balanços interligados, procurando que as perturbações do navio afectem os dois de forma compensada. O conjunto adopta soluções de baixo atrito e uma preocupação obsessiva com estabilidade térmica e isocronismo. John Harrison, H2, 1737–1739. Evolução do H1, incorporando um remontoire para uniformizar a força transmitida aos balanços. Harrison detectou, porém, uma falha fundamental no sistema regulador e decidiu não submeter o instrumento aos ensaios marítimos previstos. Ilustração a partir de fotografia do National Maritime Museum, Greenwich, inv. ZAA0035 (fundo alterado). H2 aperfeiçoou alguns elementos, mas Harrison detectou um problema fundamental no comportamento do sistema e decidiu não o submeter às provas oceânicas previstas. H3 de John Harrison, concluído em 1759. A terceira máquina de Harrison incorporava soluções inovadoras como compensação bimetálica e rolamentos de rolos, mas os grandes balanços nunca atingiram a constância necessária para resolver definitivamente o problema da longitude. Ilustração a partir de fotografia do National Maritime Museum, Greenwich, inv. ZAA0036 (fundo alterado). H3 ocupou Harrison durante cerca de dezanove anos. É tecnicamente fascinante porque contém ideias que ultrapassam a navegação: elementos bimetálicos de compensação e um sistema de rolamentos de rolos que procura reduzir o atrito. Ainda assim, a máquina não atingiu a constância pretendida. O mais importante é perceber que o fracasso parcial de H3 empurrou Harrison numa direcção diferente: em vez de continuar a aumentar a sofisticação de uma grande máquina, aproximou-se da arquitectura do relógio portátil. Por volta de 1751-1753, John Jefferys construiu um relógio segundo especificações de Harrison. O comportamento desse relógio convenceu Harrison de que um balanço relativamente grande, oscilando a alta frequência e com grande amplitude, podia ser mais resistente às perturbações do navio do que os grandes sistemas de balanços emparelhados. Daí nasce H4, iniciado em 1755 e concluído em 1759. Relógio de John Jefferys, 1753, construído segundo indicações de John Harrison. O seu desempenho levou Harrison a abandonar progressivamente a arquitectura das grandes máquinas H1–H3 e a explorar um regulador portátil de alta energia. Clockmakers’ Museum / Science Museum Group, inv. L2015-3215. H4 parece um enorme relógio de bolso, mas a semelhança é enganadora. O seu balanço trabalha a cinco batimentos por segundo, muito rapidamente para os padrões da época, e com elevada energia. Harrison utiliza um escape de verge profundamente refinado, com palhetas de diamante, e um sistema de remontoire/força constante destinado a isolar o regulador de variações da transmissão. Ao contrário daquilo que muitas sínteses deixam entender, H4 não é ainda o cronómetro clássico de detent que dominará o século XIX; é uma solução muito pessoal de Harrison, de enorme complexidade e difícil reprodução. John Harrison, H4, 1759. Com aproximadamente 13 cm de diâmetro e um balanço de alta frequência e grande amplitude, o quarto relógio de longitude de Harrison representou uma mudança radical relativamente aos grandes mecanismos anteriores. Ilustração a partir de fotografia do National Maritime Museum, Greenwich, inv. ZAA0037 (fundo alterado). As viagens de prova de H4 provaram que a via mecânica podia funcionar. O instrumento cumpriu os limites mais exigentes previstos pelo Longitude Act, embora a atribuição integral do prémio tenha sido politicamente e institucionalmente conturbada. Harrison acabou recompensado pelo Parlamento, mas a verdadeira questão que ficou por resolver era outra: como transformar uma obra-prima quase irrepetível num instrumento que dezenas ou centenas de navios pudessem comprar, manter e usar? 5. O problema seguinte: não bastava funcionar, era preciso poder fabricar Harrison demonstrou a possibilidade. Larcum Kendall, John Arnold e Thomas Earnshaw ajudaram a transformá-la numa tecnologia reproduzível. Kendall construiu K1 como cópia muito fiel de H4. O instrumento acompanhou James Cook na segunda viagem ao Pacífico, entre 1772 e 1775, e Cook registou favoravelmente a sua exactidão. K1 teve enorme importância porque mostrou que a solução podia sair da oficina de Harrison e funcionar em serviço real, ainda que o custo continuasse demasiado elevado para uma adopção generalizada. John Arnold seguiu uma estratégia diferente: simplificar. Desenvolveu cronómetros de menor custo, trabalhou intensamente em balanços de compensação e espirais helicoidais e aperfeiçoou o escape de detent. O seu n.º 36, de 1778, é historicamente importante e está associado à consolidação do termo chronometer aplicado a um relógio de precisão portátil. Arnold percebeu que o futuro não estava em copiar H4 peça por peça, mas em reduzir o número de elementos, tornar o ajuste mais racional e aproximar a produção de uma escala comercial. À esquerda: John Arnold com a família, acompanhado pelo filho John Roger Arnold e pela mulher, Margaret. Pintura de Robert Davy, c. 1783–1787. Clockmakers’ Museum / Science Museum Group. À direita: Cronómetro de marinha John Arnold & Son, Londres, c. 1795. Fotografia: Daderot / Wikimedia Commons, CC0. Thomas Earnshaw levou essa simplificação ainda mais longe. A disputa de prioridade entre Arnold e Earnshaw sobre o spring detent escapement nunca desapareceu inteiramente da historiografia, mas a consequência prática é inequívoca: a configuração associada a Earnshaw tornou-se o padrão dominante do cronómetro de marinha dos séculos XIX e XX. O Board of Longitude chegou, em 1804, a mandar construir modelos dos sistemas de Earnshaw e de John Roger Arnold para estudar a questão. Ambos receberam recompensas pelo contributo para o avanço dos timekeepers de marinha. Thomas Earnshaw (1749–1829). Retrato com um cronómetro do tipo que ajudou a estabelecer como padrão da cronometria marítima. National Maritime Museum, Greenwich. Thomas Mudge, Josiah Emery e outros construtores também desenvolveram cronómetros e escapes de grande interesse. A história efectiva é menos linear do que uma sequência ‘Harrison → cronómetro moderno’: há várias famílias técnicas em competição, e a selecção do padrão final resulta tanto do desempenho como do custo, facilidade de regulação, manutenção e capacidade de produção. 6. O escape: de Harrison ao detent © IPR O escape é o órgão que transforma a energia contínua das rodagens numa sequência de impulsos e, ao mesmo tempo, permite ao oscilador determinar o ritmo do relógio. Num cronómetro de precisão, o ideal é que o escape interfira o mínimo possível com o balanço. Quanto mais tempo o balanço estiver livre, menos o seu período depende do estado da transmissão de força, da lubrificação ou da geometria das superfícies de contacto. H4 constitui uma excepção histórica importante. Harrison utilizou uma forma extremamente aperfeiçoada do verge escapement, normalmente considerado um escape arcaico e de forte recuo. Com palhetas de diamante, elevada frequência, amplitudes cuidadosamente controladas e um sistema sofisticado de força constante, conseguiu extrair deste princípio um desempenho extraordinário. Isto mostra que, em relojoaria, não basta identificar o ‘tipo’ de escape: a qualidade do desenho completo e do ajuste pode alterar radicalmente o resultado. Cronómetro de marinha em caixa de madeira, suspenso em cardãs. À direita, vista do movimento no interior do bowl, com destaque para a arquitectura mecânica de precisão típica destes instrumentos. O caminho que acabou por vencer foi o detent escapement. Na versão pivoted detent, o detent gira em pivôs. Na versão spring detent, o próprio elemento elástico substitui os pivôs e reduz a fricção. O princípio é de escape destacado: durante quase toda a oscilação, o balanço não está em contacto com o escape. Apenas numa passagem o balanço desbloqueia a roda de escape e recebe impulso; na oscilação de retorno, o sistema permite a passagem sem novo impulso. As vantagens são enormes: pouco atrito deslizante, impulso breve e próximo de uma tangente, necessidade reduzida de lubrificação nas superfícies críticas e liberdade do balanço durante a maior parte do ciclo. A desvantagem é a delicadeza. O detent escapement é sensível a choques, exige tolerâncias muito precisas e, em muitas configurações, não é auto-arrancável. Num relógio de bolso quotidiano isto seria problemático; num cronómetro protegido, montado em cardãs e manuseado por profissionais, a troca fazia sentido. Cronómetro de Thomas Earnshaw associado ao HMS Beagle. O movimento utiliza fusée, maintaining power de Harrison, escape spring-detent, balanço bimetálico compensado e espiral helicoidal livre. Fotografia: BabelStone / Wikimedia Commons, CC0. 7. Fuso (Fusée), corrente e maintaining power: como entregar força sem estragar a marcha Fuso, corrente e tambor. Com a corda toda, a mola está mais forte e a corrente puxa no raio mais pequeno do fuso; no fim da corda, a mola está mais fraca e a corrente actua no raio maior. O produto da força pelo raio mantém o binário quase constante. Ilustração: © IPR A mola real não fornece o mesmo binário quando está totalmente carregada e quando se aproxima do fim da reserva. Num relógio comum, o escape e o regulador podem tolerar parte dessa variação. Num cronómetro de marinha, uma alteração de amplitude do balanço pode provocar alteração de marcha e, portanto, erro de longitude. O fuso com corrente é uma solução mecânica elegante para linearizar a entrega de força. A mola acciona uma corrente — ou, em alguns cronómetros, uma lâmina metálica flexível — enrolada entre o tambor e uma peça cónica chamada fusée. Quando a mola está forte, a corrente actua numa zona de menor raio; à medida que a mola enfraquece, passa para uma zona de maior braço de alavanca. O perfil da fusée é calculado para compensar a curva de binário da mola. O resultado ideal é uma força muito mais constante aplicada ao trem. Surge então outro problema: durante a corda, se a transmissão for interrompida, o cronómetro deixa momentaneamente de receber energia. Harrison desenvolveu por isso um dispositivo de manutenção da marcha durante o período da corda, que mantém as rodagens alimentadas, pelo menos enquanto a mola real é armada. Este mecanismo tornou-se uma característica clássica de muitos cronómetros de elevada qualidade e mostra bem até que ponto cada operação susceptível de perturbar a marcha era tratada como uma potencial fonte de erro cronométrico. A regularidade da corda era igualmente importante. Era habitual dar corda ao cronómetro aproximadamente à mesma hora todos os dias, mantendo-o dentro de uma zona de funcionamento mais previsível e evitando variações desnecessárias no estado de tensão da mola real. O indicador do estado de corda — Up/Down ou Auf/Ab — não era, por isso, uma complicação decorativa, mas um elemento funcional de controlo do instrumento. 8. Balanço e espiral: onde se ganha ou perde a precisão O órgão regulador é o verdadeiro relógio dentro do relógio. O balanço oscila; o escape transforma essas oscilações no avanço regular das rodagens. Num cronómetro clássico procura-se um balanço grande, com elevada inércia, cuidadosamente equilibrado e associado a uma espiral cujo desenvolvimento seja tão concêntrico quanto possível. A espiral helicoidal, em forma de cilindro, tornou-se uma solução frequente porque permite uma expansão e contracção mais simétricas do que muitas espirais planas da época. Muitos cronómetros utilizam um balanço de regulação livre (free-sprung), sem raqueta convencional para alterar o comprimento activo da espiral. A regulação é feita através da inércia do balanço, por massas ou parafusos de compensação. Isto elimina um ponto de perturbação na espiral e torna o sistema potencialmente mais estável. A afinação fina exige, contudo, enorme perícia. A temperatura foi durante muito tempo o grande inimigo. O módulo elástico do aço da espiral varia com a temperatura; simultaneamente, os componentes do balanço dilatam. O balanço bimetálico cortado explora a diferença de expansão entre dois metais: à medida que a temperatura sobe, os braços curvam-se e deslocam massa para mais perto do eixo, compensando a tendência da espiral para fazer o relógio atrasar. Parafusos distribuídos no aro permitem ao relojoeiro ajustar cuidadosamente a compensação. Mesmo esta solução não é perfeita. Um balanço bimetálico pode ser correctamente compensado nos extremos de uma gama de temperatura e ainda apresentar erro nas temperaturas intermédias — o chamado middle-temperature error. No século XIX surgiram sistemas de compensação auxiliar e, mais tarde, ligas especiais como o Guillaume balance e espirais de baixa sensibilidade térmica. A história do cronómetro é, em grande parte, a história de uma luta sucessiva contra erros cada vez menores. 9. Isocronismo, amplitude, equilíbrio estático do balanço e erros de posição Isocronismo, equilíbrio do balanço e posições. Um regulador isócrono mantém o mesmo período com amplitudes diferentes; um balanço desequilibrado altera a marcha nas posições verticais; os cardãs mantêm o cronómetro de caixa horizontal, enquanto os relógios de convés são regulados em várias posições. Ilustração: © IPR Um regulador ideal teria o mesmo período independentemente da amplitude. Na realidade, alterações de amplitude modificam ligeiramente a marcha. O objectivo do isocronismo é reduzir essa dependência. O desenho da espiral, a forma das curvas terminais, a relação entre balanço e espiral, a constância da força e o escape participam todos no resultado. É por isso que a cronometria não pode ser entendida olhando apenas para um componente isolado. O equilíbrio estático do balanço — e, idealmente, também o dinâmico — é igualmente crítico. Se o centro de massa não coincide com o eixo, a gravidade introduz erros dependentes da posição. Num cronómetro de caixa, a suspensão por cardãs reduz a diversidade de posições do movimento, mantendo-o aproximadamente horizontal, mas não elimina a necessidade de equilíbrio preciso. Deck watches e pocket chronometers, por outro lado, são regulados para múltiplas posições porque passam muito mais tempo verticais ou inclinados. As folgas axiais, a geometria dos pivôs, a qualidade das pedras e a viscosidade dos lubrificantes também alteram a amplitude e a marcha. O cronómetro é um sistema em que micrómetros de diferença, pequenas contaminações ou óleo envelhecido podem tornar-se segundos por dia. Por isso, a manutenção de um cronómetro exige métodos de relojoaria de precisão e não apenas ‘limpar e lubrificar’. 10. Regulação e ensaios: o valor está na marcha conhecida, não em marcar a hora exacta hoje Um princípio essencial da cronometria naval é frequentemente mal compreendido: não é indispensável que o cronómetro marque exactamente a hora correcta a cada instante; é indispensável conhecer o seu erro e, sobretudo, que a sua marcha seja regular. Se um cronómetro adianta 0,8 segundos por dia de forma extremamente constante, esse desvio pode ser aplicado matematicamente. Um relógio que hoje está certo, amanhã atrasa três segundos e no dia seguinte adianta dois é muito menos útil. Os observatórios e serviços hidrográficos desenvolveram provas sistemáticas: marcha em diferentes temperaturas, alterações de posição, variações de amplitude e períodos prolongados de observação. As competições e testes dos séculos XIX e XX não eram meras demonstrações comerciais; funcionavam como laboratórios onde se avaliava a estabilidade de um instrumento em condições padronizadas. A ficha de um cronómetro podia registar diariamente a diferença em relação ao padrão. A partir dessa série obtinha-se a marcha média e observavam-se variações. Para navegação, o oficial aplicava ao tempo indicado o erro conhecido do instrumento. Esta cultura de medição — medir o próprio erro do aparelho de medir — é uma das ideias mais importantes herdadas da cronometria marítima. 11. A suspensão por cardãs e a caixa: parte do mecanismo, não simples mobiliário Cronómetro de marinha suspenso em cardãs no interior da caixa de madeira. O sistema permite que o bowl se mantenha aproximadamente horizontal quando o navio adorna ou cabeceia. © IPR O recipiente metálico que contém o movimento é montado em dois anéis com eixos perpendiculares — a suspensão por cardãs. Quando o navio adorna ou cabeceia, a gravidade tende a manter o conjunto interior aproximadamente horizontal. Isto reduz erros de posição e protege a relação geométrica do escape e do regulador. É por isso que a suspensão deve ser entendida como parte funcional do instrumento cronométrico. A caixa de madeira tem também funções precisas: amortecer choques, limitar poeira, proteger o vidro e a suspensão e permitir transporte seguro. Muitas possuem tampas em dois níveis, visores, alojamento para chave e placas com instruções. Alguns modelos incluem dispositivos para bloquear os cardãs durante transporte. Transportar um cronómetro desbloqueado ou pousá-lo sem consideração pela suspensão pode produzir esforços para os quais o sistema não foi pensado. O cronómetro do Sagres na sua caixa. São visíveis a suspensão cardânica, a caixa de transporte e a configuração de instrumento naval. Fotografia do autor. 12. Como se usava um cronómetro a bordo Antes da partida, o cronómetro era comparado com uma referência horária conhecida. A bordo, era mantido em funcionamento contínuo e normalmente não se mexia nos ponteiros todos os dias para o ‘acertar’. Registavam-se o erro e a marcha. Quando era necessário obter a hora de Greenwich — ou de outro meridiano de referência — aplicava-se a correcção calculada ao que o instrumento mostrava. A determinação da longitude por cronómetro implicava ainda sextante, observações do Sol ou estrelas, almanaques náuticos e cálculo. O cronómetro não ‘dizia a posição’; fornecia a variável temporal indispensável. A qualidade de todo o processo dependia tanto da relojoaria como da observação e da disciplina matemática do navegador. Em navios importantes era frequente haver vários cronómetros. A comparação entre eles permitia detectar uma mudança anormal de marcha num instrumento. A redundância era essencial porque, no oceano, uma falha não podia ser resolvida enviando simplesmente o aparelho à oficina. O relógio de convés, quando existente, era sincronizado com o cronómetro principal e usado para levar a hora até ao local da observação sem deslocar o instrumento mestre. A partir do século XIX, sinais horários visuais em portos — como time balls — e depois o telégrafo e a rádio facilitaram a comparação e correcção. Mesmo assim, o cronómetro continuava a ser importante como reserva autónoma e como elo entre a observação astronómica e a hora padrão. 13. Glashütte: quando a cronometria alemã entra no mar Glashütte tornou-se durante o século XIX um centro de relojoaria de precisão e começou a produzir cronómetros de marinha em 1886. A tradição alemã desenvolveu instrumentos para marinhas, observatórios e navegação comercial, combinando a arquitectura internacional do cronómetro clássico com normas próprias de produção e ensaio. Depois da Segunda Guerra Mundial, a indústria de Glashütte situada na Alemanha Oriental foi reorganizada. Em 1951 várias empresas foram reunidas no VEB Glashütter Uhrenbetriebe, GUB. A produção de cronómetros mecânicos de marinha continuou durante décadas. O Deutsches Uhrenmuseum Glashütte documenta, por exemplo, o cronómetro GUB n.º 8888 como produzido em 1965 e indica que a fábrica manteve a produção de cronómetros mecânicos até 1978, em paralelo com cronómetros de quartzo a partir de 1974. Os cronómetros GUB inserem-se plenamente na tradição do cronómetro de caixa: movimento de grandes dimensões, escape de cronómetro, balanço compensado, espiral adequada ao serviço cronométrico, indicação de segundos e estado de corda, além de suspensão cardânica. A escola de Glashütte valorizava acabamento funcional e precisão; nestes instrumentos, a decoração é secundária perante estabilidade e facilidade de manutenção. 14. O GUB n.º 7986 do Navio-Escola Sagres Nas fotografias feitas a bordo do Navio-Escola Sagres é possível identificar claramente um cronómetro GUB — Glashütter Uhrenbetriebe — com o número 7986 no mostrador. A organização é clássica: horas e minutos centrais, pequenos segundos às 6 horas, numerais romanos e indicador de reserva de marcha às 12 horas. As inscrições ‘AUF’ e ‘AB’ correspondem à indicação alemã do estado de corda. Cronómetro de marinha GUB n.º 7986 do NRP Sagres, montado em cardãs no interior da sua caixa de madeira. São visíveis o mostrador principal, os pequenos segundos e o indicador do estado de corda Auf/Ab. Fotografia: IPR. © IPR O conjunto está montado num bowl metálico suspenso por cardãs dentro de uma caixa de madeira. A leitura superior e a elevada legibilidade do mostrador foram pensadas para serviço instrumental. O número 7986 situa o exemplar, por comparação com números GUB documentados, plausivelmente nos primeiros anos da década de 1960. O próprio museu alemão refere possuir a documentação comercial dos cronómetros GUB e poder produzir informações de arquivo. É igualmente importante não extrapolar demasiado a partir do mostrador. Para documentar tecnicamente este exemplar de forma definitiva, seria necessário abrir o instrumento em condições controladas e fotografar o movimento: escape, balanço, espiral, fusée, rodagens, marcas de fabricante, números internos e eventuais sinais de reparação. Num instrumento que serviu durante décadas, peças podem ter sido substituídas e ajustes podem não corresponder exactamente ao estado de fábrica. O valor do n.º 7986 é duplo. É um exemplo físico da cronometria de Glashütte no século XX e, ao mesmo tempo, um objecto inserido num dos símbolos maiores da marinha portuguesa. Num navio-escola, o cronómetro tem ainda valor pedagógico: torna tangível a relação entre relojoaria, astronomia, navegação e disciplina de bordo. 15. Do cronómetro mecânico ao quartzo, rádio e GPS O século XX alterou progressivamente o papel operacional do cronómetro mecânico. Primeiro, os sinais horários por rádio permitiram comparar a hora de bordo com padrões externos sem entrar num porto. Depois, os osciladores de quartzo ofereceram uma estabilidade muito superior com muito menos manutenção. A GUB é um bom exemplo da transição: cronómetros mecânicos continuaram a ser fabricados até 1978, enquanto a produção de quartzo começou em 1974. Os sistemas de navegação por satélite acabaram por transformar completamente o problema. O GPS fornece simultaneamente posição e uma referência temporal extremamente precisa. Aquilo que durante dois séculos exigia um cronómetro, sextante, almanaque e cálculo pode hoje ser obtido electronicamente em segundos. Mas isso não torna o cronómetro irrelevante historicamente; torna ainda mais notável o que os relojoeiros conseguiram alcançar apenas com molas, rodas, pivôs, pedras, metais compensadores e um oscilador mecânico. Há também uma lição contemporânea de redundância. A navegação moderna depende de sistemas electrónicos extraordinariamente eficazes, mas a formação marítima continua a valorizar métodos independentes. Conhecer a navegação astronómica e compreender o cronómetro de marinha é compreender como se constrói uma cadeia de determinação de posição que não depende de uma única tecnologia. 16. Porque o cronómetro de marinha é uma das grandes máquinas da história da relojoaria O cronómetro de marinha obrigou os relojoeiros a transformar conceitos abstractos — isocronismo, elasticidade, expansão térmica, fricção, binário — em metal trabalhado à mão. O resultado não foi apenas um relógio mais preciso. Foi uma tecnologia que alterou navegação, cartografia, comércio, exploração científica e poder naval. Poucas áreas mostram de forma tão directa a passagem da relojoaria de arte mecânica para ciência de precisão. Harrison provou que era possível. Le Roy e Berthoud desenvolveram soluções próprias e uma teoria rigorosa. Kendall demonstrou a viabilidade em serviço. Arnold simplificou e miniaturizou. Earnshaw ajudou a estabelecer a arquitectura que dominaria a produção durante mais de um século. Depois vieram fabricantes britânicos, suíços, americanos, alemães e outros, levando o cronómetro a um grau de maturidade quase industrial sem abandonar a exigência artesanal da regulação fina. O GUB n.º 7986 do Navio-Escola Sagres é uma peça tardia dessa longa tradição. O seu mostrador, a suspensão cardânica, a reserva de marcha e o conjunto em caixa de madeira são o resultado visível de mais de duzentos anos de tentativas para fazer uma coisa aparentemente simples: levar a hora certa através do oceano. Bibliografia e fontes de referência Museus Reais de Greenwich (Royal Museums Greenwich) — colecções e documentação relativas aos cronómetros H1, H2, H3 e H4, à história do problema da longitude, a John Harrison, John Arnold, Thomas Earnshaw, ao K1 de Larcum Kendall e aos registos de cronómetros do Observatório Real de Greenwich. Museu Alemão de Relojoaria de Glashütte (Deutsches Uhrenmuseum Glashütte) — colecção de cronómetros de marinha e documentação histórica sobre o desenvolvimento, produção e comercialização destes instrumentos em Glashütte, incluindo os fabricados pelo VEB Glashütter Uhrenbetriebe (GUB). Ferdinand Berthoud — documentação histórica relativa aos relógios de mar n.os 1, 6 e 8, aos ensaios navais franceses, às publicações de Ferdinand Berthoud e à sua actividade como Horloger-Mécanicien du Roi et de la Marine. Jonathan Betts, Marine Chronometers at Greenwich: A Complete History of the Marine Timekeepers at the Royal Observatory from John Harrison to the Present Day. Jonathan Betts, John Harrison and the Quest for Longitude. Rupert T. Gould, The Marine Chronometer: Its History and Development. Hans von Bertele, Marine- und Taschenchronometer.
- 21 de Setembro
O dia em resumo A Portojóia fechou ontem, 20 de setembro, quatro dias na Exponor, em Matosinhos, mantendo no centro da agenda portuguesa a ligação entre joalharia, ourivesaria, relojoaria, formação e tecnologia. Em Genebra, a M.A.D.Gallery encerrou no mesmo dia o pop-up dedicado a Yinka Ilori e à série M.A.D.1S “Grow Your Dreams”, três edições de 400 exemplares que cruzam relojoaria acessível, cor e design contemporâneo. O fim de semana suíço ficou ainda marcado pelo Rolex Switzerland Sail Grand Prix, disputado a 19 e 20 de setembro no Lago Léman, num encontro em que cronometragem, tecnologia e desporto voltaram a cruzar-se em casa da relojoaria genebrina. Portojóia fecha a 35.ª edição com o setor português em foco A Portojóia terminou ontem na Exponor a edição de 2026. O certame decorreu de 17 a 20 de setembro e reuniu cerca de uma centena de expositores num formato profissional dirigido a marcas, designers, artesãos, retalhistas, fornecedores e entidades do setor. A organização voltou a apresentar a feira como o maior encontro nacional de joalharia, ourivesaria e relojoaria. Portojóia 2026 decorreu de 17 a 20 de setembro na Exponor, em Matosinhos. © Exponor O mote “Luxury Redefined” colocou a autenticidade, a sustentabilidade e a exclusividade no centro da discussão. A componente tecnológica teve também peso: entre os temas promovidos pela organização esteve o impacto da inteligência artificial nos processos de criação, produção, comunicação e comercialização, num setor em que técnicas manuais e formação especializada continuam a ser estruturais. Para a relojoaria portuguesa, o interesse da Portojóia está menos num calendário de grandes lançamentos internacionais e mais na concentração, num único espaço, de retalho, equipamentos, formação e indústria. A lista de expositores incluiu empresas de ferramentas e tecnologia, entidades setoriais e o CINDOR, mantendo visível a dimensão técnica e profissional que sustenta os ofícios ligados à joalharia e à relojoaria. M.A.D.Gallery encerra o pop-up de Yinka Ilori A MB&F concluiu ontem, 20 de setembro, na M.A.D.Gallery de Genebra, o pop-up dedicado ao artista britânico-nigeriano Yinka Ilori. A instalação, aberta desde 19 de agosto, colocou em contexto a colaboração “Grow Your Dreams”, construída sobre o M.A.D.1S e dividida em três interpretações — Sun, Nature e Water — limitadas a 400 exemplares cada. M.A.D.1S “Grow Your Dreams” em versão Sun, criada com Yinka Ilori. © MB&F A colaboração usa a arquitetura visual do M.A.D.1S como suporte para a linguagem cromática de Ilori. As três versões recebem combinações deliberadamente contrastantes nas correias e no conjunto de mostrador e rotor, enquanto o motivo de folhas nas correias remete para a ideia de crescimento que atravessa o trabalho do artista. Cada relógio é fornecido também com uma segunda correia branca. As três interpretações Sun, Nature e Water da série M.A.D.1S “Grow Your Dreams”. © MB&F O encerramento do pop-up não é um novo lançamento de produto, mas assinala o fim de uma apresentação física particularmente coerente com a lógica da M.A.D.Gallery: tratar o relógio como objeto inserido num universo mais amplo de arte cinética, design e cultura visual. É precisamente essa fronteira que torna a série interessante para além da sua paleta exuberante. Notícias breves Rolex voltou a associar a sua identidade de cronometragem ao SailGP no regresso do campeonato a Genebra. A prova decorreu a 19 e 20 de setembro no Lago Léman, com 13 equipas na temporada de 2026. A marca é parceira fundadora e Official Timepiece desde o início do campeonato, em 2019, e tornou-se Title Partner antes da temporada de 2025. O que merece atenção A Portojóia continua a ser um barómetro útil para perceber a infraestrutura portuguesa que rodeia os ofícios do luxo — formação, ferramentas, retalho, produção e comunicação — mesmo quando o relógio não é o protagonista absoluto. Em paralelo, o encerramento da instalação de Yinka Ilori mostra uma direção cada vez mais visível entre independentes: apresentar relojoaria através de ambientes culturais próprios, em vez de limitar a experiência ao lançamento isolado de uma referência.
- 18 de Setembro
O dia em resumo A Watches and Wonders Geneva confirmou a expansão da edição de 2027 para 75 expositores, com 13 novas marcas, nova cenografia e um programa In The City que ocupará toda a semana de 5 a 11 de abril. A Grand Seiko recupera uma referência discreta mas importante da sua história moderna com a SBGW325, enquanto a Ressence transforma o Type 9 numa peça de arte cinética em colaboração com Jules Wittock. Blancpain, Arnold & Son e Hamilton completam um dia particularmente variado, entre miniaturização mecânica, métiers d’art e a aproximação da relojoaria ao universo dos videojogos. Watches and Wonders Geneva 2027 cresce para 75 marcas A Watches and Wonders anunciou a 17 de setembro a configuração alargada da edição de 2027, que decorrerá em Genebra de 5 a 11 de abril. O salão passa a contar com 75 marcas e recebe 13 novos participantes: Akhor, Alain Silberstein, Berneron, Breva Genève, Fortis, Kerbedanz, Porsche Design, Singer Reimagined e Stollenwurm, a que se juntam Breitling, Damiani, Gallet e Universal Genève, já anunciadas em junho. Watches and Wonders Geneva 2027 decorre de 5 a 11 de abril e reunirá 75 marcas. © Watches and Wonders A organização apresenta também uma nova cenografia inspirada nas paisagens de Genebra e arredores, com corredores mais amplos, e estende o programa In The City aos sete dias. O calendário público incluirá Watchmaking Village, ativações em boutiques, encontros com artesãos, demonstrações, experiências imersivas e iniciativas culturais e musicais. A ampliação confirma a tendência de abertura do grande salão genebrino a independentes, marcas de nicho e projetos de perfis muito diferentes. Grand Seiko SBGW325 recupera os algarismos árabes de 2001 A Grand Seiko apresentou a 17 de setembro a SBGW325, uma edição limitada a 600 exemplares que assinala os 25 anos da SBGW003, o primeiro modelo da marca equipado com um movimento mecânico 9S de corda manual. A nova referência mantém uma caixa compacta em aço de 37,3 mm, 44,3 mm entre asas e 11,7 mm de espessura, com vidro de safira box e fundo transparente. Grand Seiko SBGW325: 37,3 mm, calibre manual 9S64 e edição limitada a 600 exemplares. © Grand Seiko O mostrador azul-marinho recupera os algarismos árabes elevados da peça de 2001 e é acompanhado por uma correia de crocodilo tingida à mão com a técnica japonesa hon-ai de índigo natural. O calibre 9S64, de corda manual, trabalha a 4 Hz e oferece cerca de 72 horas de reserva de marcha. A disponibilidade europeia está prevista para outubro de 2026, exclusivamente nas boutiques Grand Seiko, por 5.700 euros. Ressence Type 9 transforma um labirinto de Jules Wittock em mostrador A Ressence apresentou a 17 de setembro a nova edição Art Watch do Type 9, desenvolvida com o artista belga Jules Wittock. O seu trabalho assenta em labirintos desenhados à mão, e a colaboração transporta essa linguagem gráfica para o mostrador orbital do relógio, criando uma composição que muda continuamente à medida que os discos de indicação rodam. Ressence Type 9 Jules Wittock: o labirinto integra-se no sistema orbital de indicação. © Ressence O Type 9 mantém a caixa polida em titânio grau 5 de 39 mm e 11 mm de espessura e o sistema patenteado ROCS 9, acionado por uma base 2892/2 modificada e reforçada. O movimento automático trabalha a 28.800 alternâncias por hora e oferece 36 horas de reserva de marcha. As variantes JWB e JWE são anunciadas a 26.200 euros, IVA incluído, numa peça em que o mecanismo de leitura se torna parte do próprio desenho artístico. Notícias breves Blancpain apresentou a 17 de setembro a Lady B, celebrando os 70 anos da Ladybird. A caixa esférica mede apenas 19 mm de diâmetro e 2,9 cm³ de volume e recebe o calibre automático de manufatura 615. A peça recupera a ideia de miniaturização mecânica da Ladybird Bullet de 1956 e presta homenagem a Betty Fiechter, pioneira na liderança de uma manufatura suíça. Arnold & Son revelou a Perpetual Moon 41.5 Platinum “Horse of the Dunes”, limitada a oito exemplares. A caixa de platina de 41,5 mm enquadra um cavalo aplicado em ouro branco de 18 quilates, gravado à mão, sobre um mostrador de aventurina com dunas pintadas manualmente. O calibre manual A&S1512 oferece 90 horas de autonomia e uma indicação lunar cuja diferença teórica de um dia só se acumula após 122 anos. Hamilton revelou uma nova Khaki Field Mechanical de 38 mm ligada a Call of Duty: Modern Warfare 4. A caixa em aço com PVD preto, o mostrador texturado e os códigos gráficos inspirados no jogo acompanham o calibre manual H-50, com 80 horas de reserva de marcha. O relógio surge associado ao Capitão Price e antecipa o lançamento do jogo marcado para 23 de outubro. O que merece atenção A edição de 2027 da Watches and Wonders merece acompanhamento pela diversidade dos novos expositores: a presença simultânea de nomes como Berneron, Singer Reimagined, Alain Silberstein, Fortis e Porsche Design alarga o espectro do salão para além das grandes maisons tradicionais. No plano técnico, a SBGW325 mostra como uma marca pode usar uma edição limitada para recuperar uma linguagem histórica sem recorrer a uma complicação nova; a Ressence segue a direção oposta e utiliza a própria arquitetura de indicação como suporte para uma obra gráfica em movimento.
- 9 de Setembro
O dia em resumo A Seiko olha simultaneamente para Tóquio e para o universo dos cocktails, enquanto a alta-relojoaria explora caminhos bem diferentes: cerâmica, astronomia e novas leituras de complicações históricas. A nova King Seiko VANAC HKF005 leva a coleção para uma estética nocturna inspirada em Tóquio; os Presage Cocktail Time GMT regressam com Corcovado e Daiquiri; e a Titoni surpreende com um turbilhão manual em cerâmica e mais de 100 horas de reserva de marcha. Mais acima na escala da relojoaria, a Christiaan van der Klaauw mostra o Planetarium Skeleton e a Louis Vuitton dá um passo particularmente significativo: o Spin Time ganha cinco referências na coleção permanente. Cinco novidades muito diferentes, mas uma ideia comum: as marcas estão a procurar identidade através da mecânica e do desenho, não apenas através da novidade. King Seiko VANAC HKF005: Tóquio depois de escurecer King Seiko VANAC HKF005 — o mostrador escuro pontilhado evoca as luzes de Tóquio à noite. Foto: Monochrome Watches / Seiko. A King Seiko acrescenta uma nova referência à família VANAC: a HKF005, uma versão em aço com mostrador negro pontuado por partículas que procuram evocar as luzes da paisagem urbana de Tóquio à noite. É uma alteração aparentemente simples, mas importante para uma coleção cujo regresso assenta numa interpretação contemporânea do desenho angular e colorido dos VANAC dos anos 1970. A arquitetura mantém os elementos que definem a geração atual: caixa fortemente facetada, ausência de bisel tradicional, bracelete integrada visualmente no conjunto e o calibre automático 8L45. A própria Seiko apresenta o 8L45 como o seu movimento mecânico de produção mais preciso, regulado entre +10 e −5 segundos por dia, com cerca de 72 horas de reserva de marcha. O interesse da HKF005 está menos numa revolução técnica do que na consolidação da VANAC como a face mais contemporânea de King Seiko. Em vez de competir apenas no território clássico historicamente associado ao nome, a Seiko está a dar-lhe uma linguagem própria e mais urbana. Presage Cocktail Time: Corcovado e Daiquiri levam o GMT para o outono A outra novidade Seiko do dia chega à Presage Cocktail Time. Corcovado e Daiquiri são duas novas interpretações GMT da fórmula que tornou esta coleção tão popular: mostradores muito trabalhados, inspiração direta no universo dos cocktails e posicionamento relativamente acessível dentro da relojoaria mecânica japonesa. O mais relevante aqui é a continuidade. A Seiko não está a reinventar a Cocktail Time; está a alargar uma linguagem que o público reconhece imediatamente, agora com a utilidade de um segundo fuso horário. É precisamente essa combinação entre complicação prática, forte presença visual e preço comparativamente contido que explica a longevidade da família Presage. Greubel Forsey GMT Balancier Convexe: menos volume, a mesma ambição A Greubel Forsey apresentou uma nova leitura azul do GMT Balancier Convexe, agora numa execução mais compacta. Numa marca conhecida por movimentos tridimensionais e caixas de forte presença, reduzir proporções não é apenas uma decisão estética: obriga a preservar a leitura espacial das indicações e a teatralidade mecânica que constituem a assinatura da casa. O GMT Balancier Convexe continua a colocar a indicação de múltiplos fusos horários e o balanço inclinado no centro da experiência. A mudança de escala é particularmente interessante porque acompanha uma tendência mais ampla da alta-relojoaria recente: peças tecnicamente exuberantes, mas progressivamente menos dependentes de grandes diâmetros para demonstrarem complexidade. Christiaan van der Klaauw Planetarium Skeleton: o céu deixa ver a mecânica A Christiaan van der Klaauw levou a sua especialidade astronómica para um território mais aberto com o Planetarium Skeleton. A peça expõe a arquitetura do módulo planetário através de um mostrador de safira e mantém a representação heliocêntrica das órbitas de Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno. Na versão em platina, a caixa mede 40 mm e a produção está limitada a seis exemplares. O calibre automático CKM-01 oferece cerca de 60 horas de reserva de marcha. Mais do que a raridade, interessa a forma como a esqueletização muda a leitura da complicação: o planetário deixa de parecer uma indicação aplicada sobre um mostrador e passa a revelar-se como parte da própria arquitetura mecânica. É uma evolução coerente para uma casa cuja identidade depende menos de tendências de design do que de uma especialização extremamente clara: traduzir astronomia em mecanismos de pulso. Titoni Luxe Tourbillon Ceramic: uma mudança de escala para a marca suíça Titoni Luxe Tourbillon Ceramic — caixa integral em cerâmica e calibre manual T1000. Foto: Titoni. A Titoni entra num território substancialmente mais ambicioso com o Luxe Tourbillon Ceramic. A combinação de caixa integral em cerâmica, turbilhão de corda manual e uma reserva de marcha superior a 100 horas afasta esta proposta do núcleo mais tradicional da marca. A notícia é relevante precisamente pela origem. Um turbilhão é hoje menos raro do que há duas décadas, mas continua a funcionar como teste à capacidade de uma marca para gerir construção, acabamento, posicionamento e serviço num segmento muito diferente. Na Titoni, o Luxe Tourbillon Ceramic deve por isso ser lido tanto como produto como declaração de intenção. Louis Vuitton Tambour Spin Time: de demonstração a coleção permanente Louis Vuitton Tambour Spin Time — uma das novas referências da coleção permanente. Foto: © Laziz Hamani & Jean-Hugues De Chatillon / Louis Vuitton. Talvez a decisão estratégica mais interessante do dia venha da Louis Vuitton. O Spin Time, sistema patenteado de indicação das horas através de cubos rotativos e introduzido em 2009, regressa agora como uma proposta permanente, com cinco novas referências. A importância desta passagem não está apenas nas novas variantes. Ao integrar de forma estável o Spin Time na coleção, a Louis Vuitton transforma uma complicação visualmente espetacular numa assinatura mecânica recorrente. É mais um sinal do investimento da casa em construir legitimidade relojoeira própria através da La Fabrique du Temps, em vez de depender exclusivamente do peso do nome Louis Vuitton. A indicação por cubos é especialmente eficaz porque consegue aquilo que muitas complicações procuram e poucas alcançam: ser identificável à distância. Num mercado em que tantas marcas dominam tecnicamente os mesmos repertórios, possuir uma forma de mostrar as horas imediatamente associada a uma casa tem valor estratégico. L’Epée 1839 The Football: relojoaria mecânica fora do pulso Entre as novidades recentes que merecem entrar no radar está The Football, da L’Epée 1839. A manufatura transforma a geometria clássica de uma bola de futebol numa escultura mecânica de 220 mm, com um movimento de oito dias composto por 882 componentes. É uma peça de nicho, mas ilustra uma área frequentemente esquecida quando se fala de relojoaria contemporânea: a relojoaria mecânica de mesa continua a ser um laboratório para arquiteturas, objetos cinéticos e formas que seriam impraticáveis num relógio de pulso. Geneva Watch Days: o balanço confirma a escala crescente do salão Com o Geneva Watch Days terminado, os primeiros balanços ajudam a medir a dimensão que o evento atingiu. A edição de 2026 reuniu mais de 70 marcas; os organizadores apontam para um recorde de visitantes e a imprensa especializada contabiliza cerca de 400 relógios apresentados durante o período do salão. Mais importante do que a contagem é a função que o Geneva Watch Days consolidou: uma plataforma descentralizada capaz de reunir independentes, grupos e marcas de dimensões muito diferentes sem reproduzir integralmente o modelo de uma grande feira tradicional. Para o setor, setembro em Genebra tornou-se já um segundo momento anual de lançamento com peso próprio. Notícias breves A A. Lange & Söhne apresentou novas execuções do Triple Split e do 1815 Up/Down: o cronógrafo rattrapante surge em platina com mostrador rodiado, enquanto o 1815 Up/Down recebe edições limitadas em ouro rosa e ouro branco com mostradores azuis. O mercado continua também atento às novidades apresentadas em torno da semana de Genebra, mesmo quando não fazem formalmente parte do salão. Essa fronteira cada vez menos rígida entre “novidade de feira” e lançamento paralelo é, por si só, uma característica importante do calendário atual. O que merece atenção Nos próximos dias, vale a pena acompanhar o fecho da Geneva Sessions da Phillips, a 11 de setembro, e perceber que lotes ganham tração num mercado de leilões que continua muito seletivo. Mais à frente, a venda beneficente dos quatro Rolex Daytona “Four Seasons”, marcada para 28 de setembro em Londres, deverá ser um dos acontecimentos de leilão mais observados do mês. Radar Horológico é a seleção diária do IPR – Instituto Português de Relojoaria sobre o que merece ser conhecido na relojoaria internacional.
- 10 de Setembro
O dia em resumo A ligação portuguesa abre o Radar: a Isotope lança hoje a Hydrium Grey Reef Shark, limitada a 200 exemplares e acompanhada pela primeira bracelete de aço criada especificamente para a família Hydrium. O World Watch Day revelou hoje o programa da sua segunda edição, marcada para 10 de outubro; Jacob & Co. apresentou ontem um balanço cravejado com 54 diamantes e a Zelos colocou ontem à venda a nova geração Helmsman. A seleção foi revista pela data real de cada anúncio ou acontecimento: Grand Seiko e Alpina saem da edição de hoje por não terem novidade primária comprovada dentro da janela das últimas 24 horas. Isotope Hydrium Grey Reef Shark: novo mostrador e a primeira bracelete Hydrium Isotope Hydrium Grey Reef Shark — 40 mm, 300 metros e nova bracelete de aço dedicada à coleção. Foto: Isotope. A Isotope lança hoje, 10 de setembro, às 17:00 no Reino Unido, a Hydrium Grey Reef Shark. A edição é limitada a 200 unidades e combina um novo mostrador cinzento frio com a primeira bracelete de aço dedicada à coleção Hydrium. A caixa em aço 316L microjateado mede 40 mm por 48 mm, oferece 300 metros de estanqueidade e alberga o automático suíço Landeron 24, com 40 horas de reserva de marcha. A bracelete 22/18 mm usa elos maciços, parafusos, libertação rápida e fecho de mergulho com microajuste. O lançamento é particularmente relevante por tornar a bracelete retrocompatível com os Hydrium anteriores: uma evolução de produto que reforça a coerência da coleção sem obrigar os clientes existentes a trocar de relógio. Isotope Hydrium Grey Reef Shark — 40 mm, 300 metros e nova bracelete de aço dedicada à coleção. Foto: Isotope. World Watch Day 2026: o programa internacional é revelado hoje O World Watch Day anunciou hoje, 10 de setembro, o programa da segunda edição, que terá lugar a 10 de outubro de 2026 sob o tema “Time as Living Heritage”. A iniciativa reúne museus, escolas, relojoeiros, manufaturas, instituições culturais, colecionadores e media em vários países. Entre os participantes anunciados estão o Musée d’Art et d’Histoire de Genebra, WOSTEP, o Musée Atelier Audemars Piguet, o Museo Galileo em Florença e a Horological Society of New York. Às 10:10 de 10 de outubro, a organização convida a comunidade internacional a partilhar uma fotografia de pulso com #WorldWatchDay. O anúncio de hoje transforma a data num evento institucional cada vez mais estruturado em torno da transmissão de conhecimento relojoeiro. Jacob & Co.: 54 diamantes diretamente no balanço A Jacob & Co. apresentou a 9 de setembro o Brilliant Flying Tourbillon Baguette Pastel Arlequino, cuja particularidade técnica é o engaste de 54 diamantes de corte brilhante diretamente no balanço. O órgão regulador oscila a 3 Hz, enquanto o turbilhão volante completa uma rotação em 60 segundos. O calibre automático JCFA02, com microrrotor, oferece 72 horas de reserva de marcha; a caixa de 42 mm em ouro branco de 18 quilates tem 11,61 mm de espessura. A intervenção é tecnicamente delicada porque qualquer massa acrescentada ao balanço altera a sua inércia e o equilíbrio. A marca afirma ter redesenhado o componente para preservar as características cronométricas apesar do engaste. Zelos Helmsman: nova geração disponível desde 9 de setembro Zelos Helmsman SS Carbon — uma das novas variantes apresentadas na renovação do modelo. Foto: Zelos. A Zelos colocou a nova geração Helmsman à venda a 9 de setembro. O modelo regressa em variantes Carbon, Aventurine, Garnet, Teal MOP e Sky Blue. A plataforma comum mede 40 mm de diâmetro, 46,5 mm de lug-to-lug e 12,5 mm incluindo o vidro box em safira, com 200 metros de estanqueidade e calibre automático Miyota 9015. A diversidade vem sobretudo dos mostradores e materiais, mostrando como uma micro-marca consegue ampliar a identidade visual sem multiplicar caixas e movimentos. Notícias breves A Apple apresentou a 9 de setembro o Apple Watch Series 12, com novo Health Sensing System e chip S11. A pré-venda começou no próprio dia e a disponibilidade em loja está marcada para 18 de setembro. O Radar mantém o foco na relojoaria tradicional, mas acompanha o Apple Watch pela sua escala e influência no mercado de pulso. O que merece atenção A edição de hoje privilegia acontecimentos cuja data real foi comprovada em fonte primária ou comunicado de imprensa direto. Notícias editoriais publicadas hoje sobre lançamentos mais antigos ficam deliberadamente de fora. Radar Horológico é a seleção diária do IPR – Instituto Português de Relojoaria sobre o que merece ser conhecido na relojoaria internacional.
- 11 de Setembro
O dia em resumo A Citizen Watch Europe amplia a Tsuyosa 60 com uma caixa de 37 mm, mantendo o calibre automático 8310 e as 60 horas de reserva de marcha. As novas referências já aparecem no catálogo oficial português. Em Hong Kong, a Sotheby’s abriu hoje a exposição da próxima Fine Watches, que antecede a venda de 15 a 22 de setembro e volta a colocar o mercado asiático no centro da agenda internacional de leilões de relógios. Em Florença, a Panerai mantém aberta até 19 de setembro a exposição “Immersion”, concebida para assinalar os 100 anos da histórica boutique de Piazza San Giovanni. Citizen Tsuyosa 60: os 37 mm chegam ao mercado europeu Citizen Watch Europe apresentou ontem, 10 de setembro, novas versões da Tsuyosa 60, incluindo pela primeira vez nesta linha uma caixa de 37 mm. A dimensão mais compacta mantém a linguagem que tornou a coleção reconhecível: bracelete integrada de cinco elos, vidro de safira, data às 3 horas com lupa e coroa às 4 horas. As três referências de 37 mm surgem com mostradores preto, verde-claro e prateado. A versão prateada recebe acabamento dourado; a mesma configuração é também proposta em 40 mm. No catálogo oficial português, as referências NK0030-51E e NK0030-51X estão listadas a 369 €, enquanto a NK0032-56A surge a 429 €. O movimento automático 8310 trabalha a 21.600 alternâncias por hora, utiliza 21 rubis e oferece 60 horas de reserva de marcha. Nas versões de 37 mm, a caixa tem 11,5 mm de espessura e resistência à água de 5 bar. Citizen Tsuyosa 60 Automatic 37 mm, referência NK0030-51E. Imagem: Citizen. Citizen Tsuyosa 60 Automatic 37 mm: vista do fundo e do calibre 8310. Imagem: Citizen. Sotheby’s abre em Hong Kong a exposição Fine Watches Sotheby’s abriu hoje, 11 de setembro, às 11:00 em Hong Kong — 04:00 em Lisboa — a exposição pública da próxima Fine Watches, na sua Maison em Central. A mostra decorre diariamente até 17 de setembro e antecede a venda marcada para 15 a 22 de setembro. A exposição estará aberta até 17 de setembro, com horários próprios ao longo da semana, oferecendo vários dias de visita antes do encerramento da venda Fine Watches a 22 de setembro. Sotheby’s Fine Watches, Hong Kong, setembro de 2026. Imagem: Sotheby’s. O que merece atenção Panerai abriu ontem, 10 de setembro, “Immersion”, no Museo Marino Marini, em Florença. A exposição decorre até 19 de setembro e assinala os 100 anos da boutique histórica de Piazza San Giovanni, aberta em 1926. O percurso revisita a passagem da oficina familiar para uma identidade profundamente ligada ao mar e à instrumentação profissional, cruzando património, desenvolvimento técnico e a linguagem contemporânea da marca. Radar Horológico é a seleção diária do IPR – Instituto Português de Relojoaria sobre o que merece ser conhecido na relojoaria internacional.
- 14 de Setembro
O dia em resumo O domingo, 13 de setembro, levou o colecionismo relojoeiro a dois pontos fortes do circuito europeu: Birmingham recebeu a sua grande feira de relógios e relojoaria antiga, enquanto Linz acolheu a edição de outono da sua Uhrenbörse. No Reino Unido, cerca de 100 comerciantes de relógios modernos e vintage, relógios de bolso, relojoaria de mesa e ferramentas ocuparam duas salas do National Motorcycle Museum. Na Áustria, colecionadores e comerciantes reuniram-se no Hotel Kolping entre as 9:00 e as 16:00. Em Zurique, o programa pós-conferência do 45.º Scientific Instrument Symposium terminou com visitas ao Observatório Semper e às coleções de modelos científicos da ETH Zürich — um fecho diretamente ligado à história da precisão, da astronomia e da medição do tempo. Birmingham Clock and Watch Fair: cerca de 100 comerciantes num mercado dedicado à relojoaria Ontem, 13 de setembro, a Birmingham Clock and Watch Fair voltou ao National Motorcycle Museum, em Solihull. A organização apresenta o encontro como o maior evento indoor do género no Reino Unido e indica cerca de 100 comerciantes provenientes do Reino Unido, União Europeia e Estados Unidos. O formato continua deliberadamente comercial: duas salas dedicadas à compra e venda de relógios de pulso modernos e vintage, relógios de bolso, relógios antigos, peças, ferramentas, livros de referência e joalharia. Mais do que um salão de lançamentos, Birmingham funciona como ponto de encontro entre o comércio especializado e o colecionismo, com acesso também ao público. Birmingham Clock and Watch Fair — relojoaria de coleção e antiguidades em ambiente de feira. Imagem: EveryEvent. Linzer Uhrenbörse: o mercado austríaco regressa ao Hotel Kolping Também ontem, a Linzer Uhrenbörse realizou a sua edição de outono em Linz. O encontro decorreu entre as 9:00 e as 16:00 no Hotel Kolping, com participação limitada e entrada de 5 euros para adultos. A bolsa é orientada sobretudo para colecionadores e amantes de relojoaria antiga, mantendo vivo um formato europeu que continua relevante para a circulação de relógios, componentes e conhecimento fora dos grandes leilões internacionais. A edição de 13 de setembro foi a segunda data anunciada pela organização para 2026, depois do encontro de maio. Linzer Uhrenbörse — a edição de outono realizou-se a 13 de setembro no Hotel Kolping. Imagem: flohmarkt.at. Precisão e património científico: o SIC 2026 fecha em Zurique O programa alargado do 45.º Scientific Instrument Symposium terminou ontem com uma visita à ETH Zürich. Os participantes passaram pelo Observatório Semper e por uma seleção de modelos científicos usados no ensino e na investigação da instituição desde 1855. O encontro principal decorreu entre 7 e 11 de setembro em La Chaux-de-Fonds e Neuchâtel, com forte ligação à história da precisão e da relojoaria. A excursão de domingo a Zurique prolongou esse eixo através de instrumentos astronómicos e científicos — objetos cuja evolução está profundamente ligada à medição rigorosa do tempo. O telescópio histórico do Observatório Semper, na ETH Zürich. Imagem: ETH Zürich. O que merece atenção A Apple marcou para hoje, 14 de setembro, a disponibilização do watchOS 27 para Apple Watch Series 9 e posteriores, Apple Watch SE 3 e Apple Watch Ultra 2 e posteriores. A atualização requer iPhone 11 ou posterior — ou iPhone SE compatível — com iOS 27. Entre as novidades estão uma grelha dinâmica de aplicações, novos gestos de uma mão, alterações à Smart Stack e novas funções de saúde e exercício. A Apple indica ainda suporte de Apple Intelligence em português, embora algumas funções e idiomas cheguem de forma faseada.
- 15 de Setembro
O dia em resumo O Venezianico Redentore Levius coloca a relojoaria italiana contemporânea no centro do dia: caixa integral em titânio grau 5, mostrador guilloché Zefiro gravado à mão e o calibre de corda manual V5000, concebido e produzido em Itália, num relógio de apenas 48 gramas. O World Watch Day acrescenta uma dimensão cultural ao calendário de outubro com uma mesa-redonda internacional dedicada à transmissão dos saberes da arte mecânica, enquanto a Phillips anuncia em Genebra novos destaques para a sua venda de 7 e 8 de novembro. Entre construção mecânica italiana, preservação de conhecimento e grandes peças históricas em leilão, a jornada mostra três formas diferentes de pensar o futuro da relojoaria. Venezianico Redentore Levius: 48 gramas de relojoaria italiana A Venezianico apresentou a 14 de setembro o Redentore Levius, uma nova interpretação da sua linha clássica construída em torno da ideia de leveza. A caixa mede 38 mm de diâmetro, 44,2 mm entre asas e apenas 8,9 mm de espessura; é executada em titânio grau 5 e combina superfícies escovadas e polidas. Venezianico Redentore Levius — caixa em titânio grau 5 e mostrador Zefiro. © Venezianico O mostrador é um dos elementos decisivos. O padrão Zefiro é gravado integralmente à mão por Linda Renzetti numa máquina de guilloché do século XIX, criando linhas orgânicas que partem do centro e mudam de leitura com a incidência da luz. A ausência de áreas polidas a interromper o padrão dá continuidade visual à gravação, enquanto os ponteiros com acabamento polido e jateado procuram manter o contraste sobre uma superfície particularmente dinâmica. Redentore Levius — vista frontal do mostrador guilloché. © Venezianico Por baixo do mostrador está o V5000, calibre mecânico de corda manual Made in Italy, fabricado pela OISA a partir de um projeto de Fausto Berizzi e Andrea Menegazzo. Com apenas 3,5 mm de espessura, trabalha a 25.200 alternâncias por hora (3,5 Hz), oferece 60 horas de reserva de marcha e utiliza um balanço de inércia variável em cobre-berílio com quatro masselottes, produzido pela Atokalpa. A marca anuncia uma precisão de ±3 segundos por dia. Calibre V5000: 3,5 mm de espessura, 60 horas de reserva de marcha e balanço de inércia variável. © Venezianico O acabamento inclui Côtes de Genève radiais, anglage polido e micro-perlage aplicado à mão. Os primeiros 100 exemplares serão numerados individualmente. O preço anunciado para a Europa é de 4.750 euros, com disponibilidade prevista no site da marca a partir de 25 de setembro. World Watch Day leva a arte mecânica a Sainte-Croix A organização do World Watch Day anunciou a 14 de setembro uma mesa-redonda internacional promovida pela associação Mec-Art e pelo MuMAPS, em Sainte-Croix, dedicada à questão de como transmitir às gerações futuras os conhecimentos e técnicas ligados à arte mecânica. A sessão será gravada ao vivo no Cinéma Royal de Sainte-Croix a 26 de setembro e transmitida a 10 de outubro, data do World Watch Day. O encontro junta especialistas de diferentes geografias e instituições e coloca no centro uma questão particularmente relevante para a relojoaria: a continuidade de competências que dependem tanto da formação prática como da preservação de ferramentas, documentação e memória técnica. Phillips revela novos destaques para a Geneva Watch Auction: XXIV A Phillips anunciou hoje, 15 de setembro, uma nova seleção de destaques para a Geneva Watch Auction: XXIV, marcada para 7 e 8 de Novembro. Entre as peças apresentadas encontra-se um raro Patek Philippe ref. 1436, cronógrafo rattrapante em aço, acompanhado por outros lotes de elevada importância histórica e colecionável. O anúncio inclui ainda um Patek Philippe ref. 2497 assinado Gumbiner, um Rolex ref. 6062 «Stelline» recém-descoberto e proveniente do proprietário original no Japão, além de peças de F.P. Journe e de nomes centrais da relojoaria independente contemporânea, entre os quais Roger Smith e Kari Voutilainen. A venda volta assim a cruzar raridade histórica, proveniência e produção independente num dos momentos fortes da temporada europeia de leilões. O que merece atenção O Redentore Levius merece acompanhamento não apenas como lançamento, mas pelo que o V5000 representa na reconstrução de uma cadeia de valor mecânica italiana. A combinação entre um movimento proprietário produzido pela OISA, guilloché manual e montagem em atelier coloca o projeto num território em que origem industrial e trabalho artesanal voltam a ser parte explícita da identidade do relógio.
- 16 de Setembro
O dia em resumo A Rolex regressa às grandes complicações de calendário com a Perpetual Padellone, apresentada a 15 de setembro: um calendário anual completo instantâneo com fases da Lua, calibre 7190 a 5 Hz, escape Dynapulse e o novo sistema Haplos. No mesmo dia, a manufatura de Genebra revelou uma Day-Date 40 em Jubilee Gold, um novo ouro de 18 quilates desenvolvido internamente, associado a um mostrador de aventurina verde-clara e dez diamantes baguette. Duas novidades muito diferentes mostram a amplitude técnica da Rolex em 2026: de um mecanismo de calendário inteiramente novo à investigação metalúrgica aplicada a um dos seus modelos históricos. Rolex Perpetual Padellone: o calendário anual regressa ao centro da cena Perpetual Padellone 2026 A Rolex apresentou ontem, 15 de setembro, a Perpetual Padellone, recuperando para a coleção contemporânea um nome ligado à histórica referência 8171. O novo relógio mede 39 mm e é proposto em ouro Everose de 18 quilates ou platina 950, com fundo transparente e estanquidade até 50 metros. O mostrador conserva a lógica visual do antigo calendário completo: dia da semana e mês em duas janelas às 12 horas, data periférica indicada por um ponteiro central azul terminado em crescente e fases da Lua às 6 horas. No disco lunar, a Lua cheia e a Lua nova são executadas em meteorito; o disco completa uma rotação em 29,53 dias. Rolex ref. 8171 “Padellone”, antecessora histórica do novo modelo apresentado a 15 de setembro. © SJX Watches A diferença mecânica é profunda. O calibre automático 7190 trabalha a 5 Hz, oferece cerca de 66 horas de reserva de marcha e utiliza o escape Dynapulse de distribuição sequencial, em silício, já introduzido pela Rolex na família 71XX. O órgão regulador combina espiral Syloxi com um eixo de balanço em cerâmica de alta tecnologia e balanço em latão otimizado. Outra execução histórica da Rolex ref. 8171, cuja arquitetura de calendário e fases da Lua inspira a nova Perpetual Padellone. © Sotheby’s O calendário anual assenta no sistema Haplos, patenteado. Em vez de um módulo volumoso, a programação dos meses está integrada no verso do disco dos meses e comunica com um mecanismo composto por um dedo condutor adicional e uma alavanca anual. O sistema distingue automaticamente meses de 30 e 31 dias; apenas fevereiro exige correção manual. À meia-noite, dia, data e mês saltam simultaneamente. Day-Date 40 estreia o novo ouro Jubilee Gold Também a 15 de setembro, a Rolex apresentou uma nova Day-Date 40 fabricada em Jubilee Gold, uma liga de ouro de 18 quilates concebida, desenvolvida e produzida internamente. A marca descreve a tonalidade como um equilíbrio entre amarelo suave, cinzento quente e rosa discreto. Oyster Perpetual Day-Date 40 em Jubilee Gold, com mostrador de aventurina verde-clara. © Rolex A caixa Oyster mantém 40 mm e 100 metros de estanquidade, com luneta canelada e bracelete President. O mostrador é talhado em aventurina verde-clara e recebe dez índices em diamantes de corte baguette. O conjunto continua a ser animado pelo calibre automático 3255, com escape Chronergy, espiral Parachrom e aproximadamente 70 horas de reserva de marcha. A novidade é sobretudo metalúrgica e estética, mas tem interesse técnico: desenvolver uma liga própria permite à manufatura controlar não apenas a cor, mas também propriedades de fundição, maquinação, polimento e estabilidade superficial ao longo do tempo. A Day-Date permanece, assim, um dos campos onde a Rolex experimenta materiais preciosos antes de os associar a uma linguagem visual já muito estabelecida. Notícias breves A IWC Schaffhausen assinalou ontem, 15 de setembro, os 50 anos do Ingenieur SL de Gérald Genta com duas edições limitadas do Ingenieur Automatic, em 40 e 35 mm. As referências IW328910 e IW324909 são limitadas a 1.150 exemplares cada e recuperam um raro mostrador prateado escovado da década de 1970. No modelo de 40 mm, o calibre automático 32111 oferece 120 horas de reserva de marcha e o movimento permanece protegido por uma caixa interior de ferro doce contra campos magnéticos; a versão de 35 mm utiliza o calibre 47110, visível através do fundo em safira. Também a 15 de setembro, a Tissot apresentou o PRX Quartz Chronograph, levando pela primeira vez a função cronógrafo a quartzo à atual família PRX. A novidade mantém a arquitetura de caixa e bracelete integrada que tornou a coleção reconhecível, mas propõe uma leitura mais acessível e funcional do cronógrafo dentro da linha. No mercado de leilões, a Phillips anunciou a 15 de setembro novos destaques para a Geneva Watch Auction: XXIV, marcada para 7 e 8 de novembro. Entre os 220 relógios previstos estão um Patek Philippe ref. 1436 rattrapante em aço de 1945 — um de apenas dois exemplares conhecidos que conservam caixa e mostrador originais, estimado em CHF 2–4 milhões —, um Patek Philippe ref. 2497 com a única assinatura Gumbiner conhecida, um Rolex ref. 6062 ‘Stelline’ recém-descoberto no Japão e peças de F.P. Journe, Roger Smith e Kari Voutilainen. O que merece atenção A Perpetual Padellone é a novidade tecnicamente mais significativa deste conjunto. O calibre 7190 não se limita a acrescentar indicações: integra um calendário anual instantâneo numa arquitetura de 5 Hz com Dynapulse e mostra uma Rolex novamente interessada em complicações clássicas fora do universo estritamente profissional. O modo como esta família evoluir — e se o mecanismo Haplos chegar a outros modelos — será particularmente relevante.












