O Stackfreed
- Sílvio Pereira

- 3 de jan.
- 7 min de leitura
Por: Sílvio Pereira
MECANISMOS ESQUECIDOS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA

Entre os inúmeros artefactos que compõem a evolução da relojoaria portátil, poucos são tão intrigantes quanto o stackfreed. Hoje praticamente desconhecido fora de círculos académicos e colecionistas especializados, este dispositivo exerceu um papel central nas primeiras tentativas de estabilizar a força motriz dos relógios de bolso renascentistas. O stackfreed foi, a seu tempo, uma resposta engenhosa a um problema real: a irregularidade do binário produzido pela mola principal. Embora tenha sido suplantado por soluções mais eficazes, como o fusée, o stackfreed sobrevive como testemunho de uma fase experimental e inventiva da mecânica do tempo.
Este artigo propõe-se revisitar, de forma minuciosa, a história, o funcionamento e a relevância deste mecanismo singular. É minha convicção que compreender o stackfreed não é apenas um exercício arqueológico; é uma oportunidade de observar a criatividade dos primeiros relojoeiros e de reconhecer que, ao longo da história, a procura pela regularidade foi quase sempre feita por aproximação, tentativa e erro, e sobretudo por engenho.
Enquadramento Histórico

A relojoaria portátil emergiu entre os séculos XV e XVI, impulsionada pelos avanços na metalurgia e na miniaturização de mecanismos de peso. A substituição dos pesos por molas principais permitiu, pela primeira vez, conceber objectos portáteis — as célebres “ovos de Nuremberga”, associadas (ainda que nem sempre com rigor histórico) a Peter Henlein e à escola germânica.
Contudo, incorporar uma mola principal trouxe um novo desafio: o binário fornecido por ela não é constante. Logo após o total enrolamento, a mola liberta muita força; à medida que se desenrola, essa força diminui acentuadamente. Esta variação gerava amplitudes irregulares no escape e no regulador, comprometendo a precisão. Os relojoeiros depararam-se assim com a necessidade de dispositivos de força constante ou de mecanismos que, pelo menos, suavizassem a curva de torque.
O stackfreed surge precisamente neste contexto, sobretudo entre relojoeiros alemães e boémios, entre meados do século XVI e o início do XVII. Antes de ser eclipsado pelo fusée — mecanismo que, além de mais eficiente, se difundiu rapidamente nas ilhas britânicas e em França — o stackfreed conheceu um período de popularidade moderada, sendo encontrado em peças de elevada qualidade e complexidade estética.
De certa forma, o stackfreed representa uma fase “transitória” na história da relojoaria europeia: um momento em que a necessidade era urgente, mas as soluções ainda tímidas, pragmáticas e fortemente condicionadas pelas técnicas de fabrico disponíveis.
Anatomia e Funcionamento do Stackfreed

O stackfreed consiste tipicamente em três elementos fundamentais:
Uma alavanca elástica ou braço de aço temperado (A);
Um rolete ou came secundário, situado na extremidade desta alavanca (B);
Um came excêntrico montado no tambor da mola principal (D).
O funcionamento é relativamente simples de descrever, mas sofisticado na sua execução mecânica:
Quando o tambor gira (durante o desenrolamento da mola), o rolete percorre a superfície irregular do came. Este veio tem forma assimétrica, geralmente semelhante a uma espiral achatada ou caracol. Nas zonas mais largas do came, a alavanca é forçada a comprimir mais a sua mola interna — produzindo maior resistência. Nas zonas mais estreitas, a resistência diminui.
Deste modo, cria-se uma força de travagem variável, inversamente proporcional à força natural disponível na mola. Quando a mola está muito tensionada, o stackfreed oferece maior resistência; quando está quase no fim, oferece menos. O resultado pretendido era “achatar” a curva de força: uma solução de compromisso entre a brusquidão da mola e a regularidade desejada.
Efeitos práticos
Na prática, o stackfreed:
Melhora parcialmente a regularidade da força transmitida ao trem de rodas;
Introduz inevitavelmente atrito adicional, exigindo molas mais fortes;
Aumenta o desgaste e impõe necessidades de lubrificação cuidadosa.
Embora funcional, trata-se de uma solução que sacrifica eficiência energética em troca de regularidade. Para os padrões renascentistas, era aceitável; comparado com soluções posteriores, revela-se rudimentar.
Contexto Técnico e Filosofia Mecânica
Os relojoeiros do século XVI ainda não dispunham de materiais adequados para fabricar molas produtoras de força motriz com curvas de torque mais previsíveis. Também não existiam ainda métodos fiáveis de cálculo, simulação ou padronização de componentes. Por isso, muitos mecanismos da época devem ser entendidos como tentativas pragmáticas: pequenas respostas locais a problemas reais.
O stackfreed, nesse sentido, é fruto de uma filosofia muito particular: a regulação por oposição. O mecanismo não tenta otimizar a mola, não tenta redistribuir a força, não tenta equalizá-la mecanicamente — limita-se a travar o excesso, deixando o resto fluir. Se o excesso de força era um problema, a solução era introduzir resistência.

O fusée, que surgiria como alternativa, representa uma filosofia diferente: uma transformação da força, através de variação da vantagem mecânica. O stackfreed simplesmente a contraria.
Na minha opinião, este contraste revela uma profunda mudança intelectual na relojoaria europeia. O stackfreed é pré-científico, táctil, intuitivo. O fusée aproxima-se de um raciocínio proto-matemático. A história escolheu a segunda — mas a primeira não deve ser vista como erro, apenas como etapa necessária.

Aplicações e Difusão Geográfica
O stackfreed é encontrado sobretudo em:
Relógios alemães e boémios;
Algumas peças suíças e austríacas;
Um número reduzido de peças inglesas dos primórdios da relojoaria portátil.
É frequente encontrá-lo em movimentos ricamente decorados, com mostradores esmaltados ou gravados, e caixas de latão, prata ou ferro. Peças de museu revelam que o stackfreed coexistiu, durante algum tempo, com mecanismos de calendário, fases da lua e até com complicações sonoras rudimentares.
Contudo, a difusão nunca foi massiva. Há três razões principais:
Concorrência do fusée, mais elegante do ponto de vista mecânico;
Custo energético elevado, que reduzia a autonomia;
Sensibilidade ao desgaste, que tornava a manutenção difícil.
Por volta da década de 1630, o stackfreed estava já em declínio. Em 1650 é raro; no final do século XVII, praticamente desaparecera.
Vantagens e Limitações
Apesar das suas limitações, o stackfreed não deve ser entendido como mecanismo mal concebido. Ele cumpriu o papel que lhe cabia no momento histórico em que surgiu.
Vantagens
Simplicidade técnica face ao fusée, exigindo menos peças e menos exigência de fabrico.
Perfil relativamente fino, permitindo relógios menos espessos do que os que utilizavam fusée.
Integração possível com stopwork, funcionando simultaneamente como limitador de enrolamento.
Robustez estrutural, apesar do desgaste natural do ponto de contato.
Limitações
Atrito elevado, causa principal da sua obsolescência.
Dependência de lubrificação constante, numa época em que óleos de boa qualidade eram escassos.
Molas principais mais fortes, necessárias para compensar as perdas, o que podia reduzir a vida útil.
Eficácia limitada, sobretudo em relógios que pretendiam maior precisão.
Independentemente destas limitações, considero que o stackfreed representa uma solução elegante para um problema urgente. Não foi a melhor resposta — mas foi uma resposta engenhosa dentro das capacidades técnicas da época.

O Stackfreed em Restauro e Colecionismo
Hoje, relógios equipados com stackfreed são peças de grande valor histórico, frequentemente encontradas em museus e coleções privadas. O restauro exige extrema prudência.
Pontos de atenção no restauro

Condição da mola do braço: qualquer amolecimento compromete a curva de resistência.
Desgaste do came: pequenas irregularidades na superfície alteram a progressão da resistência.
Rodeamento do rolete: desgaste irregular degrada a suavidade do movimento.
Lubrificação mínima, apenas o suficiente para evitar abrasão sem comprometer a força de travagem.
Os restauradores experientes sabem que uma intervenção excessiva pode destruir a autenticidade mecânica do mecanismo. Em muitos casos, a melhor decisão é estabilizar e conservar, em vez de tentar devolver plena funcionalidade.
Valorização no colecionismo
Peças com stackfreed são particularmente valorizadas por:
Representarem uma fase curta e experimental da relojoaria;
Apresentarem movimentos ricamente ornamentados;
Revelarem técnicas de manufatura renascentistas;
Serem relativamente raras no mercado.
Na minha opinião, o stackfreed está subvalorizado entre colecionadores generalistas, que tendem a privilegiar fusées e peças inglesas posteriores. Mas para o estudioso sério, é um elemento-chave para compreender a génese da relojoaria portátil.

O Stackfreed na História Intelectual da Relojoaria
O valor do stackfreed ultrapassa a sua função mecânica. Ele representa uma etapa na forma como os europeus começaram a pensar o tempo. Antes do século XVI, a medida do tempo era essencialmente pública e comunitária: campanários, relógios de torre, clepsidras, ampulhetas.
Com a relojoaria portátil, o tempo torna-se pessoal, móvel, táctil. O stackfreed é um dos primeiros mecanismos criados para domesticar essa intimidade mecânica, tentando assegurar que o tempo medido na mão fosse tão digno de confiança quanto o tempo medido na praça.
Creio que, ao observar este pequeno mecanismo, reconhecemos algo maior do que o seu aspeto técnico: vemos o esforço humano, persistente e obstinado, de transformar um fenómeno natural — a elasticidade do metal — numa unidade de experiência regular e previsível: o minuto.
Considerações Finais
O stackfreed não é o protagonista da história da relojoaria. Mas é, sem dúvida, um dos seus personagens mais marcantes. Representa uma tentativa precoce de obter regularidade num momento em que os materiais, as técnicas e os conhecimentos teóricos ainda eram insuficientes.
Por isso, merece atenção redobrada — não apenas como curiosidade histórica, mas como exemplo de criatividade aplicada. O stackfreed mostra que a relojoaria nunca foi apenas a procura da perfeição, mas também a arte de encontrar soluções possíveis com os recursos existentes.
É minha opinião que qualquer relojoeiro, restaurador, colecionador ou historiador do tempo deveria estudar este mecanismo com respeito e curiosidade. Ele revela-nos algo essencial: o progresso da relojoaria faz-se por camadas, e cada camada, mesmo a menos perfeita, contribui para a elegância das que se seguem.
Leituras Recomendadas
Artigo de síntese na Wikipédia sobre Stackfreed — bom ponto de partida técnico e histórico. Wikipedia
Páginas e imagens do British Museum e do Science Museum: coleções com movimentos que mostram o stackfreed em detalhe; úteis para comparar variantes.
Textos especializados sobre mecanismos de força constante e história da relojoaria, e artigos de divulgação técnica (por exemplo, publicações como Hodinkee sobre dispositivos de força constante) para leitura crítica contemporânea. Hodinkee





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