Os relógios do videoárbitro: a tecnologia de arbitragem levada ao pulso
- Nuno Margalha

- há 2 dias
- 8 min de leitura

Durante décadas, o relógio do árbitro serviu essencialmente para controlar os 45 minutos de cada parte, as interrupções e o prolongamento. Com a introdução da tecnologia de linha de golo e do videoárbitro, o pulso do árbitro transformou-se num dos pontos de contacto entre o jogo e uma extensa infraestrutura eletrónica instalada no estádio.
Embora seja frequente falar-se no “relógio do VAR”, esta expressão pode criar uma ideia errada. O árbitro não vê repetições nem toma decisões de videoarbitragem através do relógio. O equipamento serve sobretudo para medir o tempo e receber alertas associados a outros sistemas de apoio à arbitragem.
O que compõe realmente o sistema VAR?
O sistema de videoárbitro é formado por câmaras, servidores de vídeo, operadores de repetição, sistemas de comunicação e uma equipa de árbitros instalada numa sala de operações de vídeo.
No Campeonato do Mundo de 2022, a equipa de videoarbitragem teve acesso a 42 câmaras de transmissão, entre elas, oito de câmara lenta e quatro de câmara ultralenta. As imagens em velocidade reduzida eram utilizadas sobretudo para situações factuais, como determinar o ponto de contacto numa falta, enquanto as imagens à velocidade normal ajudavam na avaliação de situações mais subjetivas.
A comunicação entre a sala de vídeo e o árbitro realiza-se através do sistema áudio usado pela equipa de arbitragem. Quando o VAR identifica um possível erro claro, comunica-o verbalmente ao árbitro principal, que pode aceitar uma informação factual ou dirigir-se ao monitor colocado junto ao campo para rever as imagens.
O relógio acompanha este ecossistema, mas não substitui nem o auricular nem o monitor.
O relógio do árbitro
Nos grandes torneios internacionais, os árbitros usam relógios eletrónicos preparados especificamente para a gestão de uma partida de futebol.
Estes equipamentos permitem controlar:
o tempo regulamentar;
o intervalo;
o tempo de compensação;
o prolongamento;
as grandes penalidades.
Nos torneios em que a Hublot foi cronometrista oficial da FIFA, os árbitros receberam versões próprias do Big Bang e, diferentes dos modelos comerciais vendidos ao público. A marca afirmou que o relógio especial fornecido aos árbitros no Campeonato Europeu de 2020 ajudava a gerir o tempo de jogo e o prolongamento e se encontrava ligado à tecnologia de linha de golo e ao sistema de controlo VAR.
Importa interpretar corretamente esta ligação. O relógio funciona como um terminal dentro de um conjunto técnico integrado. Não é nele que o árbitro analisa as imagens ou conversa detalhadamente com o videoárbitro.
A tecnologia de linha de golo no pulso

A função eletrónica mais claramente documentada nos relógios dos árbitros é a receção do sinal da tecnologia de linha de golo, conhecida pela sigla inglesa GLT — Goal-Line Technology.
O sistema utilizado pela FIFA recorre a 14 câmaras de alta velocidade montadas na cobertura do estádio. As câmaras acompanham a bola e determinam se esta atravessou completamente a linha de golo. Quando isso acontece, a informação é transmitida em menos de um segundo exclusivamente para os relógios dos árbitros.
O relógio emite normalmente:
uma vibração;
um aviso visual;
a indicação de golo.
Esta comunicação é direta e imediata. Não é necessária uma revisão no monitor porque a tecnologia de linha de golo procura responder apenas a uma questão factual: a bola entrou completamente ou não?
Se o sistema deixar de funcionar, os árbitros e as equipas são informados. Nessa situação, os possíveis golos podem ser analisados pela equipa de videoarbitragem através das câmaras disponíveis.
É, portanto, a tecnologia de linha de golo — e não o VAR propriamente dito — que apresenta a ligação mais direta e visível ao relógio do árbitro.
Hublot Big Bang Referee 2018

A ligação da Hublot aos relógios eletrónicos dos árbitros ganhou particular notoriedade no Campeonato do Mundo de 2018, na Rússia.
A marca desenvolveu uma versão especial do seu relógio conectado para utilização pela equipa de arbitragem. O equipamento combinava as funções habituais de cronometragem com ferramentas adaptadas à estrutura de um jogo de futebol.
Para o público, foi lançada uma versão comercial com informação sobre os encontros, equipas e acontecimentos das partidas. Contudo, essa versão destinada aos adeptos não deve ser confundida com o aparelho entregue aos árbitros.
O modelo profissional estava integrado no equipamento técnico da competição e não era simplesmente um relógio inteligente convencional com uma aplicação de futebol.
Hublot Big Bang e no Mundial de 2022
No Campeonato do Mundo do Qatar, os 129 membros da equipa de arbitragem utilizaram o Hublot Big Bang e FIFA World Cup Qatar 2022. A Hublot apresentou-o como uma ferramenta de apoio aos árbitros e destacou o ecrã de alta definição e a função de cronologia da partida.

O modelo comercial usava o sistema operativo Wear OS e possuía processador Qualcomm Snapdragon Wear 4100, GPS, microfone, altifalante, acelerómetro e giroscópio. A aplicação registava o início das partes, os golos, os cartões, o prolongamento e as grandes penalidades.
Apesar das semelhanças exteriores, é necessário distinguir novamente o relógio comercial do equipamento configurado para os árbitros. As notificações destinadas aos adeptos eram fornecidas por serviços de dados da competição; os alertas oficiais da arbitragem provinham dos sistemas certificados instalados no estádio.
O fora de jogo semiautomático
No Mundial de 2022, o sistema de fora de jogo semiautomático acrescentou uma nova camada tecnológica ao trabalho do VAR.
Doze câmaras especiais instaladas sob a cobertura do estádio acompanhavam a bola e até 29 pontos do corpo de cada jogador, 50 vezes por segundo. A informação ajudava a determinar com precisão a posição dos jogadores no momento do passe.
Ao contrário da tecnologia de linha de golo, esta informação não era enviada inicialmente como uma decisão definitiva para o relógio do árbitro. Os dados seguiam para a equipa de videoarbitragem, que validava a situação antes de comunicar a decisão ao campo.
Assim, o relógio continuava a ser um dispositivo auxiliar. A análise permanecia nos computadores e monitores da sala de vídeo.
O monitor junto ao campo
Quando uma decisão depende da interpretação do árbitro — por exemplo, a intensidade de uma entrada, uma possível mão na bola ou uma falta antes de um golo — o VAR pode recomendar uma revisão no terreno.

O árbitro desloca-se então para a denominada Referee Review Area, onde encontra um monitor protegido e ligado ao sistema de vídeo. Um operador seleciona os ângulos e as velocidades de reprodução solicitados pela equipa de arbitragem.
É neste monitor, e não no relógio, que ocorre a revisão visual da jogada.
O relógio continua a controlar o tempo e a receber os sinais para os quais foi configurado, enquanto a comunicação com o VAR é realizada pelo sistema de rádio e pelos auriculares.
Um conjunto de tecnologias distintas
A arbitragem moderna reúne sistemas que muitas vezes são confundidos:
Relógio do árbitro
Controla o tempo e pode receber determinados alertas eletrónicos.
Tecnologia de linha de golo
Determina se a bola atravessou completamente a linha e envia uma indicação visual e vibratória para o relógio.
Sistema de comunicação
Liga o árbitro, os assistentes, o quarto árbitro e a equipa de videoarbitragem.
VAR
Permite rever imagens de situações relacionadas com golos, grandes penalidades, cartões vermelhos diretos e erros de identificação.
Monitor de revisão
Apresenta ao árbitro as imagens selecionadas durante uma revisão no terreno.
Fora de jogo semiautomático
Combina câmaras de seguimento, dados posicionais e sistemas informáticos para apoiar as decisões de fora de jogo.
O relógio participa neste conjunto, mas não reúne sozinho todas estas funções.
Do cronómetro ao terminal eletrónico
A evolução dos relógios de árbitro acompanha a transformação do próprio futebol.
O relógio mecânico e o cronómetro independente deram lugar a instrumentos digitais com modos específicos para cada fase da partida.
O relógio mantém contudo a sua função original — medir o tempo — e assume uma nova função: entregar de forma imediata e discreta informação essencial diretamente no pulso.
Da relojoaria mecânica ao relógio conectado: a evolução dos relógios dos árbitros
1930–1960: o cronómetro mecânico

Nos primeiros Campeonatos do Mundo, o árbitro recorria normalmente a um relógio de pulso mecânico e, em muitos casos, a um cronómetro de bolso. Não existia qualquer padronização imposta pela FIFA relativamente ao equipamento utilizado.
A precisão dependia exclusivamente da qualidade do movimento mecânico e da regularidade da corda. Um desvio de apenas alguns segundos por dia era perfeitamente aceitável para a utilização em campo.
1960–1980: aparecem os primeiros relógios especializados
A popularização dos cronógrafos e o aparecimento dos primeiros relógios eletrónicos permitiram desenvolver instrumentos especificamente orientados para a arbitragem.
Um dos exemplos mais interessantes é o Omega Seamaster Soccer Timer, embora nunca tenha sido um relógio oficial da FIFA.

Lançado em 1969, o Omega Seamaster Soccer Timer (ref. 145.020) é um dos poucos relógios concebidos especificamente para árbitros de futebol. O Soccer Timer acrescenta uma escala gráfica específica que ajuda a ler os 45 minutos regulamentares.
No interior utiliza o célebre calibre Omega 861, o mesmo movimento de corda manual que equipava o Speedmaster Professional da época, tornando-o uma das peças mais singulares da relojoaria desportiva.
Poucos anos depois, a Seiko apresentou vários modelos Soccer Timer, já equipados com tecnologia de quartzo, beneficiando da enorme vantagem de precisão introduzida após a revolução iniciada pelo Astron em 1969.

O Seiko Soccer Timer surgiu no final da década de 1970, acompanhando o período em que a Seiko foi cronometrista oficial dos Campeonatos do Mundo de 1978, 1982, 1986 e 1990. Entre os modelos mais emblemáticos destaca-se o Seiko Speed-Timer 7017-6000, cujo mostrador tem uma escala específica para Basket Ball e Soccer, concebida para facilitar a leitura dos tempos regulamentares destes desportos.

Ao contrário do Omega Seamaster Soccer Timer, que utilizava um cronógrafo mecânico dedicado, a abordagem da Seiko privilegiava a legibilidade e a precisão, refletindo a forte aposta da marca japonesa na cronometragem desportiva que a tornaria uma referência mundial nas décadas seguintes.
A revolução/crise do quartzo
A passagem para movimentos de quartzo alterou profundamente a função do relógio do árbitro.
Enquanto um bom movimento mecânico podia apresentar desvios da ordem dos ±10 segundos por dia (ou mais, dependendo da afinação e das condições de utilização), um módulo de quartzo reduzia esse erro para apenas alguns segundos por mês.
Mais importante ainda, tornou-se possível incorporar:
contagens decrescentes programáveis;
alarmes acústicos;
múltiplos cronómetros;
memória de tempos;
temporizadores independentes para cada parte.
Estas funções seriam praticamente impossíveis de implementar num movimento puramente mecânico mantendo dimensões compatíveis com um relógio de pulso.
Os primeiros computadores de pulso
Durante as décadas de 1980 e 1990, marcas como Casio, Seiko e Timex exploraram o potencial dos relógios digitais multifunções.
Os árbitros passaram a utilizar equipamentos com:
dois cronómetros independentes;
temporizadores repetitivos;
alarmes múltiplos;
iluminação eletroluminescente;
resistência acrescida aos choques e à água.
Apesar destas melhorias, o relógio continuava completamente autónomo. Não comunicava com qualquer sistema exterior.
Um novo capítulo da história da relojoaria
Se os cronómetros de observatório representaram o auge da medição mecânica de precisão e os cronógrafos desportivos marcaram a expansão da relojoaria para a competição automóvel e aeronáutica, os relógios atuais dos árbitros inauguram uma nova categoria.
Já não são apenas instrumentos capazes de medir o tempo.
São interfaces homem-máquina integradas em sistemas distribuídos de aquisição de dados, comunicação em tempo real e validação eletrónica de decisões.
Paradoxalmente, continuam a cumprir exatamente a mesma missão dos relógios utilizados pelos árbitros em 1930: garantir que uma partida de futebol dura o tempo regulamentar. A diferença está em tudo o que acontece invisivelmente à sua volta.





👍