Quem decide do que gostamos?
- Nuno Margalha

- há 1 dia
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Formam-se filas durante a noite para comprar um relógio de plástico. Listas de espera prolongam-se durante anos para adquirir um desportivo em aço. Milhares de pessoas, em cidades diferentes e culturas distintas, acabam por desejar exactamente o mesmo objecto.
Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — um gosto pessoal, uma preferência estética, uma visão particular da relojoaria — e que os relógios que escolhemos são apenas a expressão dessa identidade. No entanto, muitas vezes acontece o inverso. O encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum ou um relógio que não segue as preferências dominantes — pode deslocar-nos para uma posição distinta dentro do universo do coleccionismo.
Nesse sentido, não é necessariamente por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente; muitas vezes é o relógio diferente que acaba por nos tornar diferentes.
A relojoaria gosta de apresentar cada relógio como uma escolha profundamente pessoal. Contudo, quando observamos o comportamento colectivo do mercado, surge uma pergunta desconfortável: até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas?
Talvez seja culpa de Jack Finney. Foi ele quem imaginou, no romance The Body Snatchers, a inquietante ideia de um organismo capaz de substituir silenciosamente os seres humanos, preservando os corpos mas apagando as mentes individuais.

Décadas mais tarde, essa história regressaria ao cinema numa das suas versões mais influentes, Invasion of the Body Snatchers, cujo argumento foi escrito por W. D. Richter — o mesmo argumentista que viria a co-escrever o clássico Big Trouble in Little China (Jack Burton nas Garras do Mandarim).

Nesse universo narrativo surge uma das ideias mais persistentes da ficção científica:
a ideia de um organismo único capaz de controlar a mente de múltiplos indivíduos.
Os corpos permanecem aparentemente normais, mas a consciência individual desaparece, substituída por uma inteligência colectiva.

Esta sugestão viria a repetir-se inúmeras vezes no cinema e na televisão. Dois exemplos relativamente recentes encontram-se no episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty e na série Pluribus.

Em todas estas histórias ocorre o mesmo fenómeno inquietante: os corpos continuam individuais, mas as mentes deixam de o ser.
Talvez essas histórias não falem apenas de alienígenas. Talvez falem de quem colecciona relógios. Talvez sejam todas sobre si!
Capítulo I
Quando as mentes deixam de ser individuais
Existem histórias de ficção científica que regressam continuamente à mesma inquietação: a possibilidade de perdermos a nossa individualidade sem que nada, à superfície, pareça ter mudado.
Três obras exploram esta ideia de forma particularmente clara: o episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty, o episódio Pluribus, e o filme Invasion of the Body Snatchers.
No episódio de Rick and Morty, a entidade chamada Unity controla simultaneamente todos os habitantes de um planeta. Cada pessoa mantém o seu corpo, a sua voz e os seus gestos, mas todos partilham a mesma consciência. Aquilo que parece ser uma sociedade de indivíduos revela-se, afinal, uma única mente distribuída por múltiplos corpos.
O episódio Pluribus explora uma ideia semelhante. Um organismo alienígena infiltra-se gradualmente numa população humana até criar uma inteligência colectiva. A individualidade dissolve-se pouco a pouco, à medida que os indivíduos passam a funcionar como partes de um sistema maior.
Já em Invasion of the Body Snatchers, talvez o exemplo mais célebre deste tema, a substituição ocorre de forma silenciosa. Organismos extraterrestres produzem duplicados humanos aparentemente perfeitos. Os novos corpos mantêm a aparência dos originais, mas perderam aquilo que os tornava verdadeiramente humanos: a autonomia da mente.
O aspecto mais inquietante destas narrativas é a normalidade com que ela ocorre. As cidades continuam a funcionar, as pessoas continuam a caminhar pelas ruas, as conversas continuam a acontecer. O que desaparece é apenas a consciência individual.
Estas histórias pertencem ao imaginário da ficção científica, mas a ideia que exploram é profundamente humana: a tensão entre individualidade e colectividade.
A pergunta que atravessa todas estas narrativas é simples e perturbadora ao mesmo tempo:
o que acontece quando muitos corpos começam a pensar como se fossem apenas um?
Capítulo II
O momento em que todos desejam o mesmo
Se nas histórias de ficção científica a mente colectiva surge através de um organismo alienígena, no mundo real ela manifesta-se de forma muito mais subtil.
Ninguém nos controla directamente. Não existe uma entidade central que governe os nossos pensamentos. Ainda assim, de tempos a tempos, ocorre um fenómeno curioso: milhares de pessoas passam a desejar exactamente o mesmo objecto.
Na relojoaria contemporânea, poucos episódios ilustram melhor este fenómeno do que o lançamento do Omega x Swatch MoonSwatch.

Quando o relógio foi apresentado em 2022, formaram-se filas inesperadas em frente às lojas Swatch em várias cidades do mundo. Pessoas aguardaram durante horas — por vezes durante a noite — para adquirir um objecto cujo preço e disponibilidade não justificariam, à partida, tal mobilização.
O mais interessante não foi o sucesso comercial do relógio. Foi a sincronização do desejo.
Indivíduos que nunca se tinham encontrado, em cidades diferentes e culturas distintas, comportaram-se de forma extraordinariamente semelhante. A decisão de comprar parecia simultaneamente pessoal e colectiva.
O mesmo fenómeno ocorre, de forma ainda mais duradoura, em torno da Rolex. Certos modelos tornaram-se objectos de desejo global. A procura ultrapassa largamente a oferta, o que cria listas de espera e mercados paralelos.
Em teoria, cada comprador faz a sua própria escolha. Na prática, o comportamento do mercado revela uma forte convergência.
Tal como nas histórias de ficção científica, os corpos permanecem individuais. Cada pessoa acredita agir segundo o seu próprio gosto. Contudo, quando observados em conjunto, os comportamentos revelam um padrão colectivo surpreendentemente uniforme.
Não é necessário um organismo alienígena para criar uma mente colectiva.Às vezes basta o desejo partilhado.
Capítulo III
A formação da mente colectiva
Nas narrativas de ficção científica, a transformação ocorre de forma abrupta. Num determinado momento, a consciência individual desaparece e os indivíduos passam a agir como partes de um único organismo. O processo é dramático, visível e irreversível.
Na realidade, os mecanismos que produzem comportamentos colectivos são muito mais discretos.
O desejo partilhado raramente nasce de uma única fonte. Forma-se através de uma rede de influências que se reforçam mutuamente: imprensa especializada, redes sociais, coleccionadores, celebridades, fóruns e mercados secundários. Cada elemento amplifica o anterior, até que uma preferência individual começa a adquirir a força de um consenso.
A relojoaria contemporânea fornece inúmeros exemplos deste fenómeno. Um modelo específico surge, é discutido, fotografado, partilhado e comentado. Em pouco tempo, o objecto passa a ocupar um lugar central na conversa colectiva. Aquilo que inicialmente poderia ter sido apenas uma escolha pessoal transforma-se numa referência comum.
Neste momento ocorre uma mudança subtil. O valor do objecto deixa de depender apenas das suas qualidades técnicas ou estéticas. Passa a depender também da percepção colectiva de que ele é desejável.
O objecto torna-se um sinal.
Possuir determinado relógio deixa de significar apenas apreciar um mecanismo ou uma forma. Significa participar numa narrativa partilhada por milhares de pessoas que reconhecem o mesmo símbolo.
Este processo não é exclusivo da relojoaria. Manifesta-se em inúmeros domínios culturais. Contudo, no mundo dos relógios mecânicos, a dinâmica torna-se particularmente visível porque a produção é limitada e o mercado secundário reage rapidamente às flutuações do desejo colectivo.
De certa forma, o mercado começa a comportar-se como um organismo.
As decisões individuais continuam a existir, mas a direcção geral do movimento já não depende de nenhuma delas isoladamente. Surge uma lógica emergente, difícil de localizar, mas claramente perceptível quando observada à escala global.
É neste ponto que a metáfora da mente colectiva deixa de parecer apenas um recurso narrativo da ficção científica e começa a revelar algo sobre a forma como as preferências humanas se organizam em sociedade.
Capítulo IV
A resistência da individualidade
Se as histórias sobre mentes colectivas têm sempre protagonistas que resistem à assimilação, o mesmo acontece no mundo da relojoaria.

Para além dos exemplos anteriores, este padrão repete-se em muitas outras obras de ficção científica. Em Star Trek: The Next Generation, por exemplo, os Borg representam uma civilização totalmente colectiva, contra a qual alguns indivíduos lutam para preservar a autonomia da mente. Em The Thing, um organismo alienígena assimila e imita os humanos, deixando um pequeno grupo de sobreviventes incapaz de saber quem permanece humano. Já em The Matrix, a humanidade vive aprisionada num sistema controlado por máquinas, enquanto um grupo reduzido de pessoas despertas tenta resistir ao domínio da inteligência central.

Em todas estas histórias repete-se a mesma estrutura narrativa: um sistema que tende para a uniformidade total e um pequeno número de indivíduos que preserva a consciência própria — e, com ela, a possibilidade de escolha.
São personagens que continuam a pensar por si próprios enquanto o resto da sociedade passa a agir de forma uniforme. Na relojoaria, a figura que mais se aproxima dessa posição é a do relojoeiro independente.
Ao contrário das grandes estruturas industriais, onde as decisões estéticas e técnicas resultam frequentemente de processos colectivos — equipas de marketing, estudos de mercado, tendências dominantes — o independente trabalha muitas vezes a partir de uma visão pessoal.
Um relógio concebido por um autor apresenta frequentemente sinais dessa singularidade: escolhas técnicas pouco comuns, acabamentos executados manualmente, proporções que não obedecem necessariamente às tendências dominantes do mercado.
A obra torna-se reconhecível.

Entre os exemplos frequentemente citados neste universo mais reduzido encontram-se relojoeiros como Masahiro Kikuno, Dann Phimphrachanh ou Rexhep Rexhepi. Em produções extremamente limitadas, o relógio deixa de ser apenas um objecto industrial e torna-se a expressão directa de uma visão técnica e estética muito pessoal, onde cada decisão construtiva reflecte a identidade do seu autor.
Este tipo de singularidade é raro, precisamente porque o mercado tende a favorecer aquilo que já demonstrou ser desejável. O sucesso comercial cria imitação; a imitação cria tendência; a tendência reforça o comportamento colectivo.
O independente ocupa, portanto, uma posição paradoxal. Por um lado, representa a possibilidade de uma voz individual num sistema dominado por forças colectivas. Por outro, quando essa voz se torna suficientemente influente, o próprio mercado pode acabar por assimilá-la.
Uma inovação estética ou técnica pode transformar-se rapidamente numa nova norma.
Tal como nas histórias de ficção científica, a resistência individual nunca é definitiva. É apenas um momento de equilíbrio instável entre a singularidade de um autor e a poderosa tendência da colectividade para uniformizar aquilo que admira.
Capítulo V
O paradoxo do coleccionador
O coleccionador de relógios acredita, quase sempre, estar a fazer escolhas profundamente pessoais. Um determinado modelo pode recordar uma história, uma estética específica ou uma afinidade com um determinado tipo de mecânica. O gesto de adquirir um relógio surge, muitas vezes, como uma afirmação de individualidade.
Contudo, quando se observa o fenómeno do coleccionismo à distância, emerge um paradoxo curioso.
Muitos coleccionadores diferentes acabam por desejar exactamente os mesmos relógios.
Modelos específicos tornam-se objectos de referência partilhados. Um determinado cronógrafo, um desportivo em aço ou uma complicação particular começam a aparecer repetidamente em colecções distintas, espalhadas por diferentes países e culturas. Aquilo que parecia ser uma escolha individual revela-se, na verdade, parte de um padrão colectivo.
O fenómeno recorda, de forma subtil, as narrativas de ficção científica que serviram de ponto de partida para esta reflexão — o episódio Auto Erotic Assimilation de Rick and Morty, a série Pluribus ou o filme Invasion of the Body Snatchers.
Em todas essas histórias, os indivíduos continuam a acreditar que são distintos, mesmo quando já pertencem a um sistema maior.
O coleccionador ocupa exactamente esse espaço paradoxal: procura distinguir-se através de objectos que muitos outros desejam exactamente da mesma forma.
Capítulo VI
Quando a mente colectiva cria valor
Se o desejo colectivo molda preferências, ele também molda valor.
Na relojoaria contemporânea, o valor de um relógio raramente depende apenas das suas qualidades técnicas. Elementos como o acabamento, a complexidade mecânica ou a história da manufactura continuam a ser importantes, mas não explicam, por si só, as grandes diferenças de valorização entre modelos.
Existe um outro factor decisivo: a intensidade do desejo colectivo.
Quando um número suficientemente grande de pessoas passa a desejar o mesmo objecto, o mercado reage de forma quase orgânica. A procura aumenta, a oferta torna-se insuficiente e o valor do relógio transforma-se.
Este mecanismo tornou-se particularmente visível nos últimos anos. Certos modelos atingem preços inesperados no mercado secundário, enquanto outros — tecnicamente semelhantes — permanecem relativamente estáveis.
O valor deixa então de ser apenas uma propriedade do objecto. Passa a ser uma propriedade da percepção colectiva.
A mente colectiva passa a determinar o que tem valor.
Capítulo VII
Porque desejamos aquilo que todos desejam
O desejo raramente nasce isoladamente.
Grande parte das nossas preferências forma-se através da observação. Vemos o que outros apreciam, discutem ou procuram. Aos poucos, essas referências tornam-se familiares, depois desejáveis, e finalmente quase inevitáveis.
Este processo é tão comum que muitas vezes passa despercebido.
Uma fotografia partilhada, um artigo elogioso, um comentário num fórum ou uma aparição inesperada num pulso influente podem contribuir para criar uma narrativa colectiva em torno de um determinado relógio. A repetição dessas referências cria uma sensação de consenso.
Aquilo que inicialmente era apenas um objecto entre muitos transforma-se, pouco a pouco, numa referência central.
Este fenómeno não implica necessariamente manipulação ou estratégia deliberada.
Muitas vezes trata-se apenas da dinâmica natural das preferências humanas. Afinal, somos animais de manada, raramente lobos solitários. Ao longo da história, as nossas escolhas foram quase sempre influenciadas pelo grupo a que pertencemos — pela tribo, pela comunidade, pelo círculo social. Aquilo que os outros valorizam tende a adquirir valor também para nós.
Este mecanismo não implica falta de personalidade. Pelo contrário, faz parte da forma como os seres humanos aprendem e tomam decisões. Observar o comportamento dos outros permite reduzir o risco: se muitas pessoas escolhem o mesmo objecto, o mesmo estilo ou a mesma marca, a probabilidade de essa escolha ser considerada acertada parece aumentar.
Na relojoaria, como em muitos outros domínios, este fenómeno manifesta-se de forma particularmente visível. Certos modelos tornam-se objectos de desejo colectivo, não apenas pelas suas qualidades técnicas ou estéticas, mas também porque passam a simbolizar pertença a um determinado grupo de apreciadores. A preferência individual acaba assim por se formar num território intermédio entre o gosto pessoal e a influência subtil da comunidade.
Capítulo VIII
O último indivíduo
Todas as histórias sobre mentes colectivas incluem, quase inevitavelmente, uma figura solitária: o indivíduo que permanece consciente quando todos os outros já foram assimilados.
É a personagem que continua a pensar de forma autónoma enquanto o resto da sociedade se move em perfeita sincronização.
Para além das referências já mencionadas, a mesma ideia aparece noutras obras centradas numa consciência colectiva que domina ou assimila corpos individuais. Na série Star Trek: Voyager, a tripulação confronta repetidamente os Borg, uma civilização organizada como uma única mente distribuída por milhares de corpos. No filme The Faculty, uma entidade alienígena assume o controlo das pessoas de uma escola, criando uma rede de hospedeiros subordinados a uma única inteligência. E na série Falling Skies, a humanidade enfrenta invasores que controlam os corpos humanos através de dispositivos implantados.
Em todos estes casos reaparece a mesma estrutura narrativa: uma consciência central que se multiplica através de muitos corpos e um pequeno número de indivíduos que permanece fora desse sistema. Na relojoaria, essa posição existe também. Pertence àqueles que escolhem um relógio não porque ele se tornou desejado, mas porque corresponde a uma afinidade pessoal com uma determinada estética, mecânica ou história. São escolhas que não procuram necessariamente reconhecimento colectivo.
Este tipo de decisão é raro precisamente porque o contexto cultural favorece a convergência. O mercado amplifica tendências, o sucesso cria imitação e a repetição reforça a preferência colectiva.
Manter uma escolha verdadeiramente individual exige, por vezes, um pequeno gesto de resistência.
A ambivalência entre a perda de individualidade que resulta de pertencer ao grupo e a angústia de ser afastado dele gera tensão suficiente para tornar o tema do controlo global um dos mais persistentes do cinema — e talvez também um dos motores do coleccionismo na relojoaria.

A frase «Ce n’est pas l’identité qui explique la différence, c’est la différence qui explique l’identité.» (A identidade não explica a diferença; é a diferença que explica a identidade) — Gilles Deleuze, Différence et répétition. Propõe uma inversão subtil da forma habitual de pensar. Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — uma personalidade, um gosto, um estilo — e que as diferenças são apenas manifestações exteriores dessa identidade.
Deleuze sugere o contrário: é a diferença que produz a identidade.
Aplicado à relojoaria, isto significa que não é por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente. Muitas vezes acontece precisamente o inverso. É o encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum, um relógio que não segue as preferências dominantes — que acaba por nos colocar numa posição distinta.
Não é a identidade que gera a diferença do relógio. É o relógio diferente que, silenciosamente, nos torna diferentes.





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