Watches and Wonders 2026 — Dia 4 em Genebra
- Nuno Margalha

- há 18 horas
- 4 min de leitura

Jaeger-LeCoultre
O Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon à Stratosphère representa uma das expressões mais radicais da busca pela precisão: um tourbillon de três eixos, integrado no calibre manual 178, cuja cinemática cobre 98% das posições possíveis, reduzindo ao mínimo a influência da gravidade.
A arquitectura organiza-se em profundidade, com o regulador multi-eixos a dominar a leitura, enquanto o restante movimento — decorado com técnicas de métiers rares — se dissolve na composição.

Não se trata de acumular complicações, mas de levar uma única ideia ao limite: transformar o órgão regulador num sistema quase absoluto de compensação.
O Jaeger‑LeCoultre Reverso One Precious Flowers desloca o foco da mecânica para o trabalho de superfície, transformando a caixa num campo de expressão artesanal.

A decoração combina esmaltação, gravação e engaste de diamantes numa composição figurativa que ocupa integralmente a carrure, por forma a explorar o formato do Reverso como suporte artístico. A arquitectura mantém-se inalterada — é na pele do relógio que acontece a transformação.

No pulso, o Jaeger-LeCoultre Master Control Chronometre Date Q4158120 traduz a abordagem da marca para 2026 numa forma mais contida: uma construção clássica que integra, pela primeira vez nesta linha, uma bracelete metálica contínua com a caixa. A leitura mantém-se essencial — horas, minutos, segundos e data — suportada pelo calibre automático 899 com 70 horas de autonomia, enquanto a nova certificação HPG testa o relógio já montado em condições reais de uso, deslocando o foco da precisão teórica para o comportamento efectivo no pulso.
A Van Cleef & Arpels manteve em 2026 uma linha muito coerente com a sua identidade: menos foco em arquitectura pura de movimento e mais numa relojoaria narrativa, onde a mecânica serve uma ideia visual — este ano centrada no tema “Poetry of the Heavens”.

o Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs apresenta uma das leituras mais depuradas do duplo fuso horário no salão. As horas surgem em janelas independentes, enquanto os minutos são indicados por um ponteiro retrógrado central, criando uma composição equilibrada onde a complexidade mecânica permanece invisível à primeira leitura.
No pulso, o Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune VCARPESA00 articula duas complicações sobrepostas numa única paisagem em movimento: um disco de 24 horas que anima a transição entre dia e noite e um segundo sistema astronómico que reproduz a fase lunar, visível também sob pedido.
O horizonte em madrepérola guilloché estrutura a leitura, enquanto o céu em aventurina cria profundidade, resultando numa construção onde a mecânica se dissolve na imagem — não se lê apenas a hora, observa-se a evolução do tempo como fenómeno contínuo.
No verso, o Midnight Jour Nuit Phase de Lune apresenta uma composição astronómica centrada na Terra, rodeada por astros e planetas estilizados, dispostos sobre um fundo com acabamento radial.
Roger Dubuis
A Roger Dubuis apresenta neste salão uma leitura particularmente clara da sua própria identidade: três peças que partem da mesma base — a arquitectura Excalibur — mas que exploram caminhos distintos dentro da relojoaria contemporânea. Entre a complexidade extrema do calendário perpétuo, a funcionalidade directa da versão em aço e a dimensão declaradamente artística da linha Brocéliande, constrói-se um conjunto coerente onde técnica, uso e expressão visual coexistem sem conflito.

O Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar reúne uma das arquitecturas mais densas do salão: calendário perpétuo com indicações bi-retrógradas, fase da lua e um mostrador construído em vários níveis que expõe o mecanismo com clareza. A leitura mantém-se surpreendentemente equilibrada, apesar da complexidade, e confirma uma abordagem onde a expressividade da linha Excalibur convive com uma disciplina técnica muito rigorosa.

Em tons diferentes, e menos complicado, o Excalibur Biretrograde Calendar Ref. DBEX1209 traduz a linguagem da marca para um registo mais utilizável, sem abdicar da complexidade. A caixa em aço de 40 mm integra-se com naturalidade, enquanto o mostrador em “Cosmic Blue”, construído em múltiplos níveis, revela o calibre RD840 com indicação bi-retrógrada de dia e data. Certificado pelo Poinçon de Genève, mantém a exigência de acabamento da alta relojoaria, mas num objecto pensado para uso contínuo e leitura imediata.

Com um tom feminino, o Excalibur Brocéliande Dawn Rose DBEX1208 revela uma abordagem onde a relojoaria se aproxima declaradamente do objecto artístico. A caixa em ouro rosa de 38 mm, com luneta engastada com diamantes, enquadra um mostrador construído sobre safira, onde folhas em madrepérola lacada são aplicadas manualmente, criando uma composição em relevo e em camadas. No interior, o calibre automático esqueletizado mantém-se visível e funcional, mas é deliberadamente subordinado à dimensão estética, numa peça que privilegia a expressão visual sem abdicar da base mecânica da linha Excalibur.
O Watches and Wonders termina
O Watches and Wonders termina, mas o que fica não são apenas os relógios. Fica a percepção de um sistema em funcionamento — um espaço onde técnica, cultura e estratégia se cruzam continuamente, e onde cada peça surge como parte de um discurso mais amplo.
Ao longo dos dias, a leitura altera-se. O impacto inicial dá lugar à comparação, depois à filtragem. O excesso desaparece e ficam apenas as propostas que resistem à repetição — aquelas que mantêm coerência no pulso, fora do contexto controlado do salão.
Este ano confirmou uma tendência clara: menos gestos isolados, mais estruturas consistentes. A complexidade surge organizada, a estética torna-se mais controlada e a inovação, quando existe, é integrada num discurso contínuo, não apresentada como ruptura.
No final, o Watches and Wonders revela-se menos como uma sequência de lançamentos e mais como um ponto de observação privilegiado sobre o estado da relojoaria contemporânea — um lugar onde o tempo, para além de medido, é pensado.





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