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- A Misteriosa História do Breguet Nº 160
Sílvio Pereira OS MISTÉRIOS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA Parte 2 CRIME, DESAPARECIMENTO, RENASCIMENTO E A ANATOMIA DE UMA OBRA-PRIMA Se a génese do Breguet Nº 160 representa o auge do engenho humano num contexto aristocrático, o seu percurso posterior inscreve-se numa narrativa muito mais imprevisível — onde o objeto deixa de ser apenas um artefacto técnico para se tornar protagonista de uma história quase literária. Ao longo do século XX, o chamado Marie Antoinette transforma-se num símbolo de colecionismo, de obsessão e, finalmente, de vulnerabilidade patrimonial. O relógio que sobrevivera à Revolução Francesa, à morte da sua destinatária e à passagem de gerações, viria a enfrentar um perigo de natureza completamente distinta: o crime moderno. Museu de arte Islâmica de Jerusalém ©en.wikipédia O Museu e a Ilusão de Segurança No século XX, o Breguet Nº 160 integra a prestigiada coleção de Sir David Lionel Salomons, um dos mais influentes colecionadores e estudiosos da obra de Abraham-Louis Breguet. A coleção, posteriormente doada, passa a estar exposta no Museu de Arte Islâmica L.A. Mayer, em Jerusalém — instituição que, apesar do nome, alberga uma das mais relevantes coleções de relojoaria clássica do mundo. Durante décadas, o relógio permanece ali, aparentemente seguro, integrado numa narrativa museológica que o posiciona como obra-prima absoluta da engenharia histórica. No entanto, essa segurança revelar-se-ia ilusória. O problema, analisado retrospetivamente, não foi apenas técnico, mas conceptual: a segurança museológica da época estava preparada para furtos convencionais, não para operações meticulosas conduzidas por indivíduos altamente especializados. Na’aman Diller ©bbc.co.uk O Assalto de 1983: precisão criminosa Na madrugada de 15 de abril de 1983, o museu foi alvo de um assalto que, pela sua execução, se aproxima mais de uma operação cirúrgica do que de um roubo tradicional. O responsável, Na’aman Diller, não era um criminoso impulsivo, mas um indivíduo metódico, paciente e tecnicamente competente. Diller entrou no museu sem levantar suspeitas, neutralizou sistemas de segurança e abriu vitrinas que se supunham invioláveis. A seleção das peças revela conhecimento profundo: não levou apenas objetos de valor monetário, mas peças de importância histórica e relojoeira excepcional — entre elas, o Breguet Nº 160. O mais intrigante, não é o sucesso do roubo, mas a sua lógica. Ao contrário de joias ou ouro, um relógio como o Marie Antoinette não pode ser vendido facilmente. É demasiado conhecido, demasiado único. Isto levanta uma questão fundamental: qual era a verdadeira motivação? As hipóteses incluem: Colecionismo patológico — a posse como fim em si mesmo; Investimento a longo prazo, esperando circunstâncias futuras para venda; ou uma forma de desafio intelectual — o roubo como prova de capacidade. Independentemente da motivação, o resultado foi devastador: o desaparecimento de um dos maiores ícones da relojoaria mundial. O Desaparecimento: quando o objeto se torna mito Durante os 24 anos seguintes, o paradeiro do Breguet Nº 160 permaneceu completamente desconhecido. Nenhum sinal em leilões, nenhuma tentativa de venda clandestina identificada, nenhuma pista credível. Este silêncio absoluto teve um efeito curioso: o relógio deixou de ser apenas um objeto desaparecido e passou a ser um mito contemporâneo. Na ausência física, a narrativa expandiu-se. Especialistas debatiam o seu destino: teria sido desmontado para ocultar a sua identidade? estaria escondido numa coleção privada inacessível? teria sido destruído por acidente ou negligência? Este período é particularmente relevante porque revela algo profundo sobre o valor simbólico da relojoaria: um relógio pode desaparecer fisicamente, mas permanece presente no imaginário coletivo. A Réplica como acto de resistência: o Breguet Nº 1160 Nicolas G. Hayek apresntando o Breguet 1160 ©Swatch group Perante o desaparecimento do original, a casa Breguet, sob liderança de Nicolas G. Hayek, toma uma decisão que, à época, parecia quase audaciosa: reconstruir o Marie Antoinette sem acesso ao próprio relógio. Este projeto — o Breguet Nº 1160 — é, em si mesmo, um feito extraordinário. Baseado em desenhos históricos, descrições e documentação incompleta, exigiu uma abordagem híbrida entre arqueologia técnica e engenharia moderna. Breguet 1160 ©Montres Breguet O que está em causa aqui não é apenas replicar um objeto, mas reconstruir um processo mental do século XVIII. A equipa teve de responder a perguntas fundamentais: Como Breguet organizou o movimento internamente? Que tolerâncias mecânicas utilizou? Como equilibrou energia e precisão em tantas complicações simultâneas? A réplica, concluída em 2008, torna-se um manifesto: a relojoaria não é apenas preservação do passado — é também a sua recriação intelectual. A Redescoberta: o retorno do impossível Em 2007, num desenvolvimento digno de romance policial, a história sofre uma reviravolta inesperada. Após a morte de Diller, a sua viúva contacta as autoridades e revela a existência de cofres contendo os objetos roubados. Entre eles, intacto, estava o Breguet Nº 160. O impacto desta descoberta não pode ser subestimado. Após mais de duas décadas de ausência, o relógio regressa ao domínio público — não como ruína, mas como peça funcional e preservada. Este momento representa algo raro: uma restituição histórica completa. Enquanto muitos artefactos roubados são recuperados em estado degradado, o Marie Antoinette regressa praticamente incólume, como se tivesse sido colocado em suspensão temporal. Anatomia Mecânica: uma leitura aprofundada Breguet Nº 160 ©Watch Affinity Com o relógio novamente acessível, tornou-se possível estudá-lo com ferramentas modernas. A análise confirma aquilo que já se suspeitava: o Nº 160 não é apenas complexo — é estruturalmente inovador. Arquitectura energética Um dos maiores desafios em relógios de alta complicação é a gestão de energia. Cada função adicional consome força. No Nº 160, Breguet concebeu um sistema em que a energia é distribuída de forma quase orgânica, evitando perdas excessivas. Integração de complicações Ao contrário de relógios posteriores, onde complicações são adicionadas em módulos, o Nº 160 apresenta uma integração nativa. Tudo faz parte de um único sistema coerente. Precisão vs. complexidade Existe sempre um compromisso entre complexidade e precisão. Breguet conseguiu minimizar esse conflito através de soluções inovadoras, incluindo materiais de baixo atrito e geometrias optimizadas. Dimensão tridimensional O movimento não é plano. É tridimensional, quase arquitectónico. Esta abordagem antecipa soluções que só se tornariam comuns muito mais tarde. Significado cultural: um objeto que sobrevive à história O Breguet Nº 160 é mais do que um relógio excepcional. É um artefacto que atravessou: a queda de uma monarquia, a transformação da Europa, a evolução da ciência mecânica, e um dos mais intrigantes crimes do século XX. Poucos objetos conseguem acumular tantas camadas de significado. Na minha opinião, este relógio representa algo profundamente humano: a tentativa de criar um objecto perfeito e duradouro num mundo intrinsecamente instável. E talvez seja essa a razão pela qual continua a fascinar. Entre o tempo e a eternidade O percurso do Marie Antoinette demonstra que certos objetos transcendem a sua função original. De instrumento de medição do tempo, o relógio torna-se testemunha da própria história. A sua sobrevivência — não apenas física, mas simbólica — levanta uma reflexão essencial: o que torna um objeto verdadeiramente valioso? Não é apenas o ouro, nem a complexidade mecânica. É a história que transporta. O Breguet Nº 160 não mede apenas horas. Mede séculos.
- TEFAF Maastricht 2026 – Uma seleção de peças de relojoaria
Fundada em 1988, The European Fine Art Foundation (TEFAF) é amplamente reconhecida como uma das principais organizações sem fins lucrativos dedicadas à arte, às antiguidades e ao design. A sua atividade organiza-se em torno de duas feiras anuais: a TEFAF Maastricht, principal iniciativa da fundação, abrangendo um arco cronológico de cerca de sete milénios de produção artística; e a TEFAF New York, com particular incidência na arte e design modernos e contemporâneos. Cada uma reúne um grupo de galerias criteriosamente selecionadas e um público internacional de colecionadores, profissionais, investigadores e apreciadores de arte, num contexto em que aquisição, investigação e intercâmbio profissional se encontram estreitamente interligados. TEFAF Maastricht, 2026. Fotografia de Loraine Bodewes, website da TEFAF. A TEFAF promove também um conjunto de iniciativas nos domínios da conservação e da disseminação de conhecimento. Entre estas, o TEFAF Museum Restoration Fund apoia anualmente a conservação e o estudo de obras de arte em instituições públicas, enquanto a TEFAF Summit, organizada em colaboração com a Comissão Nacional dos Países Baixos para a UNESCO, funciona como um espaço de reflexão e debate sobre temas da atualidade do sector cultural. A par destas, desenvolvem-se outros formatos, como as Collectors Talks, as sessões Meet the Experts e a Art Business Conference, que reforçam a dimensão intelectual das feiras. Neste enquadramento, insere-se também o TEFAF Curator Course, realizado em parceria com a Universidade de Maastricht, que reúne anualmente um grupo de dez curadores internacionais, promovendo uma maior proximidade entre museus e mercado da arte. O presente artigo inscreve-se no âmbito da participação institucional da autora, desenvolvida ao longo dos últimos dois anos. Após a frequência do TEFAF Curator Course, em 2025, a presença na edição de 2026 realizou-se na qualidade de assistente da Comissão de vetting (peritagem) de relojoaria. Estas duas funções, muito distintas, permitiram um contacto direto com os processos que antecedem a abertura do evento, bem como com os objetos e os especialistas envolvidos. Esta perspetiva é também informada pela atividade curatorial desenvolvida no Museu Medeiros e Almeida, cuja coleção reúne mais de 650 peças relojoeiras, e pela formação especializada realizada no IPR – Instituto Português de Relojoaria. As considerações que se seguem baseiam-se neste percurso, propondo uma análise de um conjunto de peças apresentadas na TEFAF Maastricht em 2026. O vetting enquanto mecanismo académico A autoridade da TEFAF decorre não apenas da qualidade das obras apresentadas, mas também dos procedimentos que regulam a sua admissão. O vetting constitui o principal dispositivo deste processo, através do qual cada objeto é examinado por especialistas independentes. Esta avaliação ultrapassa o âmbito estritamente comercial, mobilizando práticas de peritagem, conhecimento técnico e verificação jurídica (due diligence). A sua coordenação é assegurada pelo Presidente Global das Comissões de Vetting, função exercida em 2026 por Wim Pijbes, ex-diretor do Rijksmuseum. Cada objeto é sujeito a verificação através de bases de dados internacionais relevantes, incluindo o Art Loss Register, e enquadrado nos regimes legais e regulamentares aplicáveis, incluindo a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), em particular no que respeita à proveniência e à utilização de materiais provenientes de espécies protegidas. Na edição de 2026, múltiplas comissões de vetting, compostas por especialistas internacionais, procederam à análise de cada objeto quanto à sua autenticidade, atribuição, estado de conservação e conformidade legal. Estas comissões contam com o apoio de uma equipa científica especializada em ciências da conservação, imagiologia técnica e análise de materiais, permitindo a realização de investigações complementares sempre que necessário. Processo de vetting na TEFAF. Canal YouTube da TEFAF, 25 de março de 2020. O vetting afirma-se, assim, não apenas como uma exigência processual, mas como uma prática de natureza académica aplicada. Análise material, investigação documental e conhecimento empírico convergem numa metodologia que permanece, em larga medida, invisível ao público, embora determine de forma decisiva o que lhe é apresentado. A feira, tal como é apreendida pelos visitantes, corresponde assim à etapa final de um processo rigoroso e colaborativo. Vetting de relógios: práticas e desafios Embora não constituam a categoria quantitativamente mais representada na TEFAF — sobretudo quando comparadas com a pintura ou com outros domínios das artes decorativas, como a joalharia ou o mobiliário — as peças relojoeiras colocam problemas específicos, decorrentes da sua complexidade técnica e da heterogeneidade dos contextos históricos em que se inserem. Os relógios apresentam uma natureza intrinsecamente híbrida, situando-se na interseção entre a produção artística e a instrumentação científica. Uma abordagem limitada à sua atribuição estilística revela-se insuficiente: a sua análise implica a consideração do movimento, das práticas de oficina e da história material de cada componente. Por outro lado, uma leitura centrada exclusivamente no mecanismo tende a dissociá-lo do enquadramento cultural em que é concebido e utilizado. A compreensão destes objetos exige, por conseguinte, a articulação destas perspetivas, como se torna particularmente evidente nos casos adiante apresentados. Os relógios integram frequentemente sistemas mecânicos e programas decorativos de elevada complexidade. A estrutura do movimento exige uma análise que articule os componentes exteriores, como a caixa e o mostrador, cuja execução convoca práticas de diferentes domínios das artes decorativas, entre os quais a marcenaria, a ourivesaria, a pintura, a escultura e o trabalho de esmalte. A variedade de materiais empregues, incluindo madeira, laca, cerâmica, metais e materiais gemológicos, reforça a necessidade de uma abordagem de carácter multidisciplinar. A questão da autenticação assume particular acuidade no domínio relojoeiro, uma vez que estes objetos atravessam, com frequência, intervenções sucessivas ao longo da sua vida funcional. A substituição de componentes, a transferência de movimentos entre caixas ou a renovação de elementos decorativos constituem práticas recorrentes. A identificação destas intervenções constitui um aspeto central do vetting, desempenhando um papel na avaliação global do objeto, particularmente quando são identificadas incongruências. Quando são identificadas intervenções posteriores consideradas historicamente coerentes, a sua explicitação passa a integrar a própria apresentação do objeto. A menção a campanhas de restauro, à substituição de componentes ou à adição de elementos posteriores contribui para esclarecer o percurso material da peça e as condições em que chega ao presente. Embora, na prática, o grau de detalhe apresentado pelos antiquários possa variar, a articulação clara destas informações permite compreender melhor a configuração original e as alterações resultantes do uso ao longo do tempo. No contexto da feira, este nível de explicitação sustenta uma leitura informada e reforça a credibilidade dos objetos. A fase preparatória caracteriza-se por um processo de análise contínuo e metódico, apoiado em conhecimento técnico e investigação documental. A atenção incide sobre aspetos estruturais, materiais e históricos, no âmbito de uma avaliação especializada que assegura um exame rigoroso e criticamente fundamentado. A Comissão de Vetting de Relógios reúne especialistas da prática relojoeira, do restauro, da investigação académica e da curadoria museológica. O seu âmbito estende-se pontualmente a instrumentos científicos afins, como relógios de sol, ampulhetas, globos, astrolábios, quadrantes, sextantes e autómatos, refletindo a proximidade histórica entre relojoaria, astronomia, navegação e o desenvolvimento de tecnologias de precisão. Na edição de 2026, esta comissão integrou os seguintes elementos: Helmut Crott — consultor em relojoaria especializado em autenticação e avaliação; fundador da Auktionen Dr. Crott (1975), com um papel relevante no desenvolvimento do mercado de relógios de pulso mecânicos vintage; colaborador da Stern Creations (Genebra) na investigação sobre arquivos de mostradores associados à Patek Philippe; membro do conselho fundador da Horopedia Foundation. Jean Genbrugge — relojoeiro, engenheiro e mestre esmaltador sediado em Antuérpia, com especialização na construção de movimentos, na produção de mostradores e em técnicas decorativas de superfície; reconhecido pelo seu trabalho em esmalte em miniatura e pelo desenvolvimento do mecanismo retrógrado Mercator, posteriormente adotado pela Vacheron Constantin. Michael van Gompen — conservador-restaurador de relógios e instrumentos científicos e diretor da Horlogerie Ancienne Sprl; desenvolve atividade nas áreas da conservação e da consultoria institucional, tendo colaborado, entre outras entidades, com a Wallace Collection, a Sotheby’s e diversas instituições belgas. Dominique Mouret — horloger-pendulier e cofundador da Mouret Pendulier Sàrl, com atividade centrada na produção e restauro de relógios de pêndulo complexos, com particular incidência na produção de Neuchâtel dos séculos XVIII e XIX; colabora com vários museus e coleções privadas. Patrick Rocca — engenheiro, Professor e Curador-Chefe do Arithmeum (Universidade de Bonn); reúne competências nas áreas da conservação e da fotografia técnica, tendo dirigido projetos de restauro e contribuído para a investigação e publicação no domínio da história dos instrumentos científicos. A composição desta comissão evidencia a diversidade de competências requerida pelo vetting relojoeiro. Tipologias distintas colocam problemas técnicos e históricos específicos, exigindo abordagens analíticas diferenciadas. Através deste processo, os relógios apresentados na TEFAF Maastricht são considerados como objetos historicamente estratificados, cuja configuração atual resulta de sucessivas fases de uso, alteração e conservação. O vetting estabelece, assim, as condições de possibilidade da sua interpretação crítica. A participação neste processo proporciona igualmente um contacto com formas de conhecimento especializado associadas a este contexto. Uma seleção de peças de relojoaria As obras ora analisadas constituem um conjunto de peças que se destacam no contexto da edição de 2026. Embora outros objetos pudessem igualmente ter sido incluídos, trata-se de uma seleção necessariamente limitada, que não pretende estabelecer qualquer hierarquia de importância. Os exemplos reunidos são definidos pela clareza com que evidenciam aspetos centrais da produção relojoeira, dos seus usos e do seu desenvolvimento histórico, refletindo simultaneamente um conjunto de preferências pessoais da autora. Türmchenuhr - Relógio astronómico renascentista Alemanha, c. 1560. Liga de cobre dourada, prata, latão e ferro. A. 63 × L. 42 × P. 42 cm. Apresentado por Kollenburg Antiquairs. O primeiro exemplar, um relógio alemão do tipo Türmchenuhr (“pequeno relógio de torre”) datável de cerca de 1560, distingue-se como um dos mais antigos apresentados na feira. Esta tipologia inscreve-se nas fases iniciais do desenvolvimento da relojoaria de mola na Europa central, encontrando-se estreitamente associada ao ambiente cultural do século XVI, em particular ao fenómeno da Kunstkammer (gabinete de curiosidades). Neste contexto, os relógios integram-se entre outros instrumentos científicos, assumindo funções que ultrapassam a medição do tempo, participando na representação e compreensão da ordem cosmológica. Relógio astronómico, vista frontal. Alemanha, c. 1560. © Kollenburg Antiquairs. A sua caixa apresenta-se como uma estrutura arquitetónica em liga de cobre dourada. A base, repuxada e cinzelada com motivos de arabescos, folhagens e frutos, assenta sobre as figuras de quatro unicórnios ajoelhados. O corpo é definido por colunas de canto, fundidas e delicadamente cinzeladas, enquadrando painéis densamente ornamentados com enrolamentos em simetria. Sobre este, eleva-se uma galeria circular com aberturas bem definidas por colunas sustentando arcos de volta perfeita, rematada por uma arquitrave assente sobre atlantes e colunas decoradas com folhas de acanto. O conjunto é rematado por uma cúpula vazada, coroada pela figura de Cronos, portando os seus atributos, a foice e a ampulheta. No interior da galeria e da cúpula são visíveis as campainhas da sonnerie e do alarme. Este programa decorativo evidencia a proximidade entre a relojoaria renascentista e as práticas da ourivesaria coeva, enquanto a cúpula remete para a circulação, na Europa do século XVI, de vocabulários ornamentais de proveniência oriental. O principal elemento de interesse técnico concentra-se no seu mostrador frontal, concebido como um dispositivo astronómico inspirado no astrolábio. Ao centro, uma rete vazada roda sobre um fundo gravado e prateado, representando a esfera celeste. Em torno deste sistema dispõem-se anéis concêntricos gravados com diferentes indicações: o anel exterior, com numeração árabe de 1 a 24, permite a leitura das horas ao longo do ciclo diário completo; no seu interior, um anel com dupla numeração romana, de I a XII, corresponde ao sistema de doze horas. A hora é indicada por um ponteiro com motivo solar, contrabalançado por um segundo ponteiro que mostra a hora no antimeridiano. Outros anéis fornecem informação de calendário e astronomia: um com os meses e os dias do mês, outro com os signos do zodíaco. As indicações lunares incluem uma escala de 1 a 29½, correspondente à idade da lua, e uma abertura que revela a fase lunar. O disco central apresenta um diagrama geométrico, conhecido como aspectograma, alusivo às relações planetárias na prática astrológica, com uma função essencialmente simbólica. Relógio astronómico, detalhe do mostrador principal. Fotografia da autora, TEFAF Maastricht 2026. Para além do mostrador principal, outras indicações distribuem-se pelas restantes faces da caixa. Numa das faces laterais integra-se um mostrador auxiliar com numeração árabe, destinado à regulação do alarme. A face posterior apresenta um anel de horas graduado de 1 a 12, indicando a posição do sistema de sonnerie das horas, e inclui três orifícios de corda correspondentes aos mecanismos de sonnerie das horas, dos quartos e do alarme; um pequeno orifício auxiliar permite ainda, quando necessário, a sincronização do sistema de sonnerie com a rodagem da marcha. Relógio astronómico, vistas lateral e posterior. © Kollenburg Antiquairs. O movimento é construído predominantemente em ferro, com alguns componentes posteriores — nomeadamente no sistema de escape — em latão. O mecanismo é acionado por três molas, alojadas em tambores independentes, transmitindo a força aos piões por meio de correntes de elos em aço. A rodagem da marcha tem uma duração aproximada de 24 horas. O sistema da sonnerie compreende mecanismos independentes para as horas e para os quartos, ambos regulados por roda contadora: as horas são assinaladas integralmente numa campainha de timbre mais grave, enquanto os quartos são assinalados numa campainha de timbre mais agudo, alojadas na galeria e cúpula. De acordo com o antiquário, a regulação é atualmente assegurada por um pêndulo frontal associado a um escape de palheta. Relógio astronómico, vistas do movimento. © Kollenburg Antiquairs. Como sucede frequentemente em relógios deste período, o movimento evidencia modificações sucessivas ao longo do seu tempo de funcionamento. O escape e o pêndulo atuais correspondem a intervenções posteriores que substituem o seu sistema regulador de origem, em consonância com práticas de adaptação técnica observáveis em relógios do século XVI que permanecem em uso prolongado. Este Türmchenuhr afirma-se como um testemunho relevante da relojoaria do início da época moderna. A densidade das indicações astronómicas, aliada à sofisticação do seu mecanismo, evidencia a articulação entre o saber científico e a elaboração formal que caracteriza a produção relojoeira de matriz renascentista. Exemplares desta tipologia ocorrem com escassa frequência no mercado, circunstância que acentua a sua importância no conjunto em análise. A escolha deste objeto justifica-se tanto pela sua cronologia precoce como pela sua representatividade tipológica, acrescendo o particular interesse do mostrador, cuja organização em diferentes níveis torna legível a relação entre a medição do tempo, a observação astronómica e a construção simbólica. Relógio de mesa renascentista Relógio de mesa renascentista, David Buschmann, Augsburgo, c. 1660. © Mentink & Roest. David Buschmann (1626–1701). Augsburgo, c. 1660. Prata, bronze dourado, latão, ferro, aço, madeira, tartaruga e veludo. A. 58 × L. 26 × P. 26 cm (relógio); A. 69 × L. 33 × P. 33 cm (caixa). Apresentado por Mentink & Roest . Entre os expositores regulares da TEFAF, o Mentink & Roest ocupa uma posição singular, sendo o único antiquário especializado em relojoaria. A sua apresentação reúne objetos que abrangem vários séculos da relojoaria a nível mundial. Produzido em Augsburgo por volta de 1660, este relógio de mesa em forma de coluna impõe-se não apenas pela sua riqueza de materiais ou densidade decorativa, mas pela forma como o tempo se inscreve na própria configuração do objeto, deixando de depender exclusivamente de um mostrador. O seu movimento encontra-se alojado numa caixa de configuração cúbica, em prata gravada e enriquecida com aplicações em bronze dourado, a partir da qual se eleva uma coluna. O conjunto assenta sobre uma base folheada a tartaruga, com gavetas, concebida à escala de uma pequena peça de mobiliário, e conserva ainda uma vitrina de madeira com painéis envidraçados, coeva, destinada à sua preservação e apresentação. Relógio de mesa renascentista. Mentink & Roest. Fotografias da autora, TEFAF Maastricht 2026. O movimento apresenta a duração de um dia, com transmissão ao pião por corrente de elos em aço e sonnerie de horas por roda contadora. A platina posterior, assinada “Davidt Buschman Aug”, identifica um membro de uma família de relojoeiros ativa em Augsburgo desde o início do século XVI. Executado maioritariamente em ferro, com componentes em latão e aço, o movimento corresponde às práticas da relojoaria alemã de meados do século XVII. Como frequentemente sucede, admitem-se intervenções posteriores, sendo o seu notável estado de conservação provavelmente decorrente de intervenções de restauro especializadas, asseguradas pela oficina da própria Mentink & Roest. As indicações de calendário dispõem-se num anel no topo da caixa, com ano, mês, dia e signo do zodíaco. Um mostrador secundário, situado acima da coluna, permite uma leitura mais convencional, embora não constitua o principal modo de leitura. Relógio de mesa renascentista, pormenor. © Mentink & Roest. Esta função é assumida pelo elemento principal do conjunto: a figura de um Cupido que ascende ao longo de um percurso helicoidal em torno da coluna. De acordo com Menno Hoencamp, relojoeiro e diretor da Mentink & Roest, trata-se de uma forma de leitura do “tempo em três dimensões”, na qual a progressão temporal se desenvolve numa trajetória ascendente, articulando simbolicamente a terra e os céus (Mentink & Roest, 2026, p. 45; Hoencamp, comunicação pessoal, 2026). Na base da coluna, quatro painéis gravados apresentam as inscrições “SVPRA FERVNTVR”, “CONTRA FERVNTVR”, “INFRA FERVNTVR” e “VNA FERVNTVR”, entendidas, respetivamente, como “em direção ascendente”, “em oposição”, “em direção descendente” e “em conjunto”. Estas inscrições prolongam a dinâmica já sugerida pelo Cupido, introduzindo uma dimensão conceptual coerente com relações de direção, oposição e unidade próprias do início da época moderna. Exemplares comparáveis, atribuídos a Buschmann, conservam-se no Kunsthistorisches Museum, em Viena (n.º inv. Kunstkammer 6832 e 6833), o que confirma tratar-se de uma tipologia reconhecida no âmbito da sua oficina. As variações entre estes exemplares apontam para uma tipologia adaptável, mais do que para um modelo fixo. Entre os relógios apresentados na feira, este destaca-se pela componente cinética e pela forma como o movimento é explorado enquanto recurso expressivo. A articulação de materiais reflete práticas colaborativas características de Augsburgo, onde relojoeiros, ourives e marceneiros trabalham de forma integrada, aproximando este tipo de produção da dos complexos contadores de meados do século XVII a inícios do XVIII, que frequentemente incorporam relógios. O objeto insere-se, assim, numa cultura de obras compósitas, em que se diluem as fronteiras entre instrumento, mobiliário e objeto de coleção. Relógio de noite Lorenzo De Ruggiero (at. 2.ª metade do século XVII; movimento); atribuído a Paolo De Matteis (1662–1728; pintura do mostrador). Nápoles, c. 1685–1695. Madeira ebanizada, bronze dourado, cobre, vidro, latão e aço. A. 60 cm. Apresentado pela Galleria Porcini. Este exemplar integra a rara tipologia dos relógios de noite (orologi notturni), desenvolvida em Roma a partir de meados do século XVII, durante o pontificado de Alexandre VII (1655–1667). A sua origem associa-se à invenção do oriolo muto por Pier Tommaso Campani (1630–1705), concebido para permitir a leitura das horas na escuridão noturna, sem perturbar o repouso do seu dono. Estes relógios combinam um funcionamento relativamente silencioso com um sistema de horas errantes, com iluminação interna, por detrás de aberturas. Após o termo do privilegio concedido a Campani, a tipologia difunde-se pela península Itálica, encontrando particular expressão em Nápoles. Relógio de noite, Nápoles, final do século XVII. © Galleria Porcini. A caixa, em madeira ebanizada com aplicações em bronze dourado, segue uma configuração de carácter arquitetónico, evocando a estrutura de pequenos oratórios ou armários devocionais. O mostrador, em cobre pintado e protegido por porta envidraçada, apresenta-se desprovido de ponteiros, sendo antes animado por meio de quatro discos rotativos. O maior deles, com elaborada pintura floral, é parcialmente visível numa abertura em arco, expondo um orifício circular onde a hora, recortada, é mostrada pela iluminação traseira e vai apontando nos recortes superiores, na sua viagem da esquerda para a direita, a passagem dos quartos e meios quartos. A cena pintada, inspirada nas Metamorfoses de Ovídio (c. 8 d.C.), representa o momento em que a ninfa Dafne, perseguida por Apolo, suplica o auxílio ao seu pai, o deus-rio Peneu, e é transformada em loureiro para escapar. Este instante de metamorfose introduz uma dimensão simbólica centrada na mudança e na transição, em ressonância com a própria função do relógio. A composição é atribuída ao pintor napolitano Paolo De Matteis (1662–1728), apresentando afinidades com o tratamento do mesmo tema na sua produção (Ceretti, 2025, pp. 143–146). Esta obra poderá constituir uma formulação inicial desta temática, antecipando soluções desenvolvidas pelo artista e pela sua oficina na transição para o século XVIII. A presença de uma natureza morta floral no disco rotativo não se articula diretamente com o tema mitológico. Esta opção reflete, contudo, a relevância deste género pictórico na Nápoles de finais do século XVII, onde se afirma com autonomia e é valorizado pelo seu contraste cromático e efeito decorativo (Ceretti, 2025, p. 145). Relógio de noite, vista do mecanismo. © Galleria Porcini. O movimento, assinado “Lorenzo Di Ruggiero Napoli”, é construído em latão e equipado com escape de palheta, com pião ligado ao tambor da mola por corda de tripa e regulação por pêndulo. Este aciona um sistema de discos rotativos que permite a leitura das horas através de aberturas, em substituição de ponteiros, um modo de indicação característico desta tipologia: o tempo não é apontado, mas revelado. Este exemplar não conserva vestígios visíveis de um sistema de iluminação interna. Em peças comparáveis, este consiste geralmente numa pequena lamparina a óleo colocada no interior da caixa, frequentemente associada a um refletor ou chaminé. A ausência destes elementos poderá resultar da sua perda ou de alterações, evidenciando a vulnerabilidade material destes objetos, cujo funcionamento depende da presença controlada de uma chama no interior da caixa. A escassez de relógios noturnos sobreviventes explica-se, em grande medida, pelos riscos inerentes a estes sistemas de iluminação interna, eventualmente responsáveis por danos ou destruição. Este exemplar assume, assim, particular relevância no contexto desta tipologia. A sua inclusão justifica-se não apenas pela raridade, mas também pelo modo como ilustra uma prática de medição do tempo condicionada pela luz, pelo silêncio e pelo uso doméstico, estabelecendo, adicionalmente, um ponto de contacto com um exemplar comparável conservado na coleção do Museu Medeiros e Almeida e com a experiência curatorial da autora. Relógio de sol horizontal portátil Assinado “Le Maire Fils à Paris”; atribuído a Pierre Le Maire II (1699–1767). Paris, c. 1730. Latão, aço e vidro. A. 1,2 × L. 7 × P. 6 cm. Apresentado pela Galerie Delalande. Relógio de sol portátil, anverso e reverso, atribuído a Pierre Le Maire II, Paris, c. 1730. © Galerie Delalande. Entre os instrumentos portáteis de medição do tempo apresentados, este relógio de sol do século XVIII constitui um exemplo particularmente notável. Integra a tipologia designada Butterfield, caracterizada por uma base octogonal que incorpora uma bússola, um gnómon rebatível ajustável para a latitude do lugar e escalas horárias para três ou quatro latitudes. Esta tipologia, associada a Michael Butterfield (c. 1635–1724), conhece ampla difusão em Paris entre finais do século XVII e as primeiras décadas do século XVIII. O mostrador encontra-se assinado “Le Maire Fils à Paris”, indicando a sua produção no âmbito da família Le Maire, fabricantes de instrumentos matemáticos, e em consonância com o período de atividade de Pierre Le Maire II (1699–1767). Um dos seus aspetos mais notáveis é a presença de inscrições em árabe. A rosa-dos-ventos apresenta as direções cardeais, enquanto o reverso da placa inclui uma lista de cidades acompanhadas das respetivas latitudes, entre as quais Constantinopla (Istambul), Alepo, Damasco, Jerusalém e Bagdade, centros relevantes do espaço otomano. A substituição da flor-de-lis, habitualmente utilizada nos instrumentos franceses para indicar o norte, por um crescente, reforça uma adaptação de vocabulário simbólico ao contexto islâmico. No espaço europeu, a ocorrência de instrumentos concebidos para o mercado otomano é escassa, dado que a sua circulação os afasta dos contextos de origem. A bibliografia disponível assinala um exemplar comparável, assinado por Nicolas Bion (c. 1656–1733), conservado no Museu Marítimo Nacional, em Greenwich (Caird Collection, inv. AST0519), que apresenta igualmente inscrições em árabe. Esse instrumento inclui ainda um nome gravado adicional, possivelmente associado à família Le Maire, sugerindo ligações no interior do mesmo meio profissional (Higton, 2002, pp. 361–362, ests. 49–50). O presente relógio de sol destaca-se pela qualidade de execução e pelo rigor da sua adaptação a um enquadramento linguístico distinto. A tradução das inscrições é acompanhada por uma reformulação do quadro geográfico, evidente na seleção de cidades no reverso, que difere da observada em exemplares franceses comparáveis. Em conjunto com a alteração de marcadores simbólicos, estes elementos apontam para um processo deliberado, plausivelmente associado a uma encomenda específica. Considerado nesta perspetiva, este instrumento constitui um exemplo elucidativo da forma como os fabricantes parisienses respondem a clientelas extraeuropeias, produzindo peças ajustadas a contextos geográficos e culturais diferenciados. Ampulheta de viagem Atribuída a Guillaume Martin (final do século XVII–1749). França, c. 1730–1740. Verniz Martin, papier-mâché, papel, policromia, folha de ouro, vidro, cera, lápis-lazúli, veludo e ouro. A. 14,8 cm; diâmetro da base 6,2 cm. Apresentada pela Galerie Delalande. Ampulheta de viagem, atribuída a Guillaume Martin, França, c. 1730–40. © Galerie Delalande. Datável da primeira metade do século XVIII e apresentada pela mesma galeria, esta ampulheta de viagem ilustra uma abordagem distinta à medição portátil do tempo. O seu funcionamento baseia-se numa ampola de vidro constituída por dois bojos soprados, ligados por um estrangulamento calibrado, inserida numa estrutura de duplo cilindro rotativa. Trata-se de um sistema de operação elementar, no qual a ênfase recai menos na complexidade mecânica do que nos materiais e no tratamento das superfícies. A estrutura, executada em papier-mâché integralmente revestido a verniz Martin, representa uma técnica desenvolvida em Paris no início do século XVIII pela família Martin, como alternativa europeia às lacas de tradição chinesa e japonesa. Aplicado em sucessivas camadas e polido até obter um acabamento brilhante, este verniz pode incorporar pós metálicos, produzindo uma superfície cintilante, comparável ao efeito ótico da aventurina, uma variedade de quartzo caracterizada por inclusões minerais que refletem a luz. A atribuição a Guillaume Martin é compatível com a cronologia e com o emprego desta técnica específica, embora deva ser considerada com reserva na ausência de um exemplar assinado que permita comparação direta. O verniz Martin encontra-se documentado numa ampla variedade de objetos de luxo produzidos nas décadas de 1730 e 1740, sendo, contudo, a sua aplicação a um instrumento de medição do tempo desta natureza particularmente invulgar. Destaca-se ainda o material contido na ampola. Em vez de materiais granulares comuns, como as areias, esta ampulheta utiliza partículas de lápis-lazúli, uma rocha azulada, composta essencialmente por lazurite, associada a calcite e pirite. Enquanto material de elevado custo no século XVIII, a sua utilização num objeto desta tipologia revela uma conceção que ultrapassa claramente a função utilitária. Relógio cartel musical Luís XV Jean Moisy (mestre 1753; mecanismo); Adrien Dubois (mestre 1741–1788; caixa). Paris, c. 1750. Madeira, corno tingido, bronze dourado, latão, aço, esmalte, vidro e têxteis. A. 109 × L. 55 × P. 21 cm. Apresentado pela Galerie Léage. Relógio cartel musical Luís XV, Jean Moisy e Adrien Dubois, Paris, c. 1750. © Galerie Léage. Este relógio cartel musical Luís XV reafirma a centralidade dos mecanismos relojoeiros complexos, articulando um movimento com um dispositivo musical e ilustrando a colaboração entre diferentes ofícios — relojoaria, marcenaria e trabalho em bronze — na produção parisiense de meados do século XVIII. Concebido como relógio de parede, o cartel afirma-se a partir do período da Regência (1715-1723) e conhece pleno desenvolvimento sob o reinado de Luís XV (1723–1774), caracterizando-se por uma composição vertical, frequentemente prolongada por um elemento inferior que remete para o formato de uma mísula. A caixa encontra-se revestida a corno tingido de verde, um material relativamente pouco comum, aplicado pelo ébéniste mediante técnicas especializadas. As montagens em bronze, fundidas em molde, cinzeladas e douradas, são produzidas pelo bronzier, evidenciando a divisão de trabalho entre estas diferentes áreas. A sua silhueta assimétrica, associada a um repertório de enrolamentos, conchas e elementos vegetalistas, inscreve-se plenamente na linguagem rocaille. Uma abertura envidraçada central permite observar o pêndulo, enquanto uma porta quadrilobada, logo abaixo, concede acesso ao mecanismo musical. Painéis vazados, forrados a tecido, facilitam a sua difusão sonora. Marcada com “A. DUBOIS” e “JME” — este último indicativo da conformidade com as normas da Jurande des Menuisiers Ébénistes —, a peça é atribuída a Adrien Dubois (mestre entre 1741 e 1788), cuja atividade se encontra estreitamente ligada à produção de caixas de relógios. Neste caso, assume-se como a figura coordenadora do conjunto, articulando a encomenda dos diferentes elementos junto de oficinas especializadas. A identidade do bronzier permanece desconhecida, situação frequente neste tipo de produção. O mostrador, assinado “Moisy à Paris”, e o movimento, igualmente assinado e numerado (n.º 316), documentam a intervenção do relojoeiro Jean Moisy (mestre em 1753). O dispositivo musical, instalado na parte inferior, funciona através de um cilindro de pinos que acciona dezoito martelos, percutindo nove campainhas. Relógio cartel musical. Galerie Léage, TEFAF Maastricht 2026. Vídeo da autora. Este exemplar integra um conjunto restrito de relógios cartel musicais com características próximas, partilhando montagens em bronze e uma composição geral semelhante, embora com variações nos materiais das caixas, entre os quais marchetaria Boulle, em tartaruga, laca vermelha ou corno tingido. Os movimentos destes exemplares são atribuídos a vários relojoeiros parisienses de relevo, incluindo Jean-Baptiste Albert Baillon III (1698–1772), Étienne Le Noir II (1699–1778) e Augustin Fortin, père (ativo em meados do século XVIII). A presente peça pode ser associada a este grupo, destacando-se como o único exemplar conhecido que apresenta a marca de Adrien Dubois, permitindo relacionar a conceção deste conjunto com a sua oficina. Este objeto constitui um exemplo coerente desta tipologia, combinando um movimento assinado e numerado com a identificação do marceneiro e evidenciando a organização colaborativa da produção de luxo parisiense, na qual especialistas distintos — ébénistes, fondeurs-ciseleurs, bronziers e relojoeiros — intervêm na sua realização. A presença de uma função musical amplia ainda a sua dimensão para além da medição do tempo, aproximando-o do domínio da performance. Relógio com sistema planetário e globo celeste Autor parisiense não identificado (movimento e caixa); atribuído a Ursin Barbay (1750–1824; globo). Paris, c. 1785. Mármore, latão, aço, esmalte, bronze dourado e patinado e vidro. A. 51 × D. 31,5 cm. Apresentado pela Galerie Kugel . Relógio com sistema planetário, Paris, c. 1785. © Galerie Kugel. A exposição da Galerie Kugel, fundada no século XIX e amplamente reconhecida pela sua especialização em artes decorativas europeias de mais elevada qualidade, situa-se imediatamente à entrada da feira. Entre os primeiros relógios encontrados figura, por isso, este relógio com planetário mecânico. O percurso parece assim iniciar-se com uma visão do tempo na sua dimensão mais ampla, antes de conduzir o visitante aos instrumentos em escalas cada vez mais reduzidas e com crescente diversidade e sofisticação técnica. Pela sua presença visual, que convoca a indagação científica, estabelece o tom da leitura dos instrumentos de medição do tempo ao longo da feira. Este relógio é concebido como um dispositivo astronómico integrado, no qual a medição do tempo e a representação dos movimentos celestes se articulam diretamente. A base, em mármore branco com montagens em bronze dourado, configura-se como um tripé formado por três atlantes em bronze patinado, com panejamentos dourados, que sustentam o globo celeste, conjugando funções estruturais e simbólicas. O movimento apresenta-se integralmente visível, segundo a tipologia de "esqueleto" - reduzindo-se ao mínimo as platinas e deixando bem visíveis os diferentes componentes das rodagens. Na parte inferior, são visíveis os tambores de mola das rodagens da marcha e da sonnerie, esta última associada a uma campainha na base, enquanto o pêndulo regula o seu funcionamento. A engrenagem desenvolve-se segundo uma progressão vertical. O sistema planetário não é autónomo, mas acionado diretamente pela rodagem da marcha, através de uma derivação que converte o tempo civil no movimento proporcional dos corpos celestes. Concebido como orrery heliocêntrico, apresenta sete esferas em rotação organizadas em torno de um sol central fixo — Mercúrio, Vénus, a Terra, a Lua, Marte, Júpiter e Saturno — em conformidade com a convenção pré-moderna que inclui a Lua entre os planetas. A ausência de Urano, apesar da datação atribuída a cerca de 1785, corresponde à prática mecânica coeva, na medida em que a integração do planeta recentemente descoberto nos dispositivos relojoeiros e astronómicos se processa de forma gradual após a sua identificação por William Herschel em 1781. O conjunto opera numa escala não realista, com velocidades relativas aproximadas, embora hierarquizadas, assumindo um carácter essencialmente pedagógico. Relógio com sistema planetário, detalhe do globo de vidro. © Galerie Kugel. O globo de vidro gravado apresenta-se finamente inscrito com os principais referenciais astronómicos, bem como com constelações e signos do zodíaco. Exemplares desta tipologia são extremamente raros, conhecendo-se apenas um número reduzido de paralelos. O presente globo é atribuído a Ursin Barbay (1750–1824), mestre vidreiro ativo em Montmirail (Sarthe), cuja produção se distingue pela execução de esferas de grande regularidade, respondendo a uma dificuldade técnica que se mantinha ao longo de vários séculos. Nesta configuração, os mostradores assumem um papel secundário. Posicionados na face frontal, apresentam centros abertos que permitem observar o mecanismo subjacente. O mostrador principal, na zona inferior, em esmalte branco com numeração árabe, indica horas e minutos. Acima deste, um mostrador subsidiário, igualmente em esmalte branco, indica a data numa escala circular, por meio de um único ponteiro. Esta organização articula diferentes regimes temporais, coexistentes: o tempo horário, o tempo de calendário e o tempo astronómico, expresso pelo movimento planetário. O tempo é aqui não apenas medido, mas encenado. O conjunto aproxima-se de um dispositivo teatral, no qual convergem conhecimento científico, construção mecânica e representação visual. Neste sentido, o relógio inscreve-se na cultura instrumental do Iluminismo e na difusão do saber astronómico, afirmando-se simultaneamente como objeto de prestígio intelectual. Reguladores e a Cultura da Cronometragem de Precisão Apresentados também pela Mentink & Roest, três relógios reguladores oferecem uma visão sintética do desenvolvimento da cronometragem de precisão francesa entre o final do século XVIII e meados do século XIX. Diferindo em escala e construção, partilham uma função comum como instrumentos de precisão e controlo, refletindo a estreita relação entre a relojoaria e a prática científica. Regulador de mesa Jean-Antoine Lépine (1720–1814; regulador); Claude Monginot (at. 1784–1797; mola). Paris, c. 1786. Duração: 1 semana. A. 47,5 × L. 28 × P. 21 cm. Apresentado por Mentink & Roest. Regulador de mesa, Jean-Antoine Lépine e Claude Monginot, Paris, c. 1786. © Mentink & Roest. O mostrador, assinado “Lépine / H.GER DU ROI”, e a platina posterior, gravada “J. Antoine Lépine h.ger du Roi A Paris Nº 4498”, testemunham a posição do seu autor como horloger de Luís XVI e, posteriormente, de Napoleão I (Tardy, 1972, p. 386). O seu nome é indissociável do calibre que o ostenta, figurando entre as figuras mais importantes da história da relojoaria. A datação deste regulador é também atestada pelo tambor da mola, inscrito “Janvier 1786 Monginot” (Mentink & Roest, 2021, pp. 36–37), que o relaciona com o fabricante parisiense de molas Claude Monginot (Tardy, 1972, p. 470). O movimento, em latão, é equipado com um escape de roda de pinos e pêndulo de compensação térmica, do tipo gridiron, integrando indicações de segundos centrais e data. A sonnerie, regulada por roda contadora, assinala as horas e meias-horas, sendo as rodagens da marcha e da sonnerie acionadas por molas independentes. O mostrador de esmalte branco organiza-se em anéis concêntricos que indicam minutos, dias do mês, horas e dias da semana, estes últimos acompanhados por símbolos planetários. Os ponteiros vazados e dourados indicam horas e minutos, enquanto os ponteiros de aço azulado servem para indicar o calendário e os segundos. A caixa, em mogno, envidraçada em todas as faces e na parte superior, permite a observação do pêndulo e do movimento. A sua sobriedade estrutural contrasta com um lambrequim em latão dourado finamente cinzelado, disposto sob o mostrador, que introduz um vocabulário ornamental de matriz têxtil num objeto de carácter essencialmente técnico. Esta peça é selecionada pelo modo como articula a relojoaria de precisão com um programa decorativo contido e equilibrado, no qual ambição científica e refinamento ornamental permanecem interligados. Regulador de caixa alta Regulador de caixa alta, Jean-Joseph Robin e Dubuisson, França, 1819. © Mentink & Roest. Jean-Joseph Robin (1781–1856; regulador); Étienne Gobin Dubuisson (1731 – pós-1820; mostrador). França, 1819. Duração: 1 mês. A. 209 × L. 51 × P. 30 cm. Apresentado por Mentink & Roest . O mostrador e a platina posterior, assinados “Robin / Hger du Roi et de Madame / An 1819”, identificam o autor como Jean-Joseph Robin, filho de Robert Robin (1742–1799) e herdeiro de uma importante oficina parisiense do final do século XVIII. A assinatura no contra-esmalte de Étienne Gobin, mais conhecido como Dubuisson, documenta a intervenção de um dos principais mestres esmaltadores parisienses, enquanto a mola real é atribuída à firma Peupin Frères (ativa entre 1812 e 1820) (Mentink & Roest, 2025, pp. 16–19; Tardy, 1972, p. 515). O movimento integra um remontoir de cinco segundos associado a um escape sem recuo, configuração que favorece a estabilidade da marcha. O pêndulo, do tipo gridiron, é composto por nove hastes alternadas de aço e latão, com suspensão em cutelo, complementado por uma escala de informação térmica. Um mecanismo de sonnerie independente comanda o toque das horas, meias-horas e quartos em duas campainhas. O mostrador, em esmalte branco, organiza-se em registos concêntricos: as horas são indicadas por numeração romana no anel exterior, enquanto minutos e segundos se leem em escalas internas e periféricas. Dois conjuntos de ponteiros estruturam a leitura: um par em latão dourado com motivo solar e dois ponteiros em aço azulado, incluindo um ponteiro de segundos centrais com contrapeso. Na zona inferior, parcialmente visível, um anel de calendário anual rotativo apresenta meses, dias e signos do zodíaco, lidos por meio de um ponteiro fixo. Regulador de caixa alta, detalhe dos mostradores. © Mentink & Roest. A caixa, em mogno, envidraçada na frente e nas faces laterais, serve de enquadramento arquitetónico para o regulador, possuindo uma cornija saliente e um friso denticulado. Este regulador distingue-se pela complexidade das suas soluções mecânicas, mas sobretudo pela clareza com evidencia os princípios da relojoaria de precisão e a relação entre regulação, compensação e controlo. Regulador de mesa Paul Garnier (1801–1869). França, c. 1845. Duração: 1 mês. A. 50 × L. 17 × P. 13,5 cm. Apresentado por Mentink & Roest . Regulador de mesa, Paul Garnier, França, c. 1845. © Mentink & Roest. Este regulador de mesa destaca-se por uma linguagem formal sóbria, assente na sua estrutura geométrica nítida e no contraste de materiais, articulados com um elevado grau de refinamento técnico. Assinado no mostrador e na platina posterior — “N.º 2718 / Paul Garnier / Hger de la Marine / Paris” —, identifica o seu fabricante como um célebre relojoeiro oficial da Marinha francesa, situando o objeto no quadro institucional da cronometragem de precisão do século XIX. O presente exemplar integra um conjunto de reguladores produzidos entre as décadas de 1840 e 1870, concebidos para um desempenho cronométrico rigoroso (Mentink & Roest, 2025, pp. 30–31). Regulador de mesa, detalhe da assinatura. © Mentink & Roest. O movimento, acionado por mola, é equipado com escape de roda de pinos e pêndulo de compensação do tipo Mahler. Esta construção, composta por três hastes com pesos horizontais ajustáveis, responde às variações de temperatura através da alteração do comprimento efetivo do pêndulo, assegurando uma maior estabilidade da marcha. O mostrador, em esmalte branco, privilegia a medição dos segundos, tanto na escala como na legibilidade. Uma ampla graduação periférica com todos os segundos marcados, e numerados a cada dez, é lida por um ponteiro central em aço azulado, enquanto horas e minutos são remetidos para um mostrador auxiliar abaixo, com ponteiros Breguet. O movimento encontra-se instalado sobre uma coluna em mármore negro, com montagens em latão. Na face posterior, uma escala graduada permite observar a amplitude da oscilação do pêndulo, reforçando o seu caráter de instrumento de precisão. A legibilidade do seu desenho, na qual contenção formal e função técnica convergem, reflete uma conceção da medição do tempo cada vez mais analítica e centrada no instrumento. No seu conjunto, estes três reguladores evidenciam um processo de gradual aperfeiçoamento da relojoaria de precisão ao longo de quase um século. Desde a síntese entre linguagem ornamental e ambição científica no caso do Lépine, passando pela elaboração técnica do sistema de Robin, até à ênfase na legibilidade e na aplicação institucional de Garnier, observamos a evolução das formas de conceber e regular a medição do tempo. Considerados em sequência, oferecem uma leitura clara da afirmação da relojoaria enquanto domínio progressivamente alinhado com a precisão e a instrumentação científica. Relógios japoneses e chineses Japão e China, períodos Edo e Qing, c. 1750–1850. Apresentados por Mentink & Roest . Seleção de relógios japoneses e chineses no stand da Mentik & Roest. Fotografia da autora, TEFAF Maastricht 2026. Outro núcleo apresentado pela Mentink & Roest reune um conjunto de relógios japoneses e chineses, datável genericamente entre o século XVIII e o século XIX, exposto numa única parede. A seleção inclui um relógio japonês de pilar (shaku-dokei), um exemplar de parede (hashira-dokei), formatos de mesa como yagura-dokei e makura-dokei, bem como modelos portáteis de menores dimensões, como um keisan-dokei. A estes juntam-se relógios chineses do tipo tambor, entre os quais um exemplar com mostrador prateado e estojo de transporte. Perante o conjunto, torna-se evidente a articulação de diferentes sistemas mecânicos de horas temporais num campo visual partilhado. Estes objetos integram movimentos acionados por pesos e por mola real, refletindo soluções distintas no armazenamento e na regulação da energia. As opções adotadas correspondem também a diferentes modos de estruturar o tempo. Vários relógios japoneses associam-se a sistemas nos quais a divisão do dia não se baseia em horas fixas e regulares, mas em unidades variáveis em função da duração do dia e da noite, princípio que se reflete nas escalas e nos dispositivos de indicação. Em contraste, outros exemplares apresentam o tempo através de mostradores circulares mais regularizados, incorporando por vezes sistemas cíclicos organizados em torno de sequências zodiacais. Diante deste conjunto, torna-se evidente a articulação de diferentes sistemas mecânicos e temporais num mesmo campo visual. Os objetos incluem movimentos de pesos e de mola, revelando distintas formas de armazenar e regular a energia. Vários relógios japoneses assentam em sistemas nos quais a divisão do dia não depende de horas fixas e iguais, mas de unidades variáveis em função da duração do dia e da noite, princípio refletido nas suas escalas e mostradores. Em contraste, outros exemplares — como os relógios chineses de tambor — apresentam o tempo através de mostradores circulares mais regularizados, por vezes organizados segundo sequências zodiacais. Embora estas configurações correspondam a convenções locais, inserem-se também num contexto mais amplo de intercâmbio, no qual princípios mecânicos de origem europeia e movimentos exportados são apropriados e adaptados a diferentes enquadramentos visuais e culturais. A diversidade de formatos acentua estas diferenças: a verticalidade dos relógios de pilar e de parede contrasta com a compacidade dos relógios de mesa e com a escala reduzida das peças portáteis. Considerado no seu conjunto, este núcleo reflete dinâmicas de adaptação entre a China e o Japão, apontando igualmente para redes mais amplas de contacto com a Europa, onde princípios mecânicos, tipologias e sistemas simbólicos são reinterpretados em distintos contextos culturais. Apresentado como um todo, funciona como um campo de observação condensado, no qual diferenças de construção e de conceção do tempo se tornam legíveis por comparação direta. Caixa de rapé antropomórfica convertida em relógio de mesa Neuburger & Cie. (at. 1835-1880). Paris, c. 1835–1840. Duração: 1 dia. Corozo, latão, aço e esmalte. Altura: 9,5 cm. Apresentado pela Galerie Delalande . Este exemplar não se distingue propriamente pelo seu valor material, grau de elaboração artística ou complexidade mecânica. Ainda assim, figura entre os objetos mais singulares e inesperados encontrados na feira. Caixa de rapé convertida em relógio de mesa, Neuburger & Cie., Paris, c. 1835–1840. © Galerie Delalande. Concebida originalmente como uma caixa de rapé, esculpida sob a forma de uma figura masculina com chapéu de aba larga e casaca, esta peça conserva a lógica estrutural de um recipiente: um painel articulado posterior permite o acesso à sua cavidade interior, originalmente destinada a conter rapé. O corozo — uma substância vegetal obtida a partir de sementes de palmeira — é aqui polido até adquirir um acabamento que evoca o corno ou a tartaruga, sendo, contudo, característico de produções de caráter mais acessível. O tratamento escultórico, de execução sumária, aproxima-se mais da construção de uma personagem do que de um retrato, afastando-se de qualquer intenção de individualização e situando o objeto numa esfera de produção popular. Num momento posterior, este objeto é adaptado para integrar um mecanismo relojoeiro. Este tipo de transformação encontra-se amplamente documentado na Europa a partir do século XVIII e torna-se mais frequente no século XIX, acompanhando a miniaturização dos movimentos e a difusão de objetos de caráter lúdico e inovador. O compartimento posterior acolhe agora um movimento compacto, em latão, montado sobre um suporte transversal assinado “NEUBURGER / PARIS”, identificando a firma Neuburger & Cie. (ativa entre 1835 e 1880; Tardy, 1972, p. 486). O mostrador, em esmalte branco e igualmente assinado, encontra-se embutido no abdómen da figura e serve-se de um movimento de um dia, regulado por pêndulo frontal com escape de tic-tac. Este objeto não resolve plenamente a tensão entre a sua função original e a adaptação posterior, permitindo que ambas as identidades permaneçam legíveis. Esta transformação, inesperada e subtilmente humorística, confere à peça um carácter particularmente encantador. Garniture com relógio de mesa de pêndulo cónico Eugène Farcot (1830–1896; movimento); Eugène Cornu (1831–1891; conceção e montagem); Société des Marbres Onyx d'Algérie (ativa a partir de c. 1850; elementos em mármore ónix); segundo modelo de Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824–1887; figura). Paris, c. 1860. Mármore ónix, bronze dourado e prateado, esmalte champlevé , latão, aço e vidro. A. 116 × L. 48 × P. 29 cm (relógio); A. 80 × L. 40 × P. 40 cm (candelabros). Duração: 8 dias. Apresentado por Adrian Alan . Garniture com relógio de mesa. Eugène Farcot, Eugène Cornu e Société des Marbres Onyx d’Algérie, Paris, c. 1860. © Adrian Alan Ltd, 2026. Esta garniture, um conjunto composto por um relógio de mesa e um par de candelabros de dez lumes, reúne alguns dos mais destacados artesãos parisienses ativos em meados do século XIX, integrando trabalhos escultórico e em bronze, pedra ornamental e mecanismo relojoeiro num programa decorativo coerente. Eugène Cornu (1831–1891), bronzier-éditeur com atividade em Paris, é responsável pela conceção ornamental e pela montagem do conjunto, executado para a Société des Marbres Onyx d’Algérie. Fundada na década de 1850, na sequência da redescoberta de depósitos de mármore ónix na região de Orã, esta sociedade desempenha um papel central na difusão daquele material no âmbito das artes decorativas do Segundo Império. Ao centro, o relógio é encimado por uma figura feminina de grandes dimensões, em bronze prateado, identificada como Urânia, musa da astronomia na mitologia grega, que estabelece o enquadramento iconográfico do conjunto. Um dos seus atributos, o globo celeste, é reinterpretado e suspenso do seu braço erguido, funcionando como pêndulo. Esta figura deriva de um modelo de Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824–1887), cuja linguagem escultórica exerce ampla influência nas artes decorativas da época. A base, concebida como um entablamento arquitetónico em mármore ónix, é enriquecida com placas de esmalte champlevé de desenho geométrico e vegetalista. O mostrador, em bronze dourado, encontra-se integrado nesta estrutura e apresenta o centro vazado, permitindo observar o mecanismo subjacente, o que aproxima o objeto de um conjunto mais amplo de relógios, ditos “de mistério”. O movimento é da autoria de Eugène Farcot (1830–1896) e apresenta o seu monograma, “EF”. O seu trabalho com sistemas de pêndulo cónico, desenvolvido a partir do início da década de 1860 e patenteado em 1872, inscreve-o entre os relojoeiros mais inventivos da sua geração (Tardy, 1972, p. 220). Com autonomia de oito dias e dois tambores, assegura simultaneamente a marcha e a sonnerie das horas e meias-horas. Relógio de mesa com pêndulo cónico. Adrian Alan, TEFAF Maastricht 2026. Vídeo da autora. O seu elemento central é precisamente o pêndulo cónico, que descreve um movimento circular contínuo, em vez de oscilar num plano. Suspenso do braço elevado de Urânia, o pêndulo termina num globo celeste em rotação, cujo movimento é assegurado por uma suspensão Cardan. Nesta configuração, o sistema regulador não se encontra oculto, mas plenamente exteriorizado, assumindo um papel central da sua composição visual. O atributo astronómico adquire, assim, uma função mecânica ativa, estabelecendo uma correspondência direta entre alegoria e função. Esta peça distingue-se pelas suas qualidades materiais, técnicas e formais, bem como pelo efeito produzido em funcionamento. A rotação contínua do pêndulo cónico, sob a forma de globo celeste, confere à medição do tempo uma dimensão visual particularmente envolvente. Relógio imperial Fabergé Carl Fabergé (1846–1920); Johann Viktor Aarne (1863–1934). São Petersburgo, 1896–1902. A. 25 × L. 15,7 cm. Apresentado por Wartski . Relógio imperial, Carl Fabergé e Johann Viktor Aarne, São Petersburgo, 1896–1902. © Wartski. Este objeto distingue-se dos exemplos anteriores não apenas pela forma, mas também pela sua natureza. Pertence à categoria dos objets de vertu, na qual a relojoaria se articula com a joalharia e outras artes decorativas, integrando a medição do tempo numa conceção artística mais ampla. O suporte em bétula, com forma de moldura, apresenta uma estrutura simplificada, assente num apoio posterior articulado. Ao centro, o mostrador é aplicado sobre uma placa retangular esmaltada e protegido por um vidro abaulado. Apresenta numeração árabe pintada a azul, com escala de minutos em ouro e ponteiros vazados do mesmo metal. A decoração em esmalte, centrada na representação de narcisos, evidencia um elevado domínio técnico. As flores são formadas por finos cloisonnés de ouro, preenchidos com esmaltes translúcidos e opacos, e as pétalas modeladas em relevo segundo uma técnica inspirada no moriage japonês, sobre um fundo graduado em tons quentes de amarelo e laranja. Estreitamente associado a Johann Viktor Aarne (1863–1934), este processo, de grande exigência técnica, constitui, como observa Kieran McCarthy (FSA, co-diretor da Wartski), um verdadeiro “tour de force” de esmaltagem, particularmente invulgar pela sua articulação com a madeira como material estrutural. Relógio imperial, detalhe do mostrador esmaltado. © Wartski. O movimento, oculto na parte posterior do mostrador, mantém-se plenamente funcional, mas não assume protagonismo, subordinando-se à conceção global — traço característico da produção de Fabergé, onde a relojoaria surge integrada num conjunto mais vasto de saberes especializados. A sua proveniência inscreve-o no contexto imperial, associado à Grã-Duquesa Maria Georgievna (1876–1940), princesa da Grécia e da Dinamarca, figurando na exposição de 1902 da coleção Fabergé da família imperial em São Petersburgo. A sua escolha não se deve apenas à qualidade da execução técnica, mas ao modo como redefine o lugar da relojoaria nas artes decorativas. O tempo permanece legível, mas deixa de estruturar o conjunto; integra-se, antes, num programa material e artístico mais amplo, no qual o relógio se apresenta como um elemento entre outros, e não como fim em si mesmo. Relógio “Fleur d'Hélianthe” Mathieu Planchon (1842–1921; movimento), La Compagnie des Cristalleries de Baccarat (suporte). França, c. 1900. Vidro "cristal", bronze dourado e patinado, latão e aço. A. 66 × L. 19 × P. 13 cm. Apresentado por Adrian Alan . Relógio “Fleur d'Hélianthe”. Planchon e La Compagnie des Cristalleries de Baccarat, França, c. 1900. © Adrian Alan Ltd, 2026. Este relógio insere-se também numa categoria de objetos caraterísticos do final do século XIX e início do século XX, nas quais a função relojoeira deixa de assumir protagonismo, integrando-se numa conceção decorativa mais ampla. Concebido como um grande girassol, de acentuado naturalismo, emergindo de um vaso em vidro "cristal" lapidado, este objeto articula escultura, trabalho em vidro e mecanismo numa composição unificada, na qual o tempo se encontra incorporado numa estrutura vegetal, em vez de se apresentar através de um mostrador convencional. O corpo em vidro "cristal", de formato ovoide, finamente gravado com ramos de bagas, reflete as ambições técnicas e estéticas da Compagnie des Cristalleries de Baccarat, na viragem do século. Neste período, a manufatura produz objets de luxe de grande complexidade, que conjugam a transparência do material com um trabalho de superfície minucioso, frequentemente associado a um vocabulário decorativo influenciado pelo japonisme. O movimento é da autoria de Mathieu Planchon (1842–1921; Tardy, 1972, p. 525), relojoeiro parisiense associado a uma produção de caráter curioso, na qual a apresentação do tempo é objeto de alguma reformulação, combinando engenho mecânico com invenção formal e conceptual. O presente exemplar, assinado e numerado, integra um pequeno grupo de relógios em forma de girassol. O seu aspeto mais marcante reside no modo de indicação do tempo. O mostrador não recorre a ponteiros, sendo constituído por um anel horário com numeração árabe, disposto em torno do centro da flor. A indicação da hora é feita através de um elemento móvel em forma de um escaravelho, que percorre, lenta mas continuamente, a periferia do disco floral. Relógio “Fleur d'Hélianthe”. Adrian Alan. Fotografias da autora, TEFAF Maastricht 2026. No reverso da cabeça do girassol encontra-se o movimento, circular e compacto, alojado numa caixa em latão. O mecanismo, acionado por mola real, é regulado por balanço. A rotação do escaravelho é assegurada por uma adaptação do sistema de indicação das horas, substituindo o ponteiro convencional por um único elemento móvel. O caule do girassol não intervém na transmissão de força; o movimento é independente do vaso, que funciona apenas como suporte. No contexto dos objetos analisados, este relógio representa uma etapa adicional na integração da relojoaria nas artes decorativas. A função mecânica subsiste, mas perde centralidade, integrando-se numa lógica essencialmente decorativa. A relação entre a conceção naturalista do objeto e a indicação temporal é particularmente interessante: o escaravelho em rotação percorre a superfície da flor como um elemento vivo, pousado momentaneamente sobre ela. A sua aparência orgânica dissimula o sistema relojoeiro, exigindo a atenção do observador para reconhecer o objeto como artificial e identificar a leitura horária. Depois da TEFAF: uma leitura em retrospetiva A edição de 2026 da TEFAF Maastricht oferece um ponto de observação privilegiado, a partir do qual se pode considerar a relojoaria enquanto domínio profundamente caracterizado pela diversidade. Os objetos aqui em análise não se deixam inscrever numa narrativa unívoca; revelam, pelo contrário, distintos modos de conceber e materializar o tempo, cada qual enraizado em condições históricas e culturais específicas. Em retrospetiva, após o abrandar do ritmo e o encerramento da feira, estas diferenças tornam-se mais nítidas. Consideradas em sequência, as obras evidenciam que a medição do tempo não constitui uma prática sequencial ou uniforme. Em certos casos, insere-se nas práticas astronómicas ou cosmológicas; noutros, inscreve-se na sofisticação mecânica ou integra programas decorativos e materiais mais amplos. O que se revela não é a continuidade, mas uma pluralidade determinada pelo contexto, pela função e pela intenção. O contacto com o processo de vetting acentua esta leitura. Nos dias que antecedem a abertura das feiras TEFAF, o ritmo impõe-se com exigência constante. Os objetos são manuseados, abertos e examinados ao detalhe; as discussões desenvolvem-se em torno de elementos minuciosos; as decisões resultam de um processo de negociação cuidada. Neste contexto, a atenção assume um carácter concentrado, técnico e frequentemente urgente, orientado pela necessidade de esclarecer todas as questões antes da inauguração. Com a abertura ao público, este regime de atenção altera-se. Os mesmos objetos são agora apreendidos segundo um ritmo diferente. As multidões abrandam, aproximam-se, detêm-se, observam de perto, perguntam; aquilo que foi alvo de escrutínio técnico converte-se em motivo de curiosidade e, por vezes, de admiração. Os relógios mantêm o seu funcionamento, mas a sua receção transforma-se, passando de objetos avaliados a objetos vivenciados. Neste contexto, a TEFAF não se limita a apresentar obras, estabelecendo condições a partir das quais estas são estudadas e compreendidas. A seleção aqui reunida reflete esta experiência, propondo uma abordagem à relojoaria fundada não na teoria, mas na observação direta e na avaliação crítica. No silêncio que se sucede à feira, quando a intensidade da análise e da exposição cede lugar ao distanciamento, estes objetos permanecem na memória com uma clareza distinta. Livres das exigências do vetting e do fluxo dos visitantes, deixam de se apresentar como casos a resolver ou espetáculos a observar, assumindo-se antes como testemunhos a (re)considerar. Os seus mecanismos continuam a operar, mas o que subsiste não é apenas a sua função: são as múltiplas formas através das quais configuram a perceção do tempo. Neste registo, a relojoaria afirma-se não como disciplina isolada, mas antes uma sucessão de encontros, ou uma constelação de mundos que se encadeiam e interpenetram, como segundos no minuto, minutos na hora, horas no dia e assim por diante... Agradecimentos Expresso o meu reconhecimento a todos quantos tornaram possível a minha participação na TEFAF Maastricht em 2025 e 2026. Começo por assinalar a Fundação Medeiros e Almeida, cujo apoio viabiliza esta presença e cujo entendimento da sua relevância — tanto no desenvolvimento profissional como no da projeção internacional do museu e da sua coleção — se revela determinante. Dirijo um agradecimento especial à Comissão de Clocks & Watches — Helmut Crott, Jean Genbrugge, Michael van Gompen, Dominique Mouret e Patrick Rocca — pelo acolhimento caloroso e pela amplitude da sua generosidade intelectual. Agradeço igualmente à Vetting Organization, e em particular a Claudia Klerkx e Yvonne van den Eerenbeemt, pelo acompanhamento atento ao longo dos dias de vetting. Reconheço ainda os contributos de Paul van den Biesen, Rachel Pownall, Delphine de Bokay e, de modo muito especial, de Coco Bannenberg, pelo incentivo a candidatar-me. Gostaria também de agradecer aos meus colegas assistentes, cujas conversas e experiências compartilhadas moldaram este processo de muitas maneiras significativas. Dirijo um agradecimento aos antiquários e galeristas que nos acolheram com disponibilidade, partilhando o seu conhecimento e apresentando, ao longo da feira, exemplares de relojoaria de excecional qualidade. Assinalo por fim, de forma particularmente reconhecida, o contributo do Comandante Luís Couto Soares, pelo acompanhamento próximo e pela sua cuidada revisão do meu texto. Até à próxima TEFAF Maastricht! Bibliografia Adrian Alan. “A Fine Napoleon III Onyx and Enamel Figural Three-Piece Clock Garniture.” https://www.adrianalan.com/product/a-fine-napoleon-iii-onyx-and-enamel-figural-three-piece-clock-garniture/, consultado a 25.03.26. Ceretti, Francesco. “Un orologio notturno di Lorenzo De Ruggiero: orologiaio e collezionista napoletano tra il marchese del Carpio e Paolo De Matteis.” Ricche Minere 12, no. 24 (2025): 139–146. Higton, Hester. Sundials at Greenwich: A Catalogue of the Sundials, Horary Quadrants and Nocturnals in the National Maritime Museum, Greenwich. Oxford: Oxford University Press, 2002. https://www.rmg.co.uk/collections/objects/rmgc-object-69128, consultado a 25.03.26. Kollenburg Antiquairs. “German Astronomical Renaissance Türmchenuhr.” https://www.kollenburgantiquairs.com/Clocks/German-Astronomical-Renaissance-Tuermchenuhr, consultado a 26.03.26. Kunsthistorisches Museum. “Säulenförmige Tischuhr.” https://www.khm.at/kunstwerke/saeulenfoermige-tischuhr-92845, consultado a 02.04.26. Kunsthistorisches Museum. “Säulenförmige Tischuhr.” https://www.khm.at/kunstwerke/saeulenfoermige-tischuhr-92846, consultado a 02.04.26. Mentink & Roest. “Excellent Longcase Regulator.” https://www.mentinkenroest.com/collectie/longcase-regulator-robin-h-ger-du-roi-et-de-madame-an-1819-france/, consultado a 25.03.26. Mentink & Roest. “Table Regulator.” https://www.mentinkenroest.com/collectie/table-regulator-j-antoine-lepine-h-ger-du-roy-aparis-no-4498-date-on-spring-janvier-1786-monginot-france/, consultado a 25.03.26. Mentink & Roest. “Table Regulator.” https://www.mentinkenroest.com/collectie/table-regulator-signed-and-numbered-paul-garnier-h-ger-de-la-marine-no-2718-c.-1845-france-2/, consultado a 25.03.26. Mentink & Roest. All in Good Time: The Mentink & Roest Collection. Amersfoort: Wilco, 2021. Mentink & Roest. Masters of the Past: The Mentink & Roest Collection. Amersfoort: Wilco, 2025. Mentink & Roest. The Rise of Private Timekeeping: The Mentink & Roest Collection. Amersfoort: Wilco, 2026. Tardy. Dictionnaire des horlogers français. 2e partie. Paris: Tardy, 1972. TEFAF. “Art Vetting Process at TEFAF.” YouTube video. https://youtu.be/o1oArQPCmP4, consultado a 02.04.26.
- Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão
Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão A F.P. Journe anunciou o vencedor da edição de 2026 do Young Talent Competition, iniciativa criada em 2015 para identificar e apoiar a nova geração de relojoeiros independentes. O vencedor deste ano foi o japonês Shin Ohno, de 27 anos, distinguido pela criação Fuyu-Geshiki (“Paisagem de Inverno”), apresentada durante uma cerimónia realizada na manufactura da marca, em Genebra. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Organizado pela F.P. Journe com o apoio da The Hour Glass, um dos principais retalhistas de relojoaria de luxo na região Ásia-Pacífico, o concurso procura dar visibilidade a jovens relojoeiros capazes de conceber e fabricar projectos independentes de elevada complexidade técnica. O vencedor recebe um diploma e uma bolsa de 50 mil francos suíços, destinada à aquisição de ferramentas ou ao financiamento de futuros projectos relojoeiros. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Formado no National Institute of Technology, Toyota College, Shin Ohno desenvolveu integralmente o relógio vencedor no seu próprio atelier — desde o desenho do movimento ao fabrico dos componentes — sem recorrer a qualquer calibre de base. Inspirada nas paisagens de inverno de Nagano, no Japão, a peça reúne uma combinação particularmente ambiciosa de complicações: grande sonnerie, petite sonnerie, repetição de quartos e turbilhão. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Segundo a organização, o projecto destacou-se tanto pela exigência técnica como pela clareza conceptual, visível na arquitectura do movimento, no trabalho acústico e no cuidado aplicado aos materiais e acabamentos. O júri da edição de 2026 reuniu algumas das figuras mais relevantes da relojoaria contemporânea, incluindo Andreas Strehler, Giulio Papi, Marc Jenni, Michael Tay, Elizabeth Doerr e François-Paul Journe. Shin Ohno vence Young Talent Competition 2026 da F.P. Journe com relógio de repetição e turbilhão Mais do que premiar uma peça isolada, o concurso continua a afirmar-se como uma das poucas plataformas internacionais verdadeiramente orientadas para o futuro da relojoaria independente — e o trabalho de Shin Ohno demonstra que essa nova geração já está a produzir peças de enorme ambição técnica.
- Watches and Wonders 2026 — Dia 4 em Genebra
Genebra, junto ao Rio Ródano — em frente à sede do GPHG, a instalação do Watches and Wonders ganha forma pelas mãos de um artista de graffiti , que deixa a sua marca num dos pontos centrais da cidade durante o salão. Foto © IPR 2026 Jaeger-LeCoultre O Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon à Stratosphère representa uma das expressões mais radicais da busca pela precisão: um tourbillon de três eixos, integrado no calibre manual 178, cuja cinemática cobre 98% das posições possíveis, reduzindo ao mínimo a influência da gravidade. Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon À Stratosphère Q5306480 A arquitectura organiza-se em profundidade, com o regulador multi-eixos a dominar a leitura, enquanto o restante movimento — decorado com técnicas de métiers rares — se dissolve na composição. Jaeger-LeCoultre Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon À Stratosphère Q5306480 Não se trata de acumular complicações, mas de levar uma única ideia ao limite: transformar o órgão regulador num sistema quase absoluto de compensação. O Jaeger‑LeCoultre Reverso One Precious Flowers desloca o foco da mecânica para o trabalho de superfície, transformando a caixa num campo de expressão artesanal. A decoração combina esmaltação, gravação e engaste de diamantes numa composição figurativa que ocupa integralmente a carrure, por forma a explorar o formato do Reverso como suporte artístico. A arquitectura mantém-se inalterada — é na pele do relógio que acontece a transformação. Jaeger-LeCoultre Master Control Chronometre Date Q4158120 No pulso, o Jaeger-LeCoultre Master Control Chronometre Date Q4158120 traduz a abordagem da marca para 2026 numa forma mais contida: uma construção clássica que integra, pela primeira vez nesta linha, uma bracelete metálica contínua com a caixa. A leitura mantém-se essencial — horas, minutos, segundos e data — suportada pelo calibre automático 899 com 70 horas de autonomia, enquanto a nova certificação HPG testa o relógio já montado em condições reais de uso, deslocando o foco da precisão teórica para o comportamento efectivo no pulso. A Van Cleef & Arpels manteve em 2026 uma linha muito coerente com a sua identidade: menos foco em arquitectura pura de movimento e mais numa relojoaria narrativa, onde a mecânica serve uma ideia visual — este ano centrada no tema “Poetry of the Heavens” . Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs o Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs apresenta uma das leituras mais depuradas do duplo fuso horário no salão. As horas surgem em janelas independentes, enquanto os minutos são indicados por um ponteiro retrógrado central, criando uma composição equilibrada onde a complexidade mecânica permanece invisível à primeira leitura. Van Cleef & Arpels Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs No pulso, o Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune VCARPESA00 articula duas complicações sobrepostas numa única paisagem em movimento: um disco de 24 horas que anima a transição entre dia e noite e um segundo sistema astronómico que reproduz a fase lunar, visível também sob pedido. Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune O horizonte em madrepérola guilloché estrutura a leitura, enquanto o céu em aventurina cria profundidade, resultando numa construção onde a mecânica se dissolve na imagem — não se lê apenas a hora, observa-se a evolução do tempo como fenómeno contínuo. Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit Phase de Lune No verso, o Midnight Jour Nuit Phase de Lune apresenta uma composição astronómica centrada na Terra, rodeada por astros e planetas estilizados, dispostos sobre um fundo com acabamento radial. Roger Dubuis A Roger Dubuis apresenta neste salão uma leitura particularmente clara da sua própria identidade: três peças que partem da mesma base — a arquitectura Excalibur — mas que exploram caminhos distintos dentro da relojoaria contemporânea. Entre a complexidade extrema do calendário perpétuo, a funcionalidade directa da versão em aço e a dimensão declaradamente artística da linha Brocéliande, constrói-se um conjunto coerente onde técnica, uso e expressão visual coexistem sem conflito. Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar (ouro rosa) Ref. DBEX1178 O Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar reúne uma das arquitecturas mais densas do salão: calendário perpétuo com indicações bi-retrógradas, fase da lua e um mostrador construído em vários níveis que expõe o mecanismo com clareza. A leitura mantém-se surpreendentemente equilibrada, apesar da complexidade, e confirma uma abordagem onde a expressividade da linha Excalibur convive com uma disciplina técnica muito rigorosa. Excalibur Biretrograde Calendar (aço) Ref. DBEX1209 Em tons diferentes, e menos complicado, o Excalibur Biretrograde Calendar Ref. DBEX1209 traduz a linguagem da marca para um registo mais utilizável, sem abdicar da complexidade. A caixa em aço de 40 mm integra-se com naturalidade, enquanto o mostrador em “Cosmic Blue”, construído em múltiplos níveis, revela o calibre RD840 com indicação bi-retrógrada de dia e data. Certificado pelo Poinçon de Genève, mantém a exigência de acabamento da alta relojoaria, mas num objecto pensado para uso contínuo e leitura imediata. Roger Dubuis Excalibur Brocéliande Dawn Rose DBEX1208 Com um tom feminino, o Excalibur Brocéliande Dawn Rose DBEX1208 revela uma abordagem onde a relojoaria se aproxima declaradamente do objecto artístico. A caixa em ouro rosa de 38 mm, com luneta engastada com diamantes, enquadra um mostrador construído sobre safira, onde folhas em madrepérola lacada são aplicadas manualmente, criando uma composição em relevo e em camadas. No interior, o calibre automático esqueletizado mantém-se visível e funcional, mas é deliberadamente subordinado à dimensão estética, numa peça que privilegia a expressão visual sem abdicar da base mecânica da linha Excalibur. O Watches and Wonders termina O Watches and Wonders termina, mas o que fica não são apenas os relógios. Fica a percepção de um sistema em funcionamento — um espaço onde técnica, cultura e estratégia se cruzam continuamente, e onde cada peça surge como parte de um discurso mais amplo. Ao longo dos dias, a leitura altera-se. O impacto inicial dá lugar à comparação, depois à filtragem. O excesso desaparece e ficam apenas as propostas que resistem à repetição — aquelas que mantêm coerência no pulso, fora do contexto controlado do salão. Este ano confirmou uma tendência clara: menos gestos isolados, mais estruturas consistentes. A complexidade surge organizada, a estética torna-se mais controlada e a inovação, quando existe, é integrada num discurso contínuo, não apresentada como ruptura. No final, o Watches and Wonders revela-se menos como uma sequência de lançamentos e mais como um ponto de observação privilegiado sobre o estado da relojoaria contemporânea — um lugar onde o tempo, para além de medido, é pensado.
- Watches and Wonders 2026 — Dia 3 em Genebra
ORIS Oris Star no pulso — mostrador limpo, proporções contidas e uma linguagem directa que atravessa décadas, mantendo intacta a ligação ao momento em que a Oris redefiniu o seu caminho. O novo Oris Star é a reedição directa de um momento fundador. Em 2026, a Oris recupera este modelo precisamente para assinalar os 60 anos da vitória jurídica conduzida por Dr. Rolf Portmann, cuja batalha contra o Swiss Watch Statute libertou a marca das limitações técnicas impostas durante décadas; foi essa conquista que permitiu, em 1966, lançar o primeiro Oris Star com escape de âncora, marcando o início de uma nova era para a casa. Hoje, o lançamento da Star Edition retoma esse relógio com grande fidelidade — caixa compacta de inspiração space age , mostrador limpo e construção simples — não como peça de arquivo, mas como símbolo: um relógio que não representa inovação formal, mas antes a possibilidade de inovar, lembrando que a existência da relojoaria mecânica moderna da Oris começa, precisamente, com um advogado. Oris Artelier Calibre 111 (Ref. 01 111 7700 4063) · Oris Artelier Complication Pointer Date (Ref. 01 781 7729 4051) · Oris Artelier Complication Pointer Date (Ref. 01 781 7729 4051 – bracelete) Oris ProPilot Date (Ref. 01 733 7805 4167-07 8 20 04LC) · Oris Artelier Complication (Ref. 01 782 7811 4056-07 6 20 17FC) Hublot Hublot Big Bang Unico Bronze – Ref. 421.BZ .1110.RX A Hublot reafirma na Watches and Wonders 2026 a sua identidade assente na Art of Fusion , concentrando-se quase exclusivamente na evolução do Big Bang com a nova linha Big Bang Reloaded : uma abordagem mais depurada que coloca o movimento cronógrafo Unico no centro do design, com maior legibilidade mecânica, novas execuções em materiais como cerâmica, magic gold e versões especiais associadas a figuras como Usain Bolt e Kylian Mbappé, confirmando uma estratégia menos dispersa e mais focada na afirmação do seu ícone contemporâneo. Hublot Big Bang Unico Usain Bolt – Ref. 411.QX.1189.NR .USB17 Edição limitada dedicada a Usain Bolt, com caixa em carbono e detalhes em dourado que evocam a sua assinatura estética. Mostrador esqueletizado com o cronógrafo Unico em evidência e acentos verdes inspirados na Jamaica. No verso, o raio dourado e a inscrição da edição confirmam o carácter de peça comemorativa e altamente identificável dentro da linha Big Bang. Chronoswiss Neo Digiteur - Chronoswiss Ref. CH-1371R.2-GO A Chronoswiss lançou um relógio integralmente em ouro, onde a caixa, ricamente gravada em relevo, assume um carácter escultórico dominante. A leitura do tempo faz-se através de uma arquitectura não convencional, com horas em janela e indicação retrógrada, integrada num conjunto que privilegia a expressividade formal. No pulso, o impacto resulta da combinação entre o volume, o peso do material e a densidade ornamental, aproximando-se de uma peça de alta joalharia relojoeira. Chronoswiss Delphis (Art Déco) O Chronoswiss Delphis retoma a arquitectura emblemática da marca — horas saltantes, minutos retrógrados e pequenos segundos — numa execução mais contida e clássica. O mostrador, de tom prateado com texturas subtis, privilegia a legibilidade e a organização geométrica da informação. A caixa com luneta canelada e coroa tipo cebola reforça a continuidade estética da Chronoswiss. No conjunto, trata-se de uma interpretação equilibrada entre tradição mecânica e linguagem formal inspirada no período Art Déco.
- Watches and Wonders 2026 — Dia 2 em Genebra
Watches and Wonders 2026 — Dia 2 em Genebra O segundo dia no Watches and Wonders marca uma mudança clara de foco: da percepção geral do evento para o contacto directo com os relógios. É neste momento que a presença no terreno começa verdadeiramente a fazer sentido — quando as peças saem das vitrines institucionais e passam para o pulso, quando as apresentações dão lugar a conversas, e quando a leitura deixa de ser superficial para se tornar crítica. As imagens recolhidas ao longo do dia reflectem isso mesmo: menos cenário, mais substância. E, sobretudo, uma diversidade de abordagens que revela bem o estado actual da relojoaria contemporânea. Audemars Piguet — complexidade organizada A presença da Audemars Piguet neste segundo dia destacou-se pela amplitude da proposta. Audemars Piguet Royal Oak automático calendario perpétuo Ref: 26685XT.OO.1320XT.01 No pulso, o Royal Oak calendário perpétuo confirma aquilo que já se tornou uma constante na marca: a capacidade de integrar funções adicionais sem comprometer a leitura global. A informação está presente, mas organizada. Não há ruído. Audemars Piguet Royal Oak automático calendario perpétuo Ref: 26685XT.OO.1320XT.01 Este modelo esqueletizado revela outra dimensão — a da exposição da arquitectura. Aqui, o movimento deixa de ser invisível e passa a estruturar a estética do relógio. Não se trata apenas de mostrar, mas de tornar legível aquilo que normalmente permanece oculto. Code 11.59 da Audemars Piguet automático turbilhão voador Já no Code 11.59 com turbilhão, percebe-se o esforço contínuo de afirmação desta linha. A peça assume um posicionamento mais clássico na forma, mas com uma ambição técnica elevada. É um território ainda em consolidação, mas claramente estratégico. Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour (Ref. 15245OR.OO.A206VE.01) Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour Ref. 15245OR.OO.A206VE.01 — uma das propostas mais inesperadas da marca neste ano, reinterpretando o histórico modelo de 1929 com uma linguagem decididamente contemporânea. A indicação do tempo abandona os ponteiros tradicionais: horas por salto instantâneo em janela às 12h e minutos em arco às 6h, numa leitura directa e quase gráfica. Audemars Piguet Neo Frame Jumping Hour (Ref. 15245OR.OO.A206VE.01) A caixa rectangular em ouro rosa, com gadroons laterais marcados, enquadra um mostrador em safira PVD que elimina qualquer estrutura visível, enquanto o novo calibre automático 7122 — o primeiro jumping hour automático da marca — assegura a precisão do salto horário com estabilidade mecânica e 52 horas de autonomia. Tudor — equilíbrio e intenção A Tudor apresenta uma proposta mais contida, mas extremamente consistente. Os modelos observados — tanto o de linguagem contemporânea com luneta marcada, próximo da família Black Bay, como o de inspiração mais clássica com dia e data integrados, e ainda a proposta de pequenos segundos de leitura mais tradicional — revelam um controlo muito rigoroso das proporções, da ergonomia e da legibilidade. No pulso, a sensação é imediata: são relógios pensados para uso real. Não procuram impressionar à distância, mas funcionam quando usados — na espessura, no equilíbrio da caixa, na forma como o peso se distribui. Essa diferença, subtil mas decisiva, torna-se evidente após poucos segundos. Uma das conversas ao longo do dia reforçou essa leitura: a estratégia passa por consolidar identidade, não por reinventar constantemente. Num contexto como o Watches and Wonders, onde a novidade tende a dominar o discurso, essa disciplina torna-se particularmente clara — e, de certa forma, rara. Tudor Monarch (pequenos segundos) Tudor Monarch (pequenos segundos) — evocação directa de uma linguagem mais tradicional, com mostrador de inspiração vintage e submostrador às 6 horas, onde a leitura se faz com serenidade e proporção. Tudor Black Bay (bracelete em aço) Tudor Black Bay (bracelete em aço) — interpretação contemporânea do relógio de mergulho da marca, com forte legibilidade e uma presença sólida no pulso, onde a funcionalidade continua a ser o elemento central. Tudor Royal Day-Date Tudor Royal Day-Date — proposta mais urbana e versátil, com luneta canelada e indicação completa de dia e data, num equilíbrio entre códigos clássicos e uma execução claramente contemporânea. Parmigiani Fleurier — silêncio e precisão As peças observadas da Parmigiani Fleurier introduzem um contraste interessante no conjunto do dia. Tonda PF Chronograph Mystérieux A grande novidade é, sem dúvida, o Tonda PF Chronograph Mystérieux — aqui na sua versão em platina — e é ele que redefine a leitura do conjunto apresentado. À primeira vista, nada o denuncia. Mostrador praticamente intacto, ausência total de contadores, uma leitura pura, quase neutra. Tudo aponta para um três ponteiros convencional. Mas essa leitura é deliberadamente falsa! Neste modelo, o cronógrafo não se mostra — desaparece. Em repouso, o mostrador permanece silencioso. Não há qualquer indicação da presença de uma das complicações mais complexas da relojoaria. Só quando se acciona o monopusher é que o mecanismo se revela: os ponteiros reorganizam-se, assumindo funções de cronógrafo, enquanto um segundo conjunto — em ouro rosa — emerge para manter a leitura da hora. Cinco ponteiros ocupam o mesmo eixo, perfeitamente sobrepostos quando inactivos, separando-se apenas durante a medição e voltando depois a alinhar-se numa única leitura. Esta transformação não é apenas visual — resulta de uma arquitectura profundamente distinta, com um sistema de embraiagens desenvolvido especificamente para permitir esta alternância entre presença e ausência. O próprio movimento, o calibre PF053, foi concebido de raiz com esse objectivo: controlar a aparição e o desaparecimento da função cronográfica. Na versão em platina, esta ideia ganha ainda mais densidade. O material introduz peso, presença física, enquanto o mostrador jateado reduz tudo ao essencial. O resultado é paradoxal: um relógio simultaneamente afirmativo e silencioso. Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” Ao lado desta proposta, o Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” surge como o contraponto natural. Mostradores limpos, texturas subtis, ausência de elementos supérfluos. Tudo aponta para uma abordagem onde o detalhe substitui o gesto evidente. Parmigiani Fleurier Tonda PF Micro-Rotor “Pacific Blue” Panerai — escala e imersão Pavilhão da Panerai no Watches and Wonders 2026 A entrada no espaço da Panerai marca uma mudança de escala. A cenografia é dominante, quase cinematográfica, e coloca o visitante dentro de um ambiente imersivo. Mas, ao contrário do que poderia acontecer, essa dimensão não anula o produto — enquadra-o. A ligação histórica da marca ao universo marítimo continua a ser o eixo central, agora traduzido em linguagem contemporânea. A experiência não é apenas visual, é narrativa. Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 O Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 representa uma abordagem rara e deliberada à gestão de energia na relojoaria contemporânea: através de quatro tambores acoplados em série, o calibre P.2031/S atinge uma reserva de marcha de 31 dias, mas, mais importante, fá-lo com controlo — limitando o excesso de torque no início e evitando a perda de amplitude no fim, graças a um sistema patenteado de regulação da energia útil. Em caixa de Goldtech, com o seu tom quente característico, o relógio assume-se como um objecto técnico e escultórico, onde a arquitectura aberta do movimento não serve apenas a estética, mas expõe uma lógica funcional coerente com o ADN instrumental da Panerai: duração, robustez e clareza mecânica. Panerai Luminor 31 Giorni PAM01631 O segundo dia do Watches and Wonders 2026 trouxe uma leitura mais clara do que está em jogo. Cada marca constrói o seu discurso de forma distinta — umas através da complexidade técnica, outras pela clareza formal, outras ainda pela narrativa ou pela experiência. Mas há um ponto comum: a necessidade de equilibrar aquilo que se mostra com aquilo que se esconde. A presença do IPR no terreno permite precisamente acompanhar esse equilíbrio — observar, questionar e compreender. E é nesse espaço, entre o visível e o invisível, que a relojoaria contemporânea continua a evoluir.
- Watches and Wonders 2026 — Dia 1 em Genebra
Um início institucional — e simbólico Foto oficial de grupo do Watches and Wonders Geneva 2026 — reunindo autoridades do Cantão e da Cidade de Genebra, executivos da indústria e representantes das 65 marcas participantes, assinalando o arranque da maior edição de sempre do salão. O dia 14 de Abril de 2026 marcou o arranque oficial do maior evento relojoeiro do mundo. A cerimónia de inauguração, realizada no auditório do Palexpo, reuniu cerca de 300 convidados — entre autoridades políticas, líderes da indústria, jornalistas internacionais e representantes das 65 marcas presentes. Cyrille Vigneron — Presidente da Fundação Watches and Wonders Geneva, durante o discurso de abertura oficial do Watches and Wonders Geneva 2026, onde sublinhou o papel do salão como plataforma central da relojoaria contemporânea. Sob a presidência de Cyrille Vigneron, a mensagem foi clara: Genebra não é apenas um centro industrial — é um território cultural onde a relojoaria se constrói, transmite e reinventa. A ideia de equilíbrio entre competição e cooperação define bem o momento actual do sector. Nathalie Fontanet — Conselheira de Estado do Cantão de Genebra, responsável pelo Departamento das Finanças, Recursos Humanos e Assuntos Externos, durante o discurso de inauguração do Watches and Wonders Geneva 2026. Já Nathalie Fontanet reforçou o papel estratégico do ecossistema relojoeiro num contexto global incerto: um conjunto único de competências, herança e capacidade de inovação que continua a posicionar Genebra como referência mundial. Momento oficial de abertura do Watches and Wonders Geneva 2026 — corte da fita com a presença de Cyrille Vigneron, Nathalie Fontanet e representantes institucionais e da indústria relojoeira, assinalando o início da maior reunião mundial do sector. O corte da fita, com representantes das marcas e autoridades, não foi apenas um gesto protocolar — foi o início de uma semana que mobiliza milhares de pessoas e redefine, ano após ano, o lugar da relojoaria contemporânea. Ritmo inaugural no Watches and Wonders Geneva 2026 Escala e impacto: um evento fora de escala Os números desta edição são reveladores: ~60.000 visitantes esperados ~1.700 jornalistas internacionais 6.000 retalhistas ~50.000 noites de hotel já reservadas ~7.000 pessoas envolvidas na organização Em menos de cinco anos, o número de expositores praticamente duplicou. O salão tornou-se uma verdadeira “cidade dentro da cidade”, com impacto directo na economia local e na projecção internacional de Genebra. Um salão em transformação A edição de 2026 afirma uma mudança estrutural: o evento deixou de estar confinado ao Palexpo. Integração com o centro da cidade ( In The City ) Programação cultural alargada Parceria com o Montreux Jazz Festival Concertos, exposições e experiências abertas ao público A relojoaria passa a ocupar o espaço urbano — não como indústria, mas como cultura viva. Dia 1 — O que se vive no terreno Se a manhã foi institucional, o resto do dia revelou aquilo que verdadeiramente define o Watches and Wonders: a experiência. O ambiente O primeiro dia tem sempre uma densidade particular: Fluxo constante entre stands Luz controlada, quase museológica Contacto directo com peças de altíssimo valor Encontros rápidos entre profissionais de todo o mundo Interior do Watches and Wonders Geneva no Palexpo — o espaço central do salão em plena actividade, onde profissionais, jornalistas e marcas se encontram entre reuniões, apresentações e primeiros contactos do dia. Tendências visíveis desde o início Mesmo antes dos grandes anúncios, algumas direcções tornam-se evidentes: Primeiros destaques a circular Entre as peças que começaram a marcar o ritmo: TAG Heuer Monaco Evergraph Apresentação no Watches and Wonders Geneva 2026 — o novo TAG Heuer Monaco em destaque num ecrã de grande formato, revelando as primeiras novidades do salão perante uma audiência internacional. O TAG Heuer Monaco Evergraph representa uma evolução técnica dentro de uma das caixas mais icónicas da relojoaria contemporânea, mantendo a arquitectura quadrada do Monaco enquanto introduz uma abordagem mais avançada ao cronógrafo. A principal novidade reside na optimização do sistema de acionamento dos botões, pensado para maior precisão, consistência e fiabilidade ao longo do tempo, reflectindo um foco claro na funcionalidade real e não apenas na estética. Com uma linguagem visual mais técnica — mostrador aberto, contrastes cromáticos e leitura reforçada — o Evergraph posiciona-se como uma interpretação contemporânea do espírito original do Monaco: um cronógrafo experimental, agora adaptado às exigências actuais da engenharia relojoeira. Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux O Vacheron Constantin Overseas Dual Time Points Cardinaux apresentado em 2026 afirma-se como uma interpretação plenamente contemporânea do espírito viajante da colecção Overseas , inteiramente construído em titânio para conjugar leveza, resistência e conforto. Com caixa de 41 mm e bracelete integrada, o modelo introduz quatro variantes de mostrador, cada uma associada a um ponto cardinal — uma abordagem conceptual que liga directamente o relógio à ideia de exploração e orientação. No seu interior, o calibre de manufactura 5110 DT/3 assegura as funções essenciais ao viajante — duplo fuso horário, indicação dia/noite e data sincronizada com a hora local — com uma arquitectura pensada para leitura clara e utilização prática. A estética técnica do titânio, reforçada por contrastes subtis e apontamentos em laranja, encontra-se com um nível de acabamento certificado pelo Poinçon de Genève, resultando numa peça que equilibra robustez desportiva, utilidade real e tradição de alta-relojoaria. Zenith G.F.J. Calibre 135 Zenith G.F.J. Calibre 135 — no pulso, uma leitura contemporânea de um dos grandes calibres de observatório, onde a densidade do tântalo e a profundidade do ónix substituem qualquer necessidade de exuberância. O Zenith G.F.J. Calibre 135 — especialmente na versão em tântalo que tens no pulso — deve ser entendido menos como um exercício estético e mais como uma afirmação técnica e histórica. O ponto central é o calibre 135: um dos últimos grandes movimentos de observatório, cuja arquitectura privilegia um balanço de grandes dimensões e uma construção pensada para precisão cronométrica extrema. A versão contemporânea mantém essa base, mas introduz melhorias funcionais claras — maior reserva de marcha, protecção contra choques e uma regulação extremamente apertada, na ordem dos ±2 segundos por dia . Ao nível da execução, a diferença face ao resto da gama Zenith é evidente: o acabamento aproxima-se de padrões de alta-relojoaria, com anglage polido à mão, decoração cuidada e uma abordagem mais tradicional às pontes . Não é um calibre industrial “bem feito” — é um calibre tratado como peça de prestígio. No pulso, isso traduz-se numa dualidade interessante: por um lado, um relógio formal, contido e relativamente compacto (cerca de 39 mm); por outro, um objecto com uma densidade técnica invulgar para um simples três ponteiros . Zenith G.F.J. Calibre 135 — mostrador em bloodstone , onde a matéria natural, com as suas inclusões e variações, contrasta com a precisão absoluta do calibre. E é precisamente aí que a versão em tântalo ganha força: retira qualquer leitura “clássica” ou tradicional e aproxima o relógio de um território mais contemporâneo e quase instrumental. Não é exuberante — é exigente. O olhar do IPR — presença e leitura crítica Para o IPR – Instituto Português de Relojoaria, o primeiro dia vive-se mais do que se observa. É um mergulho directo num ecossistema onde tudo acontece ao mesmo tempo — e onde cada detalhe conta. No terreno, a sensação é imediata. Há uma densidade humana rara, quase esmagadora, onde se cruzam conhecimento, experiência e decisão num espaço limitado. O ritmo impõe-se desde os primeiros minutos: reuniões que se sucedem, conversas interrompidas para dar lugar a outras, apresentações que se sobrepõem. Nada pára. Mas é fora do protocolo que muitas coisas realmente acontecem. Nos corredores, entre dois compromissos, numa pausa improvisada — é aí que surgem as conversas mais francas, os encontros inesperados, as ligações que fazem avançar projectos. Ao mesmo tempo, percebe-se que já não há fronteiras claras: marketing, técnica e cultura misturam-se de forma natural. Um relógio é simultaneamente objecto, discurso e identidade. O reel captado neste dia tenta fixar precisamente isso. Não apenas os relógios, mas o ambiente que os envolve — as pessoas, o ritmo, a energia. No fundo, aquilo que faz a relojoaria contemporânea existir para lá das vitrinas. Um ano com peso histórico O contexto de 2026 reforça a importância deste primeiro dia: Regresso da Audemars Piguet ao salão Aniversários estruturantes (Rolex Oyster, Patek Philippe Nautilus) Expansão significativa do número de marcas O primeiro dia do Watches and Wonders Geneva 2026 confirma uma realidade incontornável: A relojoaria contemporânea já não vive apenas da tradição — vive da sua capacidade de se transformar. Entre discurso institucional e experiência directa, entre cidade e salão, entre técnica e narrativa, Genebra volta a afirmar-se como o centro onde o tempo se pensa, se constrói e se projecta. E o Dia 1 — captado no terreno pelo IPR — é exactamente o ponto onde tudo começa a ganhar forma.
- A Misteriosa História do Breguet Nº 160
Sílvio Pereira OS MISTÉRIOS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA Parte 1 O RELÓGIO IMPOSSÍVEL: HISTÓRIA, POLÍTICA E ARTE DO BREGUET Nº160 “MARIE ANTOINETTE” Entre todos os artefactos produzidos pela relojoaria europeia, nenhum cristaliza tão profundamente o imaginário coletivo como o Breguet Nº 160, mais tarde baptizado como “Marie Antoinette”. Não é apenas um relógio — é um símbolo civilizacional, um ponto de inflexão na história técnica do século XVIII, um objecto ao mesmo tempo político, artístico e misterioso. A sua génese envolve paixão, poder, queda monárquica, fuga, morte e uma recuperação improvável mais de duzentos anos depois. É raro encontrar um mecanismo capaz de sintetizar num único corpo metálico tantas camadas simbólicas e históricas. Mais raro ainda é que esse mecanismo seja, simultaneamente, uma das obras-primas absolutas da engenharia mecânica. Nesta primeira parte, examinaremos os fundamentos históricos, a paisagem cultural que moldou a sua criação e o papel de Abraham-Louis Breguet enquanto protagonista e visionário. Trata-se de um relógio que, por si só, conta a história do final do Antigo Regime, e cujo destino acompanhará, de forma quase metafórica, a derrocada da monarquia francesa. Palácio de Versailles onde estava sediada a Corte Francesa ©en.wikipédia A Paris do último quartel do século XVIII Conde Axel von Fersen ©wikipédia No início da década de 1780, Paris vivia o clímax da cultura cortesã: um turbilhão de luxo, ciência nascente, filosofia iluminista e intriga política. No centro desse mundo encontrava-se Marie Antoinette , figura simultaneamente adorada e odiada, cujo estilo pessoal ditava modas e orientava o apetite aristocrático por objectos de requinte. É neste contexto que surge a encomenda do futuro Breguet Nº160 — uma encomenda enigmática, feita sem restrições de custo ou prazo. A ausência de um nome no registo de encomenda deixa espaço para especulação. A hipótese mais discutida atribui a encomenda ao conde Axel von Fersen , nobre sueco e íntimo confidente da rainha. Outras versões sugerem um patrono ainda mais próximo da corte, talvez alguém que desejasse permanecer anónimo para evitar atenção política. Seja qual for a verdade, o gesto é inequívoco: pretendia-se oferecer à Rainha o mais perfeito relógio jamais concebido . Enquanto símbolo político, o presente era arriscado. Numa França marcada por tensões económicas e sociais, o investimento numa peça de luxo extrema, destinada à rainha estrangeira, seria facilmente lido pelos opositores como evidenciação de decadência moral da aristocracia. Mas, como sabemos hoje, isso não impediu a encomenda — pelo contrário, agiu como catalisador para a criação de uma peça que ultrapassou todas as fronteiras técnicas da sua época. Abraham-Louis Breguet ©wikipédia Abraham-Louis Breguet: o relojoeiro que pensava como um engenheiro Não seria possível compreender o Nº160 sem entender o génio de Abraham-Louis Breguet . Mais do que um mestre artesão, Breguet era um engenheiro conceptual , alguém que percebia o relógio não como um conjunto de peças, mas como um sistema dinâmico sujeito a relações de força, elasticidade, gravidade, atrito e conservação de energia. Antes mesmo do projeto do Marie Antoinette, Breguet já tinha introduzido: o escape natural, o pêndulo de sobrebalanceamento, soluções de anti-choque, o rotor para relógios automáticos ( perpétuelles ), mostradores de leitura clara e racional, e uma filosofia de design assente na simplicidade funcional onde fosse possível e na complexidade apenas quando necessária. Era, portanto, o único relojoeiro capaz de aceitar um pedido tão extremo. Quando a encomenda chegou, a instrução era clara: o relógio devia incorporar todas as complicações conhecidas — e ficar o mais perto possível da perfeição mecânica . Não se tratava de construir um relógio. Tratava-se de construir "o relógio" . Breguet Nº 160 ©sjx.watches O Projecto: uma ambição sem precedentes À época, nenhum relógio — seja de bolso, seja de torre — reunia simultaneamente tantas funções: repetição de minutos, calendário perpétuo completo, equação do tempo, termómetro, segundos independentes, cronógrafo primitivo, reserva de marcha, mecanismo automático com massa oscilante, proteções anti-choque, uso de materiais inovadores como safira para reduzir atrito. Com mais de 800 componentes, o relógio ultrapassou a classificação tradicional do termo “complicação”. Passou a ser um compêndio de ciência mecânica, uma espécie de tratado portátil sobre o estado da técnica relojoeira de finais do século XVIII. Mas o triunfo técnico esconde uma verdade mais profunda: o relógio foi concebido num período de incerteza crescente. À medida que Breguet avançava no trabalho, a Europa caminhava para a convulsão revolucionária, e o destino da rainha mudaria rapidamente. A Interrupção: Revolução, Exílio e Morte Revolução francesa ©jusbrasil Em 1789, a Revolução Francesa adquire velocidade. A corte é cercada, o clima político torna-se hostil, e Breguet, associado à elite aristocrática, percebe que permanecer em Paris é perigoso. Exila-se primeiro na Suíça, depois em Londres. A sua oficina permanece fechada, o projecto do Nº160 em suspenso. O relógio da Rainha — irónico nas suas pretensões simbólicas — fica inacabado enquanto ela própria segue para um destino trágico. Em 1793, Marie Antoinette é executada. A encomenda deixa de ter destinatário, mas não perde relevância. Vale notar que, mesmo após regressar a Paris em 1795, Breguet não consegue dedicar-se imediatamente ao Nº160. A oficina precisava ser reconstruída e as encomendas dos novos líderes políticos tinham prioridade. De facto, Breguet passa a trabalhar para figuras como Talleyrand, Napoleão e o futuro czar Alexandre. Apenas décadas depois o projecto volta à mesa. A Conclusão Póstuma Abraham-Louis Breguet falece em 1823 , sem ter completado o relógio. Quem o acaba é o seu filho, Louis-Antoine Breguet , em 1827. O relógio é finalmente concluído, mas nunca chega a cumprir a sua “missão” original de adornar a rainha de França. A ironia é sublime: o objecto mais opulento concebido para a monarquia francesa é finalizado numa Europa já profundamente pós-revolucionária, onde reis reinam sob constituições e onde o absolutismo já não tem lugar. O relógio é, portanto, um fantasma do Antigo Regime , uma lembrança palpável de um mundo perdido. O Século XIX e a Invenção do Mito Sir David Lionel Salomons ©sjx.watches Ao contrário de outras peças célebres, o Nº160 não ganhou notoriedade imediata. Passa silenciosamente por colecionadores privados e só no final do século XIX se torna verdadeiramente conhecido quando entra na coleção de Sir David Lionel Salomons , inventor, engenheiro e um dos grandes vultos do colecionismo relojoeiro. É no seu catálogo que o relógio recebe o nome que hoje o consagra: “Marie Antoinette” . Daí em diante, a peça começa a adquirir uma aura de objecto mítico — simultaneamente testemunho técnico e cápsula histórica que liga a relojoaria à política, à arte e à psicologia do poder. Assim termina a primeira parte, dedicada aos fundamentos históricos e artísticos da peça. Na segunda, abordaremos a dimensão criminal, a recuperação dramática e a avaliação crítica do seu legado mecânico.
- Nivada Grenchen Antarctic Erotic
O Nivada Grenchen Antarctic Erotic é um relógio que conjuga a base técnica de um tool watch clássico com uma abordagem lúdica inspirada na tradição dos relógios eróticos, mantendo um mostrador frontal discreto e escondendo no fundo uma animação mecânica activada pela corda. Apresenta uma caixa em aço inoxidável de 38 mm (“Spider Case”), 12,45 mm de espessura e 45 mm de asa a asa, com vidro de safira e resistência à água de 100 metros, alojando um calibre manual modificado Soprod P054, a 28.800 alternâncias por hora, com cerca de 42 horas de reserva de marcha, responsável pelas funções de horas, minutos e segundos e pelo accionamento do módulo animado no fundo. Disponível em várias versões de mostrador e com múltiplas opções de bracelete, o modelo combina robustez funcional, estética vintage e um elemento mecânico inesperado que o posiciona entre tradição relojoeira e provocação contemporânea. Saber mais
- Konstantin Chaykin Thinking Mystery
O Konstantin Chaykin Thinking Mystery insere-se na abordagem experimental do relojoeiro independente russo, explorando conceitos de ultra-finura e de arquitectura não convencional para redefinir a forma como o tempo é exibido e construído mecanicamente. Tecnicamente, o projecto deriva da investigação que levou ao desenvolvimento do ThinKing, um relógio mecânico com apenas 1,65 mm de espessura, onde a própria caixa funciona como platina do movimento, reduzindo drasticamente a altura total e exigindo soluções inéditas ao nível do tambor de corda e do órgão regulador . Esta arquitectura implica uma construção em múltiplos níveis extremamente reduzidos, com componentes redesenhados para operar num plano quase bidimensional e minimizar perdas energéticas, ao mesmo tempo que levanta desafios estruturais relacionados com rigidez e deformação. Em algumas configurações, o relógio recorre a um módulo externo — o PalanKing — que permite dar corda e ajustar a hora, evidenciando a natureza conceptual e experimental da peça, que se afirma mais como manifesto técnico sobre os limites da relojoaria mecânica do que como um relógio convencional. Saber mais
- RODA — Serviço Pós-Venda: o percurso invisível de um relógio
No passado dia 2 de Abril de 2026, o Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa, recebeu mais uma sessão da RODA — o ciclo de encontros promovido pelo Instituto Português de Relojoaria. Desta vez, o tema centrou-se no serviço pós-venda, com Bruno Leal a conduzir uma reflexão clara e directa sobre um dos momentos mais decisivos na vida de um relógio. A sessão partiu de uma pergunta simples, mas raramente explorada com profundidade: o que acontece a um relógio depois de ser entregue a um relojoeiro? Para muitos coleccionadores, esse momento representa um gesto de confiança. Entregar um relógio — muitas vezes com valor emocional acumulado ao longo de anos — implica aceitar uma perda temporária de controlo. É precisamente aí que começa o trabalho invisível do pós-venda. Bruno Leal descreveu esse percurso com detalhe. A entrada de um relógio em assistência não se reduz a uma intervenção técnica imediata. Antes de qualquer decisão, existe uma fase essencial de observação e diagnóstico. Trata-se de compreender o estado global da peça, identificar problemas evidentes e, sobretudo, antecipar fragilidades que possam comprometer o seu funcionamento no futuro. Só depois desta leitura se define o tipo de intervenção. E é neste ponto que surgem algumas das decisões mais delicadas da relojoaria contemporânea: substituir ou conservar? Intervir apenas no necessário ou avançar para uma revisão completa? Cada escolha implica consequências — no desempenho, na autenticidade e no valor do relógio. A sessão evidenciou que o pós-venda vive de equilíbrios. Entre a exigência técnica e a preservação histórica. Entre as normas das marcas e a realidade do trabalho independente. Entre a expectativa do cliente e o tempo necessário para fazer bem. O tempo, aliás, foi um dos temas centrais. Ao contrário de outros sectores, a relojoaria não se adapta facilmente à lógica da imediatidade. A disponibilidade de componentes, a complexidade das intervenções e a necessidade de validação exigem prazos que nem sempre são compatíveis com a urgência do cliente. Daí a importância da comunicação — clara, fundamentada e contínua. Ao longo da sessão, tornou-se evidente que o serviço pós-venda não é um simples prolongamento da venda, mas uma dimensão estrutural da relojoaria. É nele que se constrói a relação de confiança entre relojoeiro e cliente. É nele que se decide o futuro de cada peça. Num ambiente próximo e atento, a RODA voltou a cumprir o seu propósito: abrir espaço para discutir os temas que realmente definem a prática relojoeira. Neste caso, aquilo que não se vê — mas que sustenta tudo o resto. A sessão decorreu no Museu Medeiros e Almeida , na Rua Rosa Araújo, n.º 41, em Lisboa. O museu Medeiros e Almeida encontra-se aberto ao público de terça-feira a domingo, entre as 10h e as 17h30, constituindo um dos espaços de referência em Portugal para a história das artes decorativas, com especial relevância para a relojoaria.
- Garantias na relojoaria — o enquadramento legal essencial
Representação simbólica do barco de Teseu e de um relojoeiro a escolher peças para reparação de relógios A história do barco de Teseu levanta um dos dilemas mais persistentes da Filosofia: ao longo do tempo, as suas tábuas foram sendo substituídas uma a uma até que nenhuma peça original permanecia — e, ainda assim, continuava a ser considerado o mesmo barco; mas o problema adensa-se quando se imagina que alguém recolhe todas as peças antigas e reconstrói com elas o navio original — qual dos dois é, então, o verdadeiro barco de Teseu? Também os relógios percorrem a sua vida útil entre revisões, reparações e substituições sucessivas de componentes, regressando ciclicamente ao relojoeiro para manter o seu funcionamento; esta realidade coloca, no contexto do pós-venda, uma questão paralela e concreta: até que ponto a manutenção e as garantias asseguram a continuidade de um relógio ao longo do tempo, e como se enquadra essa continuidade no regime legal aplicável? Fomos analisar o enquadramento legal e a prática do sector. Reunimos aqui os elementos essenciais para compreender — e saber aplicar — as regras das garantias na relojoaria. Garantia legal vs garantia comercial Em Portugal, o regime principal encontra-se no Decreto-Lei n.º 84/2021 , aplicável às relações entre profissionais e consumidores. A garantia legal resulta directamente da lei e não depende da vontade do vendedor. Já a garantia comercial (frequentemente designada como garantia internacional da marca) constitui um compromisso adicional, voluntário, definido pelo fabricante. Importa sublinhar que a garantia comercial não substitui nem limita a garantia legal. Compra de relógios novos Na venda de um relógio novo por um profissional a um consumidor, aplica-se uma garantia legal de 3 anos. Durante os primeiros 2 anos, qualquer defeito presume-se existente à data da entrega, salvo prova em contrário. Este ponto tem grande relevância prática: o consumidor não tem de demonstrar a origem do problema nesse período. Perante uma desconformidade, o consumidor pode exigir: Reparação Substituição Redução do preço Resolução do contrato A escolha segue uma hierarquia prática: privilegia-se a reposição da conformidade, através de reparação ou substituição. O prazo de reparação é, como regra, de 30 dias , podendo ser superior quando exista justificação técnica — situação frequente na relojoaria, devido a diagnóstico complexo ou necessidade de peças. DL n.º 84/2021, de 18 de Outubro Artigo 18.º - Reparação ou substituição do bem (...) 3 - O prazo para a reparação ou substituição não deve exceder os 30 dias, salvo nas situações em que a natureza e complexidade dos bens, a gravidade da falta de conformidade e o esforço necessário para a conclusão da reparação ou substituição justifiquem um prazo superior . (...) Relógios usados No caso de relógios usados vendidos por profissionais, a lei permite reduzir o prazo de garantia para 18 meses, desde que exista acordo claro e expresso com o consumidor, normalmente formalizado no momento da compra. Esta possibilidade reconhece a natureza própria de um bem usado — sujeito a desgaste, intervenções anteriores e incertezas técnicas — sem afastar, ainda assim, a obrigação de assegurar a sua conformidade com o contrato. Ou seja, mesmo com prazo reduzido, o vendedor continua responsável por defeitos que existam à data da entrega ou que se manifestem dentro do período de garantia. A distinção entre venda profissional e venda entre particulares assume, neste contexto, importância decisiva. Quando um profissional vende a um consumidor, aplica-se integralmente o regime legal de garantias previsto no direito do consumo, com todas as protecções associadas. Já nas transacções entre particulares, essa protecção não existe: a compra é feita “no estado em que se encontra”, salvo situações de dolo ou erro relevante. Plataformas como a Vinted ou similares inserem-se, em regra, neste segundo cenário, funcionando como intermediárias entre utilizadores privados; contudo, sempre que o vendedor actue de forma profissional — ainda que dentro da plataforma — poderá ser considerado como tal, com a consequente aplicação das regras de garantia. Garantias em reparações A reparação de um relógio configura uma prestação de serviços, com particularidades relevantes no plano jurídico e técnico, distinguindo-se claramente da venda de um bem. Neste contexto, a garantia não incide sobre o relógio na sua totalidade, mas sobre a intervenção realizada: cobre o trabalho efectuado e as peças substituídas, ficando excluídas avarias distintas da inicialmente diagnosticada ou decorrentes de factores externos. Esta distinção é essencial, sobretudo em relógios complexos ou com histórico desconhecido, onde podem coexistir múltiplas fragilidades independentes. Na prática, a garantia deve assegurar dois pontos fundamentais: que a avaria identificada foi efectivamente resolvida e que os componentes substituídos funcionam de forma correcta e duradoura. Se o relógio apresentar novamente o mesmo problema após a intervenção, estabelece-se, em regra, uma presunção de falha do serviço, cabendo ao profissional demonstrar o contrário. Esta presunção tem implicações directas na gestão do pós-venda, exigindo rigor no diagnóstico, na execução e no registo técnico da intervenção realizada. O prazo de garantia nas reparações não se encontra definido de forma uniforme e directa como sucede na venda de bens, o que introduz alguma margem de interpretação. Ainda assim, em contexto de relações de consumo, tende a alinhar-se com o regime geral de conformidade, sendo prática recomendada — e juridicamente prudente — que o profissional defina de forma clara, por escrito, o âmbito e a duração dessa garantia. A transparência neste ponto é determinante para evitar conflitos e assegurar uma relação de confiança entre cliente e relojoeiro. Limitações e exclusões Existem limitações legítimas à aplicação das garantias, particularmente relevantes na relojoaria, onde a natureza mecânica dos objectos e a sua sensibilidade ao uso introduzem variáveis difíceis de controlar. Entre essas limitações incluem-se o desgaste natural — como a degradação de óleos, o desgaste de pivôs ou o envelhecimento de juntas —, situações de mau uso, como choques, exposição a campos magnéticos ou contacto indevido com água, bem como intervenções externas não autorizadas que possam comprometer o funcionamento do relógio. Acrescem ainda os defeitos pré-existentes não detectados no momento da intervenção, especialmente em peças com histórico desconhecido ou incompleto. A fronteira entre defeito e uso indevido constitui, por isso, uma das principais fontes de conflito neste domínio. Determinar se uma anomalia resulta de falha técnica, desgaste expectável ou utilização inadequada exige frequentemente uma análise especializada, onde o rigor do diagnóstico e a documentação do estado do relógio à entrada assumem um papel decisivo. A clareza na comunicação destas limitações, desde o primeiro contacto com o cliente, revela-se essencial para alinhar expectativas e reduzir potenciais litígios. Garantias das marcas As marcas relojoeiras oferecem, frequentemente, garantias comerciais com duração variável — tipicamente entre dois e cinco anos — e, em muitos casos, com cobertura internacional. Estas garantias constituem compromissos voluntários definidos pelos próprios fabricantes, com condições específicas que regulam o seu âmbito de aplicação. Entre essas condições, é habitual exigir que a manutenção e as intervenções sejam realizadas exclusivamente em centros autorizados, sob pena de perda de cobertura, bem como excluir danos resultantes de uso indevido, como choques, exposição à água fora dos limites previstos ou magnetismo. Importa sublinhar que a existência de uma garantia de marca não substitui nem limita os direitos do consumidor ao abrigo da garantia legal. Mesmo quando o fabricante assume determinadas obrigações, o vendedor permanece responsável perante o consumidor, nos termos da lei aplicável, pela conformidade do bem. Esta sobreposição de regimes — legal e comercial — exige uma leitura cuidadosa por parte de profissionais e clientes, de modo a compreender exactamente quem responde por cada situação e em que condições. Orçamentos e transparência Na reparação de um relógio, o orçamento assume um papel central, funcionando como ponto de convergência entre a análise técnica e o enquadramento contratual da intervenção. Mais do que uma estimativa de custos, o orçamento deve traduzir, de forma clara e rigorosa, o que será feito, em que condições e com que expectativas. Entre as boas práticas destacam-se a descrição detalhada da intervenção prevista, a identificação de riscos — nomeadamente a possibilidade de surgirem problemas adicionais durante o processo — e a indicação de prazos previsíveis, ainda que sujeitos à complexidade do diagnóstico e à disponibilidade de peças. A aceitação do orçamento pelo cliente constitui, na prática, a base do contrato entre as partes, definindo os limites da intervenção autorizada. Qualquer alteração relevante — seja ao nível dos trabalhos a efectuar, dos custos ou dos prazos — deve ser comunicada de forma transparente e previamente aprovada pelo cliente. Este procedimento não é apenas uma formalidade: é uma garantia de clareza, confiança e protecção jurídica para ambas as partes, especialmente num contexto técnico onde as variáveis nem sempre são totalmente previsíveis à partida. Situações frequentes Importa reconhecer que no sector relojoeiro se observam, com regularidade, casos como relógios que voltam a parar após uma revisão, problemas de estanqueidade depois de uma intervenção, atrasos superiores aos prazos inicialmente previstos ou recusas de garantia com fundamento em alegado mau uso. Cada uma destas situações apresenta uma complexidade própria que impede leituras automáticas: um relógio que deixa de funcionar após revisão pode indiciar uma falha na intervenção, mas também pode revelar um problema estrutural que não era detectável no diagnóstico inicial; da mesma forma, uma perda de estanqueidade pode resultar de uma vedação incorrecta ou de limitações inerentes à caixa, sobretudo em peças antigas ou já intervencionadas múltiplas vezes. Os atrasos na entrega constituem igualmente uma fonte recorrente de tensão, muitas vezes associados à dificuldade em obter peças, à necessidade de diagnósticos adicionais ou à própria carga de trabalho das oficinas. Ainda que a lei estabeleça prazos de referência, a realidade técnica da relojoaria — especialmente em peças complexas ou vintage — pode justificar desvios, desde que devidamente fundamentados e comunicados. Já as recusas de garantia com base em alegado mau uso colocam o foco na prova: cabe frequentemente ao profissional demonstrar que a anomalia resulta de factores externos, como choques, magnetismo ou exposição indevida à água. Do ponto de vista jurídico, todas estas situações exigem uma análise integrada que considere o conteúdo do orçamento aprovado, o estado do relógio à entrada, a natureza da intervenção realizada e as condições de utilização posteriores. A distinção entre defeito, desgaste natural e uso indevido revela-se central e constitui, não raras vezes, a principal linha de conflito entre cliente e profissional. Neste contexto, a documentação rigorosa, a clareza na comunicação e a definição prévia de condições assumem um papel determinante. Evitar conclusões simplistas não é apenas uma questão de prudência — é uma exigência para garantir decisões justas, tecnicamente sustentadas e juridicamente sólidas. Boas práticas No plano das boas práticas, a actuação dos profissionais assume um papel determinante na prevenção de conflitos e na correcta gestão do pós-venda. Entre os procedimentos recomendáveis destaca-se o registo detalhado do estado do relógio à entrada, que permite fixar uma referência objectiva para futuras avaliações, bem como a documentação fotográfica, essencial para comprovar condições externas e eventuais danos pré-existentes. A existência de condições gerais escritas, claras e acessíveis, contribui igualmente para definir o enquadramento da intervenção, nomeadamente no que respeita a garantias, prazos e limitações. A tudo isto deve acrescer uma comunicação transparente e contínua com o cliente, sobretudo quando surgem imprevistos ou necessidade de trabalhos adicionais. Do lado do consumidor, algumas atitudes simples podem fazer uma diferença significativa. Guardar comprovativos — como facturas, orçamentos e relatórios de intervenção — permite sustentar eventuais reclamações ou pedidos de garantia. Solicitar sempre um orçamento antes da realização dos trabalhos assegura clareza quanto ao âmbito e custo da intervenção. Por fim, evitar intervenções não autorizadas, especialmente durante o período de garantia, é fundamental para não comprometer direitos que, de outro modo, poderiam ser plenamente exercidos. O regime de garantias na relojoaria exige equilíbrio entre protecção do consumidor e realidade técnica do objecto. Um relógio não é um bem descartável: trata-se de um mecanismo sujeito a desgaste, dependente de manutenção e sensível ao uso. A correcta aplicação da lei depende, por isso, de conhecimento jurídico, competência técnica e, sobretudo, de transparência na relação entre as partes.













