top of page

Como comprar um relógio vintage

há 11 horas
6 min de leitura
Cronógrafo Universal Genève Tri-Compax visto no Tempo Passado

Um Universal Genève Tri-Compax, um dos relógios que passaram pelo Tempo Passado. Fotografia: IPR.


No sábado, 28 de Novembro, o Tempo Passado — Salão de Relojoaria Vintage — volta ao Lisboa Jupiter Hotel para a 5.ª edição. Vão estar em cima das mesas relógios com 40, 60 ou 100 anos, e quase nenhum chegou até hoje tal como saiu da fábrica. Isso não é um problema. O problema é não saber o que se está a comprar. Este é o guia do IPR para olhar para um relógio antigo antes de pagar por ele.


Original, de serviço ou montado?


Um relógio que viveu meio século passou por revisões, quedas, vidros partidos e coroas gastas. Trocar peças faz parte da vida de qualquer relógio. O que interessa a quem compra é saber quais foram trocadas, porquê e por quem.


  • Original: mostrador, ponteiros, caixa e movimento são os de origem e combinam entre si.

  • Com peças de serviço: numa revisão, a marca trocou o mostrador, os ponteiros ou a luneta por peças novas. São genuínas, mas não são as de origem, e o relógio vale menos do que um exemplar original.

  • Redial: o mostrador foi repintado ou reimpresso por terceiros. Deve ser um bom trabalho e pode fazer mais sentido para relógios de uso frequente do que para relógios históricos válidos para leilão.

  • Relume: o material luminoso do mostrador ou dos ponteiros foi refeito.

  • Montagem («Frankenstein»): relógio feito com peças de exemplares diferentes e apresentado como se tivesse saído assim da fábrica.


A fronteira entre um relógio honesto e um mau negócio está quase sempre na descrição. Um relógio com mostrador de serviço, vendido como tal e ao preço certo, é uma compra legítima. O mesmo relógio vendido como «todo original» não é.


Uma peça trocada não é um defeito. Uma peça trocada que se esconde é.

Nem os grandes leilões estão a salvo. Em 2021, um Omega Speedmaster ref. 2915-1 foi vendido na Phillips por 3 115 500 francos suíços e veio depois a revelar-se uma montagem de peças Omega, como contámos em «Um Omega Frankenstein 3,2M€ depois».


O mostrador: onde está a maior parte do valor


Num relógio vintage, o mostrador é muitas vezes a peça que mais pesa no preço. É também a que mais se repinta. Alguns sinais de alerta:


  • Um mostrador perfeito num relógio gasto. Cinquenta anos deixam marcas: se a caixa está cansada e o mostrador parece novo, convém perguntar porquê.

  • Letras grossas, desalinhadas, mal centradas ou demasiado perto do bordo.

  • Logótipo, tipo de letra ou textos que não coincidem com exemplares documentados da mesma referência.

  • Material luminoso dos ponteiros com uma cor ou um envelhecimento diferentes dos índices.


As marcações na base do mostrador ajudam a datá-lo. Até ao início dos anos 60, o material luminoso era à base de rádio, e muitos mostradores dizem apenas «Swiss». Seguiu-se o trítio: na Suíça, a marcação com «T» passou a ser obrigatória a partir de 1964, e por isso surgem «T Swiss T» ou «Swiss T<25». A partir do fim dos anos 90, o trítio deu lugar a materiais não radioactivos, como o Super-LumiNova, e o «T» desapareceu.


Estas marcações datam o mostrador, não o relógio. Um relógio dos anos 50 com «T Swiss T» no mostrador tem, quase de certeza, um mostrador posterior — muitas vezes, um mostrador de serviço.


A marcação na base do mostrador data o mostrador, não o relógio.

Um aviso prático: o rádio é radioactivo. Um mostrador destes não se raspa, não se lixa e não se abre em casa.


Relógios de bolso à venda numa banca do Tempo Passado de 2023, em Lisboa

Relógios de bolso à venda numa das bancas do Tempo Passado de 2023, em Lisboa. Fotografia: IPR.


Ponteiros, caixa e coroa


Os ponteiros trocam-se com facilidade e são, por isso, das peças que mais vezes não pertencem ao relógio. Compare a forma e o comprimento com exemplares documentados: o ponteiro dos minutos deve chegar à escala dos minutos e o das horas aos índices.


Na caixa, procure o polimento. Uma caixa muito polida perde as arestas vivas, os chanfros e o desenho das asas, e esse desgaste não se recupera. Veja também se a referência e o número de série, gravados onde a marca os costumava gravar, estão legíveis e coerentes com o modelo. Num relógio de ouro, procure as marcas de toque e de contraste.


Coroa, vidro e bracelete substituídos são normais num relógio antigo e pesam pouco no valor, desde que não sejam apresentados como de origem.


Relógio Edox Geoscope visto no Tempo Passado

Um Edox Geoscope no Tempo Passado. Fotografia: IPR.


O movimento


Peça para ver o movimento. Confirme que o calibre corresponde à referência, que está assinado pela marca quando o devia estar, e que não há ferrugem, sinais de humidade ou parafusos marcados por chaves mal usadas.


Ponha o relógio a trabalhar à sua frente. Dê corda à mão e veja se a coroa responde sem pontos duros. Acerte a hora e, se tiver data, passe-a — mas longe da meia-noite, como explicámos no guia da mudança da hora. Num automático, mova-o com cuidado e confirme que a massa oscilante roda. Num cronógrafo, experimente arrancar, parar e voltar a zero, várias vezes.


Um relógio que trabalha não é um relógio revisto. Um movimento sujo ou com os óleos secos pode trabalhar durante semanas enquanto se desgasta por dentro.


Papéis, caixas e extractos de arquivo


A caixa e os papéis de origem acrescentam valor, sobretudo quando os números coincidem com os do relógio. Confirme sempre essa coincidência: papéis e caixas também se compram e vendem separados.


Várias marcas — entre elas a Omega, a Longines, a Patek Philippe e a Vacheron Constantin — emitem extractos de arquivo a partir do número de série. Em geral, indicam a referência, o calibre, a data e o país para onde o relógio foi expedido. Condições, preços e prazos variam de marca para marca e convém confirmá-los no site de cada uma.


Um extracto confirma que aquele número existe e o que a fábrica registou sobre ele. Não confirma que o mostrador, os ponteiros e a caixa que tem à frente sejam os que saíram com esse número. Na Omega, por exemplo, a data indicada é a da expedição do relógio completo, não a do fabrico.


Relógio Yema Worldtime visto no Tempo Passado

Um Yema Worldtime no Tempo Passado. Fotografia: IPR.


Estanquidade e revisão


Um relógio de mergulho dos anos 60 já não é estanque, diga o mostrador o que disser. As juntas envelhecem, e o vidro e a coroa podem ter sido trocados. Antes de o levar para a água, mande testar a estanquidade.


Some ao preço uma revisão. Em muitos relógios antigos é inevitável, e em calibres com peças descontinuadas pode ser demorada, porque é preciso encontrar ou fabricar as peças.


O preço de um relógio vintage é o que se paga ao vendedor mais o que se paga ao relojoeiro.

A quem se compra e o que diz a lei


Antes de comprar, compare com vendas já realizadas da mesma referência e no mesmo estado. Um preço muito abaixo do mercado raramente é sorte.


Há um conjunto de regras que devem ser cumpridas quando a venda é feita por um profissional. Entre particulares, este regime não se aplica. Explicámos as regras em «Garantias na relojoaria — o enquadramento legal essencial».


Relógio Hebdomas visto no Tempo Passado

Um relógio Hebdomas no Tempo Passado. Fotografia: IPR.


No Tempo Passado


O Tempo Passado realiza-se no sábado, 28 de Novembro, das 10h às 18h, no Lisboa Jupiter Hotel, na Avenida da República, 46, em Lisboa.

Está aberto a empresas e a particulares, para a compra e venda de relógios antigos, peças e fornituras, ferramentas e outros objectos de relojoaria. Os bilhetes para visitantes e as inscrições de vendedores estão no site do IPR, e a informação sobre o salão está em www.tempopassado.pt.


Leve uma lupa, faça perguntas e tome nota do que o vendedor lhe disser. Num salão, o vendedor e o relógio estão à sua frente: é a melhor altura para perguntar. Para quem restaura, é também um mercado de peças — um ponteiro, uma coroa ou um vidro da época podem estar numa das mesas.


E depois da compra


Se já comprou um relógio, ou está a pensar comprar, traga-o à oficina do IPR. Fazemos um orçamento sem custos, com os problemas identificados e uma proposta de solução. Sobre a originalidade, damos apenas uma opinião: não é um serviço de certificação que o IPR preste.


A recepção de relógios é de segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 13h30 às 17h, na Rua Alfredo da Silva, 13B, em Lisboa.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page