O elogio da teimosia em relojoaria
- Nuno Margalha

- há 33 minutos
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A teimosia em relojoaria não é uma característica discreta - teve e tem um papel principal, pouco falado mas fundamental. Vamos conhecer a mecânica desta teimosia, vamos saber como contribui esta mecânica para a relojoaria e vamos ainda conhecer as funções dos seus expoentes: o pessimismo e o optimismo. Interessa-nos compreender esta obstinação técnica que, longe de ser mero capricho, constitui muitas vezes o motor silencioso do progresso relojoeiro.
A própria palavra teimar remete para o latim vulgar timare, ligado a timidus (“medroso”, “receoso”), raiz que deu origem também a “tímido”, “timidez” e “intimidar”.
Paradoxalmente, na relojoaria, essa herança semântica evolui para algo distinto: uma persistência disciplinada, capaz de repetir, corrigir e aperfeiçoar até que o mecanismo atinja exactidão, estabilidade e coerência funcional.
Etimologia: da teimosia à persistência
Do ponto de vista etimológico, a teimosia não remete para a coragem, mas antes para um fundo de receio ou desconfiança, dado que teimar se relaciona com o latim vulgar timare e com timidus (“medroso”). Nesse sentido, o teimoso, na raiz semântica da palavra, não “tem medo” de algo concreto no exterior, mas revela antes uma resistência interior: receio de ceder, de abandonar uma convicção ou de aceitar uma alternativa incerta. A obstinação surge, assim, como uma forma de firmeza defensiva, uma persistência que historicamente evoluiu do campo do temor e da desconfiança para o significado actual de insistir de modo rígido numa posição. À luz da sua etimologia, teimar evolui para o sentido de insistir e não ceder, o que aproxima a teimosia da ideia de persistência sempre que acontece o fenómeno fascinante dessa resistência interior se transformar em capacidade produtiva.
A mecânica relojoeira da teimosia
Na relojoaria, a persistência é uma qualidade historicamente indispensável: a repetição meticulosa de gestos, a correcção paciente de erros de fabrico, a regulação fina do ritmo e a busca de soluções técnicas exigem uma forma de “teimar” disciplinado, orientado para a precisão.
Figuras como John Harrison, que insistiu durante décadas na resolução do problema da longitude com os seus cronómetros marítimos, Abraham-Louis Breguet, que perseguiu melhorias técnicas contínuas em escapes e complicações, ou George Daniels, que perseverou na concepção do escape coaxial contra o cepticismo inicial da indústria, ilustram bem essa persistência transformada em avanço técnico.
Neste contexto, a teimosia deixa de ser mera obstinação e passa a significar perseverança esclarecida: a capacidade de manter uma convicção técnica, testar, corrigir e insistir até que a solução funcione com rigor mecânico e estabilidade ao longo do tempo. A insustentável leveza da teimosia
Há, contudo, uma dimensão frequentemente esquecida: a dos aprendizes, patrões, mecenas e instituições que tiveram de lidar com relojoeiros obstinados ao longo da história. Oficinas que toleraram anos de ensaios imperfeitos, financiadores que sustentaram investigações de resultado incerto e discípulos que assistiram a repetições meticulosas de um mesmo ajuste até à obtenção de estabilidade de ritmo. John Harrison contou com o apoio intermitente, mas decisivo, de figuras institucionais e patronos que permitiram a continuação do seu trabalho apesar de décadas de controvérsia; Abraham-Louis Breguet beneficiou da confiança de clientes exigentes que aceitaram processos técnicos longos e experimentais; George Daniels prosseguiu o desenvolvimento do escape coaxial durante anos até encontrar abertura industrial, graças à persistência pessoal e à posterior aceitação por parte da indústria. Em todos estes casos, a obstinação técnica do relojoeiro implicou uma contrapartida humana: alguém disposto a suportar atrasos, dúvidas e insistências, compreendendo que o aperfeiçoamento mecânico raramente surge de forma imediata, mas antes de um processo lento, reiterativo e profundamente exigente.
Os pessimistas e os optimistas
No contexto da relojoaria, a oposição entre pessimistas e optimistas assume uma tensão produtiva — mas também, por vezes, bloqueadora.
Em As Vantagens do Pessimismo, Roger Scruton defende o pessimismo como prudência esclarecida: antecipar falhas, respeitar a complexidade, desconfiar de soluções fáceis. Essa atitude é estrutural no ofício relojoeiro. O bom relojoeiro é um pessimista técnico: prevê variações térmicas, calcula tolerâncias mínimas, testa o desgaste, mede antes de confiar. É esse cepticismo que garante estabilidade de marcha e durabilidade mecânica.
Contudo, há um outro lado:
O mesmo pessimismo que protege pode também bloquear.
Muitas inovações relojoeiras enfrentaram resistência precisamente por parte de quem, em nome da prudência, considerava a mudança excessivamente arriscada. A história mostra que o equilíbrio é delicado: o pessimista assegura que o mecanismo não falha; o teimoso empurra os limites do possível.
Quando o cepticismo se transforma em bloqueio sistemático, impede a progressão dos que insistem em testar soluções novas.
Quando a obstinação ignora o escrutínio crítico, produz erro.
A evolução técnica nasce da tensão entre ambos: a teimosia criadora precisa de ser contrariada para amadurecer, mas não sufocada antes de provar o seu valor.
Vamos conhecer aqueles que, pela força da sua obstinação disciplinada, conseguiram fazer nascer resultados concretos onde antes havia apenas tentativa, erro e resistência da matéria.
I. Pioneiros da precisão (séculos XVIII–XIX)
1. John Harrison
Insistiu durante décadas na resolução do problema da longitude marítima, construindo sucessivamente os cronómetros H1 a H5. Enfrentou forte resistência institucional do Board of Longitude antes do reconhecimento final do seu trabalho.
2. Ferdinand Berthoud
Dedicou grande parte da sua vida ao aperfeiçoamento dos cronómetros marítimos, mantendo uma persistência científica na busca da precisão cronométrica em contexto naval e astronómico.
3. Pierre Le Roy
Trabalhou de forma contínua na independência do oscilador e na compensação térmica, contribuindo para a estabilidade do ritmo nos cronómetros de marinha.
4. George Graham
Aperfeiçoou o escape de âncora morto e dedicou-se com rigor obsessivo à estabilidade dos osciladores em relógios astronómicos de elevada precisão.
5. Thomas Mudge
Criador do escape de âncora aplicado ao relógio portátil, persistiu na adaptação de soluções da relojoaria grossa à relojoaria de bolso, apesar das limitações técnicas da época.
6. Abraham-Louis Breguet
Perseguiu melhorias técnicas constantes, incluindo a espiral com curva terminal elevada, o escape natural, sistemas de repetição mais eficientes e o turbilhão, redefinindo padrões de precisão e elegância mecânica.
II. Persistência técnica na relojoaria artesanal moderna (século XX)
7. George Daniels
Desenvolveu praticamente sozinho o escape coaxial ao longo de anos de investigação, enfrentando cepticismo da indústria até à sua posterior adopção e industrialização pela Omega.Paralelamente, insistiu na construção integral dos seus relógios — do projecto à execução manual — numa época dominada pela industrialização.
8. Derek Pratt
Destacou-se pela dedicação extrema à reconstrução histórica de mecanismos complexos e pelo trabalho rigoroso ligado à herança técnica de Harrison e da cronometria clássica.
III. Relojoaria independente contemporânea (final do século XX – XXI)
9. Philippe Dufour
Persistiu na defesa do acabamento manual tradicional e da alta relojoaria clássica, mantendo padrões artesanais exigentes durante décadas, contra a tendência industrial dominante.
10. Kari Voutilainen
Insiste na produção artesanal integral, no aperfeiçoamento contínuo dos movimentos e na preservação de técnicas históricas como o guilloché, revelando uma persistência técnica e estética rara na relojoaria contemporânea.
11. François-Paul Journe
Desenvolveu soluções técnicas próprias, como o remontoir d’égalité moderno e cronómetros de elevada precisão, mantendo independência criativa face às tendências do mercado.
12. Roger W. Smith
Discípulo directo de Daniels, continuou obstinadamente o desenvolvimento do escape coaxial e da relojoaria integralmente artesanal, produzindo internamente a quase totalidade dos componentes.
13. Vianney Halter
Persistiu numa linguagem mecânica e estética independente, desenvolvendo complicações originais fora dos códigos comerciais convencionais.
14. Denis Flageollet
(Co-fundador da De Bethune) Manteve anos de investigação contínua sobre materiais, espirais e osciladores, introduzindo soluções técnicas próprias e inovadoras.
15. Robert Greubel e Stephen Forsey
Persistiram durante anos no desenvolvimento de turbilhões múltiplos e inclinados, enfrentando enorme complexidade técnica e desafios de construção.
IV. Nova geração independente (século XXI)
16. Rexhep Rexhepi
Fundou uma manufactura independente jovem e insistiu numa abordagem clássica de altíssima execução manual, com desenvolvimento técnico progressivo e rigor extremo.
17. Bart Grönefeld
Mantém uma persistência técnica na relojoaria familiar, com forte foco na robustez mecânica, fiabilidade e precisão funcional.
18. Konstantin Chaykin
Insiste em soluções mecânicas originais e em complicações não convencionais, sustentadas por investigação própria e patentes técnicas.
19. Naoya Hida
Caracteriza-se por uma persistência extrema na pureza estética, precisão construtiva e produção limitada com rigor quase obsessivo.
20. Dann Phimphrachanh
Destaca-se por uma obstinação técnica centrada na construção manual e na investigação mecânica independente, assumindo processos longos de desenvolvimento e uma abordagem autoral que privilegia coerência funcional, execução rigorosa e fidelidade ao projecto inicial.
O triângulo horológico: Teimosia - Pessimismo - Optimismo
No fim, a história da relojoaria revela que o progresso técnico nasce de um triângulo delicado entre teimosia, pessimismo e optimismo.
A teimosia — entendida como persistência disciplinada — empurra a investigação, obriga à repetição, à correcção e ao aperfeiçoamento contínuo até que a solução funcione com rigor mecânico e estabilidade ao longo do tempo.
O optimismo, por seu lado, permite conceber o que ainda não existe, acreditar que um novo escape, uma nova rodagem ou uma nova arquitectura de movimento são possíveis.
Já o pessimismo desempenha uma função crítica indispensável: testa limites, antecipa falhas, impõe prudência e protege a fiabilidade funcional do mecanismo.
Contudo, quando o pessimismo deixa de ser método e se transforma em bloqueio sistemático, passa a retardar a progressão dos mais obstinados, desacelera a adopção de soluções inovadoras em nome de uma segurança excessiva.
A relojoaria evolui precisamente na tensão entre estas forças: a teimosia criadora insiste, o optimismo projecta, e o pessimismo verifica.
A história demonstra que muitos dos grandes avanços relojoeiros só se concretizaram porque a obstinação técnica resistiu ao cepticismo dominante durante tempo suficiente para se provar na prática.
Foi na matéria trabalhada, nas tolerâncias afinadas e na estabilidade de marcha verificada que a inovação deixou de parecer imprudência e passou a revelar-se maturidade mecânica. O que começou por ser visto como risco transformou-se, após repetição, teste e validação, em novo padrão de rigor.
O triângulo horológico português
Transpondo esta tensão entre teimosia, pessimismo e optimismo para a realidade portuguesa, a questão torna-se particularmente clara. Durante décadas repetiu-se a ideia de que em Portugal não seria possível construir relojoaria fina de qualidade. Os pessimistas sustentaram que faltavam estruturas industriais, tradição contínua, capital, escala produtiva. Em parte, essa prudência tinha fundamento: o território era praticamente virgem no plano da manufactura contemporânea. Contudo, o pessimismo ultrapassou muitas vezes a função crítica saudável e transformou-se em bloqueio cultural, desincentivando iniciativas antes mesmo de estas se testarem na prática.
Do outro lado surgiram os optimistas e os teimosos. Aqueles que, apesar da ausência de fábricas consolidadas, decidiram avançar com o que tinham: conhecimento técnico acumulado, redes internacionais, experiência adquirida por relojoeiros portugueses a trabalhar em marcas suíças, capacidade de aprendizagem rápida e vontade de estruturar produção local. Num território por desbravar, começa-se por pequenas séries, montagem nacional, desenvolvimento progressivo de componentes e criação de identidade própria. Não partiram de uma indústria instalada; partiram de convicção técnica e persistência.
Até há poucos anos, os pessimistas foram claramente superiores aos optimistas em Portugal.
Muitas intenções de produção relojoeira esmoreceram sob o peso do cepticismo, da desconfiança e da falta de reconhecimento.
Porém, nos últimos anos assistiu-se a uma mudança de equilíbrio. Uma nova geração de criadores — teimosos no melhor sentido do termo — tem conseguido lançar marcas, estruturar ideias, desenvolver produto e afirmar que é possível fazer em Portugal o que antes parecia inviável. A obstinação deixou de ser vista como ingenuidade e começou a revelar-se maturidade progressiva.
Se a história da relojoaria ensina algo, é que nenhum território nasce com indústria consolidada; ela constrói-se. A inovação portuguesa na relojoaria dependerá exactamente desta tensão: optimismo suficiente para avançar, teimosia suficiente para persistir, e pessimismo técnico suficiente para garantir qualidade.
O que muda agora é que, pela primeira vez em muito tempo, os obstinados parecem dispostos a resistir ao cepticismo tempo suficiente para provar, na matéria e na marcha, que a relojoaria portuguesa não é imprudência — é potencial em construção.





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