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- Garantias na relojoaria — o enquadramento legal essencial
Representação simbólica do barco de Teseu e de um relojoeiro a escolher peças para reparação de relógios A história do barco de Teseu levanta um dos dilemas mais persistentes da Filosofia: ao longo do tempo, as suas tábuas foram sendo substituídas uma a uma até que nenhuma peça original permanecia — e, ainda assim, continuava a ser considerado o mesmo barco; mas o problema adensa-se quando se imagina que alguém recolhe todas as peças antigas e reconstrói com elas o navio original — qual dos dois é, então, o verdadeiro barco de Teseu? Também os relógios percorrem a sua vida útil entre revisões, reparações e substituições sucessivas de componentes, regressando ciclicamente ao relojoeiro para manter o seu funcionamento; esta realidade coloca, no contexto do pós-venda, uma questão paralela e concreta: até que ponto a manutenção e as garantias asseguram a continuidade de um relógio ao longo do tempo, e como se enquadra essa continuidade no regime legal aplicável? Fomos analisar o enquadramento legal e a prática do sector. Reunimos aqui os elementos essenciais para compreender — e saber aplicar — as regras das garantias na relojoaria. Garantia legal vs garantia comercial Em Portugal, o regime principal encontra-se no Decreto-Lei n.º 84/2021 , aplicável às relações entre profissionais e consumidores. A garantia legal resulta directamente da lei e não depende da vontade do vendedor. Já a garantia comercial (frequentemente designada como garantia internacional da marca) constitui um compromisso adicional, voluntário, definido pelo fabricante. Importa sublinhar que a garantia comercial não substitui nem limita a garantia legal. Compra de relógios novos Na venda de um relógio novo por um profissional a um consumidor, aplica-se uma garantia legal de 3 anos. Durante os primeiros 2 anos, qualquer defeito presume-se existente à data da entrega, salvo prova em contrário. Este ponto tem grande relevância prática: o consumidor não tem de demonstrar a origem do problema nesse período. Perante uma desconformidade, o consumidor pode exigir: Reparação Substituição Redução do preço Resolução do contrato A escolha segue uma hierarquia prática: privilegia-se a reposição da conformidade, através de reparação ou substituição. O prazo de reparação é, como regra, de 30 dias , podendo ser superior quando exista justificação técnica — situação frequente na relojoaria, devido a diagnóstico complexo ou necessidade de peças. DL n.º 84/2021, de 18 de Outubro Artigo 18.º - Reparação ou substituição do bem (...) 3 - O prazo para a reparação ou substituição não deve exceder os 30 dias, salvo nas situações em que a natureza e complexidade dos bens, a gravidade da falta de conformidade e o esforço necessário para a conclusão da reparação ou substituição justifiquem um prazo superior . (...) Relógios usados No caso de relógios usados vendidos por profissionais, a lei permite reduzir o prazo de garantia para 18 meses, desde que exista acordo claro e expresso com o consumidor, normalmente formalizado no momento da compra. Esta possibilidade reconhece a natureza própria de um bem usado — sujeito a desgaste, intervenções anteriores e incertezas técnicas — sem afastar, ainda assim, a obrigação de assegurar a sua conformidade com o contrato. Ou seja, mesmo com prazo reduzido, o vendedor continua responsável por defeitos que existam à data da entrega ou que se manifestem dentro do período de garantia. A distinção entre venda profissional e venda entre particulares assume, neste contexto, importância decisiva. Quando um profissional vende a um consumidor, aplica-se integralmente o regime legal de garantias previsto no direito do consumo, com todas as protecções associadas. Já nas transacções entre particulares, essa protecção não existe: a compra é feita “no estado em que se encontra”, salvo situações de dolo ou erro relevante. Plataformas como a Vinted ou similares inserem-se, em regra, neste segundo cenário, funcionando como intermediárias entre utilizadores privados; contudo, sempre que o vendedor actue de forma profissional — ainda que dentro da plataforma — poderá ser considerado como tal, com a consequente aplicação das regras de garantia. Garantias em reparações A reparação de um relógio configura uma prestação de serviços, com particularidades relevantes no plano jurídico e técnico, distinguindo-se claramente da venda de um bem. Neste contexto, a garantia não incide sobre o relógio na sua totalidade, mas sobre a intervenção realizada: cobre o trabalho efectuado e as peças substituídas, ficando excluídas avarias distintas da inicialmente diagnosticada ou decorrentes de factores externos. Esta distinção é essencial, sobretudo em relógios complexos ou com histórico desconhecido, onde podem coexistir múltiplas fragilidades independentes. Na prática, a garantia deve assegurar dois pontos fundamentais: que a avaria identificada foi efectivamente resolvida e que os componentes substituídos funcionam de forma correcta e duradoura. Se o relógio apresentar novamente o mesmo problema após a intervenção, estabelece-se, em regra, uma presunção de falha do serviço, cabendo ao profissional demonstrar o contrário. Esta presunção tem implicações directas na gestão do pós-venda, exigindo rigor no diagnóstico, na execução e no registo técnico da intervenção realizada. O prazo de garantia nas reparações não se encontra definido de forma uniforme e directa como sucede na venda de bens, o que introduz alguma margem de interpretação. Ainda assim, em contexto de relações de consumo, tende a alinhar-se com o regime geral de conformidade, sendo prática recomendada — e juridicamente prudente — que o profissional defina de forma clara, por escrito, o âmbito e a duração dessa garantia. A transparência neste ponto é determinante para evitar conflitos e assegurar uma relação de confiança entre cliente e relojoeiro. Limitações e exclusões Existem limitações legítimas à aplicação das garantias, particularmente relevantes na relojoaria, onde a natureza mecânica dos objectos e a sua sensibilidade ao uso introduzem variáveis difíceis de controlar. Entre essas limitações incluem-se o desgaste natural — como a degradação de óleos, o desgaste de pivôs ou o envelhecimento de juntas —, situações de mau uso, como choques, exposição a campos magnéticos ou contacto indevido com água, bem como intervenções externas não autorizadas que possam comprometer o funcionamento do relógio. Acrescem ainda os defeitos pré-existentes não detectados no momento da intervenção, especialmente em peças com histórico desconhecido ou incompleto. A fronteira entre defeito e uso indevido constitui, por isso, uma das principais fontes de conflito neste domínio. Determinar se uma anomalia resulta de falha técnica, desgaste expectável ou utilização inadequada exige frequentemente uma análise especializada, onde o rigor do diagnóstico e a documentação do estado do relógio à entrada assumem um papel decisivo. A clareza na comunicação destas limitações, desde o primeiro contacto com o cliente, revela-se essencial para alinhar expectativas e reduzir potenciais litígios. Garantias das marcas As marcas relojoeiras oferecem, frequentemente, garantias comerciais com duração variável — tipicamente entre dois e cinco anos — e, em muitos casos, com cobertura internacional. Estas garantias constituem compromissos voluntários definidos pelos próprios fabricantes, com condições específicas que regulam o seu âmbito de aplicação. Entre essas condições, é habitual exigir que a manutenção e as intervenções sejam realizadas exclusivamente em centros autorizados, sob pena de perda de cobertura, bem como excluir danos resultantes de uso indevido, como choques, exposição à água fora dos limites previstos ou magnetismo. Importa sublinhar que a existência de uma garantia de marca não substitui nem limita os direitos do consumidor ao abrigo da garantia legal. Mesmo quando o fabricante assume determinadas obrigações, o vendedor permanece responsável perante o consumidor, nos termos da lei aplicável, pela conformidade do bem. Esta sobreposição de regimes — legal e comercial — exige uma leitura cuidadosa por parte de profissionais e clientes, de modo a compreender exactamente quem responde por cada situação e em que condições. Orçamentos e transparência Na reparação de um relógio, o orçamento assume um papel central, funcionando como ponto de convergência entre a análise técnica e o enquadramento contratual da intervenção. Mais do que uma estimativa de custos, o orçamento deve traduzir, de forma clara e rigorosa, o que será feito, em que condições e com que expectativas. Entre as boas práticas destacam-se a descrição detalhada da intervenção prevista, a identificação de riscos — nomeadamente a possibilidade de surgirem problemas adicionais durante o processo — e a indicação de prazos previsíveis, ainda que sujeitos à complexidade do diagnóstico e à disponibilidade de peças. A aceitação do orçamento pelo cliente constitui, na prática, a base do contrato entre as partes, definindo os limites da intervenção autorizada. Qualquer alteração relevante — seja ao nível dos trabalhos a efectuar, dos custos ou dos prazos — deve ser comunicada de forma transparente e previamente aprovada pelo cliente. Este procedimento não é apenas uma formalidade: é uma garantia de clareza, confiança e protecção jurídica para ambas as partes, especialmente num contexto técnico onde as variáveis nem sempre são totalmente previsíveis à partida. Situações frequentes Importa reconhecer que no sector relojoeiro se observam, com regularidade, casos como relógios que voltam a parar após uma revisão, problemas de estanqueidade depois de uma intervenção, atrasos superiores aos prazos inicialmente previstos ou recusas de garantia com fundamento em alegado mau uso. Cada uma destas situações apresenta uma complexidade própria que impede leituras automáticas: um relógio que deixa de funcionar após revisão pode indiciar uma falha na intervenção, mas também pode revelar um problema estrutural que não era detectável no diagnóstico inicial; da mesma forma, uma perda de estanqueidade pode resultar de uma vedação incorrecta ou de limitações inerentes à caixa, sobretudo em peças antigas ou já intervencionadas múltiplas vezes. Os atrasos na entrega constituem igualmente uma fonte recorrente de tensão, muitas vezes associados à dificuldade em obter peças, à necessidade de diagnósticos adicionais ou à própria carga de trabalho das oficinas. Ainda que a lei estabeleça prazos de referência, a realidade técnica da relojoaria — especialmente em peças complexas ou vintage — pode justificar desvios, desde que devidamente fundamentados e comunicados. Já as recusas de garantia com base em alegado mau uso colocam o foco na prova: cabe frequentemente ao profissional demonstrar que a anomalia resulta de factores externos, como choques, magnetismo ou exposição indevida à água. Do ponto de vista jurídico, todas estas situações exigem uma análise integrada que considere o conteúdo do orçamento aprovado, o estado do relógio à entrada, a natureza da intervenção realizada e as condições de utilização posteriores. A distinção entre defeito, desgaste natural e uso indevido revela-se central e constitui, não raras vezes, a principal linha de conflito entre cliente e profissional. Neste contexto, a documentação rigorosa, a clareza na comunicação e a definição prévia de condições assumem um papel determinante. Evitar conclusões simplistas não é apenas uma questão de prudência — é uma exigência para garantir decisões justas, tecnicamente sustentadas e juridicamente sólidas. Boas práticas No plano das boas práticas, a actuação dos profissionais assume um papel determinante na prevenção de conflitos e na correcta gestão do pós-venda. Entre os procedimentos recomendáveis destaca-se o registo detalhado do estado do relógio à entrada, que permite fixar uma referência objectiva para futuras avaliações, bem como a documentação fotográfica, essencial para comprovar condições externas e eventuais danos pré-existentes. A existência de condições gerais escritas, claras e acessíveis, contribui igualmente para definir o enquadramento da intervenção, nomeadamente no que respeita a garantias, prazos e limitações. A tudo isto deve acrescer uma comunicação transparente e contínua com o cliente, sobretudo quando surgem imprevistos ou necessidade de trabalhos adicionais. Do lado do consumidor, algumas atitudes simples podem fazer uma diferença significativa. Guardar comprovativos — como facturas, orçamentos e relatórios de intervenção — permite sustentar eventuais reclamações ou pedidos de garantia. Solicitar sempre um orçamento antes da realização dos trabalhos assegura clareza quanto ao âmbito e custo da intervenção. Por fim, evitar intervenções não autorizadas, especialmente durante o período de garantia, é fundamental para não comprometer direitos que, de outro modo, poderiam ser plenamente exercidos. O regime de garantias na relojoaria exige equilíbrio entre protecção do consumidor e realidade técnica do objecto. Um relógio não é um bem descartável: trata-se de um mecanismo sujeito a desgaste, dependente de manutenção e sensível ao uso. A correcta aplicação da lei depende, por isso, de conhecimento jurídico, competência técnica e, sobretudo, de transparência na relação entre as partes.
- Arnold ou Breguet? A controvérsia silenciosa na origem do turbilhão
Sílvio Pereira GRANDES POLÉMICAS DA HISTÓRIA DA RELOJOARIA ©swiss-watch passport.ch Durante mais de dois séculos, o turbilhão tem sido celebrado como uma das mais fascinantes invenções da relojoaria mecânica. Contudo, por detrás desta complicação lendária esconde-se uma questão histórica que continua a despertar o interesse de estudiosos e colecionadores: terá sido realmente uma criação isolada de Abraham-Louis Breguet ou surgiu num ambiente técnico fortemente influenciado pelo génio inglês John Arnold? O nascimento de um mito relojoeiro Poucas complicações mecânicas possuem o prestígio simbólico do turbilhão. A sua presença num relógio continua a ser, ainda hoje, sinal de virtuosismo técnico e de excelência artesanal. A autoria da invenção é normalmente atribuída ao relojoeiro suíço radicado em Paris Abraham-Louis Breguet , que registou oficialmente a patente do mecanismo em 26 de junho de 1801. Nesse documento, Breguet descreve um sistema destinado a compensar os erros de marcha provocados pela gravidade, fazendo girar o conjunto regulador do relógio dentro de uma estrutura móvel. Contudo, ao examinar o contexto técnico da época, surge inevitavelmente outro nome fundamental: o do grande relojoeiro inglês John Arnold . Arnold foi um dos principais responsáveis pela evolução da cronometria no século XVIII e, em vários aspetos, os seus trabalhos anteciparam problemas que o turbilhão procuraria resolver. A partir daqui nasce uma pergunta que tem alimentado a historiografia relojoeira: terá o conceito do turbilhão sido influenciado, direta ou indiretamente, pelas investigações de Arnold? O problema que intrigava os relojoeiros Para compreender a importância desta discussão, é necessário regressar ao principal desafio da relojoaria de precisão no século XVIII: os erros de posição . Os relógios mecânicos dependem do equilíbrio extremamente delicado entre o balanço e a espiral. Qualquer irregularidade microscópica — seja no pivô do balanço, na forma da espiral ou na geometria do escape — pode provocar variações na marcha. Quando um relógio permanece numa posição constante, como acontecia frequentemente com os relógios de bolso transportados no colete, a gravidade atua sempre sobre os mesmos pontos do mecanismo. Esse efeito produz desvios que podem atingir vários segundos por dia. Num período em que a precisão era vital para a navegação marítima e para a cronometria científica, tais erros eram considerados inaceitáveis. Assim, numerosos relojoeiros começaram a procurar soluções capazes de neutralizar ou compensar essas variações. Arnold ©wikipédia John Arnold e a revolução da cronometria inglesa Na segunda metade do século XVIII, a relojoaria inglesa dominava o campo da cronometria de precisão. Entre os seus protagonistas destacava-se John Arnold , figura central na evolução dos cronómetros marítimos. Arnold desenvolveu instrumentos destinados a resolver um dos maiores desafios científicos da época: a determinação da longitude no mar. Para tal, era necessário dispor de relógios extremamente precisos e estáveis, capazes de resistir às variações de temperatura, humidade e movimento a bordo dos navios. Inspirado pelo trabalho pioneiro de John Harrison , Arnold procurou simplificar e tornar mais acessíveis os cronómetros marítimos. Introduziu melhorias decisivas no escape de detenção e aperfeiçoou sistemas de compensação térmica baseados em balanços bimetálicos. Mais importante ainda, Arnold dedicou grande atenção ao comportamento do regulador em diferentes posições. Embora não tenha desenvolvido um mecanismo equivalente ao turbilhão, é evidente que investigava precisamente o mesmo problema físico que mais tarde levaria Breguet à sua famosa invenção. Breguet ©wikipédia Breguet: o arquiteto da relojoaria moderna Enquanto Arnold trabalhava em Londres, Abraham-Louis Breguet construía em Paris uma carreira absolutamente extraordinária. Poucos relojoeiros da história reuniram tantas inovações num único percurso. Entre as suas contribuições encontram-se a espiral sobrelevada — conhecida hoje como espiral Breguet —, o escape natural, aperfeiçoamentos nos relógios de repetição e diversos avanços na construção de relógios automáticos. Breguet possuía uma rara capacidade de síntese técnica. Mais do que inventar componentes isolados, sabia integrar princípios mecânicos distintos numa solução elegante e coerente. O turbilhão é talvez o exemplo mais emblemático dessa abordagem. A ideia consistia em montar o balanço, a espiral e o escape numa gaiola rotativa que executa uma rotação completa em intervalos regulares, geralmente de um minuto. Ao fazê-lo, o mecanismo distribui os erros de posição por todas as orientações possíveis, permitindo que esses desvios se anulem mutuamente. Era uma solução engenhosa e profundamente sofisticada. Um relacionamento marcado pelo respeito Curiosamente, a história do turbilhão não se constrói sobre uma rivalidade amarga entre Arnold e Breguet. Pelo contrário, existem numerosos indícios de uma relação de grande respeito entre os dois mestres. Durante o final do século XVIII, Breguet visitou Londres e entrou em contacto com os principais relojoeiros ingleses. Arnold, cuja reputação era imensa, tornou-se um interlocutor natural nesse diálogo técnico. Ambos partilhavam uma obsessão comum: alcançar níveis cada vez mais elevados de precisão cronométrica. É precisamente essa proximidade intelectual que leva alguns historiadores a considerar a possibilidade de influência mútua. Mesmo que Arnold não tenha concebido o turbilhão, as suas reflexões sobre os erros de posição podem ter contribuído para moldar o pensamento de Breguet. O relógio que perpetuou a polémica Um episódio singular reforça ainda mais essa interpretação. Quando John Arnold faleceu em 1799 , Breguet decidiu prestar-lhe uma homenagem rara. Construiu um cronómetro equipado com turbilhão e gravou no movimento uma inscrição dedicada à memória do relojoeiro inglês. O relógio foi oferecido ao filho de Arnold, John Roger Arnold , que continuou a atividade da família. A peça ficou conhecida na história da relojoaria como Arnold nº 11 . Para alguns estudiosos, esta dedicatória pode sugerir que Breguet reconhecia em Arnold um precursor intelectual. Para outros, trata-se simplesmente de um gesto de admiração entre dois mestres cuja obra transformou profundamente a cronometria. Seja qual for a interpretação, o episódio revela a profunda ligação profissional entre ambos. Quantos turbilhões construiu Breguet? Outro elemento importante na análise desta controvérsia é o próprio número de turbilhões produzidos por Breguet. Estima-se que o mestre tenha construído cerca de quarenta exemplares ao longo da sua vida. Cada um deles exigia um trabalho extremamente complexo, envolvendo tolerâncias mínimas e uma execução artesanal de altíssimo nível. O turbilhão nunca foi uma solução de produção corrente. Pelo contrário, permaneceu durante décadas como uma demonstração de mestria técnica. No século XIX, alguns fabricantes utilizaram o sistema em cronómetros de observatório, onde a procura pela precisão absoluta justificava experiências mecânicas sofisticadas. Contudo, o turbilhão permaneceu sempre uma complicação rara. O consenso entre os historiadores Hoje, a maioria dos especialistas concorda em três pontos fundamentais. Primeiro, Abraham-Louis Breguet é indiscutivelmente o inventor do turbilhão , uma vez que concebeu o mecanismo, registou a patente e produziu os primeiros exemplares. Segundo, John Arnold desempenhou um papel crucial na evolução da cronometria , explorando muitos dos problemas técnicos que levariam à criação do turbilhão. Terceiro, a relojoaria do século XVIII era um ambiente profundamente colaborativo . Ideias, conceitos e experiências circulavam entre oficinas, cidades e países, alimentando um processo contínuo de inovação. Assim, a controvérsia entre Arnold e Breguet deve ser vista menos como uma disputa de autoria e mais como um reflexo da extraordinária vitalidade científica da relojoaria europeia daquele período. Do instrumento científico ao símbolo de prestígio Curiosamente, o papel do turbilhão mudou profundamente ao longo dos séculos. No início do século XIX, tratava-se de uma tentativa séria de melhorar a precisão dos relógios mecânicos. No entanto, os avanços tecnológicos posteriores — novas ligas metálicas, melhores espirais e métodos de regulação mais sofisticados — reduziram a necessidade prática do mecanismo. Mesmo assim, o turbilhão nunca perdeu o seu fascínio. Pelo contrário, tornou-se uma espécie de assinatura de excelência na alta-relojoaria contemporânea. A visão da gaiola rotativa, executando a sua lenta coreografia mecânica, continua a representar uma das expressões mais poéticas da engenharia relojoeira. Uma invenção nascida de um grande tempo histórico A história do turbilhão demonstra que as grandes invenções raramente surgem isoladas. O génio criativo de Abraham-Louis Breguet produziu uma solução técnica brilhante que permanece, mais de duzentos anos depois, como uma das maiores conquistas da relojoaria mecânica. Contudo, essa invenção nasceu num ambiente intelectual extraordinariamente fértil, onde mestres como John Arnold exploravam incessantemente os limites da precisão. Arnold aperfeiçoou a ciência da cronometria. Breguet transformou essa ciência numa obra-prima mecânica. E o turbilhão continua a girar, século após século, como testemunho de uma época em que o engenho humano procurava — com paciência, talento e imaginação — dominar o próprio tempo.
- Chuck Norris - uma homenagem em 25 piadas
Partiu ontem — ou melhor, decidiu ausentar-se — Chuck Norris, figura maior da cultura contemporânea e, segundo fontes não verificáveis mas amplamente aceites, a única referência verdadeiramente estável para a medição do tempo. Resolvemos prestar a nossa homenagem à estrela dos memes da internet com 25 piadas originais sobre Chuck Norris e relojoaria. Tem uma piada preferida? Tem uma piada que quer partilhar? Escreva o seu comentário no fundo da página. Chuck Norris - uma homenagem em 25 piadas 1 - O relógio de Chuck Norris atrasou um segundo uma vez — foi assim que nasceram os segundos mortos 2 - O Chuck Norris teve um relógio que atrasava porque tinha medo de o acompanhar. Foi assim que nasceu o Crash. 3 - Todos os cronocomparadores são ajustados pelo ritmo de Chuck Norris. 4 - Os relógios de quartzo de Chuck Norris não necessitam de pilha — o quartzo simplesmente treme de medo. 5 - O Chuck Norris não dá corda — dá ordens ao relógio. 6 - A COSC é certificada por Chuck Norris. 7 - O tempo universal Coordenado (UTC) ajusta-se ao local em que Chuck Norris se encontra. 8 - O Chuck Norris usa lupa, mas para ver ao longe. 9 - O relógio de Chuck Norris não é estanque — a água tem medo de entrar. 10 - O Chuck Norris não regula relógios — é ele que define o tempo. 11 - Chuck Norris não perde peças, as peças fogem dele. 12 - O Chuck Norris não desmonta movimentos — são eles que se rendem. 13 - Os rubis do relógio de Chuck Norris são naturais. 14 - Chuck Norris uma vez riscou um vidro de safira, apenas porque olhou para ele com demasiada itensidade. 15 - Uma vez o Chuck Norris deu um pontapé rotativo num balanço, foi assim que nasceu o Turbilhão. Depois deu um duplo rotativo — e nasceu o Turbilhão quadruplo. 16 - Esta piada não foi aprovada por Chuck Norris. 17 - Chuck Norris consegue fazer a manutenção a um calendário perpétuo. Só com uma ponta de apoio. 18 - Chuck Norris consegue ver as Fases da Lua, num repetidor de minutos. 19 - O relógio de Chuck Norris tem Equação do Tempo. O Sol simplesmente faz o que o relógio indica. 20 - O relógio de Chuck Norris não tem hora mundial, tem apenas — A Hora. 21 - Todos os relógios de Chuck Norris são de Força constante. 22 - O ruído da máquina de ultrasons de Chuck Norris é feito a partir dos gemidos dos seus inimigos. 23 - O Turbilhão do Chuck Norris não compensa a força da gravidade — compensa a força do Chuck Norris. 24 — O calendário perpétuo de Chuck Norris não precisa de correcção. É a referência. 25 - O calendário anual do relógio de Chuck Norris não falha em Fevereiro — Fevereiro adapta-se.
- ArtyA
O ArtyA Purity Moissanite Curvy Tourbillon é uma peça de alta relojoaria que combina experimentação material e complexidade mecânica, destacando-se pela sua caixa em moissanite (carboneto de silício) com 41 mm de largura, 42 mm de comprimento e cerca de 13 mm de espessura, composta por 65 facetas que amplificam a refracção da luz e criam efeitos prismáticos únicos . No interior encontra-se o calibre manufactura PUR-T3 de corda manual, desenvolvido especificamente para seguir a curvatura da caixa, funcionando a 4 hz (28.800 alternâncias/hora) e equipado com dois tambores em paralelo que garantem cerca de 65 a 72 horas de reserva de marcha . A arquitectura posiciona as horas e minutos de forma descentrada às 12 h e o turbilhão às 6 h, com regulação por massas de inércia, permitindo ajustes mais finos, enquanto as pontes esqueletizadas apresentam acabamento jateado e chanfrados manuais com tratamento NAC cinzento . Produzido em apenas 9 exemplares, este modelo afirma-se como um exercício extremo de integração entre ciência dos materiais, óptica e engenharia relojoeira. Saber mais
- Citizen
O Citizen Eco-Drive 50th Anniversary Edition é uma peça comemorativa que assinala meio século da tecnologia de alimentação por luz da marca, combinando tradição japonesa e precisão extrema num relógio tecnicamente avançado. A caixa em Super Titanium™ mede 40 mm de diâmetro e 12,2 mm de espessura, com tratamento Duratect Platinum e resistência à água de 100 metros, enquanto o mostrador em papel washi tingido manualmente em “chitose midori” revela profundidade e textura únicas, complementado por marcadores aplicados com lume e janela de data às 3 h. No interior encontra-se o calibre Eco-Drive A060, um movimento de quartzo de alta precisão com exactidão de ±5 segundos por ano, reserva de marcha até 18 meses em modo de poupança de energia, calendário perpétuo até 2100 e ajuste independente da hora, sendo esta edição limitada a 650 exemplares, integrando a linha de topo The Citizen e simbolizando a maturidade técnica da relojoaria de energia luminosa. Saber mais
- Manifesto SAV ou Carta de Intenções
Num momento em que a relojoaria evolui rapidamente, impulsionada por novos materiais, tecnologias e exigências das marcas, o Serviço Pós-Venda (SAV) assume um papel cada vez mais central. Mais do que uma simples assistência técnica, o SAV tornou-se um elo essencial entre tradição e inovação, garantindo a longevidade dos relógios, a confiança dos clientes e a preservação de um património que atravessa gerações. O Contexto Atual A assistência técnica de relojoaria, tão essencial para o funcionamento dos nossos relógios, mais conhecido como SAV, encontra-se diante de vários desafios. De movimentos próprios das marcas, à implementação de materiais inovadores (como silício, cerâmica e ligas especiais), a aplicação de rigorosos padrões de estanqueidade e de precisão (COSC), às demais exigências das marcas, como a forma e local de aprovisionamento do stock de furnitura, a forma de organização da ferramenta no interior das gavetas da bancada ou mesmo quanto à disposição dos instrumentos de medição na oficina. Até ao simples fato, de umas marcas não se quererem misturar com outras no mesmo espaço, como se estas padecessem de alguma doença contagiosa. Então o que é o SAV em relojoaria? • A definição de Serviço Pós-Venda O Serviço Pós-Venda (SAV) em relojoaria, refere-se ao conjunto de ações e soluções oferecidas ao cliente, após a aquisição de um relógio. Inclui assistência técnica, manutenção, reparação e aconselhamento, garantindo que o produto mantém o seu desempenho e valor ao longo do tempo. O SAV é fundamental para preservar a confiança do cliente e assegurar a longevidade dos relógios. Ora o relógio não é apenas um instrumento para medir o tempo. Para além do valor material, possui também um forte valor simbólico e emocional. Muitas vezes, está associado a momentos especiais, conquistas ou tradições familiares. Sendo frequentemente transmitidos através de heranças, passando de geração em geração. O SAV tem um papel importante na conservação destes objetos, assegurando que permanecem funcionais e esteticamente preservados ao longo do tempo, de modo a perpetuar o seu legado e significado familiar. Oferecendo não só soluções técnicas, mas também respeitando o significado pessoal do relógio para cada cliente. O Serviço Pós-Venda, representa uma extensão direta dos valores e da reputação das marcas relojoeiras. Uma assistência eficaz e personalizada deve refletir, o cuidado, a excelência e o respeito da marca pelos seus clientes. Contribuindo para fortalecer a imagem da marca, diferenciando-a no mercado e promovendo opiniões positivas entre consumidores. Ao contrário da venda, que termina com a entrega do produto, o SAV estabelece uma relação contínua entre a marca e o cliente. Esta ligação prolonga-se para além da transação inicial, envolvendo acompanhamento, esclarecimento de dúvidas e resolução de problemas. Reforçando a fidelização e demonstrando o compromisso da marca com o cliente, ao longo de todo o ciclo de vida do relógio. Os relógios destacam-se pelo seu carácter duradouro, muitas vezes acompanhando os seus proprietários ao longo de décadas ou mesmo de gerações. Esta longevidade, implica que o Serviço Pós-Venda esteja preparado para responder a necessidades, que podem surgir muitos anos após a compra inicial, garantindo o funcionamento e a integridade do produto. A necessidade de manutenções periódicas Os relógios, especialmente os mecânicos, são compostos por dezenas ou mesmo centenas de peças, que trabalham em perfeita sintonia. Devido à complexidade mecânica e à precisão exigida, é fundamental realizar manutenções regulares. As intervenções preventivas previnem avarias, prolongando a vida útil do relógio. Apesar da sua robustez, os relógios possuem peças móveis e materiais que, com o tempo e o uso, podem sofrer desgaste ou deterioração. No SAV, técnicos têm formações/certificações que permitem proceder às reparações dos relógios, dentro dos parâmetros definidos pelo fabricante e acesso a componentes originais, assegurando assim o desempenho ideal do relógio. Uma das tarefas mais críticas realizadas durante a revisão, é a lubrificação dos pontos de atrito do mecanismo. A ausência ou degradação dos lubrificantes, acelera o desgaste das peças levando a falhas prematuras e à necessidade de reparações dispendiosas. A aplicação correta de lubrificantes de alta qualidade, reduz o atrito e prolonga a vida útil dos componentes, assegurando o funcionamento suave e silencioso do relógio. Revisões Parciais, Completas e Restauros. As revisões parciais, consistem em intervenções regulares com o objetivo de preservar o bom funcionamento do relógio e antecipar problemas futuros. Inclui procedimentos como, a limpeza externa, ajuste da precisão e marcha do movimento, substituição e lubrificação de vedantes e verificação da estanqueidade. Estes cuidados prévios são fundamentais para garantir a longevidade do relógio, evitando avarias dispendiosas e mantendo o seu desempenho ao longo dos anos. Já as revisões completas, são operações mais profundas e detalhadas, geralmente recomendadas após determinados períodos de uso ou quando o relógio apresenta sinais de desgaste. Envolvem a desmontagem total do mecanismo, uma inspeção rigorosa de todas as peças, substituição de componentes danificados ou gastos, limpeza integral e posterior montagem, lubrificação, regulagem, teste de estanqueidade e reserva de marcha. Este tipo de serviço, é essencial para restaurar as condições originais do relógio e assegurar o seu bom funcionamento. O restauro é direcionado, sobretudo, a relógios antigos ou de elevado valor histórico e sentimental. Num restauro, especialmente em peças vintage, o objetivo é recuperar o aspeto e funcionalidade originais, respeitando ao máximo os materiais da época de fabrico. Este processo pode incluir, a caixa, mostrador, ponteiros, braceletes e até do mecanismo, utilizando peças originais sempre que possível. Este serviço é fundamental para preservar o património relojoeiro e garantir que peças únicas continuam a contar histórias por várias gerações. Poderá haver a necessidade de fabricação de peças, devido a não estarem disponíveis no mercado ou simplesmente porque foram descontinuadas pelas marcas. Neste tipo de intervenções, as qualificações e conhecimentos na manufatura de componentes, são fundamentais. Nestes casos, o valor histórico e comercial tem de ser cuidadosamente ponderado, tendo sempre de ser respeitada a vontade do cliente. SAV e a confiança do cliente A necessidade de um Serviço Após-Venda transparente, é crucial para consolidar a confiança entre a marca e o cliente. Ao detalhar cada etapa do procedimento, desde a receção do relógio até à entrega, o cliente sente-se mais seguro e informado sobre o que está a acontecer. A clareza nos protocolos e a explicação das intervenções técnicas, eliminam dúvidas e reforçam o compromisso da marca com a qualidade e a ética. A apresentação de orçamentos detalhados e sem ambiguidades, é fundamental para que o cliente não seja surpreendido por custos inesperados. Uma assistência que comunica abertamente o valor de cada serviço, bem como possíveis despesas adicionais, demonstra respeito pelo cliente e evita situações de desconforto ou desconfiança. O orçamento transparente permite ao cliente tomar decisões informadas e sentir-se valorizado. O registo fotográfico das etapas da revisão, desde a desmontagem até à montagem final, oferece ao cliente uma visão concreta das intervenções efetuadas. As imagens servem como prova do cuidado e rigor aplicado, além de evidenciar eventuais problemas encontrados na receção do relógio. Este recurso visual, reforça a transparência e aproxima o cliente da realidade do serviço, aumentando a confiança no trabalho realizado. Definir e cumprir prazos realistas para a conclusão dos serviços é um dos fatores que mais impactam a perceção de fiabilidade do SAV. Ao informar o cliente sobre o tempo estimado para cada intervenção e atualizar caso haja alterações, este demonstra profissionalismo e respeito pelo tempo do cliente. Prazos bem definidos evitam frustrações e ajudam a gerir expectativas. Manter o cliente informado ao longo de todo o processo, seja por email, telefone ou plataformas digitais, cria uma relação de proximidade e confiança. A comunicação regular sobre o estado do serviço, necessidades adicionais de intervenção técnica ou atrasos, permitem ao cliente acompanhar o progresso e sentir-se envolvido. A entrega do relógio ao cliente é um momento crucial no processo de assistência técnica. Este momento deve ser tratado com especial atenção, garantindo que o relógio é devolvido em perfeitas condições, devidamente limpo, acertado e testado. Além disso, a apresentação deve ser cuidada, podendo ser acompanhada por uma breve demonstração do funcionamento, transmitindo confiança e reforçando a perceção e consciência de valor do serviço prestado. Sensibilizar o cliente sobre os cuidados e manuseamento adequados do relógio é uma mais-valia. Aconselhar sobre procedimentos de limpeza, armazenamento, utilização na água ou intervalos ideais de manutenção, contribui para a preservação do relógio e previne avarias. Além de promover a valorização do relógio e da imagem do SAV como parceiro de confiança. SAV Oficial vs. SAV Independente No passado, o SAV independente enfrentava limitações quanto ao acesso a peças originais, ferramentas específicas e documentação técnica, o que comprometia de alguma maneira a qualidade das intervenções. Atualmente, destaca-se pela flexibilidade, proximidade ao cliente e frequentemente, por custos mais acessíveis. Estes ateliers, para além de bem equipados, contam com técnicos especializados, certificados por várias marcas, oferecendo soluções personalizadas, adaptando-se às necessidades e preferências do consumidor. O SAV oficial garante um acesso a componentes específicos, técnicos certificados e processos padronizados, geralmente com custos superiores e uma abordagem menos flexível. A utilização da tecnologia blockchain, garante a autenticidade e a proveniência dos relógios, assim como das intervenções efetuadas. Ao registar cada reparação, substituição de componentes e transação, é possível criar um certificado digital único e seguro para cada peça. Permitindo uma gestão mais eficiente dos dados, agilizando o processo de diagnóstico e manutenções futuras. Contribuindo assim para a preservação da história de cada relógio, especialmente das peças de maior valor ou de coleção. Questões éticas no SAV Ao optar por reparar e restaurar relógios antigos, contribui-se diretamente para a redução do desperdício, evitando que estes materiais terminem em aterros, contribuindo para uma utilização mais racional dos recursos. Esta prática não só preserva a autenticidade do relógio, mas também incentiva a manutenção preventiva, prolongando o ciclo de vida dos relógios e promovendo uma atitude mais consciente, minimizando o impacto ambiental da produção de novos componentes. SAV no contexto português Escassez de oficinas especializadas. A assistência técnica em relojoaria, enfrenta em Portugal, uma significativa escassez de oficinas especializadas. Este cenário resulta da redução do número de profissionais qualificados e de empresas dedicadas ao setor, dificultando o acesso dos clientes a serviços de qualidade. Muitas vezes, os proprietários de relógios de valor ou de peças antigas têm de recorrer a oficinas fora do país para intervenções mais complexas, o que representa custos acrescidos e tempos de espera mais elevados. Esta limitação, evidencia a necessidade de investimento na formação e na valorização do setor, de forma a garantir um serviço acessível e de excelência. Formação técnica A formação técnica é um dos pilares para a sustentabilidade e evolução do SAV em Portugal. No entanto, a oferta de cursos e programas específicos de relojoaria é limitada, o que dificulta a renovação de profissionais e o acompanhamento das novas tecnologias e técnicas de reparação. Incentivar parcerias entre escolas, empresas do setor e marcas relojoeiras pode contribuir para o aumento da qualificação dos profissionais, garantindo um serviço de assistência cada vez mais competente e atualizado. O investimento em formação contínua, permite também a preservação do conhecimento, tão essencial para a manutenção de relógios históricos. Património relojoeiro Portugal possui um património relojoeiro de grande valor histórico e cultural, composto por peças únicas. A preservação deste património, depende da existência de profissionais qualificados e de oficinas capazes de realizar intervenções cuidadosas e respeitadoras das características originais dos relógios. A conservação e restauro destas peças, desempenha um papel fundamental na valorização da história e identidade do país, promovendo o reconhecimento do setor e a sua relevância junto da sociedade. Potencial de especialização Apesar das dificuldades, o contexto nacional revela um potencial significativo para a especialização em relojoaria. A procura por serviços de reparação e manutenção de relógios de luxo, antigos ou de coleção está a aumentar, abrindo novas oportunidades para as oficinas independentes apostarem em formação e equipamentos. A especialização, permite distinguir o serviço, atrair clientes exigentes e contribuir para a reputação global do setor. Investir na criação de centros de excelência e na promoção de certificações, pode impulsionar o desenvolvimento da relojoaria, tornando-a uma referência tanto a nível nacional como internacional. A união entre Arte e Ciência Para concluir, a assistência técnica de relojoaria representa um equilíbrio fundamental entre a relojoaria tradicional e as novas tecnologias, unindo a habilidade manual e a precisão. Assegurando não só, a manutenção e reparação dos relógios, mas também a preservação do seu valor histórico. Onde o conhecimento especializado dos técnicos que nelas trabalham, asseguram que estes mecanismos mantenham a precisão para as quais foram concebidas. Com a conversão digital e a implementação de novas tecnologias, o SAV tornou-se cada vez mais eficiente, transparente e confiável, reforçando a relação entre marcas, assistências e clientes. Os avanços tecnológicos, como a impressão 3D e a inteligência artificial, não substituem o saber tradicional, mas enriquecem a capacidade de preservar e valorizar o património relojoeiro. Cada relógio é um testemunho da criatividade humana, das tendências culturais e das histórias familiares. Esta evolução, coloca o SAV no centro da experiência relojoeira, garantindo que cada relógio possa continuar a marcar momentos importantes ao longo de gerações. O papel do relojoeiro ultrapassa o simples ato de reparar mecanismos; é ele quem preserva a história, a técnica e a memória destes objetos. Adaptando-se aos desafios do presente, sem esquecer as tradições do passado. Como guardião do tempo, é responsável por perpetuar o legado, garantindo que cada peça mantenha a sua autenticidade, precisão e beleza.
- Quem decide do que gostamos?
Formam-se filas durante a noite para comprar um relógio de plástico. Listas de espera prolongam-se durante anos para adquirir um desportivo em aço. Milhares de pessoas, em cidades diferentes e culturas distintas, acabam por desejar exactamente o mesmo objecto. Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — um gosto pessoal, uma preferência estética, uma visão particular da relojoaria — e que os relógios que escolhemos são apenas a expressão dessa identidade. No entanto, muitas vezes acontece o inverso. O encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum ou um relógio que não segue as preferências dominantes — pode deslocar-nos para uma posição distinta dentro do universo do coleccionismo. Nesse sentido, não é necessariamente por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente; muitas vezes é o relógio diferente que acaba por nos tornar diferentes. A relojoaria gosta de apresentar cada relógio como uma escolha profundamente pessoal. Contudo, quando observamos o comportamento colectivo do mercado, surge uma pergunta desconfortável: até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas? Talvez seja culpa de Jack Finney. Foi ele quem imaginou, no romance The Body Snatchers , a inquietante ideia de um organismo capaz de substituir silenciosamente os seres humanos, preservando os corpos mas apagando as mentes individuais. The Body Snatchers - Jack Finney Décadas mais tarde, essa história regressaria ao cinema numa das suas versões mais influentes, Invasion of the Body Snatchers , cujo argumento foi escrito por W. D. Richter — o mesmo argumentista que viria a co-escrever o clássico Big Trouble in Little China ( Jack Burton nas Garras do Mandarim ). Invasion of the Body Snatchers - W. D. Richter Nesse universo narrativo surge uma das ideias mais persistentes da ficção científica: a ideia de um organismo único capaz de controlar a mente de múltiplos indivíduos. Os corpos permanecem aparentemente normais, mas a consciência individual desaparece, substituída por uma inteligência colectiva. Episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty Esta sugestão viria a repetir-se inúmeras vezes no cinema e na televisão. Dois exemplos relativamente recentes encontram-se no episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty e na série Pluribus . Série Pluribus Em todas estas histórias ocorre o mesmo fenómeno inquietante: os corpos continuam individuais, mas as mentes deixam de o ser. Talvez essas histórias não falem apenas de alienígenas. Talvez falem de quem colecciona relógios. Talvez sejam todas sobre si! Capítulo I Quando as mentes deixam de ser individuais Existem histórias de ficção científica que regressam continuamente à mesma inquietação: a possibilidade de perdermos a nossa individualidade sem que nada, à superfície, pareça ter mudado. Três obras exploram esta ideia de forma particularmente clara: o episódio Auto Erotic Assimilation da série Rick and Morty , o episódio Pluribus , e o filme Invasion of the Body Snatchers . No episódio de Rick and Morty , a entidade chamada Unity controla simultaneamente todos os habitantes de um planeta. Cada pessoa mantém o seu corpo, a sua voz e os seus gestos, mas todos partilham a mesma consciência. Aquilo que parece ser uma sociedade de indivíduos revela-se, afinal, uma única mente distribuída por múltiplos corpos. O episódio Pluribus explora uma ideia semelhante. Um organismo alienígena infiltra-se gradualmente numa população humana até criar uma inteligência colectiva. A individualidade dissolve-se pouco a pouco, à medida que os indivíduos passam a funcionar como partes de um sistema maior. Já em Invasion of the Body Snatchers , talvez o exemplo mais célebre deste tema, a substituição ocorre de forma silenciosa. Organismos extraterrestres produzem duplicados humanos aparentemente perfeitos. Os novos corpos mantêm a aparência dos originais, mas perderam aquilo que os tornava verdadeiramente humanos: a autonomia da mente. O aspecto mais inquietante destas narrativas é a normalidade com que ela ocorre. As cidades continuam a funcionar, as pessoas continuam a caminhar pelas ruas, as conversas continuam a acontecer. O que desaparece é apenas a consciência individual. Estas histórias pertencem ao imaginário da ficção científica, mas a ideia que exploram é profundamente humana: a tensão entre individualidade e colectividade. A pergunta que atravessa todas estas narrativas é simples e perturbadora ao mesmo tempo: o que acontece quando muitos corpos começam a pensar como se fossem apenas um? Capítulo II O momento em que todos desejam o mesmo Se nas histórias de ficção científica a mente colectiva surge através de um organismo alienígena, no mundo real ela manifesta-se de forma muito mais subtil. Ninguém nos controla directamente. Não existe uma entidade central que governe os nossos pensamentos. Ainda assim, de tempos a tempos, ocorre um fenómeno curioso: milhares de pessoas passam a desejar exactamente o mesmo objecto. Na relojoaria contemporânea, poucos episódios ilustram melhor este fenómeno do que o lançamento do Omega x Swatch MoonSwatch . Omega x Swatch MoonSwatch Quando o relógio foi apresentado em 2022, formaram-se filas inesperadas em frente às lojas Swatch em várias cidades do mundo. Pessoas aguardaram durante horas — por vezes durante a noite — para adquirir um objecto cujo preço e disponibilidade não justificariam, à partida, tal mobilização. O mais interessante não foi o sucesso comercial do relógio. Foi a sincronização do desejo. Indivíduos que nunca se tinham encontrado, em cidades diferentes e culturas distintas, comportaram-se de forma extraordinariamente semelhante. A decisão de comprar parecia simultaneamente pessoal e colectiva. O mesmo fenómeno ocorre, de forma ainda mais duradoura, em torno da Rolex . Certos modelos tornaram-se objectos de desejo global. A procura ultrapassa largamente a oferta, o que cria listas de espera e mercados paralelos. Em teoria, cada comprador faz a sua própria escolha. Na prática, o comportamento do mercado revela uma forte convergência. Tal como nas histórias de ficção científica, os corpos permanecem individuais. Cada pessoa acredita agir segundo o seu próprio gosto. Contudo, quando observados em conjunto, os comportamentos revelam um padrão colectivo surpreendentemente uniforme. Não é necessário um organismo alienígena para criar uma mente colectiva.Às vezes basta o desejo partilhado. Capítulo III A formação da mente colectiva Nas narrativas de ficção científica, a transformação ocorre de forma abrupta. Num determinado momento, a consciência individual desaparece e os indivíduos passam a agir como partes de um único organismo. O processo é dramático, visível e irreversível. Na realidade, os mecanismos que produzem comportamentos colectivos são muito mais discretos. O desejo partilhado raramente nasce de uma única fonte. Forma-se através de uma rede de influências que se reforçam mutuamente: imprensa especializada, redes sociais, coleccionadores, celebridades, fóruns e mercados secundários. Cada elemento amplifica o anterior, até que uma preferência individual começa a adquirir a força de um consenso. A relojoaria contemporânea fornece inúmeros exemplos deste fenómeno. Um modelo específico surge, é discutido, fotografado, partilhado e comentado. Em pouco tempo, o objecto passa a ocupar um lugar central na conversa colectiva. Aquilo que inicialmente poderia ter sido apenas uma escolha pessoal transforma-se numa referência comum. Neste momento ocorre uma mudança subtil. O valor do objecto deixa de depender apenas das suas qualidades técnicas ou estéticas. Passa a depender também da percepção colectiva de que ele é desejável. O objecto torna-se um sinal. Possuir determinado relógio deixa de significar apenas apreciar um mecanismo ou uma forma. Significa participar numa narrativa partilhada por milhares de pessoas que reconhecem o mesmo símbolo. Este processo não é exclusivo da relojoaria. Manifesta-se em inúmeros domínios culturais. Contudo, no mundo dos relógios mecânicos, a dinâmica torna-se particularmente visível porque a produção é limitada e o mercado secundário reage rapidamente às flutuações do desejo colectivo. De certa forma, o mercado começa a comportar-se como um organismo. As decisões individuais continuam a existir, mas a direcção geral do movimento já não depende de nenhuma delas isoladamente. Surge uma lógica emergente, difícil de localizar, mas claramente perceptível quando observada à escala global. É neste ponto que a metáfora da mente colectiva deixa de parecer apenas um recurso narrativo da ficção científica e começa a revelar algo sobre a forma como as preferências humanas se organizam em sociedade. Capítulo IV A resistência da individualidade Se as histórias sobre mentes colectivas têm sempre protagonistas que resistem à assimilação, o mesmo acontece no mundo da relojoaria. Filme The Thing Para além dos exemplos anteriores, este padrão repete-se em muitas outras obras de ficção científica. Em Star Trek: The Next Generation , por exemplo, os Borg representam uma civilização totalmente colectiva, contra a qual alguns indivíduos lutam para preservar a autonomia da mente. Em The Thing , um organismo alienígena assimila e imita os humanos, deixando um pequeno grupo de sobreviventes incapaz de saber quem permanece humano. Já em The Matrix , a humanidade vive aprisionada num sistema controlado por máquinas, enquanto um grupo reduzido de pessoas despertas tenta resistir ao domínio da inteligência central. Cena de The Matrix : Neo confronta uma máquina no mundo real, após descobrir que a humanidade vive inconsciente dentro da simulação da Matrix , enquanto os corpos humanos são mantidos em vastos campos de cultivo e utilizados como fonte de energia pelas máquinas. Em todas estas histórias repete-se a mesma estrutura narrativa: um sistema que tende para a uniformidade total e um pequeno número de indivíduos que preserva a consciência própria — e, com ela, a possibilidade de escolha. São personagens que continuam a pensar por si próprios enquanto o resto da sociedade passa a agir de forma uniforme. Na relojoaria, a figura que mais se aproxima dessa posição é a do relojoeiro independente. Ao contrário das grandes estruturas industriais, onde as decisões estéticas e técnicas resultam frequentemente de processos colectivos — equipas de marketing, estudos de mercado, tendências dominantes — o independente trabalha muitas vezes a partir de uma visão pessoal. Um relógio concebido por um autor apresenta frequentemente sinais dessa singularidade: escolhas técnicas pouco comuns, acabamentos executados manualmente, proporções que não obedecem necessariamente às tendências dominantes do mercado. A obra torna-se reconhecível. Seconde Vive de Dann Phimphrachanh Entre os exemplos frequentemente citados neste universo mais reduzido encontram-se relojoeiros como Masahiro Kikuno , Dann Phimphrachanh ou Rexhep Rexhepi . Em produções extremamente limitadas, o relógio deixa de ser apenas um objecto industrial e torna-se a expressão directa de uma visão técnica e estética muito pessoal, onde cada decisão construtiva reflecte a identidade do seu autor. Este tipo de singularidade é raro, precisamente porque o mercado tende a favorecer aquilo que já demonstrou ser desejável. O sucesso comercial cria imitação; a imitação cria tendência; a tendência reforça o comportamento colectivo. O independente ocupa, portanto, uma posição paradoxal. Por um lado, representa a possibilidade de uma voz individual num sistema dominado por forças colectivas. Por outro, quando essa voz se torna suficientemente influente, o próprio mercado pode acabar por assimilá-la. Uma inovação estética ou técnica pode transformar-se rapidamente numa nova norma. Tal como nas histórias de ficção científica, a resistência individual nunca é definitiva. É apenas um momento de equilíbrio instável entre a singularidade de um autor e a poderosa tendência da colectividade para uniformizar aquilo que admira. Capítulo V O paradoxo do coleccionador O coleccionador de relógios acredita, quase sempre, estar a fazer escolhas profundamente pessoais. Um determinado modelo pode recordar uma história, uma estética específica ou uma afinidade com um determinado tipo de mecânica. O gesto de adquirir um relógio surge, muitas vezes, como uma afirmação de individualidade. Contudo, quando se observa o fenómeno do coleccionismo à distância, emerge um paradoxo curioso. Muitos coleccionadores diferentes acabam por desejar exactamente os mesmos relógios. Modelos específicos tornam-se objectos de referência partilhados. Um determinado cronógrafo, um desportivo em aço ou uma complicação particular começam a aparecer repetidamente em colecções distintas, espalhadas por diferentes países e culturas. Aquilo que parecia ser uma escolha individual revela-se, na verdade, parte de um padrão colectivo. O fenómeno recorda, de forma subtil, as narrativas de ficção científica que serviram de ponto de partida para esta reflexão — o episódio Auto Erotic Assimilation de Rick and Morty , a série Pluribus ou o filme Invasion of the Body Snatchers . Em todas essas histórias, os indivíduos continuam a acreditar que são distintos, mesmo quando já pertencem a um sistema maior. O coleccionador ocupa exactamente esse espaço paradoxal: procura distinguir-se através de objectos que muitos outros desejam exactamente da mesma forma. Capítulo VI Quando a mente colectiva cria valor Se o desejo colectivo molda preferências, ele também molda valor. Na relojoaria contemporânea, o valor de um relógio raramente depende apenas das suas qualidades técnicas. Elementos como o acabamento, a complexidade mecânica ou a história da manufactura continuam a ser importantes, mas não explicam, por si só, as grandes diferenças de valorização entre modelos. Existe um outro factor decisivo: a intensidade do desejo colectivo. Quando um número suficientemente grande de pessoas passa a desejar o mesmo objecto, o mercado reage de forma quase orgânica. A procura aumenta, a oferta torna-se insuficiente e o valor do relógio transforma-se. Este mecanismo tornou-se particularmente visível nos últimos anos. Certos modelos atingem preços inesperados no mercado secundário, enquanto outros — tecnicamente semelhantes — permanecem relativamente estáveis. O valor deixa então de ser apenas uma propriedade do objecto. Passa a ser uma propriedade da percepção colectiva. A mente colectiva passa a determinar o que tem valor. Capítulo VII Porque desejamos aquilo que todos desejam O desejo raramente nasce isoladamente. Grande parte das nossas preferências forma-se através da observação. Vemos o que outros apreciam, discutem ou procuram. Aos poucos, essas referências tornam-se familiares, depois desejáveis, e finalmente quase inevitáveis. Este processo é tão comum que muitas vezes passa despercebido. Uma fotografia partilhada, um artigo elogioso, um comentário num fórum ou uma aparição inesperada num pulso influente podem contribuir para criar uma narrativa colectiva em torno de um determinado relógio. A repetição dessas referências cria uma sensação de consenso. Aquilo que inicialmente era apenas um objecto entre muitos transforma-se, pouco a pouco, numa referência central. Este fenómeno não implica necessariamente manipulação ou estratégia deliberada. Muitas vezes trata-se apenas da dinâmica natural das preferências humanas. Afinal, somos animais de manada, raramente lobos solitários. Ao longo da história, as nossas escolhas foram quase sempre influenciadas pelo grupo a que pertencemos — pela tribo, pela comunidade, pelo círculo social. Aquilo que os outros valorizam tende a adquirir valor também para nós. Este mecanismo não implica falta de personalidade. Pelo contrário, faz parte da forma como os seres humanos aprendem e tomam decisões. Observar o comportamento dos outros permite reduzir o risco: se muitas pessoas escolhem o mesmo objecto, o mesmo estilo ou a mesma marca, a probabilidade de essa escolha ser considerada acertada parece aumentar. Na relojoaria, como em muitos outros domínios, este fenómeno manifesta-se de forma particularmente visível. Certos modelos tornam-se objectos de desejo colectivo, não apenas pelas suas qualidades técnicas ou estéticas, mas também porque passam a simbolizar pertença a um determinado grupo de apreciadores. A preferência individual acaba assim por se formar num território intermédio entre o gosto pessoal e a influência subtil da comunidade. Capítulo VIII O último indivíduo Todas as histórias sobre mentes colectivas incluem, quase inevitavelmente, uma figura solitária: o indivíduo que permanece consciente quando todos os outros já foram assimilados. É a personagem que continua a pensar de forma autónoma enquanto o resto da sociedade se move em perfeita sincronização. Cena da série Star Trek: Voyager , episódio “Scorpion, Part I” (Temporada 3, episódio 26, 1997), em que a tripulação da USS Voyager entra em contacto directo com o Colectivo Borg no espaço dominado pela espécie. Para além das referências já mencionadas, a mesma ideia aparece noutras obras centradas numa consciência colectiva que domina ou assimila corpos individuais. Na série Star Trek: Voyager , a tripulação confronta repetidamente os Borg, uma civilização organizada como uma única mente distribuída por milhares de corpos. No filme The Faculty , uma entidade alienígena assume o controlo das pessoas de uma escola, criando uma rede de hospedeiros subordinados a uma única inteligência. E na série Falling Skies , a humanidade enfrenta invasores que controlam os corpos humanos através de dispositivos implantados. Cena da série de ficção científica Falling Skies (TNT, 2011–2015), em que os alienígenas controlam humanos através do dispositivo biológico harness , através da ligação do sistema nervoso das vítimas a uma rede de comando hierárquica — uma forma de consciência colectiva imposta. Em todos estes casos reaparece a mesma estrutura narrativa: uma consciência central que se multiplica através de muitos corpos e um pequeno número de indivíduos que permanece fora desse sistema. Na relojoaria, essa posição existe também. Pertence àqueles que escolhem um relógio não porque ele se tornou desejado, mas porque corresponde a uma afinidade pessoal com uma determinada estética, mecânica ou história. São escolhas que não procuram necessariamente reconhecimento colectivo. Este tipo de decisão é raro precisamente porque o contexto cultural favorece a convergência. O mercado amplifica tendências, o sucesso cria imitação e a repetição reforça a preferência colectiva. Manter uma escolha verdadeiramente individual exige, por vezes, um pequeno gesto de resistência. A ambivalência entre a perda de individualidade que resulta de pertencer ao grupo e a angústia de ser afastado dele gera tensão suficiente para tornar o tema do controlo global um dos mais persistentes do cinema — e talvez também um dos motores do coleccionismo na relojoaria. Gilles Deleuze Filósofo Francês A frase «Ce n’est pas l’identité qui explique la différence, c’est la différence qui explique l’identité.» (A identidade não explica a diferença; é a diferença que explica a identidade) — Gilles Deleuze, Différence et répétition . Propõe uma inversão subtil da forma habitual de pensar. Tendemos a acreditar que primeiro existe uma identidade — uma personalidade, um gosto, um estilo — e que as diferenças são apenas manifestações exteriores dessa identidade. Deleuze sugere o contrário: é a diferença que produz a identidade. Aplicado à relojoaria, isto significa que não é por sermos diferentes que escolhemos um relógio diferente. Muitas vezes acontece precisamente o inverso. É o encontro com um objecto singular — uma mecânica inesperada, uma estética pouco comum, um relógio que não segue as preferências dominantes — que acaba por nos colocar numa posição distinta. Não é a identidade que gera a diferença do relógio. É o relógio diferente que, silenciosamente, nos torna diferentes.
- Fortis
O Fortis Marinemaster M-44 DLC Gravity Black e Black Resin são duas novas versões do robusto relógio de mergulho da marca, agora equipadas com uma caixa de 44 mm em aço reciclado com revestimento Dianoir® DLC, que aumenta a dureza da superfície para cerca de 4.500 HV (Vickers), aproximadamente vinte vezes superior ao aço convencional. A caixa mede cerca de 14,5 mm de espessura e 48 mm de asa a asa e oferece resistência à água até 500 metros, com coroa roscada de tripla vedação, vidro de safira antirreflexo e um bisel bidireccional com Fortis Lock System, que permite bloquear mecanicamente o bisel durante a utilização subaquática. No interior encontra-se o calibre automático manufactura Werk 11, desenvolvido com a Kenissi e certificado cronómetro COSC, funcionando a 4 hz (28.800 alternâncias/hora) e oferecendo cerca de 70 horas de reserva de marcha, enquanto o mostrador texturizado com padrão “O”, marcadores aplicados e Super-LumiNova X1 assegura elevada legibilidade. As duas variantes distinguem-se principalmente pela estética: o Gravity Black adopta uma abordagem monocromática moderna, enquanto o Black Resin introduz apontamentos dourados e lume de tonalidade vintage. Saber mais
- BND
O BND Dive Watch Mk. 3 representa a terceira evolução do projecto criado pelo relojoeiro francês Vincent Bonnaud, mantendo a estética minimalista inspirada nos relógios de mergulho das décadas de 1950 a 1970, mas introduzindo melhorias técnicas focadas na robustez e na funcionalidade. A caixa em aço inoxidável 316L mede 39 mm de diâmetro, 47 mm de asa a asa e cerca de 13 mm de espessura, protegida por um vidro de safira duplamente abobadado e fundo roscado, garantindo resistência à água até 300 metros graças a uma coroa redesenhada mais estanque. No interior encontra-se o movimento automático Seiko NH38A, com 21.600 alternâncias por hora, 24 rubis e com cerca de 41 horas de reserva de marcha, regulado para uma precisão aproximada de -5/+10 segundos por dia. O relógio apresenta uma luneta unidirecional de 120 cliques para mergulho, mostrador com marcadores em Super-LumiNova “Old Radium”, e é fornecido com bracelete em borracha FKM de 20 mm com sistema de troca rápida, sendo produzido em séries limitadas de 100 exemplares por cor e com preço em torno de €598,95. Saber mais
- Hanhart
O Hanhart 417 TI Desert Pilot Limited Edition é um cronógrafo de inspiração militar que reinterpretou o histórico modelo 417 ES da década de 1950 com materiais contemporâneos, apresentando pela primeira vez uma caixa em titânio grau 5 com acabamento mate, disponível em 39 mm ou 42 mm de diâmetro e cerca de 13,6 mm de espessura, protegida por um vidro de safira fortemente abobadado e com resistência à água de 100 metros. No interior encontra-se o calibre manual Sellita AMT5100 M, um cronógrafo com roda de colunas e função flyback, funcionando a 28.800 alternâncias por hora (4 hz), com 23 rubis e aproximadamente 58 horas de reserva de marcha, oferecendo indicações de horas, minutos, pequenos segundos, cronógrafo com contador de 30 minutos e segundos centrais, além de paragem de segundos para acerto preciso. O mostrador em tom areia, com numerais históricos e Super-LumiNova, combina-se com luneta estriada rotativa e correia em borracha, enquanto a produção é limitada a 200 exemplares por tamanho, reforçando o carácter instrumental e coleccionável desta reinterpretação contemporânea de um clássico cronógrafo de piloto. Saber mais
- De Rijke & Co. lança três edições especiais Amalfi Designs em Ceramic
A De Rijke & Co. apresentou três novas edições limitadas do modelo Amalfi, desenvolvidas em colaboração com o artista Guy Allen, nas variantes “Amazon”, “Sahara” e “Turini”, cada uma representando um automóvel icónico — respectivamente um Land Rover Defender, um Porsche 911 e um Lancia Stratos — integrados em composições esmaltadas sobre mostradores em prata maciça 925. Os mostradores recorrem à técnica tradicional de champlevé com esmalte grand feu , aplicada sobre gravuras em relevo que criam diferentes profundidades visuais na metade inferior da cena, produzindo contrastes cromáticos e texturais. O relógio utiliza a característica caixa Amalfi, com 38,2 mm de diâmetro e 11 mm de espessura, construída em cerâmica (preta ou branca) e composta por duas partes: uma caixa exterior e um núcleo interno rotativo que pode rodar até 90 graus através da coroa, permitindo ajustar a orientação do mostrador no estilo de um driver’s watch . No interior encontra-se o calibre automático Sellita SW-300 em versão high grade , com 42 horas de reserva de marcha e frequência de 28 800 alternâncias por hora. Cada variante será produzida numa série limitada de 50 exemplares, com um preço de 4 595 €. Saber mais
- Depancel
O Depancel Série R01 × DAMS Lucas Oil é uma edição limitada inspirada no universo do desporto automóvel, criada para celebrar a parceria da marca francesa com a equipa DAMS Lucas Oil das competições de Fórmula 2 e Fórmula 3. O relógio apresenta caixa em aço inoxidável de 36 mm de largura por 43 mm de comprimento e 12,9 mm de espessura, com cristal de safira, fundo transparente e resistência à água de 50 metros, enquanto o mostrador azul multicamada incorpora referências visuais ao mundo das corridas e aos cromatismos da equipa. No interior encontra-se o calibre automático Miyota 9122, que bate a 28.800 alternâncias por hora, com 26 rubis e cerca de 40 horas de reserva de marcha, oferecendo funções de horas, minutos, segundos e calendário completo com dia, data e mês. A peça é proposta com bracelete em pele perfurada de estilo racing ou correia em borracha FKM, e a produção encontra-se limitada a 200 exemplares numerados, com preço aproximado de 895 euros. Saber mais












